Fidel, bem-me-quer, mal-me-quer | Ferreira Fernandes in “Diário de Notícias”

fidelFidel, um grande homem. Acabou como ditador e é preciso dizer que começou por acabar com um ditador, Fulgencio Batista. Com qualidade rara, a coragem, cortou com a sua própria situação de privilegiado e arriscou a liberdade e a vida. Aqueles que amocharam em situações semelhantes – e em Portugal ainda há gerações em que a escolha foi posta – deveriam não se esquecer de que houve um Fidel que fez o que eles deveriam ter feito e não fizeram. Que os tíbios reconheçam: “Honra aos que souberam dizer não quando o não era necessário e nós não estivemos à altura de o dizer.” E depois podiam, com mais mérito, criticar o Fidel liberticida. Acresce ainda que para lutar contra a ditadura Fidel não pôde contar com o exemplo da admirável América: ela era madrinha de Batista e madrasta de Cuba. Longe de Deus, não sei, mas tão próximo dos Estados Unidos – naqueles tempos, pelo menos – era mais difícil ser democrata. Poder tomado, Fidel tirou partido do seu jeito para o simbólico: caqui, charuto, barbas… Ora, os ícones – que se mostram muito, por definição – têm de função mais própria escamotear. Esse Fidel das fotografias romantizou o que foi; e ajudou a enganar sobre o que aí vinha. Os factos acabaram por ser: o ditador Fidel assassinou muitos e a todos os seus compatriotas tirou a liberdade. Ao combatente de grande causa, honra. Ao tirano, vergonha. E a todos nós, uma lição de história.

Ferreira Fernandes in Diário de Notícias 28-11-2016

As más ondas gravitacionais de Portugal | Ferreira Fernandes in “Diário de Notícias”

ferreira-fernandesTudo isto é estranho. Mas Schäuble ter tantos fãs em Portugal ainda é mais.

O homem do dedo em riste voltou a atacar. “Estamos atentos aos mercados financeiros e acho que Portugal não pode continuar a perturbar os mercados”, disse ontem Wolfgang Schäuble. Se o problema era o nervosismo dos mercados, o ministro alemão deve ter acalmado, deve. Ontem, o italiano La Repubblica: “Profundo Vermelho na Bolsa”; o espanhol El Mundo: “Os Mercados Duvidam da Solvência do Deutsche Bank”; o francês Le Monde: “Ações da Societé Général Mergulham”… Meu Deus, Costa, põe mão no Centeno, que a Europa não aguenta! O papel de Portugal nas finanças mundiais é tremendo. Portugal não é a minhoquice de Espanha (onde as perdas do IBEX, este ano, são só cem mil milhões de euros…), não, nós somos capazes de ondas gravitacionais negativas como só Schäuble e Einstein são capazes de prever, a cem anos ou já para a próxima crise. A Espanha só merece um raspanete: “O Eurogrupo descarta dar a Espanha a flexibilidade no défice que pede Rajoy” (ontem, El País). Ela é minorca economicamente e tem solidez política (tirando, claro, não ter governo e, a tê-lo, será com o Podemos, solução que pode estilhaçar o país, mas só na Catalunha…). Essa não assusta Schäuble. O problema, mesmo, é Portugal. Não chega o Centeno não pedir flexibilidade, prometer cumprir o défice e dizer ao Eurogrupo que tem medidas para o caso de “vir a ser necessário”… Tudo isto é estranho. Mas Schäuble ter tantos fãs em Portugal ainda é mais.

Ver original aqui:

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/as-mas-ondas-gravitacionais-de-portugal-5025950.html

Citando Pedro Marques Lopes

Deixemo-nos de tretas, Seguro é um político medíocre, tem mostrado uma confrangedora capacidade política, não consegue agregar, não consegue definir uma linha política coerente, mas é um especialista na arte da sobrevivência dentro do partido. Um verdadeiro exemplo do homem que nunca conheceu outra realidade que não fossem as lutas partidárias internas, os truques para preservar o poder. Seguro é um político frágil, fraco, indeciso e incoerente, mas é um leão da politiquice de máquina partidária.

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3946607 … (FONTE)

Seguro à espera que “gong” o salve | Ferreira Fernandes in Diário de Notícias

469448Costa saltou contra Seguro. Se calhar ele pensava que o secretário-geral se encolhia… Qual quê! António José Seguro subiu para o ringue, saltitando e dando ganchos no ar, com a pose de boxeur que se lhe conhece, queixo firme e discurso claro: “A minha consciência diz-me que eu tenho de continuar a lutar pelos valores e pelos princípios e habituem-se porque isto mudou.”

Juro, ele disse isto, ontem. Na mesma frase, “tenho de continuar a lutar pelos valores” e “habituem-se porque isto mudou”! No boxe chama-se a isso jabs, sucessão de golpes, esquerda-direita… Em discurso parece contraditório, mas agora António Rocky Seguro quer passar a imagem de durão. Ele adora desafios impossíveis, já antes queria passar por líder. O outro quis encostá-lo às cordas do congresso. Com um jogo de pernas notável, o nosso Belarmino do Rato lançou-se para as primárias. Eu explico o que isso quer dizer em boxe. Suponhamos que o pugilista receia um KO, porque reconhece que o adversário é mais forte. Então, refugia-se nas cordas, dança, enfim, compra tempo. Com um passado de ganhar por pouco, Seguro quer agora ganhar muito. Muito tempo. O outro atrás dele para uma luta leal e ele às voltinhas à espera que o gong o salve. Vocês vão dizer-me: “Mas ele vai ficar mal visto…” Não sei. O erro mais visível de Seguro era ter o título de líder e sê-lo pouco. Agora, a fugir à luta, ele já ganha coerência. Já é ele. Na política a coerência é importante.

Ferreira Fernandes, Diário de Notícias