Regulamento interno do Colégio La Salle de Abrantes

1º) O espírito lassalista deverá estar presente em tudo o que fazemos. Nunca nos devemos esquecer da nossa identidade própria.

2º) Em tudo o que fazemos, devemos cultivar a justiça, a oração e o serviço aos outros.

3º) Todas as pessoas da nossa comunidade educativa, devem respeitar-se mutuamente tornando a nossa escola um lugar ideal para trabalhar.

4º) Todos devem ajudar a criar um ambiente de inter-ajuda, propiciando uma boa aprendizagem.

5º) Todos têm direito à diferença. Os dons especiais de cada um devem ser encorajados e valorizados para o bem de todos. Devemos trabalhar e partilhar juntos.

6º) Todos têm direito à segurança. Ninguém deve ter medo de ser ameaçado ou importunado. Ninguém deve ter receio de correr riscos, de ser diferente ou de ser sincero.

7º) O auto e hetero encorajamento para a rentabilização das nossas capacidades são essenciais. A existência de uma variedade de temas e de actividades é necessária à realização pessoal.

8º) A atenção vigilante é importante para que nos momentos de crise nos sintamos confiantes a partilhar as angústias ou problemas com uma pessoa de confiança.

9º) Todos devemos saber perdoar e esquecer. Todos merecemos uma segunda oportunidade.

10º) Na nossa escola, as pessoas deverão aprender tanto com os seus êxitos como com os fracassos. Isto permite o crescimento pessoal.

Argel 01 Dezembro de 2017

Só há um absoluto: não há absolutos | ELÍSIO MACAMO in jornal “Público”

Acho curioso que o pavor que alguns europeus têm por um pedido de desculpas faça de mim, um desgraçado lá da periferia, defensor do que é universal.

(…) Tzvetan Todorov, o crítico literário, faz uma distinção interessante num dos seus livros, Les morales de l’histoire, entre causas e razões tomando como exemplo o colonialismo. Pergunta como os europeus conseguiram justificar a si próprios não só a colonização como também a escravização de outros povos tendo em conta que a moral cristã dominante antes do século XVI e a moral humanista dominante a partir do século XVII torciam o nariz perante esse tipo de práticas. (…)

(…) É preciso um grande desprezo por toda a história da filosofia ocidental para achar que a escravatura, quando foi praticada, não violava preceitos morais. (…)

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Os 4 avisos de D. Pedro: 600 anos de atualidade | António Valdemar in Jornal Público

Volvidos 600 anos, após a Carta de Bruges, perduram as lacunas, os defeitos, os vícios que inviabilizam perspetivas para impedir os desgastes da rotina e estagnação.

A vocação da política do Atlântico e da política da Europa voltam a estar na ordem do dia e constituem tema de debates nacionais e internacionais. A descolonização (inevitável mas tardia) e a entrada (necessária e urgente) na União Europeia recolocaram, uma controvérsia que tem percorrido os séculos, que dividiu e continua a dividir henriquistas e pedristas.

Todas as homenagens foram prestadas ao infante D. Henrique mas está por fazer a reparação devida à memória de D. Pedro, traído e assassinado, às portas de Lisboa, o cadáver, entregue à voracidade dos cães e dos milhafres, a apodrecer dias e dias seguidos, nos campos de Alfarrobeira. Só muito depois teve sepultura, ao lado dos pais e dos irmãos, na Capela do Fundador, no mosteiro da Batalha.

Ínclita geração de altos infantes assim celebraram Os Lusíadas, os filhos legítimos masculinos de D João Iº e de Filipa de Lencastre. Além deste verso emblemático, Camões tem outras referências ao Infante D. Henrique e ao Infante D. Pedro, ambos classificados de «generosos», na aceção peculiar atribuída a esta palavra, entendida como genuína estirpe e elevada linhagem. Mas Fernando Pessoa, na Mensagem, já definiu particularidades que singularizaram cada um dos infantes. D. Henrique, surge n’A Cabeça do Grifo «entre o brilho das esferas/ tem aos pés o mar novo e as mortas eras,/ o globo mundo em sua mão». D. Pedro, o infante das «sete partidas», destaca-se «fiel à palavra dada e à ideia tida,/ claro no pensar e claro no sentir/e claro no querer/indiferente ao que há em conseguir/que seja só obter».

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A Revolução de Outubro de 1917 comemora 100 anos | Tiago Barbosa Ribeiro

A Revolução de Outubro de 1917 comemora 100 anos. Entre alocuções apologéticas e críticas anti-comunistas, há espaço para uma celebração simbólica e afectiva no campo das esquerdas – porque a Revolução é património das esquerdas – e há também espaço para uma fervilhante reflexividade em muitas iniciativas académicas e culturais que tenho visto ao longo dos últimos dias. É bom que assim seja.

A Revolução de Outubro, a «mãe» das revoluções, foi objectivamente o acontecimento mais marcante do século XX. O seu impacto mudou a geopolítica da Humanidade. Foi um «game changer» tão grande como a Revolução Francesa, em relação à qual falar do «grande terror» parece – porque é – um anacronismo face ao que significou no curso da história. Obviamente que a segunda revolução de 1917, a bolchevique, resultou de uma conjugação de factores e não da acção mitificada de um grupo de homens que muitos acasos poderiam não ter permitido. Mas permitiram: os acontecimentos do final do século XIX, as aprendizagens da Comuna de Paris, a «revolução» de 1905, a Primeira Guerra Mundial, a «guerra imperialista», o desequilíbrio entre o Governo Provisório e os Sovietes, em especial o de Petrogrado, o exílio bem sucedido de Lenine, a Revolução de Fevereiro, a acção resoluta dos bolcheviques na tomada de poder em Outubro (na realidade, Novembro), a teorização orgânica do marxismo por esse brilhante estratega político que foi Vladimir Ilitch Ulianov, Lenine, um grande conspirador, um operacional e um teórico da revolução operária.

A Rússia da época não tinha o «húmus» social que Marx e Engels previram para a insurreição proletária no fio do materialismo histórico: viam-na em países do capitalismo industrial avançado, em especial a Inglaterra e a Alemanha do Kaiser. Mas as coisas são o que são ela irrompeu naquele contexto histórico preciso, criando ondas de choque que perduraram e ainda perduram.

Na Rússia dos czares, um império que então ocupava 1/6 do planeta, com uma população analfabeta e pobre, foi possível derrubar uma dinastia opressora com 300 anos e abalar os alicerces – políticos, sociais, económicos, militares – do mundo moderno. Depois de uma das guerras civis mais sangrentas da história, os bolcheviques triunfaram e criaram o primeiro «Estado proletário» com a socialização efectiva dos meios de produção, servindo de «farol do socialismo» para experiências em todo o mundo. Em pouco tempo, a Rússia passou de um país-continente feudal para uma das maiores potências mundiais.

Não é possível postular como teria sido se Lenine não tivesse desaparecido precocemente ou se Trostky não tivesse sido assassinado. Talvez o PCUS não tivesse feito a «desestalinização» no seu famoso XX Congresso nem fosse necessário, mais tarde, derrubar uma Cortina de Ferro. Mas também não teríamos tido o Exército Vermelho a dar um contributo decisivo para a derrota dos nazis, só para dar um exemplo, nem tão pouco existiria uma URSS a exercer força gravitacional para o desenvolvimento dos Estados Sociais no Ocidente ou para a emancipação das velhas colónias europeias. Mesmo as dissidências «sessentistas» ou as revoluções dos trópicos, desalinhadas da burocracia mecânica do leste, não existiriam sem referência ao ideal fundador de 1917.

A história é o que é. Para lá de todas as disputas que o tempo presente ainda convoca, Outubro é uma das chaves do século XX e uma das marcas mais poderosas da história do movimento operário. Emancipadora, pois claro, no contexto que a permitiu e a consolidou. Celebre-se, pois.

Tiago Barbosa Ribeiro

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Barbosa Ribeiro

Che, o mito anti-imperialista e os mercenários do império | Carlos Matos Gomes | 09/10/2017

Hoje, 9 de outubro, passam 50 anos do assassinato de Che Guevara na Bolívia, dominada na época por um ditador fantoche dos Estados Unidos. Como acontece com as marcas “redondas” são mais abundantes as referências à figura e à vida do revolucionário argentino, herói da revolução cubana mas, entre todas, interessam-me as que apresentam Che Guevara como um homem execrável, um criminoso do pior calibre, merecedor da sorte que teve às mãos dos rangeres da CIA, que o assassinaram depois de o capturarem ferido e desarmado, lhe cortaram as mãos para servirem de prova da sua morte. Os artigos negros não referem geralmente estes pormenores macabros. A sua função é diabolizá-lo.

Porque recebe Che Guevara por parte dos estrategas de propaganda americana um tratamento tão distinto do de outros líderes de guerrilhas e movimentos políticos que, ao contrário dele, obtiveram sucesso e que os Estados Unidos não assassinaram? Porque gastam ainda hoje os Estados Unidos tanto dinheiro a comprar mercenários para a campanha anti-Guevara, entre os quais alguns milicianos lusos? Porque mete ainda tanto medo aos herdeiros dos que o assassinaram? Porque tem de ser tão persistentemente denegrido?

A morte de Guevara às mãos da CIA, traído por um camponês comprado pela agência americana, é um facto histórico investigado e conhecido, como conhecidas são as divergências entre militantes cubanos dos movimentos que derrubaram a ditadura de Fulgêncio Baptista em Cuba. Divergências que envolveram Guevara e Fidel de Castro. Porquê, então, esta rancorosa cruzada anual das forças ao serviço da estratégia de domínio americano contra Guevara, se ele próprio classificou como um fracasso a sua expedição ao Congo, a campanha dos simba nas margens do lago Tanganica, e expôs no seu Diário a debilidade da guerrilha que comandou na Bolívia?

Che Guevara merece este ódio por parte do poder americano, dos seus meios de guerra psicológica e contra-informação, dos aparelhos ideológicos por dois motivos: Transformou-se, goste-se ou não, numa figura mitológica do anti-imperialismo e o imperialismo, sendo a principal determinante dos jogos de poder que sujeitam os povos aos seus interesses, reage a quem o enfrenta e o desmascara. As fotografias do Che, as suas barbas, a sua boina com estrela, são as de um ícone, de um ídolo que atrai e fascina, que transmite esperança a milhões de seres humanos. Ora, os deuses inimigos têm de ser destruídos, apoucados, enlameados, mesmo em efígie.

A segunda razão para a propaganda imperial americana disparar ciclicamente contra a sua imagem tem um outro objectivo, também claro e pragmático: justificar as acções desestabilizadoras que os Estados Unidos levam a cabo no presente no Médio Oriente, na Coreia, nas fronteiras da Rússia e da China, que substituíram a coutada de intervenção exclusiva da América Central e da América do Sul dos anos 50 e 60, dos anos da guerra fria. Justificam o imperialismo do presente.

A figura de Guevara não é sagrada, pode e deve ser objeto de análise e crítica em todos os seus aspetos, pessoais e políticos, excepto o de não ser anti-imperialista, a verdadeira razão pela qual os serviçais do império o execram.

No meu novo romance, A Última Viúva de África, interessou-me o Guevara desiludido e, mais do que desiludido, de esperanças perdidas. Interessou-me entender porque perdera Guevara a luta com a realidade dos homens. Atraiu-me a heresia de juntar o revolucionário Guevara ao mercenário Scrame, do Congo, como dois comparsas vencidos, unidos pela derrota das ilusões fruto de desejos e não da razão.

A desilusão, em África:

“Che Guevara chegou ao Congo acompanhado por um grupo formado por cubanos negros, com a ilusão de estabelecer na antiga e imensa colónia belga uma plataforma contra o «imperialismo ianque» e o «neocolonialismo» que despertasse todo o continente africano.”

“O diário do Congo reflete a sua desilusão. Guevara viu a espécie humana como ela é e não como a sua ilusão de profeta a pintara. Mais perto das hienas do que dos leões, mais perto dos abutres do que das águias: O caos é aqui tão genético como os pigmentos da pele.”

“…Guevara deu por finda a tentativa de criar um foco revolucionário em África, além de ter perdido boa parte das ilusões sobre o desejo de liberdade, de independência, de justiça das massas populares africanas…”

A morte, na Bolívia:

“…a aventura boliviana do herói de Cuba decorreu ainda em condições piores do que a do Congo. Scrame revelou-me que depois de o ver morto, estendido numa mesa da escola da pequena aldeia de Higuera, e de ter lido o seu «Diário da Bolívia» acreditava que ele procurara deliberadamente o suicídio…”

”Enojou-me ver a profanação do corpo de Guevara pelo coronel chefe da polícia política, responsável pelo ultraje final da amputação das suas mãos, para os polícias americanos confirmarem através delas a identidade do guerrilheiro que os enfrentara.”

“Jean Scrame não se orgulhava da sua participação na morte de Guevara: Ele lutava por uma ideia, como eu pelo direito a ter uma terra!”

“Para homens como Scrame e Guevara a dor da derrota é maior e mais profunda porque não buscam a glória, nem lutam pelo reconhecimento do herói, mas pela paz interior de conseguirem o que entendem ser o seu dever, o seu bem, independentemente do que os outros possam pensar dos seus objectivos. A derrota é para eles um castigo e simultaneamente uma injustiça, um erro do destino que impedirá a felicidade ou a riqueza daqueles para quem trabalham. Quando não levam os seus sonhos até ao fim, sentem-se deuses falhados, que perderam uma oportunidade de conduzir os seus fiéis à Terra Prometida.”

Qual o segredo de transformar um vencido real num vencedor idealizado? O Che foi o senhor absoluto da sua luz. Os homens das trevas nunca o apagarão.

Carlos Vale Ferraz (excertos de A Última Viúva de África)

https://medium.com

CATALUNHA DA AUTONOMIA À INDEPENDÊNCIA | UM SONHO SECULAR Fonte: Grande Angle/La Tribune, por Carlos Fino

ANO 878 – OS ÁRABES OCUPAM A CATALUNHA

Conquistada pelos árabes no século VIII, tal como grande parte da península ibérica, a Catalunha é reconquistada por Carlos Magno no ano de 801. Em 878, quando o imperio carolíngio se desfaz, o território catalão é unificado sob a designação de Condado da Catalunha, dependente do império franco.

ANO 987 – AL MANSOUR RETOMA BARCELONA

O emir árabe Al-Mansour retoma Barcelona. O conde catalão Borell II pede ajuda à França, mas não obtém apoio, tendo que contar apenas com as suas próprias forças para se opôr ao invasor. Consequência – o laço de dependência com a França praticamente desfaz-se, tornando-se a Catalunha praticamente independente. A partir do século XI, passa a designar-se Principado da Catalunha, título que mantém até hoje.

ANO 1162 – UNIÃO COM ARAGÃO

O conde de Barcelona Afonso, o Casto, unifica os condados catalães com o reino de Aragão, que herda da mãe. Barcelona torna-se centro de um poderoso reino que vai reconquistar Valência e as Baleares aos árabes. No século XIV, os exércitos catalães são considerados dos mais poderosos da Europa. Aragão-Catalunha estendem a sua influência à Sardenha, Sicília, sul da Itália e Grécia.

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DESAFÍO INDEPENDENTISTA | El ruido y la furia de la Cataluña de los mecenas | MANUEL JABOIS in “El País”

Joan Baptista Cendrós fue un hombre tan importante en Cataluña que se convirtió en un olor. Un olor muy intenso y mentolado. Era la fragancia de la crema Floïd, after shave que Cendrós ideó en la barbería que heredó de sus padres: la exportó a 50 países y le hizo millonario. Cendrós acogía en su casa a otros hombres ricos, amigos suyos, unidos por una voluntad exquisitamente revolucionaria. Uno de ellos era Fèlix Millet i Marista, un empresario que huyó a Italia para salvar su vida en la Guerra Civil y regresó para combatir en el bando franquista. Con ellos estaba otro patricio, Lluís Carulla, que usó su conocimiento de la botica familiar para crear, junto a su esposa María Font, Gallina D’Or, que luego rebautizó como Gallina Blanca antes de inventar Avecrem. Joan Vallvé fabricaba dinero, literalmente: su factoría en Poblenou acuñaba la peseta. El quinteto lo cerraba el industrial Pau Riera, hijo de Tecla Sala Miralpeix, una empresaria de vida extraordinaria que levantó su imperio textil en un mundo de mujeres empleadas y hombres directivos.

A todos les unía el catalanismo, su voluntad de desbordar la dictadura desde el único lugar donde empezaba a correr un poco de aire: la cultura. Eran, esencialmente, mecenas. Y crearon Òmnium en el año 1961. Le inyectaron dinero, muchísimo, para abrir terminales en toda Cataluña y fomentar la lengua y la cultura catalanas. Fuera de Òmnium esa burguesía intelectual, junto otros apellidos de fuste, fundó un universo propio sobre el que orbitaría la futura Cataluña: la Nova Cancó, los premios Sant Jordi y Carles Riba, la Gran Enciclopedia Catalana, el Instituto de Estudios Catalanes, el Orfeò, el Palau, el Liceu, Banca Catalana; estuvieron detrás de los inicios de Terenci Moix y de Raimon, entre otros. Intentaron que la Academia Sueca le diese el Nobel a Salvador Espriu. Hicieron también grandes tropelías; se adueñaron del espacio, y el dominio cultural que llegó hasta el pujolismo fue de tal asfixia que Cendrós le negó el Premi d’Honor de les Lletres Catalanes, también creado por él, al escritor catalán más importante del siglo XX, Josep Pla, alegando su implicación en el franquismo. Muchos años después, Fèlix Millet hijo hizo recuento de la élite: “Somos unas cuatrocientas personas, no seremos muchas más, pues nos encontramos en todas partes y somos siempre los mismos”.

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O QUE EU DIRIA SE FOSSE A UM CONGRESSO DO PSD… | José Pacheco Pereira in blog “Abrupto”

…onde não posso ir porque não sou delegado, não tive nenhum cargo que me desse esse direito por inerência e não quereria falar numa condição de favor em relação aos que têm o direito de lá estar. Aliás, essa hipótese já se colocou num dos primeiros congressos da era Passos Coelho e foi recusada pela direcção do partido. Aos energúmenos que nos partidos têm a sua única vida profissional e que adorariam essa ocasião para me apupar devo dizer-lhes que é para o lado em que durmo melhor. Já tive na vida muitas mais ocasiões de incómodo e riscos muito maiores, para me assustar com isso. Além disso seria uma honra, como se percebe deste texto. Aqui vai, de fora, como se fosse lá dentro.

Ponham lá nas paredes das sedes do PSD… 

Passavam menos de 15 dias sobre o 25 de Abril de 1974, a 6 de Maio, três homens, Francisco Sá Carneiro, Joaquim Magalhães Mota e Francisco Pinto Balsemão, liam a declaração genética do PPD, depois PSD, intitulada Linhas para um Programa. Chamo a atenção: o habitual argumento destinado a desqualificar os documentos dos primeiros anos do PSD, de que são o resultado de habilidades linguísticas destinadas a obter legitimidade nos anos do PREC, não colhe de todo. Este documento é escrito muito antes de se dar a radicalização política do ano de 1975 e aliás não esconde a génese do novo partido na chamada “ala liberal” cuja actividade cessava então “pelo nascimento dum partido de orientação social-democrata“. Ou seja, os autores desta declaração estavam a dizer exactamente o que queriam dizer e a situar-se exactamente onde queriam situar-se.

Inscrito a letras de ouro … 

Deixemos de lado a parte do apoio ao MFA e ao 25 de Abril, para nos atermos às demarcações do texto e ao seu conteúdo programático. Primeira demarcação: a “concepção e execução dum projecto socialista viável em Portugal, hoje, exige a escolha dos caminhos justos e equilibrados duma social-democracia, em que possam coexistir, na solidariedade, os ideais de liberdade e de igualdade.” A expressão “caminhos justos e equilibrados duma social-democracia” significa que o novo partido se distanciava dos outros “socialismos”, em particular dos dois partidos que tinham chegado ao 25 de Abril aliados por um “programa comum”: o PS e o PCP. Esse “programa” não durou muito, mas existia.

Para não se esquecerem de onde vimos… 

O que é que significava esta “visão social-democrata da vida económico -social“?

a) Planificação e organização da economia com participação de todos os interessados, designadamente das classes trabalhadoras e tendo como objectivos: desenvolvimento económico acelerado; – satisfação das necessidades individuais e colectivas, com absoluta prioridade às condições de base da população (alimentação, habitação, educação, saúde e segurança social); – justa distribuição do rendimento nacional. b) Predomínio do interesse público sobre os interesses privados, assegurando o controlo da vida económica pelo poder político (…). c) Todo o sector público da economia deve ser democraticamente administrado (…) . d) A liberdade de trabalho e de empresa e a propriedade privada serão sempre garantidas até onde constituírem instrumento da realização pessoal dos cidadãos e do desenvolvimento cultural e económico da sociedade, devendo ser objecto de uma justa programação e disciplina por parte dos órgãos representativos da comunidade política. (…) f) Adopção de medidas de justiça social (salário mínimo nacional, frequente actualização deste salário e das pensões de reforma e sobrevivência, de acordo com as alterações sofridas pelos índices de custo de vida, reformulação do sistema de previdência e segurança social, sistema de imposto incidindo sobre a fortuna pessoal preferentemente ao rendimento de trabalho com vista à correcção das desigualdades).

Citei mais extensivamente porque é uma parte crucial da “visão”. Estão lá mais coisas, como a crítica ao absentismo dos latifundiários, a defesa do direito à greve (“meios necessários para uma permanente e contínua subordinação da iniciativa privada e da concorrência aos interesses de todos e à justiça social“); a possibilidade de nacionalizações para garantir o “controlo da vida económica pelo poder político“; a defesa do “saneamento” e do “julgamento dos crimes constitucionais de responsabilidade, de corrupção, contra a saúde pública e os consumidores e, dum modo geral, contra a vida económica nacional, bem como dos abusos do poder.

No plano político está lá a defesa daquilo que viria a chamar-se o “poder local”; a independência do poder judicial; a laicidade do Estado; o fim da discriminação das mulheres, e a afirmação de que a “educação e a formação constituem serviço público no mais amplo e digno sentido de expressão porquanto são fundamento e garantia de liberdade e de responsabilidade. A igualdade de oportunidades, alargamento de horizontes e a preparação ou readaptação à vida em sociedade são os objectivos fundamentais de educação e formação.” Ou seja, a educação é o mecanismo-chave da mobilidade social. E por fim, a defesa da “autodeterminação” nas colónias com imediato cessar-fogo.

Para quem não sabe o que é a social-democracia… 

Talvez a mais significativa frase do texto seja esta:

Consideração do trabalhador como sujeito e não como objecto de qualquer actividade. O homem português terá de libertar-se e ser libertado da condição de objecto em que tem vivido, para assumir a sua posição própria de sujeito autónomo e responsável por todo o processo social, cultural e económico.”

Ela é uma das chaves para perceber o pensamento de Sá Carneiro e dos fundadores. Não vem do marxismo, nem do socialismo, nem do esquerdismo, vem da doutrina social da Igreja tal como se materializava no pensamento da social-democracia que se queria instituir. Demarca o PSD do PS, do PCP mas, acima de tudo, daqueles que no lugar do “trabalhador” colocam as “empresas”, a “economia”, ou outras variantes de qualquer poder que não “liberta”.

A escolha e a ordem das palavras não são arbitrárias. Estes homens devem ter ponderado todas as palavras, todas as ideias e todas as frases deste documento com o máximo cuidado e rigor. Sabiam que estavam a escrever para a História e para o dia seguinte, para os portugueses e para Portugal. Nem é preciso dizer, de tão evidente que é, que nada disto é o que pensa e o que diz a direcção do neo-PSD que hoje existe.

Este é o PSD antigo, mas esta é também a parte que não é “modernizável”.

José Pacheco Pereira

htpp://abrupto.blogspot.com/2016/06/o-que-eu-diria-se-fosse-um-congresso-do.html

un joyau de notre histoire | Jamel Bachi et Alexandre Noble

Aujourd’hui je vous propose un voyage, je vous invite a découvrir un Joyau, un joyau de notre histoire, l’une des plus belle femme de tout le bassin Méditerranéen, aussi somptueuse que dangereuse…Certains disent qu’elle fut la plus belle femme de Rome, et Je ne dirai pas le contraire…Mes amis je suis fier de vous offrir la légendaire ” Cléopâtre Séléné “, la Mythique Reine de ” Césarée “…

– Une exposition archéologique frappante a réuni pour la première fois la Reine légendaire de l’antiquité, ” Cléopâtre “, et ses quatre enfants dont la plus connue, ” Cléopâtre Séléné “, Reine de ” Cherchell “…

– L’exposition tourne autour de la thèse que ” Julius César “, étant séduit par l’esprit, et la beauté de cette Reine africaine, envisageait de créer un véritable culte autour de ce personnage, en la présentant comme une Déesse, tel qu'” Aphrodite “, chez les grecs, ou ” Vénus ” chez les Romains, mais cet acte portait atteinte aux valeurs républicains de Rome, et ce fut l’une des raisons de son assassinat…

– Donc le grand Empereur fut non seulement subjugué par la beauté de la Reine des sables, mais aveuglé par son charme, au point de se faire assassiné par ses pairs !!

– ” Cléopâtre Séléné “, tout comme sa mère, joua un rôle important dans cette histoire, elle avait sans doute hérité la beauté, la fierté et la détermination de cette dernière, tout comme sa mère elle a crée un empire, réunissant les meilleures traditions du bassin méditerranéen; la philosophie grecque, la tradition du commerce des phéniciens, et la riche culture Égypte africaine…

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DEGOLAÇÃO DE SÃO JOÃO BAPTISTA | Soledade Martinho Costa

No dia 29 de Agosto celebra a Igreja Católica a degolação de São João Baptista, o Precursor (assim designado por ter preparado e anunciado a vinda de Jesus Cristo, que mais tarde baptizou nas águas do rio Jordão, na Palestina).

Filho de Isabel, prima afastada da Virgem Maria, e de Zacarias, sacerdote judaico, São João Baptista foi decapitado no ano 31 a rogo de Salomé, princesa judia, que pediu a seu tio Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, a cabeça do santo.

Esta data não conta apenas com as cerimónias litúrgicas celebradas pela Igreja, mas ainda com os tradicionais banhos purificadores no mar, ritual que continua a verificar-se a 29 de Agosto.

Embora os banhos santos ocorram também a 24 de Junho (celebração do nascimento de São João), é neste dia que se verifica com maior relevo a tradição dos banhos profilácticos em terras algarvias, chamado ali «o banho da degola» ou «banho do 29», conquanto haja notícias da mesma praxe em certas localidades da Beira-Baixa e mesmo no Minho.
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TERRATENENTES | António Galopim de Carvalho

Num regime de propriedade como ainda é o do Alentejo, de “terra pouca para muitos, terra muita para poucos”, como cantou Manuel Alegre, em 1996, ou de “muita terra a dividir por poucos”, como escreveram José Mattoso e Suzanne Daveau, em 1997, terratenente (do latim terra, com igual significado, e tenentis, particípio presente do verbo teneo, -ere, que significa ter, possuir), palavra hoje pouco usada, era o nome que então se dava aos proprietários de muitas terras ou, como hoje se vulgarizou dizer, o latifundiário ou agrário.
De grande influência socioeconómica local, inclusivamente, na administração, os terratenentes dominavam parte importante da vida da cidade, inclusive na administração.


Na continuação do chamado “Direito de Pernada” ou “Direito da Primeira Noite”, atribuído aos suseranos feudais, era voz corrente, nunca declaradamente confirmada, que um ou outro destes senhores da terra praticavam impunemente esta tradição. Falava a minha mãe de um rico lavrador eborense que, para satisfação da sua líbido, procurava adolescentes, ainda virgens, filhas de famílias muito pobres e a viverem nas suas terras. Meia dúzia de contos de réis era, dizia-se, a quantia combinada com a mãe da donzelinha para conseguir esse favor. Falava-se então do “preço da borrega”, sendo que “borrega” era o nome pelo qual se referia a menina alvo desta iniquidade.

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Homenagem a Federico García Lorca

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana 
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.

El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones de bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en Punto de la tarde.

Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay, qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

Retirado do Facebook | Mural de Carmen de Carvalho

A Floresta Portuguesa | Professor João Soares

“Os lusitanos eram um povo que vivia desta floresta que lhes fornecia caça, peixe, frutas, farinha de bolota para o pão (não conhecia o trigo), castanha (substituída pela batata após os Descobrimentos) e verduras (veiças). É disto testemunho, o que Estrabão refere ao descrever o povo que os fenícios encontraram (primeira idade do Ferro) neste extremo ocidental europeu (“…três quartas partes do ano alimentam-se sempre com bolotas secas, partidas e esmagadas, com as quais fazem um pão que se conserva muito tempo. Uma espécie de cerveja é a sua bebida ordinária…”). São também testemunho disto, os pães de castanha ou pão dos bosques, a “bola sovada” (falacha) e “pratos relíquias” à base de castanha, como o paparote ou caldulo que ainda se comem em algumas regiões beirãs, e, ainda, alguma “actividade social” baseada na castanha, como, os magustos, estando as brechas (apanha prévia, pela garotada) e os rebuscos (apanha das sobras pelos aldeões de fracos recursos) praticamente em desuso”, conta Jorge Paiva, no texto “A biodiversidade e a história da floresta portuguesa”.

A meio do século passado, emerge outra espécie: o eucalipto, vindo da Austrália e Tasmânia. O rendimento que gera ao produtor florestal tornou-o num investimento interessante que levou a que, face à ausência de regras orientadoras, crescesse onde devia e não devia, criando contínuos florestais que, se nada ou pouco geridos, criam um excelente pasto para os incêndios. Erros que o tempo e o conhecimento estão agora a tentar corrigir.
Muitas outras espécies chegaram, viram e venceram. Uma entre estas é hoje sinónimo de praga. A acácia mimosa, que a ex-Junta Autónoma de Estradas plantou profusamente país fora, e que muitos colocaram nos seus terrenos como planta ornamental, é uma invasora infestante que obriga a fortes investimentos para erradicar, o que nem sempre é coroado de sucesso. Reproduzindo-se muito facilmente e em muito pouco tempo, formam áreas densamente povoadas que impedem o desenvolvimento da vegetação natural.
(dados de 2010)

 

Retirado do Facebook | Mural do Professor João Soares

 

ANOS 30 E 40, EM ÉVORA | O BALNEÁRIO | António Galopim de Carvalho

À saída de Évora para Lisboa a cerca de 500 m da antiga Porta de Alconchel, o “balneário” ou como também de chamava o “Aquário das Bravas” (ver nota no final do texto) era um tanque de forma mais ou menos quadrada que a memória me diz ter uns 12 a 15 metros de largo, entre muros altos. Visto de fora mais parecia uma casa de um só piso e sem telhado, como hoje ainda se pode ver. Colado a um dos mais antigos chafarizes de Évora, o histórico Chafariz das Bravas (já documentado em finais do século XV) recebia dele a água que fazia as delícias dos adolescentes e de alguns homens, nos verões desses anos. Pouco fundo, dava para “ter pé” aos rapazes da minha geração. Mais seguro do que os pegos do Degebe, o afluente do Guadiana que mesmo nos verões secos represava alguma água nos sítios mais fundos, foi no balneário que muitos apenderam, sem escola e mal, a nadar de bruços ou às braçadas, mas o que mais rapidamente se aprendia era nadar “à cão”.
Este tanque foi a nossa piscina, mas diga-se, só para o sexo masculino e em cuecas, pois que calções de banho só um ou outro sabiam o que isso era. Não por regra estabelecida, mas pela imensa força dos bons costumes, raparigas e mulheres nem se aproximavam da porta. Foi preciso esperar cerca de duas décadas para se quebrar esse tabu, o que teve lugar com a inauguração, em 1964, das Piscinas Municipais.
Lembro-me que se falava do “tanque do Alexandre”, mas quase que só retive este nome. Tenho uma vaga ideia que era um daqueles tanques que havia nas quintas, destinados à rega, onde alguns iam nadar, ou melhor, iam meter-se na água.
Nota: – “Bravas” eram as mulheres que, na Idade Média, provocavam “arruídos” e zaragatas, uma espécie de “tendeiras” da minha geração. Em oposição às “Bravas”, existiu, nesse tempo, à porta de Alconchel, o “poço da Boa Mulher”

Retirado do Facebook | Mural de António Galopim de Carvalho

«BALLET ROSE» | o escândalo que abalou o regime de Salazar

Em 1967 rebentou um escândalo de abuso sexual de meninas, algumas com 8 e 9 anos, por parte de gente muito influente do regime fascista. Além de condes, marqueses, estavam implicados industriais, empresários e um ministro do Governo de Salazar, o Ministro da Economia Correia de Oliveira. A PJ prendeu uma modista de nome Genoveva e encontrou uma lista com os clientes das meninas. Tinha acontecido que uma das raparigas se dirigira à PJ, na companhia do advogado Fernando Pires de Lima, e contara tudo o que sabia. O poder quis que o advogado se afastasse. Mas este assumiu a defesa da rapariga e Joaquim Pires de Lima, recorda, numa entrevista à revista Pública do Expresso, em 12/07/2009:

«Tudo começou quando uma moça dos seus 16 anos me procurou, com a mãe e o namorado, porque estava a ser apertada na Polícia Judiciária para prestar declarações. Acerca das razões que a levavam a casa de uma senhora modista, que era tida como uma desencaminhadora de menores. E para identificar os indivíduos que estavam relacionados com essa senhora. Tinha receio de que a levassem presa. Isso levou-me a telefonar ao director da Judiciária, com quem tinha boa relação, bem como ao Antunes Varela (ministro). Provoquei um grande escândalo dizendo que, com a minha cliente, à PJ, ia eu! Não conhecia o instrutor do processo. Mais tarde detectei quem ele era; era um que estava ligado ao assassinato do Delgado, o agente Parente. Quando soube, denunciei-o. Obriguei a miúda a dizer os nomes de toda a gente. Ficou a saber-se que desde os nove anos andava a ser aproveitada por indivíduos como o conde Monte Real, o conde Caria, o conde da Covilhã, uma data de gente da alta sociedade. (…) A PJ o que queria era que ela não dissesse os nomes. “Quero que ela dite para os autos o que ela me disse a mim”. Quando se soube a idade das meninas envolvidas, percebeu-se que isto não era um processo de Ballet Rose á maneira do caso Profumo, cuja mais nova tinha 17 anos, mas um processo de corrupção de menores, com impúberas de nove anos. E miseráveis. Filhas de mulheres-a-dias. Eu queria que a PJ instaurasse um processo crime contra os corruptores de menores e retirasse o nome de Ballet Rose da história. (…) Para abafar o caso, uma vez que estavam metidos no assunto indivíduos como Correia de Oliveira, o Quintanilha Mendonça Dias (que era Ministro da Marinha), acharam que, se não era Ballet Rose, também não era nada de grave. Todos tentaram aliciar as meninas, mas não consumaram. Elas não eram susceptíveis de serem ofendidas. Não passou de uma tentativa de estupro e todos prestaram caução de boa conduta. Para que não houvesse punição dos arguidos. A rapariga [que desencadeou o processo], continuou por aí. Já depois do 25 de Abril perguntou-me se tinha direito a uma indemnização. Uma oportunista.»

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18 de agosto de 1936 | Assassinato de Federico Garcia Lorca pelos esbirros de Francisco Franco

O SILÊNCIO

Ouve, meu filho, o silêncio.
É um silêncio ondulado,
um silêncio
donde resvalam ecos e vales,
e que inclina a fronte
para o chão.

Federico Garcia Lorca – Traduzido por Eugénio de Andrade

 

 

EL SILENCIO

Oye, hijo mío, el silencio.
Es un silencio ondulado,
un silencio
donde resbalan valles y ecos
y que inclina las frentes
hacia el suelo.

Viva a Inglaterra | Manuel Alegre in jornal Diário de Notícias

Eu era muito pequeno, não devia ter sequer 4 anos. Passeávamos na avenida, em Espinho, e, de repente, meu avô materno, republicano, e meu pai, monárquico, tiraram os chapéus e começaram a gritar Viva a Inglaterra! Nunca mais esqueci. Voltei a lembrar-me ao ver o filme Dunkirk. Também a mim me apeteceu dar um viva à Inglaterra. A evacuação das tropas cercadas pelos nazis é um feito histórico incomparável e decisivo para o futuro da guerra. Milhares de civis foram a Dunquerque em barcos de recreio ou de pesca buscar os seus soldados. Governantes, diplomatas e funcionários da União Europeia deviam ver esse filme para recordarem e não caírem na mesquinha tentação de aproveitar as dificuldades provocadas pelo brexit para castigarem a Inglaterra e conseguirem benefícios perversos.

As democracias europeias tinham caído uma a uma. Estaline celebrara com Hitler o pacto germano-soviético. Os americanos, apesar dos esforços de Roosevelt, viviam um período de isolacionismo e pensavam em si próprios. Durante anos, a Inglaterra resistiu sozinha. Lutou no ar, no mar, em terra, pronta a defender a sua ilha, cidade a cidade, rua a rua, como disse Churchill no célebre discurso em que proclamou: “Jamais nos renderemos.” Bateram-se pela sua e pela nossa liberdade. Podem ter muitos defeitos, mas esse é um valor que os ingleses sabem preservar. Não creio que alguma vez permitissem que outra instituição que não o seu Parlamento discutisse e condicionasse o seu orçamento. Por isso jamais aprovariam o tratado orçamental. Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre o brexit, os países europeus têm todo o interesse em manter com o Reino Unido uma relação estável e amistosa. Espero, pelo menos, que Portugal se lembre do papel da Inglaterra em momentos decisivos da nossa luta pela independência. E quando alguém tiver a tentação de cálculos mesquinhos, haja quem não se esqueça dos quase quinhentos mil emigrantes portugueses. Se há matéria de política externa em que Portugal deve ter uma posição própria e autónoma, é a das relações com a Inglaterra, que devem ser ditadas pelos laços históricos entre as nossas nações com uma aliança multissecular. Por mim, não esqueço esses anos terríveis em que a Inglaterra se bateu sozinha por uma Europa livre. Por isso, quando alguns pretendem fazer agora o papel de duros, eu tenho vontade de repetir o grito de meu avô e de meu pai: Viva a Inglaterra!

Manuel Alegre

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/convidados/interior/viva-a-inglaterra-8709813.html

“Todas as vidas são falhadas, mesmo aquelas que aparentemente foram mais conseguidas” | Marcello Duarte Mathias com João Céu e Silva in jornal Diário de Notícias

O ex-embaixador Marcello Duarte Mathias é dos poucos diaristas que têm registado a sua visão sobre os acontecimentos do mundo e a sua correspondência em Portugal.

Era, diga-se, porque desistiu de os escrever. No entanto, publicou recentemente um volume, Caminhos e Destinos, em que recolhe alguns dos seus escritos, uma matéria em muito parecida à que imprimia nos diários, tal é a sua mundivisão. Uma entrevista que é um pretexto para perceber a opinião de um “analista” sobre as grandes questões da portugalidade.

“Só acredito nas coisas depois de as escrever.” Não está com uma atitude demasiado radical contra o entendimento do mundo?

Recentemente, citei uma frase da Virginia Woolf que é assim: “As coisas só acontecem verdadeiramente depois de transpostas para a escrita.” Eu acho que isso é muito característico de quem escreve, pois tem uma dupla vida no sentido em que é testemunha de certas coisas, presencia-as, mas ao passar essas realidades para o papel as situações adquirem uma nova realidade. Ou seja, apoderamo-nos do que escrevemos e do que descrevemos. Dou um exemplo exagerado: se vejo uma exposição de um pintor, se escrevo sobre ele, quando me dizem que há uma nova exposição dele não me interessa, porque já vi, escrevi, estudei e disse o que tinha a dizer sobre ele. Portanto, escrever é apoderarmo-nos, tornar as coisas nossas.

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17 de Agosto de 1962: Ao tentar atravessar o Muro de Berlim, Peter Fechter, de 18 anos, é morto, tornando-se uma das primeiras vítimas dos guardas de fronteira da Alemanha Oriental.

No dia 17 de Agosto de 1962, guardas da Alemanha Oriental matam o jovem Peter Fechter, de 18 anos, que tentava fugir saltando o Muro de Berlim em direcção a Berlim Ocidental.
O incidente de 1962 ocorreu quase um ano após o início da construção do Muro de Berlim. Em Agosto de 1961, as autoridades de Berlim Oriental começaram a estender rolos de arame farpado através da fronteira entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental. Apenas em questão de dias, um muro de blocos de betão era erguido, com guaritas de vigilância. Nos meses que se seguiram, mais arame farpado, metralhadoras, holofotes, guardas fronteiriços, minas e barreiras de betão foram postos, separando completamente as duas metades da cidade. Funcionários norte-americanos, ingleses e franceses condenaram a acção do governo da Alemanha Oriental, mas nada fizeram para evitar a construção.

No dia 17 de Agosto de 1962, dois jovens de Berlim Oriental tentaram escalar o muro e passar para o outro lado. Um deles conseguiu escalar e, embora tenha sofrido vários cortes, conseguiu passar para Berlim Ocidental. Enquanto polícias no lado oeste observavam a cena petrificados, o segundo jovem foi alvejado por metralhadoras cujos tiros partiam do lado oriental. O rapaz caiu mas conseguiu levantar-se novamente, alcançar o muro e tentar a escalada. Mais tiros foram ouvidos. O jovem foi ferido nas costas, gritou e caiu de costas no muro. Durante uma hora, permaneceu estendido,  a gritar por socorro.

Uma multidão furiosa de cidadãos berlinenses ocidentais bradava aos homens da segurança oriental para socorrê-lo, porém parecia que estavam contentes em ver o rapaz morrer. Finalmente, ele morreu no próprio local. Os guardas orientais correram então até onde o corpo jazia e removeram-no numa viatura.

Durante a existência do Muro de Berlim (1961 a 1989), cerca de 136 pessoas foram mortas a tentar passar do Leste para o Oeste de Berlim. Os dirigentes da Alemanha Oriental sempre alegaram que o muro foi erguido para proteger o regime e a economia das perniciosas influências da cultura e do capitalismo da Alemanha Ocidental. Os ocidentais respondiam, no entanto, que nos cerca de 30 anos em que perdurou o muro ninguém foi fuzilado tentando entrar em Berlim Oriental.

Em 1997, dois dos guardas que atiraram contra Peter Fechter foram levados a julgamento e condenados por homicídio. Erich Schreiber e Rolf Friedrich tieveram penas de 21 e 20 meses de prisão, respectivamente.

Fontes: Opera Mundi

wikipedia (imagens)

Trump and his friends cannot hear the dead who are crying to be heard. Can you? | Richard Zimler

418,000 American women and men died in World War II, most of them while fighting fascists, ultra-nationalists, Nazis and neo-Nazis. To speak of neo-Nazis and Nazis and KKK members marching in Charlottesville as having a valid and legitimate “philosophy” and value system – equal to those who oppose them – is an insult to all those dead American soldiers who fought to liberate France, Italy, Germany and the rest of the Europe. Yes, Trump has insulted 418,000 dead American soldiers and their families and friends, as well as everyone else, like me, who greatly respects and thanks the sacrifice they made. It is also an insult to every African-American and Jew. Tens of millions of Africans were tormented and tortured as slaves from the early 1600s up until the end of the Civil War, and then, after they were granted freedom, persecuted and hounded by White nationalists and even the police right up until the present day. Every American who died in World War II and every lynched African American and every Jew murdered in the Holocaust is telling us us that there is no place in America for neo-Nazis, Nazis, KKK segregationists and White Nationalists. Trump and his friends cannot hear the dead who are crying to be heard. Can you?

Retirado do Facebook | Mural de Richar Zimler