25 de Novembro e Jaime Neves | por Carlos Matos Gomes in “Medium”

Neste 25 de novembro lembrei-me do Jaime Neves que conheci. E, a propósito da biografia pessoal que dele fez o professor Rui de Azevedo Teixeira, as múltiplas personalidades que todos somos e as muitas sombras que todos projetamos. As imagens que os outros vão criando de cada um de nós. Todas são verdade e nenhuma é a verdade. A biografia tem por título «Jaime Neves, homem de guerra e boémio» e o subtítulo «Jaime Neves por Rui de Azevedo Teixeira». É uma imagem de Jaime Neves criada por um autor, como uma pintura, ou uma fotografia.

Eu não tenho de Jaime Neves a imagem nem como homem de guerra, nem como boémio, embora tenha partilhado com ele a guerra e alguma boémia. Também conheço com alguma intimidade o papel dele no 25 de novembro de 75 e a imagem que dele tenho não é a da mitologia (pequena mitologia) que à sua volta alguns foram criando e que mais não são que a sua colocação numa moldura de circunstâncias, a circunstância da guerra, a circunstância dos excessos dos descansos dos guerreiros entre campanhas e batalhas, o aproveitamento dos guerreiros para fins de tomada de poder por parte dos que não querem correr o risco vida no combate.

Ao longo da vida tive a felicidade, que constitui o meu maior património, para além da minha família, de conhecer e conviver com personalidades extraordinárias, e aqui a palavra é a adequada, que incluem Samora Machel e Aquino de Bragança, generais como Spínola, Costa Gomes e Kaúlza de Arriaga, meus camaradas homens de guerra como Almeida Bruno, Raúl Folques, Santos e Castro, Abreu Cardoso, aventureiros e visionários como Jorge Jardim, seres históricos como Salgueiro Maia, mulheres como Isabel do Carmo, Maria Tereza Horta ou Maria de Lurdes Pintassilgo, até um comissário político da brigada Lister na guerra civil espanhola! E, dessa galeria de figuras, que incluem algumas que nunca referirei, faz parte o Jaime Neves.

No meu álbum há os que ali estão pelo que fizeram e outros pelo que são. Ao contrário da maioria, eu coloco o Jaime Neves no capítulo dos que ali estão pelo que foram, mais do pelo que fizeram. É evidente que para fazer é necessário ser, mas sermos o que éramos constitui o cimento de uma amizade que foi também fraternidade para surpresa e até escândalo de alguns que sempre andam curtos de compreensão dos sentimentos: — Então tu és amigo daquele gajo (e o gajo pode ser substituído à vontade por qualquer insulto)? — perguntaram-me e perguntaram-lhe tantas vezes. O respeito entre nós assentava em cada um ser o que era e saber quem era.

Eu e ele, por caminhos diferentes, sabíamos que éramos apenas instrumentos que estavam a ser utilizados em determinadas circunstâncias e para determinados fins. Estivemos, a partir de uma assembleia de afiar espadas em Tancos, no Verão de 75, no acto final da representação do que poderia ser uma clássica tragédia grega em coros diferentes, mas não deixámos de ser o que éramos: elementos de um coro que representava uma peça com desenlace conhecido.

Para mim, hoje e cada vez com mais convicção à medida que vou pensando nele e na nossa história recente, o Jaime Neves era, antes de tudo uma figura das que surgem nos períodos de crise, a do chefe de bando que arrasta os seus companheiros para a acção por motivos generosos e que acaba a servir um prócere, um grande de um regime, um magnata, como aconteceu com a figura que, sem fazer prestidigitação com figuras da história, gosto de comparar o Jaime Neves: a do Zé do Telhado.

O Zé do Telhado surgiu à frente da revolta da Maria da Fonte porque os defensores da velha ordem o escolheram com o argumento de não quererem para chefe “quem não conhecemos; à nossa frente há-de ir o José do Telhado; esse sim, que já viu o fogo e sabe como elas assobiam — clamavam os homens de Castelões e dos sítios vizinhos à porta do popular e abastado castrador”. (Eduardo Noronha in Zé do Telhado). O Jaime Neves tinha visto o fogo e ouvido o assobio das balas.

O Jaime Neves continuou a ser o que era depois do fazer e desfazer da guerra colonial, do período de agitação social que se seguiu ao 25 de Abril e deixou o poder entregue aos que recolheram os frutos do 25 de Novembro. Soube sempre quem eram os marqueses a quem tinha servido, como o visconde Sá da Bandeira a quem o Zé do Telhado serviu como ordenança. Teve sempre a superior inteligência do português de nunca entrar em concorrência com eles e de lhes deixar a imagem de uma utilidade que merecia ser recompensada ou que, pelo menos, não justificava o seu degredo, como os próceres costumam fazer aos que os levaram ao poder. Jaime Neves manteve-se na sombra quando os seus mandantes na batalha decisiva da Calçada da Ajuda, de que ele fora o nomeado comandante, a reduziram à categoria de meros “acontecimentos entre a Amadora e Belém”, porque a pacificação se tornou num produto mais rentável que o confronto e passou a ser perniciosa uma personagem com a imagem belicosa que lhe haviam criado e que ele assumira com alguma vaidade, que também era nele natural. O Jaime Neves também era bom dançarino.

O Jaime Neves que eu conheci era um ser humano de primeira água (também de primeiro uísque, reconheça-se sem falsos pudores). Tão inteligente e fino que soube sempre quem era e o que pretendiam dele. Um homem de respeito pelos valores essenciais, em especial o da camaradagem (distinta da amizade), e lembro aqui em sua memória a proclamação que o Zé do Telhado fez ao seu bando e que o Jaime Neves, tal como um outro extraordinário chefe de bando que quero recordar, o capitão Horácio Valente, poderia ter proferido em várias ocasiões: “Temos de levar a vida a sério se queremos vencer. E quem não estiver satisfeito pode sair já, a porta está aberta! De hoje em diante, a malta aqui reunida não será um bando de ladrões. Governamo-nos. Nesta comunidade, também não consinto que se matem pessoas; e só usaremos a força quando resistirem e nos obriguem a isso. Também não admito que ninguém se aproveite da ocasião para abusar das mulheres.”

O Jaime Neves, como alguns dos seus companheiros que com ele partilharam a guerra e a boémia, foi um fascinante chefe de bando. Mas gostaria de lembrar também neste dia aqueles que como ele estiveram à frente desta mesma “malta” fascinantes como ele, que, por serem quem eram, seguiram a tradição também portuguesa dos comandantes aristocratas, à semelhança de Francisco Manuel de Melo, comandante de companhias de Aventureiros. E lembro Santos e Castro e Almeida Bruno.

Por fim, não sei nem me importa discutir se o país, precisou ou virá a precisar de homens como estes, ou se lhes deve alguma coisa. Não sei se serão exemplo para alguém. Talvez seja bom sinal que não. No que me diz respeito, sinto que fazem parte de mim pelo que foram, antes do que fizeram e isso basta-me, para eu ter sido que sou. Por mim, tenho as contas reguladas com todos eles e com lucro pessoal que ninguém me cativará.

Carlos de Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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