Certamente! | Paulo Querido

Sábado, 30 de janeiro de 2021
Hoje no diário: a direita mostra-se entre um disco riscado e uma pescadinha de rabo na boca, com as mesmas pessoas e os mesmos tiques e as mesmas respostas quando o mundo é outro. Tem tudo para correr mal. O Bloco digeriu bem as presidenciais e Catarina, a Realista, dá uma lição de damage control. Passo os dedos pelo anúncio da central nuclear chinesa. E antes das opiniões e do linklog ainda falo das mudanças no diário, que ficou mais legível (espero).
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Mary Cassatt[ Capa 5 de 7 da série Pintura no feminino, escolhida por Ana Roque. ]

Pedro Santana Lopes meteu-se hoje na fila dos que pedem um “governo de emergência nacional”. Rui Rio lidera a fila pelos políticos. Miguel Sousa Tavares lidera a fila pelos comentadores. Tanto vai ser dito sobre isto. Eu só leio e oiço: “vem aí uma pipa de massa, a maior pipa de massa de que há memória, e não há ninguém do centro-direita e da direita lá nos sítios onde a massa se distribui, pá, não há direito, e pelos votos não vamos lá nem daqui a três anos 😦 😦 😦 ”. Consegues ler mais do que isto? Diz-me o quê.
Francamente? Seriamente? Também se arranja. O partido no Governo tem 40% de intenções de voto, mais que toda a oposição de direita somada. Saímos de umas eleições em que o bloco Governo + Presidente registou uma votação superior a 85% dos votos expressos. Emergência? A única coisa da política em estado de emergência é o PSD. Não é um governo de emergência nacional que o laranjal pede: é um governo de salvação dos dirigentes do PSD. Digo dos dirigentes porque as clientelas do PSD, essas, estão cobertas.
Mais de Santana: quer o adiamento das eleições autárquicas! E quer ser candidato a presidente de câmara pelo seu antigo partido, não pelo novo que fundou. Não é claro que câmara — mas isso é o que menos importa.
Bem, ao menos os regressos de Santana Lopes e Adolfo Mesquita Nunes são uma benção pelo que vieram dar aos media. Jornalistas e pivôs podem descansar um dia ou dois dos seus flirts com a extrema-direita. E nós temos menos vezes a cara de Ventura nas televisões e primeiras páginas da imprensa.

¶E por falar em Adolfo Mesquita Nunes: “
se não conseguir ser eleito, não me voltarei a candidatar”, ameaçou. E o seu maior não-adversário, Nuno Melo, disse algo como se não houver mais ninguém, eu sou candidato. Mas isso é o menos, o pior é assumir que tem a capacidade de unir o partido.(pausa para rirmos todos à gargalhada.)(outra pausa para continuarmos a rir mais uns minutos.)Entretanto um antigo presidente do CDS, José Ribeiro e Castro, veio a terreiro acusar os críticos de abrirem uma “crise artificial” e considera que “há premeditação” no “ataque” à liderança de Francisco Rodrigues dos Santos. É o que se chama descobrir a pólvora. Claro que há premeditação: AMN escreveu com clareza, respondeu com clareza e não podia ter sido mais explícito acerca da premeditação!
Abençoado CDS! O momento era tão menos divertido sem os seus fantasmas às voltas nos media!

¶Do outro lado do arco, a coordenadora do Bloco de Esquerda admitiu este sábado que a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa nas presidenciais de domingo pode ser explicada com a transferência de votos do eleitorado da esquerda para o atual Presidente. Os eleitores socialistas e dos “partidos à esquerda do PS” foram “a força que quis esta estabilidade de uma vitória folgada à primeira volta de Marcelo Rebelo de Sousa”, disse Catarina Martins no final de uma reunião da Mesa Nacional para analisar os resultados das presidenciais.
Chama-se a isto estratégia de contenção de danos. Da boa. Daquela que o PS não tem.
Por acaso é verdade. Todas as análises sérias dos votos dizem o mesmo. Marcelo foi reeleito pelo eleitorado de esquerda, enquanto o eleitorado de direita expressou com clareza algo que Marcelo já sabia há algum tempo: o seu partido tem vindo a distanciar-se do centro onde ele, Marcelo, nunca deixou de estar, como aliás outros dos poucos sociais-democratas do PSD, e hoje são quase estranhos. As contas eleitorais da direita estão muito complicadas. E por ali a insistência é clara: de governos de salvação nacional a alianças com a extrema-direita anti-democrática vale tudo, menos ser sensato e olhar para o centro.
Mas a verdade pouco importa em política. Bom, mesmo, é ver o Bloco no caminho da reconciliação. O erro do voto no OE foi pago com juros pesados, mas está pagoNext.

¶Do outro lado do planeta e a 180º da política indígena: a agência noticiosa Xinhua noticiou o início hoje da operação comercial do primeiro reator nuclear desenvolvido pela China, o Hualong One.
A central de Fuqing, no sudeste da China, vai gerar dez mil milhões de quilowatts/hora (kWh) de eletricidade por ano, o que permite à China reduzindo as emissões anuais de dióxido de carbono em 8,2 milhões de toneladas.
Porque é importante?Há 45 anos tinha o meu crachá “nuclear não, obrigado!” Em quatro décadas a indústria nuclear evoluiu imenso. Gradualmente fui trocando a oposição convicta por uma atitude crítica. E com atenção especial à tecnologia. Este evento é importante por dois motivos:
o primeiro diz respeito à China, que conquista uma emancipação especial pois este, que equipa a 48ª central nuclear do país, é o primeiro reator não importado, com tecnologia made in China;
o segundo, porque se trata de uma nova geração de reatores que tem maior segurança e eficácia. Espera-se desta geração um contributo importante para reduzir as emissões de carbono.
A China não muda para já a sua terceira posição na lista dos países com maior número de centrais nucleares, mas as posições poderão inverter-se nos próximos anos. As centrais nucleares chinesas forneciam apenas 5% das necessidades de energia elétrica do país em 2019, mas a cota aumentará com o objetivo da China de alcançar a neutralidade nas emissões de carbono até 2060.¶No diário de ontem introduzi algumas alterações.

O método de produção foi bastante melhorado, produzo agora a newsletter em menos 25% do tempo. E aumentei as capacidades do ente digital Cecil, encarregue dos automatismos e outras tarefas. Mas foi ao nível gráfico que tu deste pela coisa. Nas opiniões, em vez dos títulos — a maioria das vezes maus ou inexpressivos — passei a incluir uma citação d@s autor@s. Mais sumo para melhor decisão sobre o que ler.

Hoje mudei a separação dos blocos de texto, ou assuntos. A numeração não me satisfazia, era um pouco agressiva ao olhar. O separador novo tem mais espaço branco envolvente, é menos agressivo, mais conservador — ganho em estética o que perco em dinâmica.Simplificar e aumentar a legibilidade é o objetivo.

Em breve regressará a sugestão de livros — de permeio com sugestões de newsletters, filmes e séries disponíveis em streaming, dando resposta aos assinantes que responderam ao meu pedido de sugestões nesse âmbito. Será na semana que entra, se tudo correr bem.
OPINIÕES
José Pacheco Pereira: “Todas as vantagens do analógico sobre o digital podem ser exploradas, e mesmo que alguém diga que tudo isto pode ser feito online, o online não chega às portas de um supermercado, ou às mãos dos polícias, não se dobra e mete no bolso, ou se leva num comboio de regresso do matinal trabalho das limpezas, e acima de tudo não se leva para casa, nem se lê devagar, nem se colecciona, não é da nossa dimensão física.”   // Público ($)
Bernardo Pires de Lima: “Talvez por ser um tema fundamental, passou ao lado da nossa imprensa. E é pena, porque o assunto interessa-lhe diretamente. Nos últimos dias, deram-se significativos avanços internacionais no cerco às grandes empresas tecnológicas, sobretudo no domínio fiscal, no qual operam continuamente à margem, numa zona de privilégios acumulados sem ponta de vergonha, privando os Estados e as sociedades onde deveriam ser tributadas de recursos financeiros e de um exercício de justiça fiscal indispensável à saúde do capitalismo e das democracias.”   // DiárioDeNotícias
Manuel Carvalho da Silva: “Os poderes dominantes querem fazer da gestão da pandemia uma oportunidade para executar os seus programas e tolher o futuro. Acelera-se a concentração da riqueza, o domínio de grandes plataformas e grupos empresariais sobre a estrutura da economia. O setor financeiro impõe-se e o chairman e diretor não-executivo da Goldman Sachs, indivíduo comprometido com a geopolítica da “economia que mata”, é o presidente da Aliança Global para as Vacinas. Os jovens estão a ser muito sacrificados, mas não há sinais de políticas novas que os venham a beneficiar.”   // JornalDeNotícias
Sandra Cunha: “Perante a dureza destes números e a crueza das mortes, não se percebe a resistência do governo em ativar o instrumento, previsto no Estado de Emergência, que permitiria aliviar a pressão sobre o SNS e que é a requisição civil dos privados da saúde. Permitiria, certamente tratar melhor e quem sabe salvar mais algumas vidas.”   // Esquerda
Eduardo Pitta: “Miguel Sousa Tavares glosa o tema em tom heróico. Chegou a hora, diz ele, do Presidente da República substituir o Governo de António Costa por um de iniciativa presidencial, «sem dissolver o Parlamento, sem necessariamente despedir todo o elenco do actual Governo…», apenas metade dos ministros, aqueles que «não fazem nada ou só atrapalham…» Um tal governo seria para governar «enquanto durar esta situação de catástrofe pública.» Vindo da boca de quem quem — além de jornalista, MST é advogado —, o dislate tem de ser associado a liberdade poética.”   // DaLiteratura
Viriato Soromenho Marques: “A tragédia portuguesa é de tal magnitude que as responsabilidades serão mais tarde ou mais cedo apuradas. Haverá teses académicas, estudos, obras de ficção. A maioria delas será produzida por autores estrangeiros. O colapso luso entrará, pela negativa, nos livros de estudo e nos manuais de Saúde Pública de todo o mundo. Da nossa amarga experiência será extraída uma sabedoria negativa, de alcance universal, sobre esta queda numa hemorragia demográfica sem paralelo desde a gripe espanhola de 1918-1919. Mas as contas e os estudos ficarão para depois.”   // Diário de Notícias 
LINKLOGNo, WallStreetBets isn’t robbing Wall Street to help the little guy. Analysis: A seductive “short squeeze” narrative obscures what’s really happening.  // Ars Technica 🇬🇧
Ce que cachent les passages noircis du contrat passé entre l’UE et AstraZeneca. La Commission européenne pensait avoir masqué les passages confidentiels du contrat passé avec le laboratoire anglo-suédois pour son vaccin anti-Covid. Mais une astuce permet de découvrir le montant du contrat.  // Libération ($) 🇫🇷
A new report by Corporate Europe Observatory clearly shows neoliberal reforms weakened public healthcare systems all over Europe, with dramatic consequences in terms of Covid-19 death, disability rates, and many other social impacts.  // EUObserver 🇬🇧
Prevent the Next Food Crisis Now. The number of chronically hungry people increased by an estimated 130 million last year, to more than 800 million – about eight times the total number of COVID-19 cases to date.  // ProjectSyndicate 🇬🇧
Caos, más trámites e incertidumbre, los efectos del brexit en el comercio de Reino Unido  // Público 🇪🇸
La transformación que ha sufrido la Tierra desde mediados del siglo XX está siendo brutal  // ctxt 🇪🇸
Acid rain is yesterday’s news? Acid rain seems to be a thing of the past, yet sulphate continues to rise in many inland waters worldwide. Researchers led by IGB and the Danish University of Aarhus provide an overview of the sources of sulphate and its effects on freshwater ecosystems. They point out that the negative consequences for ecosystems and drinking water production have so far only been perceived regionally and recommend that sulfate be given greater consideration in legal environmental standards.  // IGB 🇬🇧 
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