Sobre a pandemia | José Vítor Malheiros

O presidente americano Lyndon B. Johnson, um texano apreciador da vida ao ar livre, disse uma vez a propósito de J. Edgar Hoover, director do FBI, que preferia tê-lo “dentro da tenda a mijar para fora, do que fora da tenda a mijar para dentro”. A tirada, que Johnson parece ter repetido muitas vezes a propósito de outros políticos, rivais ou adversários, é uma variação colorida do aforismo de Sun Tzu “Mantém os teus amigos próximos, mas os teus inimigos ainda mais próximos”. É um bom conselho.Nestes dias em que a situação da pandemia se agrava de forma alarmante, sem melhorias à vista, em que os governantes não parecem seguros do que devem fazer e em que a oposição começa a animar-se com a perspectiva de uma catástrofe (é difícil de acreditar, mas basta ver o tom triunfalista que certos políticos usam para referir os recordes de casos e mortes, como se fossem respostas às suas preces) tenho-me lembrado muito da tirada de Johnson.

E tenho-me lembrado, em particular, quando vejo, a propósito de uma decisão do governo ou de uma nova má notícia, a vaga de críticas com que é recebida por parte de organizações profissionais e de diferentes instituições.

A posição de Johnson era ditada por um mero cálculo político. Mas há muitas outras boas razões para, em situações de crise, convidar mais gente para dentro da tenda. Pessoas com outras perspectivas podem ter outras ideias e algumas delas podem ser boas. Pessoas de outras áreas (profissionais, regionais ou políticas) têm outras fontes de informação. Pessoas que participaram do processo de decisão não podem criticar o processo de decisão. Pessoas que conhecem as razões que existem para as medidas tomadas não poderão dizer que não as conhecem ou compreendem – ainda que discordem delas.

Numa fase de extrema gravidade como a que atravessamos, incluir no processo de decisão pessoas e instituições com competências relevantes e que têm influência nas atitudes dos cidadãos e na mobilização das organizações parece-me indispensável. E já me parecia antes de termos atingido a fase de extrema gravidade. Esta é a tal “comunicação” que não tem nada a ver com propaganda, que é absolutamente indispensável, e na qual as autoridades de saúde têm falhado continuamente. É a comunicação interna, no seio do Sistema Nacional de Saúde – que inclui mas excede o círculo do Serviço Nacional de Saúde e que inclui mas excede (em muito) a simples difusão de informação e a propaganda a que se quer resumir a comunicação.

Esta comunicação no seio do sistema é certamente difusão de informação por parte do Governo e autoridades de Saúde, mas é principalmente recolha, validação e agregação de informação (que não se resume a dados mas inclui também propostas e críticas), confronto de ideias, debate e negociação.

As “reuniões do Infarmed” podem ter parecido a alguns que servem para isto mas não servem. São organizadas como palestras oitocentistas, onde quem sabe ciência e medicina ensina aos ignorantes que não a sabem, para que depois estes tomem uma decisão política. Esta ideia autoritária de comunicação, unidireccional, de cima para baixo, onde sábios ensinam ignorantes, desperdiça o saber de quem ouve e desperdiça o conhecimento que nasce da discussão aberta e permanente. E isso acontece quer quando quem ouve os sábios são alunos quer quando são políticos. O facto de haver quem entre mudo e saia calado destas reuniões significa que elas não cumprem qualquer papel de construção de consensos ou de solidificação de opiniões.

É natural que, agora que a borrasca começou, os que mijam para dentro da tenda exibam alguma relutância em entrar num espaço cujo cheiro já não é muito agradável.

Mas as alternativas são todas piores.

José Vítor Malheiros

Retirado do Facebook | Mural de José Vítor Malheiros

Certamente! Quarta-feira, 20 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Hoje afirmo que — a confirmar-se a sondagem do dia — o candidato da extrema-direita é o grande derrotado das presidenciais, lembro que Rui Rio está vivo e aos pontapés e era bom que acertasse num alvo ou dois, explico porque não estou como toda a gente a pular de contente por ver Joe Biden na Casa Branca, e junto a minha à voz de Vital Moreira: nem mais um ministro infetado!Antes, uma rectificação: no diário de ontem escrevi “legislativas” quando era óbvio no contexto da frase que me referia às autárquicas, a disputar algures no outono. Era tão óbvio no contexto que aposto que metade de vós não deu pela coisa e, como eu a reler, entendeu “autárquicas” ao ler “legislativas”…
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Faltam 4 dias para a conclusão das eleições para a Presidência da República. Sondagem do CESOP da Universidade Católica para a RTP e o Público divulgada ao fim do dia dá o resultado dentro do esperado: Marcelo vence à primeira e Ana Gomes fica no segundo lugar. (RTPPúblico)
Em relação à minha bola de cristal, Marcelo tem um desvio positivo de 2 pontos, Ana Gomes tem um desvio negativo de 1 ponto e o candidato da extrema-direita tem um desvio positivo de 2 pontos.Parece-me claro que, a confirmar-se no domingo esta projeção, André Ventura será o grande derrotado desta campanha. Falha todas as metas menos uma. Colocou a fasquia elevada demais para a sua capacidade. Um soldado de infantaria armado em Napoleão. Por outro lado os seus 10% indiciam que a extrema-direita encontrou o seu limiar máximo em Portugal: o crescimento anti-democracia estabilizou nos últimos 7/8 meses depois da arrancada explosiva nos 4/6 meses anteriores.A meta que não falhou: consolidou a extrema-direita como a bússola da televisão e imprensa, fazendo gato-sapato da agenda dos jornalistas.
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Passou despercebido no meio da confusão e desnorte em que vivemos. Rui Rio lançou um movimento visando reformas no sistema político e nos estatutos do partido. Rio colocou o PSD a trabalhar nas propostas: a “reforma da Justiça, que acho ser vital, a revisão constitucional, porque é tempo de fazer, e a reforma do sistema político, porque continua a ser muito importante”. Foram criadas as comissões cujo trabalho consiste em preparar as propostas de reformas nessas três áreas e nos estatutos. Nada de inesperado nas pessoas que integram as comissões: Paulo Mota Pinto, David Justino, Manuel Teixeira e Isaura Morais são os coordenadores de equipas tão cinzentas, históricas ou laranjas, como preferires, que eles.Eu diria que Rio está a pretender lançar um sinal de reconciliação com o centro e com o país, depois da traição à pátria e à União Europeia perpetrada nos Açores com a coligação com a extrema direita anti-democrática. Espero que tenha sorte, embora tenha dúvidas: não se perdoa facilmente o que Rio fez e o silêncio sobre a campanha eleitoral não ajuda lá muito: ao eleitorado laranja não foram apresentados argumentos para não votarem no candidato da extrema-direita. E deviam.
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E porque espero, e até gostava, que Rio tivesse sorte? Fácil. Primeiro, como compensação pelo seu comportamento de estadista ao longo da pandemia. O PSD nunca fez parte do problema. Votou com seriedade tudo o que tinha diretamente a ver com a pandemia. A direção fez oposição com responsabilidade, deixando aos apparatchiks as farpas e flamas, como é normal.Segundo, porque é vital para a democracia se aguentar nas canetas que haja uma alternativa no centro-direita na qual os eleitores possam confiar.Agora: confio em Rio depois da novilhada açoreana? Bem: não sou marinheiro daquelas águas e quero um país diferente do que Rio quer. Dito isto: a minha (des)confiança nele não mexeu um milímetro. Rio habituou-me a esperar boas e más decisões que surgem quando e onde menos espero — e isto já vem dos tempos da Câmara do Porto.
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O mais provável é teres hoje visto com otimismo a tomada de posse de Joe Biden como 46º Presidente dos Estados Unidos da América. O mundo vê-se livre de Trump e regressa à Casa Branca um democrata, como não estar otimista? Junta-lhe a primeira vice-presidente (um pormenor significativo para um homem como eu: Kamala Harris jurou a bíblia nas mãos do marido, uma honra que nenhum americano tivera antes), junta-lhe uma administração muito bem pensada e escolhida para o propósito de reunificar as tribos estado-unidenses — como não ficar sorridentemente otimista?Três razões. Uma: a Administração Biden não contraria, pelo contrário, a gerontocracia em que os EUA se tornaram, particularmente notório ao nível federal; não vejo que venha daí nada de bom.Outra: as divisões sociais não nasceram do trumpismo, que apenas acentuou as fracturas raciais que nunca pararam de se agravar ao longo da história do jovem país; tenho as maiores dúvidas que boas intenções e políticas manietadas pelas forças que controlam o poder (e das quais Biden nunca se afastou) cheguem para inverter o divisionismo social.Divisionismo que, bem vistas as coisas, é não só aceite como pretendido pelas maiorias: é pequeno e pouco poderoso o grupo de pessoas que vê as divisões raciais e de classe dos americanos como um problema. Pessoas mas também grupos empresariais olham para as divisões com bons olhos: das igrejas às armas, manter e incentivar o individualismo e o tribalismo dá mais lucro do que combatê-los.E outra: à medida que perde o momento geopolítico, a liderança e o protagonismo, fraqueja a cola que tem mantido federados os 50 estados e aumentam as vozes e o volume do coro que fala na independência de estados como o Texas (que é uma parte do México e nenhuma fronteira foi eficaz em mais de 100 anos) e a Califórnia; esta tendência vem-se agravando e era precisa uma administração do calibre de três ou quatro Roosevelts para a inverter.
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Quantos mais ministros infetados e quantos mais confinamentos dos seus círculos de contactos próximos são necessários para ser adotada a única decisão decente, que é de vacinar os principais dirigentes políticos do Estado (PR, PM e ministros, Presidente e vice-presidentes da AR, pelo menos), como grupo de risco que são, pelas numerosas reuniões oficias e de trabalho presenciais em que têm de participar, muitas vezes em espaços fechados, ao serviço do Estado?”, pergunta Vital Moreira no Causa Nossa.Eu junto a minha à voz de Vital Moreira. Pelo menos num anterior diário referi que a primeira linha política devia encabeçar a primeira vaga de vacinas. Não usar nesse grupo a primeira remessa de vacinas é um erro. Cometido por uma péssima razão: o medo da reação da opinião pública.

OPINIÕESFrancisco Seixas da Costa escreve sobre eleitorado e Belém: Bom senso e bom gosto. DuasOuTrêsCoisas 👉Cristina Siza Vieira escreve sobre turismo e União Europeia: Viajar é preciso. DiárioDeNotícias 👉Carlos Esperança também escreve sobre a campanha e o recandidato Marcelo: Eleições Presidenciais E Liberdades. PonteEuropa 👉Pedro Santos Guerreiro está em Estado de choque. Expresso $José Brissos-Lino escreve sobre A fraude do nacionalismo cristão. Visão 👉Maria José da Silveira Núncio alto e bom som: Em nome da saúde, fechem as escolas!. Público 👉Rui Tavares escreve: Uma ideia melhor do que votar num racista autoritário? Não votar nele. Público $ 
LINKLOGOs dois projetos de lei do PSD e um do PAN, hoje em discussão no plenário da Assembleia da República, tiveram o melhor acolhimento da bancada parlamentar do BE e do PCP, que sublinharam a necessidade de proteger o princípio do juiz natural (escolha aleatória de um juiz do processo para assegurar a imparcialidade) e de aperfeiçoar os diplomas na especialidade.  //rtp.pt 🇵🇹French constitutional change on environmental preservation faces long road ahead  //euractiv.com 🇪🇸La sociedad vigilada: la pandemia precipita la digitalización : Ethic. La crisis sanitaria acelera la importancia de la digitalización para combatir al virus, pero también abre el debate sobre cómo gestionar la privacidad.  //ethic.es 🇪🇸África sofrerá efeitos da retração do financiamento externo chinês. Dois principais bancos de fomento chineses diminuem o financiamento de projetos no exterior em mais de 90%. Analistas veem que África também sentirá os efeitos da “nova disciplina” de liberação de recursos da China.  //dw.com 🇵🇹Lawmakers who denied Biden’s victory also embrace a deadlier conspiracy: climate denial. 90 of the 147 members of Congress who voted to overturn the election deny basic climate science.  //heated.world 🇬🇧Majority of Europeans fear Biden unable to fix broken US. Survey finds more Europeans than not say US cannot be trusted after four years of Trump.  //theguardian.com 🇬🇧 
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Pandemia à beira do abismo | David Pontes in Jornal Público

Como o PÚBLICO titulou há uma semana na sua primeira página estávamos “no princípio do pior” da situação pandémica em Portugal. Todos os indicadores – números de mortes, número de novos casos, necessidade de cuidados intensivos – já apresentavam um recorde nesse dia e, daí até hoje, tem sido uma sucessão de máximos ultrapassados. Ontem foi mais um.

Somos um dos países com um dos registos mais complicados da Europa e esse cenário lúgubre, reforça-se com a previsão dos administradores hospitalares que calculam que o número de internados por covid-19 possa aumentar 60% durante a próxima semana. Podemos vir a ter mais de 7500 infectados nos hospitais, 900 em cuidados intensivos. E a ser correcto o alerta do epidemiologista Carmo Gomes, de que os 10 mil casos diários podem ser “um tecto falso” que escondem uma realidade bastante pior por incapacidade de testagem, as previsões poderão até ser conservadoras.

Na marcha inexorável da epidemia, já não vamos a tempo de evitar que o cenário das ambulâncias à porta dos hospitais, da corrida pelo aumento da capacidade de internamento, venha a ser a dura realidade dos próximos dias. O pior dos horizontes, o de atingirmos a capacidade de resposta do sistema de saúde, pode estar terrivelmente próximo. Leia-se com atenção as palavras do presidente do conselho de administração do Santa Maria: “A capacidade dos hospitais não é ilimitada.”

Perante esta realidade, a inclinação do Governo para manter o equilíbrio entre as necessidades de saúde pública e a subsistência de uma economia em transe, começa a assemelhar-se a uma inclinação para o abismo. O confinamento teve uma partida em falso e se, passado o fim-de-semana, a situação se mantiver e as autoridades não reforçarem as restrições rapidamente, poderá ser uma situação de verdadeira catástrofe a levar o Governo a agir, o que seria péssimo pelo tempo desperdiçado e pelas vidas perdidas.  

As imagens dos hospitais sobrelotados como o de Loures ou Torres Vedras podem trazer o medo, que funcionou em Março, e que poderá levar alguns dos que encararam de forma mais ligeira este confinamento a arrepiar caminho. Mas o cansaço acumulado, e a necessidade de muitos continuarem a sua vida, deixa cada vez menos margem às autoridades para hesitações. Não reforçarmos o confinamento, perante o abismo que se avizinha, até para preservar coisas essenciais como o ensino presencial nos primeiros ciclos, será um caso de cegueira colectiva.

David Pontes in Jornal Público

https://www.publico.pt/2021/01/17/opiniao/editorial/pandemia-beira-abismo-1946651

“Poema à Mãe”, Eugénio de Andrade, dito por Manuel Capitão

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda ouço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio de um laranjal…

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Certamente! Sexta-feira, 15 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

E pronto: metade do mês já lá vai. O tempo subjetivo passa cada vez mais depressa. Hoje no diário só dá eleições: as presidenciais portuguesas e para a liderança da CDU, o partido de Angela Merkel. E as rubricas habituais: opiniões (se és jornalista, não percas a opinião de Vital Moreira) e linklog (se és eco-sensível, não percas a vegetação senciente).
1
O Rui Tavares teme: a esquerda portuguesa preparando um desastre à francesa? (Público $). Refere-se à estratégia de candidaturas de cada área partidária somadas à desistência do partido do centro-esquerda a favor do candidato do centro-direita, “que nos deu duas presidências de Cavaco Silva e uma de Marcelo Rebelo de Sousa. E as direções partidárias continuam a justificar as suas escolhas como se estivéssemos em 1986. Pior ainda, a direção do maior partido à esquerda parece viver contente com a possível vitória do candidato da direita.”Há seis meses, quando as presidenciais se começaram a desenhar, estive entre os que acharam que a pulverização de candidaturas à esquerda não era uma coisa má. A popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa garantia-lhe a reeleição, que em si também não é propriamente uma coisa funesta. Só que isto é dinâmico. E chegados a dezembro, e mais particularmente a janeiro, vejo que essa minha interpretação foi um erro. O ganho com a divisão das esquerdas, que é Bloco e PCP manterem os seus eleitorados relativamente estanques, é largamente suplantado pelo prejuízo da candidatura da direita radical marcar a agenda e sair psicologicamente vitoriosa do inexistente combate com a esquerda.“Se em 1996 elegemos Jorge Sampaio à primeira volta contra Cavaco Silva”, recorda Rui Tavares, “foi porque os candidatos do PCP e da UDP, Jerónimo de Sousa e Alberto Matos, desistiram — e já se sabia que iriam desistir. Isso permitiu a toda a gente, mesmo a que via defeitos em Jorge Sampaio, a mobilizar-se a tempo para uma candidatura ganhadora”.É demasiado tarde para a candidatura de João Ferreira desistir a favor de outra. Nenhum sinal foi dado de que isso pudesse acontecer, nem sequer se notaram sinais de que alguém pensasse nisso. Acredito que a Marisa Matias tenha passado pela cabeça endossar Ana Gomes, por todas as razões a começar na força de uma candidatura feminina sinalizada informalmente por quase toda a esquerda e a terminar na camaradagem de ambas enquanto euro-deputadas. Mas ninguém desistiu e a janela está fechada.Objetivamente, a pulverização de votos nas três candidaturas da esquerda beneficiará a visibilidade da candidatura da direita. “Não está em causa a qualidade dos candidatos e candidatas à esquerda, tão estimáveis ou até admiráveis como os seus congéneres da esquerda francesa em 2002. Está em causa que juntos cilindrariam o candidato da extrema-direita com o triplo dos votos dele ou mais ainda. Separados, estão a dar-lhe uma hipótese de sair em segundo lugar, mesmo que só por umas décimas, como dizem certas sondagens”, acrescenta o Rui.
2
Uma pessoa sente-se tentada a apontar o dedo ao primeiro responsável pela estratégia do PS nas presidenciais. Até eu ia fazê-lo e fui procurar conselho na evolução das intenções de voto, mas a leitura que me parece óbvia absolve António Costa do pecado da esquerda: o próprio PS subiu uns pontos nos últimos 2 meses, que coincidem com os candidatos presidenciais nas ruas, como se pode ver no gráfico abaixo (tirado do EuropeElects).Não absolve totalmente, claro. A absolvição não cobre o alheamento da direção do PS, que mesmo sem candidato formal podia ter tido alguma influência nas estratégias das campanhas à esquerda. Dir-me-ás: o gelo relacional pós-Orçamento de Estado não deixaria isso suceder. Dir-te-ei: aí está, o PS alheou-se da sua responsabilidade de liderança política da esquerda.Mas a responsabilidade maior não é nem do PS nem da candidatura informal da sua área política. É do BE e do PCP. As suas prioridades egoístas deixam a esquerda à beira de um momento de vergonha. E comprometem os dois partidos.A pandemia tem aqui um efeito invisível. O cansaço acumulado nas pessoas e os comportamentos de escape consubstanciam-se eleitoralmente em voto de protesto — e por causa da gestão dos medos na pandemia o voto de protesto não penaliza o PS, partido exposto na governação e partido que abdicou de candidato oficial, mas sim os partidos da esquerda que entre outras mantém a função de pára-raios dos votos de protesto.Uma única candidatura presidencial de esquerda viria inverter, ou estancar, a tendência de crescimento do Chega, que é hoje o terceiro partido?A questão é mais complexa do que sim/não. Como deixei bem vincado no diário de ontemos candidatos outsiders em re-eleições obtém resultados anormais, pontuais, que não se consubstanciam em mudanças de fundo que afetem eleições futuras. Manda a tradição eleitoral que nas autárquicas de outubro próximo o Chega tenha metade da percentagem que Ventura conseguir nas presidenciais deste mês.O problema é menos de tendência e mais de momento. O que a divisão das esquerdas conseguiu foi um momento de vergonha e embaraço. Claro que os momentos deixam marcas. Mas não são condenações para a vida.No simbólico dia 26 de janeiro começa o período no qual as esquerdas têm de refletir por sua vez no fenómeno do Chega e concertar respostas. É hoje claro que o CDS foi absorvido e o PSD está comprometido. A direita portuguesa meteu todas as fichas na destruição da democracia; os que não gostam disso calaram-se. Não aconteceu em Portugal o que sucedeu noutras regiões da União Europeia: Rui Rio não vincou a linha vermelha à direita do sistema partidário. Talvez porque Passos Coelho a tinha apagado e Luís Montenegro se preparava para construir uma auto-estrada entre o centro-direita e a direita radical.
3
Parece-me gritantemente óbvio que uma das reflexões urgentes a fazer nas esquerdas é a necessidade de alterar a relação de forças na Comunicação Social. A pandemia e mais recentemente o período das presidenciais mostraram que a direita tem a hegemonia na condução estratégica dos órgãos de Comunicação Social. Um dos efeitos funestos é a manipulação das meias verdades e das mentiras e das sondagens para criar e modelar dinâmicas sociais. Não há em Portugal nenhum órgão de comunicação social que subscreva um modelo de sociedade que se possa caracterizar em moldes mínimos de esquerda. E a influência nos órgãos existentes é cada vez menor.
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A chanceler alemã Angela Merkel deverá conhecer amanhã o próximo líder do seu partido, a CDU. O mais provável, segundo as sondagens, é Friedrich Merz, um adversário de Merkel que representa a linha mais à direita do partido democrata-cristão. Mas hoje a incerteza ainda pesava no processo eleitoral, que decorre online: os outros candidatos, Armin Laschet e Norbert Röttgen, mantinham a eleição em aberto.Se der Merz, a CDU abandona o pragmatismo de Merkel para abraçar o liberalismo económico — not that good para a União Europeia mas mau para a direita radical alemã da AfD. Enfim.De notar que se espera que, ao contrário do que é hábito e sucedeu com Merkel, o líder da coligação CDU/CSU a concorrer a chanceler em setembro venha não da CDU (o partido maior da coligação) mas da CSU: Marcus Söder.Aprofundar:German CDU on verge of electing divisive figure to replace Angela Merkel. Millionaire lawyer Friedrich Merz is favourite to take centre-right into federal elections // GuardianQuais as chances de um democrata cristão suceder Merkel? Em convenção virtual, 1.001 delegados da CDU vão escolher o novo chefe do partido de Merkel. Uma decisão de peso, pois novo líder conservador estará entre os favoritos para assumir a chefia do governo da Alemanha. // Deutsche WelleFriedrich Merz’s revenge. Thin-skinned lawyer who wants to succeed Merkel has a history of going after his critics. // PoliticoPrésidence de la CDU : Friedrich Merz veut sa revanche. L’expertise financière de cet homme d’affaires et son ambition réformatrice en font le favori des milieux économiques et conservateurs délaissés par Angela Merkel. Son passif avec la chancelière inquiète cependant nombre de délégués. // Les EchosTrês homens na corrida a líder da CDU. Para suceder a Merkel o favorito é outro. Friedrich Merz, Armin Laschet e Norbert Röttgen são os candidatos, mas é Markus Söder que poderá acabar por ir a votos nas eleições de 29 de setembro. // DN

OPINIÕESEurico Reis escreve sobre Lei e Estado de Direito: O combate pela democracia. Expresso 👉Vital Moreira escreve sobre o caso dos jornalistas vigiados pelo Ministério Público: Às Avessas (2): Quando Os Infratores “viram” Queixosos. CausaNossa 👉Ana Alexandra Carvalheira escreve sobre o impacto da pandemia nos relacionamentos: Procura-se parceiro: Solteiros com a vida amorosa em atraso. Visão 👉António Luís Marinho escreve sobre os debates das presidenciais: Elogio da direita democrática . ionline 👉Rui Bebiano escreve: A guerra contra a Covid-19 e os partidos. ATerceiraNoite 👉Jorge Sampaio escreve: O Presidente da República no semipresidencialismo português. Expresso 🔒Simões Ilharco escreve sobre as medidas: Portugal no rumo certo apesar do confinamento. DiárioDeNotícias 👉 
LINKLOGResearch suggests that at least one type of plant – the french bean – may be more sentient than we give it credit for: namely, it may possess intent. The issue of whether or not plants choose their actions and possess feelings or even consciousness is a thorny one for many botanists, with the more traditional-minded strongly disputing any notion of sentient vegetation. Although plants clearly sense and react to their environments, this doesn’t mean they possess complex mental faculties, they argue.  //theguardian.com 🇬🇧We Mock the Rioters as Ignorant Buffoons at Our Peril  //politico.com 🇬🇧Global coronavirus death toll reaches 2 million people. Our world has reached a heart-wrenching milestone says United Nations chief António Guterres  //theguardian.com 🇬🇧How to fix EU’s weak Digital Services and Markets Acts.  //euobserver.com 🇬🇧 
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Certamente! Terça-feira, 12 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Hoje é um belíssimo dia para evitar o uso da palavra caos. Adiante. No menu: o plano de vacinação, a gravidade da pandemia e uma boa notícia científica. Adenda em cima do fecho, uma sombria reflexão sobre o dilema do Partido Republicano: ser ou não ser pela democracia, eis a questão.Fica para amanhã o correio dos leitores que esteve previsto para hoje.
1
A confiança nos grupos de técnicos e de governantes que integram a tomada de decisões faz parte da minha forma de encarar esta época extraordinária e esta é uma atitude tão profunda quanto inabalável. Isto não significa que não tenha dúvidas e opiniões. Vou tornar pública uma opinião contrária às prioridades do plano de vacinação em consequência do teste positivo do Presidente da minha República e por inerência comandante supremo das Forças Armadas e como tal o cidadão mais significativo do país.Entendo que a primeira linha política devia encabeçar a primeira vaga de vacinas. Não usar a primeira remessa de vacinas no Presidente da República, no Primeiro Ministro e numa lista de pessoas dos órgãos de soberania e de exposição pública elevada (uma lista fácil de fazer, filtrando ministros, secretários de Estado, líderes partidários, candidatos presidenciais, you name themé um erro. Cometido por uma péssima razão: o medo da reação da opinião pública.A um governante não peço que governe em função do que diz o grupo de privilegiados com espaço na comunicação social, nem dos trending topics do Facebook e Twitter, nem dos estudos de opinião. Peço que tudo isso tenha (bastante) menor prioridade que a eficácia das medidas a tomar, que as políticas sufragadas e que as necessidades de cada momento, sobretudo se estamos num momento excecional em que se pede ainda maior atenção às decisões.Se tiver de ser impopular, so be it. Governar não é um concurso de popularidade. Ser político é secundado por ser estadista. É assim que eu voto, é o meu pacto, a minha expectativa.
2
De acordo com o período de confinamento. Um mês, disse António Costa. Disse bem. É a política do medo? Pois que seja. Qualquer pessoa com um dedo e meio de testa já compreendeu a dimensão e a escala da ameaça que o novo coronavírus representa para a espécie humana.Há tempos usei a metáfora da bola de neve. A Covid-19 é a bola de neve: à medida que se espalha, o seu impacto no sistema de saúde aumenta exponencialmente e atrai todos os recursos e esforços que normalmente seriam distribuídos por outras patologias. Não interessa se é público, privado ou não sabe/não responde: o sistema global é afetado. É arrasado à medida que a bola de neve desce a encosta aumentando de tamanho.
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Novo modelo de previsão da evolução da COVID-19 poderá aliviar a pressão sobre o sistema de saúde. Uma equipa de cientistas MedUni Vienna liderada por Alice Assinger no Centro de Fisiologia e Farmacologia desenvolveu um modelo para prever a sobrevivência de pacientes hospitalizados COVID-19 com um elevado grau de precisão. O aspecto importante deste modelo é que se baseia exclusivamente em medições clínicas de rotina existentes, de modo a não requerer qualquer análise laboratorial complexa adicional.Os médicos podem introduzir os parâmetros dos seus pacientes numa calculadora online, passando a dispor de uma ferramenta para os apoiar nas suas decisões relativas à potencial alta dos pacientes. O modelo matemático que sustenta a ferramenta foi desenvolvido por Stefan Heber do MedUni Vienna Institute of Physiology e baseia-se em medições repetidas do marcador inflamatório proteína C-reactiva, o marcador de creatinina que reflecte a função renal e o número de plaquetas (trombócitos) no sangue.Ainda sem o peer review, já estão disponíveis tanto o artigo científico como a ferramenta de cálculo para uso de especialistas.(Se escreves conteúdos para sites de imprensa ou és jornalista, toma o link para o press-release e dados adicionais.)
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Uma das principais consequências da cedência do Partido Republicano aos avanços da direita radical, que acabou por levar Trump à presidência dos EUA, está agora exposta como uma ferida profunda: o partido tem hoje duas correntes, uma corrente que é intrinsecamente pró-democracia e outra corrente que quer destruir a democracia americana e tornar o país numa autocracia plutocrata.Os republicanos terão de tomar uma decisão pública sobre isto. Terão de ser claros perante a América: ou são pró-democracia, ou não. Continuarem divididos não é opção.Rui Rio e o que resta do PSD devem mirar-se naquele espelho. Na sua escala, a porta aberta por Passos Coelho com o seu compromisso com o ninho de radicais de direita que emergiu este século em Portugal expôs o PSD ao mesmo dilema vital.A diferença esteve em André Ventura: não quis esperar pelo trajeto interno, apressou-se e saiu do PSD para fundar o Chega. A direita radical portuguesa ganhou o seu veículo, um trator capaz de arrastar eleitores e quadros dos PSD para um movimento de debandada; o esvaziamento do PSD é o facto político desta legislatura.Regressando aos EUA: o sistema político estado-unidense tem-se aguentado bi-partidário até hoje. Será o GOP capaz de manter a tradição e a fidelidade à democracia?

OPINIÕES

João Rodrigues desanca forte em Miguel Sousa Tavares: Passar o tempo. LadrõesDeBicicletas
👉
Marisa Fernandes escreve sobre a gestão política da tecnologia: De deusa da Terra a criadora da harmonia digital: Gaia a fechar a presidência alemã. DiárioDeNotícias
👉
João Figueira escreve sobre Jornalismo e André Ventura: As notícias da política rasca.SinalAberto
👉
Mariana Mortágua escreve sobre a extrema-direita: Pessoas de bem podem votar mal. JornalDeNotícias
👉
Afonso Camões escreve sobre o papel dos Estados: A desigualdade infeta. DiárioDeNotícias
👉
Rosália Amorim escreve sobre voto e MAI: Um novo normal exige um novo tipo de voto. DiárioDeNotícias 👉
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One of Trump’s most significant failures is a massive win for the climate movement. The fossil fuel divestment movement was a success in 2020. It will need to go even harder in 2021.  //msnbc.com 🇬🇧

Can Buddhism teach artificial intelligence engineers to make more ethical programs? In the MIT Technology Review, Professor Soraj Hongladarom of Chulalongkorn University in Bangkok argues that programmers not only in the East but also the West can benefit from the principles of Buddhism​ and that AI should strive to relieve “suffering from pain.”  //technologyreview.com 🇬🇧
50,4%
: a Chinese vaccine has been found to be significantly less effective than what previous data suggested, even as the Brazilian research institute that conducted the phase 3 clinical trials urges the public to not focus on the new efficacy rate.  //scmp.com 🇬🇧

10 momentos em que Ventura imitou Trump  //esquerda.net 🇵🇹
A extrema direita é um problema novo e não é apenas político-partidário. Os media e, por inerência, o jornalismo, têm de aprender a lidar com este fenómeno que, aproveitando o jogo e as regras da democracia, apenas as quer corroer. 
A política rasca exige mais vigilância e um jornalismo mais exigente, criterioso e completo. Tal significa que não se pode tratar de forma igual o que é desigual.  //sinalaberto.pt 🇵🇹 
Na web: diário | linklog

Celebração | Maria Isabel Fidalgo

Roda a luz de manhã nos dias lisos

de leves brisas fogosas.

O sol despe-a e exibe-a aos olhos

numa transparência diáfana quase divina

quase água, quase saliva ardida

uma clarabóia de fogo

numa dança solar

a festejar o corpo.

Ao crepúsculo ainda é festa

a luz

memorial de beijos e beleza

de céu sargaço, silêncio e mar.

Apetece então a celebração do poema

um nome amoroso bordado a sal

num concerto de búzios.

Ao lusco-fusco a ventilação do sol

é ainda um amor crescente

murmúrio de águas

a celebrar a maré

nas margens da corrente

essa respiração em brasa

Maria Isabel Fidalgo

UM PAÍS QUE SE AUTODERROTA | Pedro Adão e Silva | in Jornal Expresso de 31/12/2020

Primeiro era o plano que não existia e as vacinas que não iam chegar. Depois, era a impreparação generalizada do país para administrar vacinas. No dia em que a vacina chegou, o problema passou a ser distinto: em lugar de um diretor do serviço de doenças infectocontagiosas de um dos maiores hospitais do país, o primeiro vacinado deveria ter sido outro.

É um padrão conhecido. Um país que desconfia, que se autoderrota, mesmo contra as evidências, e que aguarda com entusiasmo provinciano que as coisas corram mal.

Esquecemos com isso que nenhum país estava preparado para lidar com esta pandemia e que em todos os casos foram cometidos erros. Muitos erros, aliás. Mas, tendo em conta o que já percorremos, há motivos para nos congratularmos com a resposta que os serviços públicos portugueses deram às solicitações dos cidadãos: a segurança social que teve de processar centenas de milhares de pedidos de lay-off, enquanto os seus funcionários estavam em teletrabalho; o ensino que teve de se adaptar às aulas à distância; os lares, geridos numa combinação singular entre recursos públicos e boas vontades particulares, que se adaptaram a situações limite; e o Serviço Nacional de Saúde, que conseguiu lidar com uma pressão que se anunciava ingerível.

Temos níveis de cobertura de vacinação, por exemplo de sarampo e rubéola, superiores a 95%. Alguma coisa teremos feito bem.

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