Guerra e Paz, 10 anos | Manuel S. Fonseca

A Guerra e Paz nasceu a 10 de Abril de 2006. Faz hoje 10 anos anos de vida. Lembrei-me de escrever uma carta aberta à Imprensa. Os jornais e os livros são irmãos de armas. Vivem juntos a mesma crise, a crise da leitura popular prolongada.
Juntos podem criar futuro.

Carta Aberta à Imprensa
de um irmão mais velho

agustinaSena - 200Querida Irmã Imprensa,

Obrigado. Com que outra palavra poderia começar esta carta de amor e respeito? Repito, obrigado.

Eu, Guerra e Paz, já ando de braço dado contigo há dez anos. A 10 de Abril de 2006, na sessão do meu nascimento, na Fundação Gulbenkian, estávamos juntos, jornais, rádios, televisões e livros. Estreámo-nos com um novo livro de Agustina, Fama e Segredo na História de Portugal, que ainda não sabíamos que seria o último da nossa grande autora. E, ao lado de Agustina, estava outro livro, a lição ética, cívica e de sabedoria que é a Correspondência entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner.

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Lisboa e Cervantes by Manuel S. Fonseca in “Escrever é Triste”

Pro­me­tido aqui ao Hen­ri­que, cum­pro. Num excesso de zelo, proponho mesmo tra­du­ção auda­ci­osa. Camões tinha mor­rido pouco tempo antes. Esta era a Lis­boa que os olhos do por­tu­guês tinham visto. Viam-na agora, assim, des­lum­bra­dos, os olhos de Cervantes:

Lisboa

Lisboa

Ao cabo des­tes ou pou­cos mais dias, ao ama­nhe­cer de um, disse um gru­mete, do cimo da gávea prin­ci­pal, donde ia des­co­brindo terra:

– Alvís­sa­ras, meus senho­res! Alvís­sa­ras peço e alvís­sa­ras mereço. Terra! Terra! E melhor seria dizer: Céu! Céu! Por­que é sem dúvida a Lis­boa que chegamos.

A notí­cia arran­cou lágri­mas ter­nas e ale­gres aos olhos de todos, espe­ci­al­mente aos de Ricla, dos dois Antó­nios e aos de sua filha Cons­tanza, por­que lhes pare­ceu terem che­gado à terra pro­me­tida por­que tanto ansiavam.

Antó­nio lançou-lhe os bra­ços ao pes­coço, dizendo:

– Sabes agora, minha bár­bara, o modo como hás-de ser­vir a Deus, com uma rela­ção mais copi­osa, ainda que não dife­rente, da que te ofe­reço eu; verás os ricos tem­plos onde é ado­rado; verás ao mesmo tempo as ceri­mó­nias cató­li­cas com que o ser­vem e como a cari­dade cristã atin­giu o cume. Aqui, nesta cidade, verás como os mui­tos hos­pi­tais são os ver­du­gos da doença que des­troem, e aquele que neles perde a vida, rode­ado pela efi­cá­cia de infi­ni­tas indul­gên­cias, ganha a do Céu. Aqui, o amor e a hones­ti­dade dão-se as mãos e pas­seiam jun­tos; a cor­te­sia não deixa que se pavo­neie a arro­gân­cia, nem a valen­tia que se acer­que a cobar­dia. Todos os seus mora­do­res são agra­dá­veis, são cor­te­ses, são libe­rais e são ena­mo­ra­dos, por­que são dis­cre­tos. A cidade é a maior da Europa e a de melho­res manei­ras; nela se des­car­re­gam as rique­zas do Ori­ente e daqui se espa­lham para todo o uni­verso. O porto é de grande capa­ci­dade e encerra não somente uma mul­ti­dão de navios, mas flo­res­tas móveis de árvo­res que os mas­tros das naus for­mam. A for­mo­sura das mulhe­res espanta e apai­xona. A galhar­dia dos homens pasma, como eles dizem. Esta é, enfim, a terra que ao Céu presta santo e gene­ro­sís­simo tri­buto. 

Miguel Cer­van­tes, “Libro Ter­cero de los Tra­ba­jos de Per­si­les y Sigis­munda, His­to­ria Setentrional”

Miguel de Cervantes

Miguel de Cervantes

FONTE:  http://www.escreveretriste.com/page/2/