O INCÊNDIO DA BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA | Fonte: História do Mundo | in Facebook, Mural de Carlos Fino

Na sexta-feira da lua nova do mês de Moharram, no vigésimo ano da Hégira (isso equivale a 22 de dezembro de 640), o general Amr Ibn al-As, o emir dos agareus, conquistava Alexandria, no Egito, colocando a cidade sob o domínio do califa Omar. Era um dos começos do fim da famosa Biblioteca de Alexandria, construída por Ptolomeu Filadelfo no início do terceiro século a.C. para “reunir os livros de todos os povos da Terra” e destruída mais de mil anos depois.

A idéia de reerguer a mais formidável biblioteca de todos os tempos surgiu no final dos anos 70 na Universidade de Alexandria. Em 1988, o presidente egípcio, Hosni Mubarak, assentou a pedra fundamental, mas foi só em 1995 que as obras realmente começaram. O suntuoso edifício de 11 andares, que custou US 212 milhões, boa parte dos quais pago pela Unesco, foi concluído no ano passado. Só a sala de leitura da biblioteca principal tem 38.000 m2, a maior do mundo. O acervo, que ainda não foi inteiramente reunido, deverá contar com 5 milhões de livros. Será interessante ver como o governo egípcio, que não é exatamente um entusiasta das liberdades de informação e expressão, administrará as coisas. Haverá, por exemplo, um exemplar dos “Versos Satânicos” (obra de Salman Rushdie, tida como ofensiva ao Islã)? E quanto a livros que critiquem o próprio governo egípcio? Todos os cidadãos terão acesso a todas as obras? Mas não é tanto a nova biblioteca que me interessa, e sim a velha, mais especificamente a sua destruição.

Na verdade, seria mais correto falar em destruições. Como nos mitos, há na extinção da Biblioteca de Alexandria uma série de componentes políticos. A historieta com a qual iniciei esta coluna é uma das versões. É contra os árabes. Existem outras, contra os cristãos, contra os pagãos. Nenhum povo quer ficar com o ônus de ter levado ao desaparecimento da biblioteca que reunia “os livros de todos os povos”. É curioso, a esse respeito, que o site oficial da biblioteca (http://www.bibalex.gov.eg/) só registre as versões anticristã e antipagã. A contrária aos árabes é descartada sem nem mesmo ser mencionada. Utilizo aqui principalmente informações apresentadas pelo italiano Luciano Canfora, em seu excelente “A Biblioteca Desaparecida”. Continuar a ler

Onésimo Teotónio Almeida: “Haja um pouco de senso. O papel do historiador não é condenar a História, é narrar os factos, e explicar. ” in Jornal Público com JOSÉ RIÇO DIREITINHO

O livro O Século dos Prodígios — uma colecção de ensaios sobre a história da ciência no período da Expansão — acaba de ser publicado e distinguido com um prémio pela Fundação Calouste Gulbenkian. Onésimo Teotónio Almeida, o autor, falou com o PÚBLICO da nova mentalidade científica que surgiu em Lisboa no século XV.

Onésimo Teotónio Almeida (São Miguel, 1946) é professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros na Universidade de Brown, em Providence, nos Estados Unidos da América. O Século dos Prodígios (edição Quetzal) é o seu mais recente livro — que acaba de ser distinguido com o Prémio de História da Presença de Portugal no Mundo, da Fundação Calouste Gulbenkian — uma colecção de ensaios sobre a história da ciência no período da Expansão europeia, o dos Descobrimentos portugueses dos séculos XV e XVI.

Numa altura em que a palavra “Descobrimentos’” dá origem a algumas discussões acesas, e que, para alguns, será politicamente incorrecto usar, Onésimo Teotónio Almeida, em conversa com o PÚBLICO, disse que “descobrir não significa criar, inventar. Quando a Polícia descobre o criminoso, não o inventa. Os portugueses descobriram ilhas que não tinham ninguém nem estavam sequer mapeadas. Descobriram o caminho marítimo para a Índia, ninguém diz que os portugueses descobriram a Índia. Do resto são ‘Descobrimentos’ do ponto de vista europeu. Haja um pouco de senso. O papel do historiador não é condenar a História, é narrar os factos, e explicar. Na narrativa, lidamos com factos e com argumentos, não cabe absolver nem condenar a História.”

Continuar a ler

O Século dos Prodígios vence Prémio História da Presença de Portugal no Mundo | Onésimo Teotónio de Almeida in Jornal Público

Um ensaio de Onésimo Teotónio Almeida, que se debruça sobre o carácter pioneiro da ciência portuguesa no período dos Descobrimentos, recebe prémio da Fundação Calouste Gulbenkian.

 O Século dos Prodígios, ensaio de Onésimo Teotónio Almeida, que se debruça sobre o carácter pioneiro da ciência portuguesa no período dos Descobrimentos, venceu o Prémio História da Presença de Portugal no Mundo, foi esta quinta-feira anunciado.

“O livro O Século dos Prodígios – A Ciência no Portugal da Expansão, de Onésimo Teotónio Almeida, foi anunciado, pela presidente da Academia Portuguesa de História (APH), Manuela Mendonça, como vencedor do Prémio Fundação Calouste Gulbenkian, História da Presença de Portugal no Mundo”, revelou a Quetzal, chancela que editou o livro.

O livro será lançado nesta sexta-feira e a cerimónia de entrega do prémio ocorrerá a 5 de Dezembro, nas instalações da APH, em Lisboa.

Trata-se de um prémio instituído pela APH e patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian, que visa galardoar obras históricas de reconhecido mérito.

Num momento em que se discute a importância e a natureza dos Descobrimentos, Onésimo Teotónio Almeida lembra, nesta obra ensaística, o carácter pioneiro da ciência portuguesa desse período.

“O nosso século XVI foi, verdadeiramente, um século de prodígios, cheio de inovação, de curiosidades e de especulação”, escreve.

Neste livro, Onésimo Teotónio Almeida presta especial atenção aos séculos XV e XVI, afastando-se tanto da perspectiva nacionalista (na qual incorrem com frequência os historiadores portugueses), como da indiferença que geralmente marca a historiografia anglo-saxónica – ao ignorar o papel que Portugal teve na história da ciência e do conhecimento, descreve a editora.

Um livro que é uma “revisitação desses anos de ouro da história portuguesa e a revelação de como, durante o ‘período da Expansão’, surgiu e cresceu um núcleo duro de pensamento e trabalho científico pioneiros, que tornou possíveis as viagens desses séculos – e dos posteriores”, acrescenta.

Durante as últimas décadas, como professor em universidades americanas, Onésimo Teotónio Almeida viu-se no papel de historiador da ciência portuguesa, papel para o qual — refere na introdução do livro — nem sempre estava tão preparado quanto desejava.

Contudo, foi aprofundando esses conhecimentos, através da análise e da recolha de informação.

Nascido em São Miguel, Açores, em 1946, Onésimo Teotónio Almeida doutorou-se em Filosofia pela Brown University e foi director de vários departamentos naquela universidade, onde lecciona uma cadeira sobre valores e mundividências.

Na Quetzal tem já publicados Despenteando Parágrafos e A Obsessão da Portugalidade.

https://www.publico.pt/2018/11/13/culturaipsilon/noticia/onesimo-teotonio-almeida-fascinio-novo-aconteceu-aqui-1850838

Os abutres ao poder | LEONARDO LEAL in Jornal “Público”

O respeito liberal e democrático pela soberania popular requer sempre o integral respeito pelos direitos das maiorias e das minorias, do governo e das oposições. Mas nada disso está garantido com Bolsonaro, antes pelo contrário.

O ano é 2018, 57 milhões de votos, Mestre Moa do Katendê – corpo imolado, universidades violadas, aplausos nas ruas para os militares, Brasil a minha gente sua frio. “A nossa bandeira jamais será vermelha” – um mote do populismo que mais uma vez unificou multidões em cidades brasileiras para colocar abutres no poder. Jair Bolsonaro (PSL), ao lado de um chicago boy e de um círculo de generais estranhos à democracia, celebram nessas eleições três grandes feitos: a vitória sem disputa em arena pública; a vitória da impostura; a vitória do arbítrio

Primeiro, a campanha bolsonarista violou a tradição que marca as mais intensas disputas no mundo democrático liberal, e que se traduz pela convivência entre indivíduos racionais e a troca de razões na esfera pública. Segundo, trespassou a igualdade de condições para argumentar, fugindo dos debates públicos, lançando-se no mundo da comunicação privada em grupos de WhatsApp para difundir fakenews, com indícios de financiamento empresarial –? esquema coibido pela justiça eleitoral brasileira. Terceiro, o grupo político de Bolsonaro retira das “sombras” ofertas políticas de elites antidemocráticas para penhorar o patrimônio público, os direitos sociais e as liberdades civilizadas.

Continuar a ler

” Eu, pecadora, me confesso a Deus” | Maria Isabel Fidalgo

Lémen podia ser uma criança
perdida nos seus sonhos
uma folhagem deslumbrada
com um acontecer de primavera
uma ave
uma alba
uma nuvem
um céu musical aberto em rosa
uma cerejeira bicada de pássaros
uma erva macia onde o corpo caísse leve.
Lémen podia ser um outro olhar
uma casa horizontal
cuja voz acordasse os regatos
e meninos descalços enfeitassem de risos
as águas maculadas.
Lémen podia ser o coração do homem
antes do inferno
chamas de ódio
em corpos descarnados.
Lémen podia ser um um rosto
e não um esqueleto vivo
uma côdea de osso
sem força para chorar
a nossa culpa.

Maria isabel fidalgo

Desamores da portuguesa | Marta Barbosa Stephens por Adelto Gonçalves

                      I

Foi o escritor catalão Eduardo Mendoza, o romancista espanhol que mais vende livros na Espanha contemporânea, quem, a propósito da obra da escritora brasileira (de origem galega) Nélida Piñon, alertou este resenhista para o fato de que as mulheres olham para a vida por uma janela que sempre esteve vedada aos homens. Por isso, quando escrevem romances, criam personagens mais densas, provavelmente, porque as veem com maior sensibilidade.

Esta observação foi feita em janeiro de 1990, a uma mesa do café Samoa, que fica em frente à Casa Milà, também conhecida como La Pedrera, em Barcelona, e sua validade só tem sido confirmada ao longo destes 28 anos. De fato, essa observação pode ser confirmada também com a leitura do recém-lançado de Desamores da portuguesa, primeiro romance da escritora brasileira Marta Barbosa Stephens, que conta a história de vida de uma portuguesa, de 41 anos, sem nome, que vive um triplo autoexílio: do país, da língua e do passado.

Escrito em linguagem em que a autora demonstra domínio do ofício, como observa o escritor Luiz Ruffato na contracapa do livro, Desamores da portuguesa reconstitui a trajetória de uma mãe de três filhos que, em poucos anos, fracassara por três vezes na tentativa de formar uma família estável. E optara pela solidão, vivendo na fria Londres, longe de tudo e de todos, mas sem entender o que falavam nas calçadas, limitada apenas a rápidos diálogos com compatriotas. “Sua maior frustração era não ajudar as filhas nas tarefas escolares”, escreve a personagem que conta a história, uma brasileira, que, a exemplo da autora, também vive um autoexílio. “Ela não tentou aprender inglês, nem antecipou sua volta para casa. Insistiu a seu modo, esperando que um milagre a salvasse”.

Continuar a ler

Les Onze mille verges ou les Amours d’un hospodar | Guillaume Apollinaire

« Mademoiselle, je ne vous ai pas plutôt aperçue que, fou d’amour, j’ai
senti mes organes génitaux se tendre vers votre beauté souveraine et je
me suis trouvé plus échauffé que si j’avais bu un verre de raki.
– Chez qui ? chez qui ?
– Je mets ma fortune et mon amour à vos pieds. Si je vous tenais dans
un lit, vingt fois de suite je vous prouverais ma passion. Que les onze
mille vierges ou même onze mille verges me châtient si je mens !
– Et comment !
– Mes sentiments ne sont pas mensongers. Je ne parle pas ainsi à
toutes les femmes. Je ne suis pas un noceur.
– Et ta sœur ! »
Cette conversation s’échangeait sur le boulevard Malesherbes, un matin
ensoleillé. Le mois de mai faisait renaître la nature et les pierrots parisiens
piaillaient d’amour sur les arbres reverdis. Galamment, le prince
Mony Vibescu tenait ces propos à une jolie fille svelte qui, vêtue avec élégance,
descendait vers la Madeleine. Il la suivait avec peine tant elle marchait
vite. Tout à coup, elle se retourna brusquement et éclata de rire :
« Aurez vous bientôt fini ; je n’ai pas le temps maintenant. Je vais voir
une amie rue Duphot, mais si vous êtes prêt à entretenir deux femmes
enragées de luxe et d’amour, si vous un homme enfin, par la fortune et la
puissance copulative, venez avec moi. »
Il redressa sa jolie taille en s’écriant :
« Je suis un prince Roumain, hospodar héréditaire.
– Et moi, dit-elle, je suis Culculine d’Ancône, j’ai dix-neuf ans, j’ai déjà
vidé les couilles de dix hommes exceptionnels sous le rapport amoureux,
et la bourse de quinze millionnaires. »
Et devisant agréablement de diverses choses futiles ou troublantes, le
prince et Culculine arrivèrent rue Duphot. Ils montèrent au moyen d’un
ascenseur jusqu’à un premier étage.

https://romainelubrique.org/IMG/pdf/apollinaire-onze-mille-verges_feedbooks.pdf

Publication: 1907
Catégorie(s): Fiction, Érotique
Source: http://www.ebooksgratuits.com

PENSAR A QUESTÃO POLÍTICA DO BRASIL | José Gabriel Pereira Bastos

Transcrevo dados que me parecem fundamentais:

(1) o saldo civilizacional dos governos PT é brilhante – 13 anos de avanço intenso em numerosas variáveis 
Seguem as pesquisas com dados oficiais dos principais indicadores sócio-econômicos do Brasil antes e depois dos 13 anos de PT. 
:
1. SALÁRIO MÍNIMO:
Em 2003: R$240,00
Em 2016: R$880,00
Um aumento de 266% no período enquanto a inflação acumulada foi de 123%. Ou seja, um aumento real de 2003 pra 2016 de incríveis 64%.
Fontes: Min. Fazenda, IBGE e FGV.

2. IDH – ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO
Em 2003: 0,695
Em 2016: 0,755
Fonte: PNUD – ONU

3. EXTREMA POBREZA
Em 2003: 10,5% (Banco Mundial) 17,5% (IBGE)
Em 2016: 4,2% (Banco Mundial) 9,2% (IBGE)
O Banco Mundial e o IBGE. Em ambos percebemos uma queda acentuada (60% e 47,4% respectivamente) no percentual da população que vive em extrema pobreza.
Fontes: Banco Mundial e IBGE

Continuar a ler

DIA DE TODOS OS SANTOS – ORIGENS | Soledade Martinho Costa

Designado, primitivamente, dia de Nossa Senhora dos Mártires, esta data foi celebrada durante mais de dois séculos no dia 13 de Maio com um ofício próprio, enquanto por volta de 737 passa a ser incluída no cânone da missa uma alocução dedicada a todos os santos. Ainda no século VIII (741), Gregório III manda erigir na Basílica de São Pedro, em Roma, uma capela dedicada ao Divino Salvador, a Sua Santíssima Mãe, aos Apóstolos e a todos os mártires e confessores dando-se assim um maior impulso à Festa de Todos os Santos.
No século IX (835), a data desta festa religiosa é então fixada no dia 1 deNovembro pelo papa Gregório IV, que de há muito vinha pressionando Luís I, o Piedoso, rei de França, de modo a emitir um decreto que oficializasse a celebração. A partir de 837, por decreto real, a data da festividade no dia 1 de Novembro torna-se universal, constituindo uma das maiores solenidades para toda a Igreja Cristã.
No final do século X, Santo Odilão ou Odilon, quarto abade de Cluny (994 – 1048), junta às celebrações em louvor dos santos algumas orações em favor do descanso eterno dos defuntos. Esta introdução levou mais tarde a que se procedesse à separação das duas datas, vindo o dia 1 deNovembro a ser consagrado a todos os santos da Igreja Católica, enquanto o dia 2 passou a ser dedicado, exclusivamente, aos fiéis defuntos. Autores há que defendem constituírem as duas celebrações dodia 1 e dia 2 de Novembro uma única festa, expressa e directamente ligada ao culto dos mortos.

Soledade Martinho Costa

Excerto do livro «Festas e Tradições Portuguesas», vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores

Retirado do Facebook | Mural de Soledade Martinho Costa