REFLEXÕES EM TORNO DO G7 Inquietações: um G7 muito combativo Victor Ângelo | in Diário de Notícias

O G7 agrupa as maiores economias liberais, ou seja, por ordem decrescente de grandeza, os Estados Unidos, o Japão, a Alemanha, o Reino Unido, a França, a Itália e o Canadá. Representam, no seu conjunto, cerca de 50% da economia mundial. A liderança do G7 em 2021 cabe aos britânicos, que organizaram nesta semana uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, em preparação da cimeira prevista para junho.

Passaram dois anos sem se reunir.

A pandemia e o mal-estar causado pela presidência de Donald Trump explicam o longo hiato. Agora as realidades são outras. O controlo da pandemia parece possível, graças às campanhas de vacinação. E as políticas seguidas em Washington já não são imprevisíveis. Mesmo assim, foi preciso decidir entre uma reunião presencial ou não. Após um ano de conferências virtuais, concluiu-se que, em matéria de diplomacia, o contacto pessoal é, de longe, o mais produtivo. A maioria das videoconferências realizadas entre políticos ao longo da pandemia acabou por ser um mero exercício formal, em que cada um lia o texto que tinha à sua frente, sem se proceder a uma troca de ideias, a uma análise das opções ou a um comprometimento pessoal. Regressamos agora, a passo seguro, às discussões frente a frente.

Um outro aspeto diz respeito à lista de países exteriores ao G7 mas convidados para a reunião. Limitou-se a África do Sul, Austrália, Coreia do Sul e Índia, bem como a duas organizações supranacionais, a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e a União Europeia. A leitura política desta escolha é fácil de fazer. Há aqui uma clara preferência, e não apenas dos britânicos. A aposta económica e geopolítica é na Ásia, no reforço das relações com os países que possam fazer frente à competição vinda da China. A América Latina e o Médio Oriente foram simplesmente ignorados.

A China foi aliás uma preocupação dominante. As consultas entre os ministros começaram por aí. Os EUA estão a seguir uma linha muito complexa em relação à China. Procuram, no essencial, combinar antagonismo com cooperação. Hostilidade, em geral, e acertos no particular, em certas matérias concretas, como por exemplo na área das alterações climáticas ou sobre o Irão. Na minha opinião, esta linha não resultará. A mensagem recebida em Beijing, proveniente de Washington, resume-se numa palavra – confrontação. E os chineses responderão a essa perceção taco a taco, numa moeda equivalente.

Os próprios europeus – e isso ficou patente nas posições da Alemanha e da França – julgam excessiva a posição americana em relação à China. Estão de acordo com Washington quando se trata dos direitos humanos, Hong Kong ou Xinjiang, ou ainda da proteção da propriedade intelectual. Consideram, porém, que a Europa tem muito a ganhar se a relação com a China assentar no respeito pelas regras estabelecidas e na prossecução de vantagens mútuas. O Japão prefere seguir uma política semelhante à europeia, apesar da pressão exercida pela administração Biden.

A Rússia também ocupou um lugar proeminente na agenda. O Kremlin é hoje visto como uma ameaça para as democracias europeias e americana. Nesta matéria, a sintonia entre os dois lados do Atlântico é mais clara. A questão da defesa dos regimes democráticos, incluindo a luta contra a propagação de informações falsas ou enviesadas, foi um tema importante.

O secretário de Estado americano foi a Londres propor um novo prisma de abordagem estratégica. Antony Blinken defende que o grupo não pode ser apenas um mecanismo de coordenação das grandes economias capitalistas. Deve transformar-se numa plataforma de intervenção política das democracias mais influentes. Isto é a expressão de uma crença prevalecente na atual administração americana de que os EUA têm uma missão – a de salvar as democracias. Para alguns de nós, aqui na Europa, uma proposição desse tipo gera três tipos de inquietações. Uma, relacionada com a crescente marginalização do papel político da ONU. A outra, com o agravamento da polarização das relações internacionais. A terceira, com o peso que um fantasma chamado Trump ainda poderá vir a exercer na política americana.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Victor Ângelo

Opinião / DN

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

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