A revolução pelo orçamento | Entre a tomada da Bastilha e o teatro no canal Memória | por Carlos Matos Gomes

A saga da discussão da proposta de orçamento geral do estado para 2021 é idêntica à dos anos passados. Os políticos são mais previsíveis que cantores de karaoke e os partidos são mais repetitivos que uma formatura da tropa a evoluir em ordem unida às ordens dos mesmos comandantes.

A discussão do orçamento é fácil para a direita, porque o regime vigente de capitalismo e democracia liberal corresponde à sua matriz de interesses. São contra os orçamentos dos partidos sociais-democratas porque estes atribuem sempre, e na sua visão, demasiados recursos a serviços públicos que podiam ser entregues ao lucro privado. A direita vota contra os orçamentos sociais-democratas porque transforma em despesa pública uma parcela significativa dos seus possíveis lucros. Une-se, por isso, com facilidade quer para votar contra, quer para encontrar fórmulas coligadas de governo. Simples.

O drama — se é que viver em contramão é drama — encontra-se na esquerda. A esquerda, por definição quer mudar o sistema e o mundo. Quer a revolução na posse dos meios de produção e no modo de produzir, visa a tomada do poder. Os sociais-democratas são seus inimigos. É histórico e há mais de cem anos.

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Vivemos no Inferno? | Carlos Matos Gomes

Mas tu quem és, que, em tribunal sentado, julgas, de léguas em milhões distante, se mal vês o que a um palmo é colocado? Dante, Divina Comédia, Canto XIX

A acreditar nos jornais e nas televisões vivemos no Inferno. Embora apenas os seus celebrantes e comentadores saibam o que é o Inferno. A nós, multidão e rebanho, resta acreditar neles, ter fé nos que nos garantem que vivemos no Inferno!

Nada de novo. Por volta de 1300, há sete séculos, já Dante Alighieri, na Divina Comédia se dera a esse mesmo trabalho de descrever o Inferno em pormenor e em círculos dedicados a cada pecado ou crime. A verdadeira intenção dele não terá sido, tal como não é a dos seus atuais seguidores, alertar os homens para as consequências das práticas dos crimes e pecados, amedrontando-os com os sofrimentos eternos dos exemplares ali caídos, mas sim uma outra bem mais prosaica: Dante, como os arautos da desgraça do nosso tempo e senhores dos novos meios de comunicação, pretendia, isso sim, diminuir a concorrência, para assim ser mais fácil aos poderosos em atividade terrena realizar os seus pecados e crimes, matéria-prima indispensável ao prazer, à obtenção de poder e riqueza.

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O que vestir na escola? E no trabalho? | Carlos Matos Gomes

A escola do Agrupamento de Escolas Cardoso Lopes, na Amadora, tinha afixado à sua porta um cartaz a mostrar o que os alunos podiam ou não vestir, um código de vestuário para frequentar um estabelecimento de ensino público.

O ensino público inclui dois pontos nucleares que a sociedade, através do Estado, entende serem essenciais para a vida em comum e, por isso, decidiu afetar-lhe vastos recursos públicos: saber de humanidades e ciências que se possam traduzir em criação de riqueza e bem estar e uma integração social que proporcione uma harmoniosa vida em comum, isto dentro do princípio de que uma sociedade é mais que um agregado caótico de individualidades. Eram proibidas tops cai-cai — uma peça de pano usada por mulheres que circunda as mamas e deixa o umbigo à vista — calções curtos, calças largas ou descaídas, segundo a moda originária das prisões americanas para os presidiários anunciarem a disposição para relações sexuais (segundo informação da internet).

No regulamento interno da escola existia também uma regra que determinava que o vestuário não podia “expor partes do corpo, que possam atentar contra o pudor público”.

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AUKUS: UM ACORDO PARA ACORDAR A UNIÃO EUROPEIA | Paulo Sande

Não podia vir mais a propósito.

Três países – EUA, Reino Unido e Austrália, aliados antigos, um dia depois de Ursula von der Leyen ter feito o seu discurso da União e apelado à Europa da Defesa, anunciaram um acordo de segurança que é, na opinião de muitos especialistas de segurança, o maior desde a 2ª guerra mundial.

O AU – (u)K – US (AUKUS) formaliza a cooperação de defesa entre estes países na região do Indo-Pacífico e foca-se na capacidade militar, com dimensões como a cibernética, tecnologias quânticas, inteligência artificial. E depois (ou antes) há os submarinos.

1. SUBMARINO AO FUNDO

A compra de submarinos nucleares pela Austrália, o investimento mais caro de todo o acordo, criou um incidente diplomático com a França. Não admira, pois fica em causa o contrato (de 2016) de venda de 12 submarinos convencionais por parte da França à Austrália que, com este acordo, compra submarinos nucleares aos EUA (que pela 2ª vez apenas partilham a sua tecnologia submarina), tornando-se o 7º país do mundo a tê-los.

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Insubstituíveis e heróis circunstanciais | Carlos Matos Gomes

Jorge Sampaio deixou um exemplo. Um exemplo de santidade ou martírio? Não: um exemplo de decência!

Os cemitérios estão cheios de insubstituíveis. É uma frase feita para querer significar que nem nos devemos dar demasiada importância, nem aos outros, porque o mundo seguirá a sua marcha, independentemente dos nossos trabalhos, preocupações e esforços.

A frase é feita e, como falácia, contem verdade e não a verdade. A questão não é a dos insubstituíveis. A questão é a de que não existimos para nos substituir uns aos outros, mas sim para nos continuarmos, seja por evolução, seja por rutura. Nesse sentido, somos como os corredores de estafetas: tem de existir alguém que, terminado o nosso percurso, pegue no testemunho e prossiga a prova. Ou que parta para outro destino e por outra pista!

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Arts et crise sanitaire | Un éternel retour à la case départ | Souâd Kedri  

En cette période de crise sanitaire, l’art peut être une bouffée d’air frais face l’asphyxie omniprésente que nous impose la pandémie. Il n’est donc pas à sous-estimer. L’homme a besoin de l’art et de ses effets empathiques, éthiques et thérapeutiques. L’art contribue au bonheur, à la paix, à l’enrichissement intellectuel, au développement personnel et à la résilience pour voir les limites de notre courage et notre volonté à dépasser toute épreuve difficile. En somme, c’est un moyen d’une fin jugée bonne et utile, il constitue un réel apport pour l’épanouissement de l’individu en société.

L’art sert à se laver l’âme de la poussière de tous les jours disait Pablo Picasso. Et en ce moment de vide, de peur et de panique collective, comment peut-on utiliser les arts à bon escient ? Les arts peuvent adoucir notre quotidien marqué par les incertitudes de par leurs fonctions empathiques, éthiques et de cohésion sociale ne serait-ce que sur le plan virtuel. La musique, la littérature, le cinéma, les arts visuels et les jeux nous permettent de réfléchir notre humanité, de consolider notre solidarité et d’imaginer la période post-pandémie. L’art, c’est le plus court chemin de l’homme à l’homme, rappelait André Malraux.

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A ORIGEM DO MEDO | Pedro Adão e Silva

Porventura, se optasse por examinar, por exemplo, o que é que permitiu a Marcelo Rebelo de Sousa, sendo de direita, vencer eleições com amplas maiorias, perceberia que as vitórias sustentáveis não se constroem a partir do ressentimento social, de polarizações artificiais ou de batalhas culturais fictícias. Tudo fatores que, enquanto descentram o debate público da discussão de alternativas, promovem um entrincheiramento que degrada a capacidade de compromisso.

Pedro Adão e Silva  | Jornal Expresso 03-09-2021

Entrevista a Luís Miguel Cintra

Acredita na permanência das nossas ações?

Quem encontrou a forma de me explicar isso foi o Manoel de Oliveira, dias antes de morrer. Disse-me: “Sabe como é a morte? A pessoa deita fora o último suspiro, é o espírito que abandona o corpo. O corpo morre completamente, é lixo, mas o espírito sai da boca e mistura-se com o espírito universal. É como os rios, que perdem o seu carácter quando chegam ao mar. Mas fazem parte dele, e ele é igual em toda a parte.” Esta explicação é aquela que, usando conceitos nossos, humanos, me pareceu a melhor.

De que tem medo?

Tenho medo do que possa acontecer às pessoas de quem gosto, não queria que sofressem. Assisti a isso muitas vezes e é terrível. Quanto a mim, não tenho medo da morte. Não gostava nada era de morrer tão cedo. Portanto, não é medo de morrer: é vontade de continuar.

OTELO E A MEMÓRIA DO PREC Público, 16.08.2021 | Elísio Estanque

Vivi esse período de forma intensa como grande parte dos portugueses da minha geração. Assim, e porque a historia dos acontecimentos é conhecida, talvez se possa agora acrescentar conhecimento sobre o PREC e Otelo Saraiva de Carvalho recorrendo a uma perspetiva subjetiva, vinda do seio da multidão, mas enquadrada pelo exercício de reflexão e autocritica à distância de quatro décadas.

Foi Otelo e o MFA que abriram as portas da liberdade. Mas foi ao longo daqueles meses de brasa que se seguiram ao 25 de Abril, que a revolução se desencadeou. Os sonhos libertários irromperam das esquinas mais recônditas dos bairros operários, das fábricas industriais, dos amontoados de barracas onde os esgotos eram ainda a céu aberto, etc. Foi para aí que convergiram os mais diversos grupos de ativistas espontâneos, os setores sociais mais inquietos, em especial os jovens, alguns ainda sob a influência do Maio de 68 e dos movimentos estudantis da década anterior. Por detrás da linguagem polarizada da “classe contra classe” (democracia contra fascismo, ricos contra pobres ou operários contra a burguesia) ocorreu uma autêntica “fusão de classes”, quando o radicalismo de classe média rompeu com os valores pequeno-burgueses para abraçar a causa operária e popular. Uma força imparável de invenção criativa brotou dessa comunhão interclassista capaz de vislumbrar o paraíso debaixo das ruas insalubres dos bairros da periferia. Uma torrente de gente feliz, igualitária, unida em torno de projetos verdadeiramente emancipatórios como o dos “índios da Meia-Praia” (em Lagos) celebrizado pela conhecida canção do Zeca Afonso. Apesar da incipiente cultura democrática, a democracia nunca foi tão efetiva, não apenas pela mobilização coletiva mas até pelo envolvimento direto das Forças Armadas (MFA) numa dinâmica de «bottom-up», de que é exemplo o projeto SAAL.

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Cabul e a vitória da guerrilha | Luís Alves de Fraga

O Afeganistão foi um território onde ingleses, russos e americanos nunca conseguiram impor-se à cultura local.

Só há uma explicação para isso: ao contrário de compreenderem o povo afegão, os seus costumes, as suas necessidades e os seus anseios, tentaram ocidentalizá-los, abrindo estradas, fazendo escolas e hospitais. Tudo isso constituiu um tremendo erro.

O islamismo tem de ser compreendido, estudado e interpretado segundo os princípios que o regem. A primeira grande diferença entre as culturas ocidentais, influenciadas pelas culturas greco-romana e judaica é que a religião, tal como Jesus afirmou, “é de Deus” e a política “é de César”. No islamismo, política, justiça e religião confundem-se sem dar lugar à tripartição do poder ‒ legislativo, executivo e judicial ‒ porque, soberano é Deus, que se revelou e ditou a justiça, as leis e a governação, através do seu profeta, Maomé.

As fontes da Lei são o Alcorão seguido da Suna (relato da vida e dos caminhos do profeta) e, depois, os hádices (narrativas do profeta). Tudo está contemplado nestes escritos tidos como sagrados e, mais do que isso, soberanos no sentido atribuído pelo Ocidente à palavra (depois da Revolução Francesa), ou seja, detentores de todos os poderes.

É assim, deste modo que, para um muçulmano, o Estado, a chefia do Estado e a chefia religiosa se confundem. Um condutor religioso é, também, um condutor político e jurídico.

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Afeganistão – um mono | Carlos Matos Gomes

Tht’s all folks — é tudo, malta. Não há mais pipocas

Uma das definições de mono é a de “mercadoria sem venda no comércio”, de “qualquer coisa que deixou de interessar”. Desde o 11 de Setembro de 2001, o Afeganistão foi um falso alvo, uma fancaria. Um tigre de papel, na linguagem maoista dos anos 60 e 70. Transformou-se definitivamente num nono para os Estados Unidos com o anúncio da captura e morte no Paquistão, de Bin Laden, o saudita chefe da Alqaeda, em 2011, com direito a filme de rambos.

A Alqaeda e Bin Laden foram o produto desenvolvido a partir de um dos muitos bandos da região e de fanáticos locais, inchado, armado e subcontratado pela administração Reagan para fazer a guerrilha contra a URSS, que ocupara o Afeganistão para evitar a islamização das repúblicas soviéticas do sul. A teoria de que a URSS pretendia avançar para as “águas quentes” do Índico foi uma narrativa para vender armas e justificar ações, que muitos “estrategistas”, incluindo militares, pregaram sem correspondência com qualquer racionalidade. Na realidade, a administração Reagan pretendeu apenas negar a um inimigo (a URSS) a posse de um território que lhe era relativamente importante. Um objetivo clássico nas manobras militares. A administração dos EUA conseguiu a vitória de Pirro: a URSS abandonou o Afeganistão e os EUA “ganharam” a Alqaeda bem treinada e equipada, com um louco como chefe carismático e um imbróglio com os aliados sauditas, os maiores compradores da quinquilharia produzida pelo complexo militar americano e comparsas de Israel na desestabilização do Médio Oriente.

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Algumas notas a propósito da derrota do Ocidente no Afeganistão | Nuno Pereira da Silva Coronel (R)

Participámos como nação aliada da NATO, muito ativamente na guerra do Afeganistão, e na sua Reconstrução, muito em especial na Capacitação das suas Forças Armadas, onde inclusive tivemos dois mortos, um graduado do RI1, e uma praça paraquedista.

Não estive no Afeganistão, mas participei na Reconstrução do Iraque, na Reforma do seu Setor de Segurança, ou seja na Capacitação duma Forças Armadas modernas. Pelo que sei no Afeganistão foi seguido o mesmo modelo Americano, Chapa4, ou seja uma imposição dum modelo ocidental expúreo à sociedade, à cultura, e às Forças Armadas  e de Segurança  Afegãs, que  não são nacionais mas tribais, pertencem aos Senhores da Guerra.

Os militares americanos e da NATO trabalhando dia e noite, esforçando-se, por vezes zangando-se com a contra-parte Iraquiana que não queria, ou não tem capacidade para compreender o que se lhes pede, era o denominador comum.

Formar Comandantes de Divisões, a partir de guerrilheiros sem formação, é um esforço inútil.

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Sartre : “L’enfer, c’est les autres”

Ce n’est pas une guerre de tous contre tous que dépeint Sartre, mais un drame intérieur à la conscience, qui se découvre exposée au regard d’autrui. Explications. Par Sébastien Blanc

« L’enfer, c’est les autres. » Cette phrase de Huis clos de Sartre prête à contresens. On la comprend souvent comme simple modulation de la phrase tout aussi célèbre de Hobbes : «  L’homme est un loup pour l’homme.  » Pourtant, ce n’est pas une guerre de tous contre tous que dépeint Sartre, c’est un drame intérieur à la conscience, par quoi elle se découvre exposée au regard d’autrui. Pour le saisir, il faut revenir à ce que dit Garcin, l’un des trois personnages de la pièce, à la fin de Huis clos : «  Tous ces regards qui me mangent. […] Pas besoin de gril, l’enfer c’est les autres.  » L’enfer ne relève pas de la torture physique, mais du fait de ne jamais pouvoir s’extraire du jugement d’autrui.

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Ainda houve Jogos! | Carlos Matos Gomes

Os Jogos Olímpicos de 2020 terminaram no Verão de 2021. Os seus patrocinadores esticaram o calendário gregoriano para escapar aos efeitos catastróficos causados por um reles vírus e passaram as atuações dos estádios para os estúdios de televisão. O vírus reduziu a um videojogo o grande espetáculo dos Jogos Olímpicos. Mas houve Jogos em casa dos consumidores planetários! Era o que interessava. Quanto aos próximos não sabemos. Valha-nos a inteligência artificial!

Os Jogos 20–21 foram a vitória de Pirro dos que iludem os seus semelhantes sobre a vitória da humanidade contra a natureza. Desta vez a chama olímpica ainda conseguiu tornar invisíveis as fontes das calamidades que inundam a Europa e a Ásia, do degelo nas zonas polares, dos incêndios na Austrália, na Califórnia, na Grécia, das secas, das migrações de milhões de seres sem condições de sobrevivência. Desta vez os senhores dos Jogos ainda conseguiram calar qualquer manifestação que acusasse as políticas que conduziram ao desastre resultante da sobrexploração de recursos naturais e da iníqua distribuição deles. Nem sequer foi permitido um minuto de silêncio a recordar as duas bombas atómicas lançadas sobre o Japão, a prova de que é possível aos dirigentes da humanidade conduzirem-na a um harakiri apocalítico e evitar reclamações.

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Reflexão do Presidente da Associação 25 Abril | VASCO LOURENÇO

O falecimento do Otelo, as diversas reacções ao mesmo, um debate que tive com o Mário Tomé, levam-me a algumas reflexões, sobre o posicionamento do MFA, nomeadamente no que diz respeito à sua intervenção na vida política no pós 25 de Abril. 

Muitos me aconselham a que “não vale a pena”, “não ganhamos nada com isso”, as ideias estão formatadas e formadas”, “a História nos dará razão e fará justiça”. 

Tudo bem, mas sou dos que consideram que, se nos calarmos, outros farão a História. Por isso, insisto em recordar alguns factos, mesmo que acompanhados de desabafos pessoais. Confio que me compreendam.

REFLEXÃO

Antes de mais, realço o posicionamento global que, constituindo o objectivo que nos uniu, seria também o que faria com que os que a ele se mantiveram fiéis fossem os que conseguiram sair vencedores das divisões em que nos envolvemos: falo da firme determinação em criar condições para que fossem os portugueses a decidir sobre o seu futuro. 

Posicionamento que, como sabemos mas vale a pena relembrar, estava plasmado –  de forma clara, precisa e concisa, como é timbre dos militares – no Programa do MFA (mesmo depois de alterado pela pressão de António de Spínola).

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Mas … dos que atiram a pedra e escondem a mão | Carlos Matos Gomes

Além dos putativos herdeiros dos movimentos mais violentos e totalitários da história moderna e contemporânea de Portugal, desde a Vilafrancada miguelista de 1823, até aos bombistas e saqueadores reunidos na sé de Braga e nas escritórios do franquismo em Madrid, do cónego Melo ao comandante Alpoim Calvão que colocaram “Portugal a arder” com o ELP e o movimento Maria da Fonte, dos que ainda choram o fim da ditadura e da guerra colonial, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho proporcionou o ressurgimento de um outro grupo, o do “mas”. O grupo dos falsos “cândidos”, dos que argumentam candidamente que a operação militar foi boa, “mas” a revolução não foi democrática e o seu desenrolar até foi atribulado.

Os do “mas” não perdoam a Otelo a responsabilidade de ter transformado um putsh militar numa revolução, incentivado os portugueses a agir e a organizar-se espontaneamente para decidir o que fazer após o derrube da ditadura, o fim da polícia política, dos tribunais plenários, da censura, do poder patronal absoluto! Ora, esta liberdade tomada por necessidade e impulsionada por Otelo, constituiu e constitui uma ofensa imperdoável aos “mas” sobre o que “devia ser uma democracia”, trazida já talhada, pronta-a-vestir do Posto de Comando da Pontinha, ou, ainda melhor, de casa do general Spínola.

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Portugal Ressabiado | Carlos Matos Gomes

Em 1972, Mário Soares publicou em França um livro sobre Portugal a que deu o título de «Portugal Amordaçado». Havia, então, um Portugal amordaçado pelo Estado Novo e a sua polícia política, um Portugal amordaçado pela falta de direitos elementares de cidadania, direito à palavra, à representação, direito de reunião, de organização, havia um Portugal amordaçado que não podia falar do colonialismo, nem da guerra colonial, nem na busca de soluções que não fossem a continuação da guerra, havia um Portugal amordaçado pelos grandes patrões da indústria e da banca, um Portugal amordaçado pela Igreja Católica e pelo partido único, a União Nacional.

Havia, de facto, um Portugal amordaçado, mas havia e há um Portugal que gostava e gosta da segurança da mordaça, da tortura, da violência dos Pides, dos assassínios dos opositores, da censura, da União Nacional, dos regedores e autarcas nomeados, dos deputados escolhidos entre os fiéis e os compadres, um Portugal que gostava e gosta das cargas da Polícia de Choque e da GNR, das arruaças dos legionários, havia e há um Portugal herdeiro do ultramontanismo absolutista do século xix, um Portugal miguelista, satisfeito com as ordenações do trono de Salazar e as bênçãos do altar do Cardeal Cerejeira, confortado com as denúncias dos informadores. Havia e há um Portugal agradecido por pertencer a um rebanho, por ter pastor e cão de guarda.

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Os Espirito Santo, Otelo e os 4 pilares do regime | Carlos Matos Gomes

O regime em que ainda vivemos assenta em quatro pilares fundadores: os Espirito Santo (representados pelo atual patriarca Ricardo Salgado), Otelo, Mário Soares e Eanes. Os Espirito Santo eram os banqueiros do regime de Salazar (não os únicos, mas os principais); Otelo foi o comandante da operação que derrubou o regime de Salazar (Marcelo Caetano não passou de um cuidador de tratamentos paliativos) e deixou o povo entrar na história; Eanes comandou o 25 de Novembro de 75, que abriu as portas ao regresso dos banqueiros e do seu sistema de criação de moeda, tarefa fundamental para a existência do atual regime de democracia liberal, um retorno de que Mário Soares politicamente se encarregou e apadrinhou.

O novo regime pós 25 de Novembro reestruturou o sistema financeiro português, aproveitando a reversão das nacionalizações de Março de 1975, varrendo os banqueiros da “velha guarda”, para integrar o capital nacional no sistema financeiro internacional e na dependência do espanhol, criando um mercado ibérico. Levou na enxurrada desde Champalimaud (Banco Sottomayor) a Cupertino de Miranda (BPA), os mais representativos desta classe. Foram substituídos por um banco da Opus Dei (Jardim Gonçalves — Milleninum/BCP, vindo de Espanha) e Maçonaria (BPI/Santos Silva). Do antigo regime, restou a família Espirito Santo, respaldada pelas ligações aos Rothschild e Rockfeller, à banca francesa e americana e aos interesses em Angola. (Era importante fazer a história do desaparecimento dos Banco Português do Atlântico e do Sottomayor.)

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Atrapalhações cubanas | Francisco Louçã

Não sei se gosta de romances policiais e se leu o “Quarteto de Havana”. Vale a pena, esses livros são alguns dos raros mas saborosos casos em que a história foge do pitoresco e escapa ao padrão que define aquele estilo literário. São, simplesmente, grandes romances. Mas, como não podia deixar de ser, há um fio condutor, que no caso é a vida difícil, quem sabe se a decadência, ou devemos chamar-lhe a persistência?, de um personagem que nos conduz pelo dia a dia de Cuba: Mário Conde foi polícia, tornou-se detetive privado, é um desenrascador, vagamente justiceiro, além de ser um gastrónomo militante, sobrevivendo encostado aos milagres da cozinha da mãe de um antigo camarada de aventuras. Navegando pelas ruas de Havana, Conde chega onde os seus antigos colegas não vão, descobre o crime de um membro do Comité Central, investiga traficâncias de diplomatas, roubos de arte, negócios de emigrados, polícias corruptos e que fecham os olhos, contorna burocratas implacáveis. Há nos livros alguma tristeza, bastante nostalgia e um gigantesca afirmação de amor pela sua terra. E perdemo-nos em intrigas sem concessões, chegamos a finais amargos, o escritor não nos facilita a vida, a rotina continua em Havana.

Leonardo Padura, o autor, é mais conhecido por outros escritos ousados, “O Homem que Gostava de Cães” ou “Os Hereges”. Mas foi com Mário Conde que começou e foi assim que foi descoberto pelos seus compatriotas. Porventura por isso, Conde regressou em “A Transparência do Tempo” para novas rodadas. Graças ao “Quarteto”, a Conde e a toda a sua obra, Padura será o escritor mais popular no seu país, onde ninguém ignora que se trata de uma voz crítica. Por isso, quando a direita festeja os protestos populares nas ruas de várias cidades, fantasiando triunfantemente a vingança de Batista, e enquanto nas esquerdas as opiniões se dividem entre defensores do regime, incluindo alguns dos seus conversos mais recentes que, ao tempo do choque entre Krutchov e Castro estavam indefetivelmente do lado soviético, e aqueles que sentem o protesto popular sobre dificuldades reais de gente real, quando tantas palavras são esgrimidas sem candura, ficamos a saber mais sobre Cuba se o ouvirmos.

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Pierre Lévy: “Muitos não acreditam, mas já éramos muito maus antes da internet”

9/06/2021 -El escritor, profesor y filósofo tunecino, Pierre Lévy fotografiado en su cabaña en Ottawa, Canadá – ©Justin Tang (Contacto)

Escritor, professor e filósofo analisa o impacto das novas tecnologias e a hiperdigitalização em nossas sociedades. “Desde o momento em que há linguagem, há mentira e manipulação”.

Há 30 anos, Pierre Lévy (Túnis, 1956) já falava e escrevia com desenvoltura sobre assuntos como o teletrabalho, as fake news, a realidade virtual e as mudanças que as novas tecnologias viriam a provocar na cultura. Estaríamos, portanto, perante o que sinteticamente se costuma chamar de um visionário. Quando no começo da década de 1990 ele elucubrava para quem quisesse ouvir sobre o indefectível advento de uma superestrutura universal de comunicação e troca de dados, a internet ainda estava apenas engatinhando. A leitura de obras suas como As tecnologias da inteligênciaA inteligência coletivaCiberculturaCiberdemocracia e O que é o virtual? fornecem chaves valiosas a respeito não só das infinitas possibilidades das novas tecnologias nas sociedades digitais, mas também sobre os usos e abusos que o poder político faz da internet e sobre o triunfo de um tecnopoder mundial no qual o que ele chama de Estados-plataformas (Apple, Microsoft, Google, Facebook, Amazon etc.) já estariam acima dos Estados-nação.

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A DÉCADA DECISIVA | José Ribeiro e Castro

Opinião

Quanto a fundos europeus, a questão, 35 anos após a adesão, é esta: 120 mil milhões de euros depois, como está Portugal? Comparando com os outros, estamos melhor? Ou pior?

Há 22 anos discutia-se o QCA III, o quarto pacote de fundos de que beneficiámos desde 1986. Cada pacote era grande festim: ocupava todo o palco, gerava manchetes qual montra de guloseimas. A imprensa titulava quantos milhões Portugal recebia por dia. O banquete soava como a razão real da adesão. Foi o que me levou a concluir que Portugal cultivava uma visão mamífera da Europa. Coisa poucochinha.

O governo advertia que seria o último. Nunca percebi a abordagem: pelas regras fixadas, Portugal faria jus aos fundos enquanto precisasse. E assim foi. O QCA III seria o último, mas mudou de nome: entrou-se na geração dos QREN, de que estamos no terceiro. O que pensava – e mantenho – é que devíamos libertar-nos da dependência, assumirmos o propósito de passarmos a contribuintes líquidos, isto é, ser parte dos países mais ricos da UE. Sempre pensei assim.

Como é que isso se faz? Crescimento económico! Nós temos de crescer sempre mais que a média europeia, para avançarmos, ano após ano, para os lugares da frente.

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RELAXAMENTO | jornal expresso “curto”

João Pedro Barros
Coordenador Online
O dia mais longo, a variante mais perigosa, a vacinação que acelera
21 JUNHO 2021

Bom dia,

Vários epidemiologistas já tinham avançado com a teoria, mas ontem passou a ser oficial: a variante Delta (também conhecida como indiana) já é dominante em Lisboa e Vale do Tejo, onde tem uma prevalência superior a 60%. Como qualquer variante mais transmissível, dizem os especialistas, será uma questão de tempo até alastrar a todo o país e engolir a variante Alfa (dita também inglesa ou de Kent).

Os dados são do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e ainda preliminares, mas tornam claro que há um problema a resolver, para já centrado na capital – no Norte a prevalência da variante ainda é inferior a 15%. Esta estirpe é até 60% mais transmissível do que a inglesa, que por sua vez já era mais transmissível do que o SARS-CoV-2 original. Pode encontrar aqui respostas às principais dúvidas sobre a variante Delta.

Esta será apenas parte da explicação para a região de Lisboa apresentar um crescimento exponencial de infeções: há oito dias consecutivos que representa, mais coisa menos coisa, dois terços dos novos casos em Portugal. Será difícil saber exatamente qual o grau de importância de outros fatores, mas presumo que eles possam ser resumidos numa palavra: relaxamento.

É certo que temos de ler agora os números com outros olhos: em janeiro o país teve uma média de 179,9 mortes diárias devido à covid-19, nos últimos 30 dias a média foi de 1,6. Porém, já há especialistas sem medo de usar o termo “quarta vaga” e que avisam que há outro fator crítico a preservar: a operacionalidade do Serviço Nacional de Saúde, que pode estar novamente em causa, ainda para mais num momento em que há um esforço para recuperar os atos médicos em atraso após dois confinamentos. A lotação covid-19 já aperta na região de Lisboa.

Se há um fator de consenso entre os epidemiologistas é que há sérios riscos quando se deixa a situação pandémica fugir de controlo – e há países que já são casos de estudo, como o Chile, em que se registaram fortes surtos mesmo com elevadas taxas de vacinação. Face a isto esperam-se respostas políticas, com a população já claramente cansada de confinamentos e seus sucedâneos – como bem ajudou Marcelo Rebelo de Sousa a frisar.

Há algumas medidas possíveis, sendo a mais benigna acelerar ainda mais uma vacinação que já vai de prego a fundo: este sábado foi um dos dias com mais inoculações da campanha (138.477), cumprindo-se a promessa do vice-almirante Gouveia e Melo de ultrapassar as 100.000 doses por dia em junho. Se olharmos para a média móvel a sete dias verificamos uma curva bastante ascendente, que se quer agora prolongar: no seu espaço de comentário na SIC, Marques Mendes revelou que vai abrir um novo centro de vacinação no Estádio Universitário de Lisboa, assim como confirmou que o processo será alargado à faixa etária dos 20 aos 29 anos a meio de julho.

Hoje é precisamente o dia mais longo do ano, que marca o início do verão no hemisfério norte: o solstício de verão ocorreu há poucas horas, precisamente às 3h32, e como era bom que pudéssemos ter um dia soalheiro em que, como por magia, pelo menos dez milhões e tal de pessoas ficassem protegidas num ápice.

Isto não vai acontecer e até o verão, fresco e chuvoso, parece deprimido. A resposta da vacinação não se afigura suficiente para resolver o problema, pelo que se exigem pelo menos duas medidas quase tão velhas como a pandemia em si: testagem em massa e rastreamento rápido e rigoroso. A testagem, após um pico em abril, nunca disparou como chegou a ser prometido, revela o último relatório de monitorização das linhas vermelhas da DGS; o mesmo documento aponta ainda para uma diminuição da eficácia no isolamento e rastreamento. O “Público” noticia esta manhã que as Forças Armadas têm 252 militares prontos para apoiar o combate à pandemia, especialmente em Lisboa e Vale do Tejo e em grande parte para ajudar na realização de inquéritos epidemiológicos. No terreno já estão 444 militares.

Esperam-se novidades do próximo Conselho de Ministros, esta quinta-feira, e, de acordo com Marques Mendes, uma delas será o alargamento da utilização do certificado digital covid para o acesso a eventos desportivos, culturais e casamentos. Por outro lado, terminou há pouco a proibição de circulação de fora para dentro da Área Metropolitana de Lisboa, que esteve em vigor durante o fim de semana e que foi criticada em vários quadrantes. Irá manter-se esta semana?

O número de novas infeções desceu ontem ligeiramente abaixo de 1000, mas o pior foi ver o número de internados voltar a passar a fasquia dos 400, algo que já não acontecia há dois meses. Como costuma dizer António Costa: “esperemos o melhor e preparemo-nos para o pior”. Ou como também disse o primeiro-ministro, estamos todos de acordo com Marcelo e “ninguém deseja que não haja desconfinamento”. Que tudo isto não passe de uma nuvem fugaz, antes do dia inteiro e limpo que todos queremos ver.

É chegada a hora de mostrardes ao mundo o quanto sabeis | Fernando Gomes

Pronto, a criança apareceu sã e salva, já podeis parar de ostentar tantos conhecimentos de pedopsicologia, puericultura e educação parento-filial.

É chegada a hora de mostrardes ao mundo o quanto sabeis de inconstitucionalidades, estados de emergência inexistentes, quase-cercas que parecem sanitárias e presidentes que não recuam.

Mas, atenção, tendes apenas até às 17 horas de amanhã, o exacto momento para começardes a fazer alarde de um perfeito domínio das melhores técnicas e tácticas futebolísticas quando se joga com a selecção que tem fama de ganhar no fim.

Só então podeis voltar à vida regular de epidemiologistas e virologistas dos últimos meses. Bem sei que são actividades que já vos enfadonham, mas talvez a sorte traga em breve uma sentença judicial controversa que vos obrigue a expor os vossos brilhantes conhecimentos penais.

Retirado do Facebook | Mural de Fernando Gomes

Como se constrói um inquestionável | Carlos Matos Gomes

(ou como os manhosos se oferecem para pastor, ou salvador sem parecer invejosos)

A propósito da nomeação do presidente da comissão para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, ponto assente: Se lá chegar, serei o presidente da minha comemoração! Não procuro lugar.

As campanhas a propósito da nomeação da nomeação do presidente das comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril são idênticas a tantas outras a propósito da nomeação de tantos outros quadros, homens e mulheres para funções de relevo. Nunca o nomeado é o adequado. Nunca é inquestionável!

Este ruído tem como autores os que em várias partes do mundo e ao longo dos tempos, frequentemente em circunstâncias de ataque às liberdades e de redistribuição de riqueza convocam multidões para bater panelas contra os regimes de direitos fundamentais, mesmo com defeitos. Estas operações têm como finalidade sub-reptícia corroer o regime democrático com propostas de luta pela utopia da Sociedade Perfeita, do homem ou da mulher sem mácula e argumentos de fácil aquisição: transparência, privilégios, corrupção, compadrio, entre outros, mas sempre os mesmos.

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Ana Catarina Mendes | Flashback | por Paulo Querido

Hoje foi um domingo tranquilo, calmo, pacífico. As polémicas que por aí andam são indignas, coisa de tablóides e folhas panfletárias, e estamos no Mês da Grande Alienação. De modos que escrevo sobre o lançamento de Ana Catarina Mendes no Flashback (ou lá como aquilo se chama atualmente).

Seja qual for o nome que tem atualmente — não vou gastar neurónios a atualizar o nome cada vez que se lembram de o mudar, o que sucede com inusitada frequência e mau gosto —, o Flashback está numa boa fase. A entrada de Ana Catarina Mendes, a primeira mulher no programa em cerca de 40 anos, trouxe uma novidade refrescante: levou José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier a um mais elevado nível de aprumo discursivo.

Por outro lado, JPP tem vindo a melhorar num aspeto que considero fundamental: abandonou o tudologismo em que caiu durante anos. E parece que prepara melhor a generalidade dos temas (nem todos, mas a grande maioria). E ALB tem feito maravilhas para se distanciar do CDS e da IL, ao mesmo tempo que mantém bem fechada a fronteira com o selvagem da extrema-direita, ganhando assertividade no processo.

Mas esta menção tem outro fundamento. Repara nos dois fotogramas seguintes, que são do programa de há duas semanas:

No primeiro, Pacheco Pereira aplaude Ana Catarina Mendes. Discretamente, mas notoriamente. No segundo, Lobo Xavier tira o chapéu a Ana Catarina Mendes e não é um mero salamaleque de queque. Há um intervalo de menos de um minuto entre os dois fotogramas.

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Anda a sentir falhas acentuadas de memória? António Damásio explica porquê.

O neurobiologista esteve na Fundação José Neves para explicar a importância dos sentimentos na nossa vida e na saúde mental. E dizer-nos como a consciência é o princípio para a regulação e equilíbrio do nosso corpo

Se depois deste confinamento pandémico começou a ter falta de memória, não é de admirar. Este pode ser um quadro generalizado ao ser humano depois da crise pandémica. Esquecemo-nos dos nomes (até dos colegas), dos sítios, do que deveríamos fazer… A que se deve? Ao “retiro do treino individual”, na opinião do neurobiologista António Damásio, que esteve à conversa com José Neves no evento anual da Fundação.

“A falta de treino acarreta falta de memória”, porque o nosso cérebro “precisa de uma reativação constante para que se mantenha no nosso mundo”, explica o neurobiologista atualmente a viver em Los Angeles, Estados Unidos. “Há coisas que as pessoas só agora se vão aperceber”, avisa, alegando ainda que “há toda uma série de fenómenos que terão de ser estudados” decorrentes desta disrupção causada no mundo pela pandemia. “E que podem abrir novos caminhos no campo da Ciência”, projetou o cientista, mostrando-se esperançoso e otimista.

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Moderados, uma espécie em extinção? Paulo Sande

1 Os partidos políticos em Portugal vivem sob o signo da inquietude, com dúvidas existenciais sobre o que fazer para assegurar aquilo para que existem, isto é, para conquistar o poder e, depois, mantê-lo. A todo o custo. Custe o que custar, mesmo que isso implique coligarem-se com partidos cuja ideologia execram ou renegarem os eleitores que os elegeram, para satisfazer os mecenas ou sublimar a mais recente, embora efémera, agenda da moda. Temem, se falharem, pela razão de ser da sua existência enquanto partidos políticos. A qual é, como escrevi, conquistar o poder e mantê-lo, a todo o custo.

2 Só que não é. Não que o não seja vezes demais, mas porque não deve ser assim. Não pode ser. Os partidos e os políticos que abandonam os seus eleitores – prometem, sabendo que não cumprirão, traem, escolhendo o poder em detrimento do bem público – não cabem na democracia do século XXI. Que não pode ser igual à do século XX.

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As envergonhadas e os desenvergonhados Carlos Matos Gomes

Um dos livros mais duros que li sobre vergonhas e ações vergonhosas tinha e tem por título “As Benevolentes”. Foi escrito por Jonathan Littel e relata as memórias de um ex oficial nazi que participou nos momentos mais sombrios da recente história mundial. Uma confissão das desumanidades cometidas por seres que elevaram o mal e a maldade aos extremos. O título remete para as deusas Eríneas, perseguidoras e vingadores, também conhecidas por Eumênides, ou Benevolentes, o oposto do que era a sua essência.

Vem esta introdução a propósito do clamor que se levantou a propósito dos habituais desacatos dos adeptos do futebol feito por um coro que tem arrepelado os cabelos e coberto a cara de lama e cinzas gritando: «Que vergonha!» e: «O que dirão de Portugal lá fora?»

Os envergonhados da final da Champions League no Porto são o correspondente das “benevolentes” do romance. Nem eles estão envergonhados, nem os nazis foram benevolentes. Ou então os” envergonhados” não sabem o que é vergonha e começam por ser descarados fiteiros (uma especialidade futebolística).

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Do MDLP ao MEL e do ELP ao Chega: sempre o mesmo fel | Carlos Matos Gomes

Do MDLP ao MEL e do ELP ao Chega: sempre o mesmo fel.

Do que li, vi e ouvi a propósito de presença de Rui Rio e Passos Coelho numa sessão organizada por uma nova empresa de marketing político que adotou para o efeito o pseudónimo de MEL — Movimento Europa e Liberdade — conclui que eles não sabem de quem são filhos, ou quem são os pais. Em sentido político, é evidente. São dois seres sem raízes, sem passado, sem história, sem leituras, sem referências, sem credibilidade. Os frangos de aviário são assim fabricados, como os hambúrgueres ou as salsichas em lata. Já quanto à participação de políticos até agora aderentes ao Partido Socialista, a questão não é a de desconhecerem a paternidade, mas sim a de, segundo o Princípio de Peter, terem atingido o seu patamar de incompetência e de ali terem ido para adoção e uma segunda vida. Foram seguir os passos da atriz em decadência Maria Vieira, que representa o papel de madrinha do Chega.

Quanto ao convívio do MEL, na realidade uma ação de relações públicas do Chega, as presenças significativas são as de Rio e de Passos Coelho. Eles são ou foram dirigentes de um partido político que em 1974 começou por se designar PPD e mais tarde, para aproveitar as aragens da história, assumiu a social-democracia!

Um pouco de passado:

Após o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 realizado pelo Movimento das Forças Armadas, quer o PS quer o PPD fizeram parte de todos os acontecimentos marcantes e ocuparam todos os degraus do poder que construiu o regime em que hoje vivemos. Um regime de democracia política, económica e social com variantes mais ou menos avançadas. O PS e o PPD/PSD fizeram parte do consenso político que definiu a Constituição de 1976, aceite e aprovada pelos dois partidos mais o PCP, o MDP/CDE e a UDP.

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A EUROPA EM NEGAÇÃO – UMA CEGUEIRA VOLUNTÁRIA | por Viriato Soromenho Marques

Uma união em negação

por Viriato Soromenho Marques

DN/Opinião

Apolítica europeia parece cada vez mais embarcada na construção de efeitos especiais, apresentados como se fossem realidades objetivas, sendo isso servido por uma enfática apologia de “valores europeus” que, depois de retirada a espuma retórica, se verifica não passar de um exercício narcisista de autocomprazimento.

A conduta política europeia constitui uma penosa recusa de enfrentar os riscos do futuro. Não se percebe como poderá surgir a lucidez e a coragem para os diagnosticar e combater, ou para os assumir como uma consequência inevitável da deliberada manutenção da UE nesta instável encruzilhada.

Estagnámos entre o completar das reformas indispensáveis para democratizar e salvar a UE ou o assumir resignado do falhanço da integração europeia, com o turbulento e devastador regresso à balança do poder dos Estados nacionais.

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A Carta dos generais e Bizâncio Carlos Matos Gomes

Em Bizâncio, há séculos, discutiam-se extravagância teológicas. O sexo dos anjos, por exemplo. Os sumo sacerdotes que discutiam esses temas levavam-se a sério e levavam-nos a sério e a peito, mas os assuntos importantes ocorriam noutro âmbito, noutro universo onde os assuntos a sério originavam guerras a sério. Não foi a discussão sobre a hierarquia da trindade do cristianismo entre pai, filho e espirito santo que originou cismas e mortes, foram interesses.

Eu tenho o maior respeito e consideração por todos estes oficiais generais, e penso que as Forças Armadas são um elemento essencial para mantermos a nossa soberania (a que puder ser), o que para mim significa no mínimo garantir a liberdade de decidir sobre o nosso destino e manter o padrão civilizacional que desenvolvemos ao longo da nossa história.

Julgo que cada vez mais as ameaças são globais e exigem respostas centralizadas (unidade de comando) e em tempo oportuno, com meios tecnológicos comuns aos vários elementos da estrutura de defesa, operados por profissionais competentes.

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União Europeia (UE) | O dia da Europa Carlos Esperança

Quem tem memória da ditadura e do atraso do Portugal salazarista não esquece o que deve à UE que hoje celebrou auspiciosamente a data durante a cimeira portuguesa, com o discurso notável de António Costa a abrir, na qualidade de Presidente da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, a Conferência sobre o Futuro da Europa, com Ursula von der Leyen e o Presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli.

Após a parceria estratégica com a Índia, de enorme relevância, e da colocação do pilar social no centro das políticas europeias, seria injusto ignorar o mérito português para o futuro comum da Europa.

A UE é um projeto singular, nascido no rescaldo da última Guerra Mundial, após 60 ou 70 milhões de mortes, o maior desastre de origem humana de toda a História. O Dia da Europa, instituído em 1985, celebra a proposta do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês Robert Schuman, que, a 9 de maio de 1950, cinco anos depois do fim da II Guerra Mundial propôs a criação de uma Comunidade do Carvão e do Aço Europeia, precursora da União Europeia.

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REFLEXÕES EM TORNO DO G7 Inquietações: um G7 muito combativo Victor Ângelo | in Diário de Notícias

O G7 agrupa as maiores economias liberais, ou seja, por ordem decrescente de grandeza, os Estados Unidos, o Japão, a Alemanha, o Reino Unido, a França, a Itália e o Canadá. Representam, no seu conjunto, cerca de 50% da economia mundial. A liderança do G7 em 2021 cabe aos britânicos, que organizaram nesta semana uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, em preparação da cimeira prevista para junho.

Passaram dois anos sem se reunir.

A pandemia e o mal-estar causado pela presidência de Donald Trump explicam o longo hiato. Agora as realidades são outras. O controlo da pandemia parece possível, graças às campanhas de vacinação. E as políticas seguidas em Washington já não são imprevisíveis. Mesmo assim, foi preciso decidir entre uma reunião presencial ou não. Após um ano de conferências virtuais, concluiu-se que, em matéria de diplomacia, o contacto pessoal é, de longe, o mais produtivo. A maioria das videoconferências realizadas entre políticos ao longo da pandemia acabou por ser um mero exercício formal, em que cada um lia o texto que tinha à sua frente, sem se proceder a uma troca de ideias, a uma análise das opções ou a um comprometimento pessoal. Regressamos agora, a passo seguro, às discussões frente a frente.

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Quando Rio, Santos, Ventura e Figueiredo se encontram num salão | Francisco Louçã in Jornal Expresso

É uma festa, que promete nada mais e nada menos do que abundar sobre a “reconfiguração social, política e económica para as próximas décadas”, nas vésperas da inauguração do congresso do Chega, que foi apontada para o faustoso dia 28 de maio. A caminho destas décadas tão prometedoras, a convenção do MEL junta os chefes dos quatro partidos da direita, os recentemente chegados encerram as manhãs, os que têm mais pedigree encerram os dias (Rio faltou no ano passado, vai este ano ser a estrela da companhia). Acrescenta-se a aristocracia do Observador, que veio em peso, José Manuel Fernandes, Rui Ramos e Helena Matos, mais alguns cronistas avulsos (e que injustiça esquecerem os do Sol), um painel dos notáveis do PS que são parceiros deste mundo, Luís Amado, Sérgio Sousa Pinto, Álvaro Beleza, mais um ex-governante PS que era do PSD e retornou ao PSD, Nogueira Leite, também Henrique Monteiro, não podia faltar, e mais algumas glórias laranjas, Joaquim Sarmento, Miguel Morgado e Poiares Maduro, desta vez Montenegro foi esquecido, e do CDS, Paulo Portas. Há ainda uma feira de extravagâncias: o representante dos hospitais privados, Óscar Gaspar, ou Camilo Lourenço, que escreve sobre a “deriva bloquista de Vítor Gaspar” e do FMI, lá se irão explicar ao Centro de Congressos. Numa palavra, está toda a gente que devia estar e, em vez de notarem com surpresa esta confraternização, os analistas deviam saudar o acontecimento, do qual resulta um interessante sinal convivial. Quanto mais juntos melhor, quanto mais falarem melhor.

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O que devíamos todos era olhar para a América de Joe Biden | Paulo Querido

A questão ficará sem resposta uma vez que não temos forma de a responder: foi a extraordinária reversão política levada a cabo em três meses pela administração Biden que apagou Donald Trump do espaço público americano (e mundial), ou foi o facto de ter sido banido do Twitter, Facebook, Instagram e Youtube?

Podemos sempre dizer: é uma mistura das duas coisas. Ou apostar numa delas. Com todo o respeito pelo papel dos megafones, eu relevo a primeira. Porque o que Joe Biden fez à America é notável. Um terramoto que ainda não terminou e que terá réplicas. E uma completa surpresa — primeiro julguei que era uma questão minha, por achar que era tarefa muitíssimo difícil retirar as aspas que Trump colocou em Estados “Unidos” da América, depois percebi que está toda a gente de cara à banda.

Esperava-se uma administração bem menos enérgica, centrista e apaziguadora, a garantia de que Biden não era Sanders, um “socialista”, ai, vade retro. Um velhinho a preparar a Casa Branca para a sua vice, essa sim um poço de energia, Kamala Harris. E esperava-se porque toda a campanha foi isso: o partido democrata a adormecer o eleitorado no embalo do centrismo, o próprio Biden repetiu “I’m not a socialist” bastas vezes.

Peeeemmp!, wrong. Saiu na rifa uma administração revolucionária, não encontro palavra mais adequada. A coragem de dez Obamas, a competência de cinco Clintons.

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Faltam 2 dias para o mais belo de todos os dias | Carlos Esperança

Faltam 2 dias para o mais belo de todos os dias (texto reeditado)

Há quem, antes, não tivesse precisado de partido, quem não sentisse a falta da liberdade, quem se desse bem a viver de joelhos e a andar de rastos.

Houve cúmplices da ditadura, bufos e torturadores, quem sentisse medo, quem estivesse desesperado, quem visse morrer na guerra os filhos e nas prisões os irmãos, e se calasse. Houve quem resistisse e gritasse. E quem foi calado a tiro ou nas prisões.

Uns pagaram com a liberdade e a vida a revolta que sentiram, outros governaram a vida com a vergonha que calaram.

Houve quem visse apodrecer o regime e quisesse a glória de exibir o cadáver e a glória da libertação. Viram-se frustrados por um punhado de capitães sem medo, por uma plêiade de heróis que arriscaram tudo para que todos pudéssemos agarrar o futuro.

Passada a euforia da vitória, ninguém lhes perdoou. Os heróis da mais bela revolução da História e agentes da maior transformação que Portugal viveu são hoje proscritos e humilhados por quem lhes deve o poder.

Uns esqueceram os cravos que lhes abriram a gamela onde refocilam, outros reabilitam os crápulas que nos oprimiram, outros, ainda, sem memória nem dignidade, afrontam o dia 25 de Abril com afloramentos fascistas e lúgubres evocações do tirano deposto.

Perante os ingratos e medíocres deixo aqui a TODOS os capitães de Abril o meu eterno obrigado.

Não quero saber o que fizeram depois, basta-me o que nesse dia fizeram.

Obrigado a todos. Aos que partiram e aos que estão vivos. Por cada ofensa que vos fazem é mais um pedaço de náusea que provocam.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

MOÇAMBIQUE A URGÊNCIA DE AGIR Paulo Sande

Há alguns meses escrevi e partilhei um texto sobre Moçambique, mais particularmente sobre o norte de Moçambique, a pedir ao governo – e a quem tem poder para isso, neste Mundo de poderes múltiplos em que o mais poderoso, quiçá, é o do dinheiro – que interviesse com urgência para proteger e mitigar o sofrimento dos nossos amigos. Dos nossos irmãos moçambicanos.

Desde então, piorou a situação e nada de intervenção (a cacofonia, para os menos sensíveis à sinestesia, é propositada). Só notícias, mais notícias, sobre crianças decapitadas e outras bonomias.

O horror é o horror é o horror. Claro que à distância e praticado sobre gente miserável que nada tinha e a quem, imagine-se, até esse nada foi tirado, é tudo mais confortável e choramos, com denodo e sinceridade, lágrimas de crocodilo. “Coitados”, e segue a dança.

Conheço bem os argumentos que se opõem a uma ação mais firme por parte de Portugal ou os dos que a consideram impossível ou inútil. Eis alguns deles e a resposta possível.

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C E R T A M E N T E ! | FUTEBOL | Tanta indignação para quê? | PAULO QUERIDO

Hoje descrevo o início do próximo ciclo de 30 anos do que já foi um desporto de paixões: a atividade económica do espetáculo do futebol, maximizada numa Superliga europeia. Tanta indignação para quê? É apenas o capitalismo, estúpido.

A Superliga Europeia é o fim do futebol? São precisas apenas duas letras para a resposta curta: . Vamos à resposta média.

As empresas detentoras das 12 marcas futebolísticas mais proeminentes da Europa formalizaram a criação de uma prova em circuito fechado, a Superliga Europeia, pouco antes de a UEFA anunciar a nova Liga dos Campeões no domingo à noite. Adeptos, futebolistas e governantes reagiram com gruas diferentes de consternação e antagonismo. O fim do futebol— decretaram muitos.

Do que se queixam?

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Olivença é um tesouro patrimonial e cultural, mas também moral, humano e espiritual | JOSÉ RIBEIRO E CASTRO | JUAN MIGUEL MÉNDEZ

Se há quem tenha apostado com verdadeiro zelo pela aproximação entre Espanha e Portugal, tendo Olivença como ponto de encontro, esse é José Duarte de Almeida Ribeiro e Castro (Lisboa, 1953) Advogado português de longa carreira política e social desde o nível municipal ao nível comunitário, ao ter sido membro do Parlamento Europeu. A sua figura tem sido fundamental para que os Oliventinos hoje também possam adquirir a nacionalidade portuguesa. HOY Olivenza faz em exclusivo um balanço com o Dr. Ribeiro e Castro da sua experiência institucional e da sua relação com Olivença.

– Lembra-se quando foi a sua primeira visita e como se sentiu quando conheceu Olivença?

– Foi no final de 1974. O meu pai viveu em Badajoz durante algumas semanas e eu ia estar muitas vezes com ele. Numa dessas visitas, aproveitei para dar uma saltada a Olivença. Vi, gostei, respondi à minha curiosidade, mas não senti nada de especial. Tinha 20 anos, a visita foi muito rápida. Fui sozinho, não conhecia ninguém. Na verdade, vi, mas não entendi.

Depois, no fim de 1980, vindo do sul de Espanha, em lua-de-mel, passei na estrada ao lado de Olivença, só para mostrar a minha mulher onde era. Mas nem chegámos a entrar. Vínhamos de regresso a Lisboa e não parámos. Estava muito longe de perceber e sentir o mistério e o feitiço de Olivença.

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Helena Ventura Pereira | sobre o texto de Carlos Matos Gomes – A justiça das multidões

É um texto soberbo, conciso, oportuno. Também me parece que há muita insanidade à solta. E muito “prazer de vingança”, muita vontade de destruição. Interesses que, na sombra, a toda a hora estão prontos para acender rastilhos.

Com as multidões enfurecidas, não há tempo de qualidade para se pesarem as questões essenciais.

A justiça das multidões | Carlos Matos Gomes | (dasculturas.com)

Quadro de Honra de Abril | Carlos Esperança

Quadro de Honra de Abril – Instituições e pessoas de quem gosto

Num país onde um indivíduo cortado às rodelas por um herdeiro apressado merece mais protagonismo do que um cientista de topo, uma atleta de exceção e servidores públicos notáveis, é de elementar justiça mencionar quem apreciamos, enquanto lutas partidárias, mitómanos e fascistas procuram destruir os alicerces do Estado de direito democrático.

Militares de Abril – Sempre, grato até à morte;

SNS – Hoje e sempre;

Marta Temido – Ministra da Saúde;

Graça Freitas – Diretora-geral de Saúde;

Gouveia e Melo – Almirante, coordenador do bem-sucedido e exemplar plano de vacinação;

Médicos, enfermeiros e outro pessoal de Saúde;

Telma Monteiro – A judoca europeia mais medalhada de sempre;

Vítor Cardoso – Físico português (IST) a quem foi atribuída uma bolsa de 5,3 milhões de euros na Dinamarca para criar um grupo de investigação no Instituto Niels Bohr, da Universidade de Copenhaga, na Dinamarca, mantendo o seu grupo de investigação em Lisboa.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

A Abrilada de 1961 – Para Angola em força? Não: Para São Bento em Força! | Carlos Matos Gomes

A Abrilada de 1961 – Para Angola em força? Não: Para São Bento em Força!

Ontem, 13 de Abril, passaram 60 anos da Abrilada de 1961 – reduzida na historiografia oficial a um pronunciamento conduzido pelo general Botelho Moniz para afastar Salazar.

A RTP apresentou um apontamento sobre a efeméride, em que participei. Resultante de uma excelente entrevista de quase duas horas com a jornalista Ana Luísa Rodrigues, muito bem preparada e muito bem informada.

A efeméride bem merecia outro tratamento e a direção de informação da RTP tinha a obrigação de lho dar, porque é serviço público.

Tinha a obrigação porque em 13 de Abril de 1961 se jogou o futuro de Portugal: os 13 anos de guerra e a descolonização como ela ocorreu. Eu apresentei o meu entendimento de que Salazar poderia (e deveria) ter evitado guerra e poderia ter aberto Portugal ao exterior. Até a história de África poderia ter sido diferente se o desfecho do que aconteceu a 13 de Abril de 1961 tivesse sido outro, se a Abrilada tivesse vingado.

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NOBRE POVO? | Daniel Oliveira in Jornal Expresso

Abaixo-assinados para defenestrar juízes, a “perplexidade” que a PGR compreende quando não se dirige ao trabalho do Ministério Público, os discursos dos televangelistas da indignação… Tudo é atribuído a uma reforçada exigência cívica.

Vou arriscar: a desilusão da maio­ria das pessoas com a democracia não tem nada a ver com a corrupção, tão antiga como o poder.

Vem quase sempre das condições de vida que ela devolve. Entre muitas razões complexas e nenhuma delas moral, a crise da democracia resulta de vivermos num tempo em que sabemos que o futuro será pior do que o passado. A corrupção até é mais visível, porque a combatemos melhor. Nenhuma república das bananas julga um ex-primeiro-ministro do partido no poder. E desde que Sócrates terá cometido os crimes de que vem acusado evoluiu-se: os prazos de prescrição são mais dilatados e há novos crimes na lei. Há muito a fazer, e não é só na justiça e na política. Também é connosco.

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DIA MUNDIAL DA VOZ | Vítor Serrão

Porque hoje se assinala o dia em que se celebra a importância da voz e se avisa para os cuidados preventivos que ela impõe, recorro a um belíssimo quadro de Diego Velázquez, de 1619, exposto na Gemaldegalerie de Berlim.

O pintor, ainda à data estante em Sevilha mas já conhecedor das novas tendências caravagescas, desenvolve nesta tela precoce o apreciado «gosto costumbrista», próprio da pintura flamenga de género, mas visto à luz do novo naturalismo tenebrista que desde Itália se impunha.

Três músicos populares, de forte tónus realista, reunem-se em torno de uma mesa onde há pão, queijo e vinho, e cantam e tocam o seus instrumentos, confraternizando com os nossos olhares contemporâneos. E que vivam a música, a palavra e a voz, sempre !

Retirado do Facebook | Mural de Vitor Serrão | Quadro de Diego Velásquez

Hoje atiro-me a José Sócrates. Tinha de chegar a minha vez. | PAULO QUERIDO

Certamente! Qui, 15 abril 2021: Pois mas Isaltino não tinha um apartamento de luxo em Paris.

Hoje atiro-me a José Sócrates. Tinha de chegar a minha vez.

Desagrada-me em José Sócrates a atitude face ao Partido Socialista. As instituições são maiores que as pessoas. Todas as pessoas. Isto inclui fundadores históricos e grandes conquistadores (e criminosos, acumulem ou não com outras definições). Sócrates tem todos os direitos, incluindo o de criticar o seu antigo partido. Criticar não me desagrada. Desagrada-me o modo como o faz: pessoalizando o assunto. Como se ele fosse credor e o partido devedor. Não: o partido não o serve. Ele serviu o partido. Ele, above all people, devia saber o que é um partido político e quais as regras implícitas da vida política.

Para abordar o assunto Sócrates é comum ver declarações iniciais de auto-crítica. O típico “eu até votei nele mas”. Compreende-se, embora seja errado. E corrigir este erro é um dever de cidadania. Vivemos uma época intensa em que cada palavra é um punhal ou um carinho. Por exemplo: eu regressei ao voto no PS por causa de José Sócrates. Mas fui eleitor do PS, não de José Sócrates. A distinção é importante não por qualquer tipo de demarcação — estive em comícios, ouvi Sócrates e outros socialistas, gostei das propostas e achei que ele tinha a visão e a paixão necessárias para conduzir o país e não me arrependo de ter votado nem me envergonho desse momento nem do Sócrates dessa época — mas para ficar claro o ponto principal: em eleições legislativas, votamos em programas de ação e seus executores embainhados por partidos.

José Sócrates é um cadáver político que insiste em circular como se estivesse vivo. É um passivo tóxico desprovido de auto-consciência. Fernando Medina (para minha surpresa) disse o que havia para dizer para o despertar para a dura realidade. Sócrates preferiu continuar no sono a sonhar que tem capital político. Se realmente se vê como um Lula, como decorre de comportamentos e afirmações públicas, é lamentável. Não falo da matéria processual. Comparo somente as figuras políticas. Se tivéssemos uma escala de lulismo de 0 a 10, Sócrates não passava de um 2, correspondente às doses de carisma e importância histórica. E mesmo sobre Lula há dúvidas quanto à sua importância política atual e futura. Sobre Sócrates há a certeza de que passou a capital negativo.

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A justiça das multidões | Carlos Matos Gomes

A justiça das multidões. Baudelaire está a ser celebrado a propósito dos 200 anos do seu nascimento e como o poeta maldito que modernizou a poesia, com o célebre “As Flores do Mal”. É apresentado como um exemplo do conflito entre o comportamento do individuo, mesmo que marginal (como era o seu caso) e a multidão, que teve lugar no período revolucionário em França e de que vivemos hoje aqui em Portugal uma réplica à nossa escala.

Baudelaire utilizou expressões “goût de la vengeance” (gosto da vingança) e do “plaisir naturel de la demolition” (prazer natural da destruição), para classificar as atitudes das multidões.

Podemos utilizá-las hoje a propósito da multidão mediática. Há, segundo as notícias, mais de 150 mil peticionários disponíveis para um lugar de participantes num auto de fé, ou a uma execução com a guilhotina numa praça pública.

O historiador inglês Georges Rudé, em “A multidão na história”, cita as formas de tratamento da multidão de Gustave Le Bon, o criador da moderna psicologia de massas, como: “irracional, instável e destrutiva, intelectualmente inferior aos seus componentes, primitiva, ou com tendência a reverter a uma condição animal”. Le Bon admite também que as pessoas de instintos destrutivos tendem a sentir-se atraídos pela multidão.

Esta antiga qualificação das multidões pode aplicar-se aos movimentos populistas, justicialistas, que medram hoje em oposição a comportamentos geralmente classificados pela trilogia: humano/normal/racional.  Já recebi propostas para integrar esta nova multidão vindas pessoas que julgava normais!

Voltando a Baudelaire, em “Les Veuves”, o poeta que foi acusado de ausência de “mens sana”, de loucura, descreveu o que hoje vivemos, afirmando que multidões refletem “a alegria do rico no fundo dos olhos do pobre”.

 Isto é, há sempre um rico, um pastor, a promover a irracionalidade das multidões e estas não partem à desfilada espontaneamente. As flores do mal crescem e confundem-se com as de um jardim.

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

O que é insuportável em José Sócrates Luís Osório

1. O problema já nem são os processos, a inocência processual ou a culpa redentora para o sistema judiciário. O problema já não é o escandaloso arrastar do caso, as notícias e contra notícias, a quantidade de cofres, as explicações, as fugas de informação, os debates, as intermináveis discussões sobre Ministério Público, juízes, comunicação social. O problema já não é saber o que vai acontecer a seguir. Se o juiz Ivo Rosa é sério ou se está a soldo dos poderosos (seja isso o que for), se a mãe do ex-primeiro-ministro tinha uma herança, se guardava o dinheiro vivo ou se estava morto no banco, se a ex-mulher do ex-primeiro-ministro, mais o amigo milionário, mais Ricardo Salgado e o tipo do negócio do sangue e todos os personagens desta novela, têm ou não provas suficientes contra si.

2. O problema é todo este esgoto. Esta imundície moral. Este despudor. Não me interessa se José Sócrates é culpado ou inocente, o problema é que foi primeiro-ministro e teve o meu voto nas eleições em que teve maioria absoluta, o meu e o de milhões de portugueses. E voltou a ter o voto de milhares e milhares nas eleições seguintes (aí já não o meu).

3. O problema é que este senhor nos enganou. O problema é que tinha uma vida desbragada, uma vida de luxúria com dinheiro que ia buscar aqui e ali quando, no exercício das suas funções, pedia sacrifícios aos portugueses. O problema é todo o circo que montou. O poder que acumulou fazendo o que fosse preciso. O problema é tudo o que ouvimos dizer através da sua defesa, dos argumentos que utiliza, da vida que tinha, dos amigos que tinha, do dinheiro que circulava sem pudor, do modo como tratou a função de primeiro-ministro, da falta de dignidade que emprestou à sua função com a vida que decidiu ter.

4. Não, o problema não é o que o pode condenar. As alegações de corrupção prescrita ou não, os indícios ou a falta deles, os testas de ferro, as seis mil páginas do processo, o branqueamento de capitais ou as falsificações e a fraude fiscal.

Dou isso de barato.

O problema, o que verdadeiramente é insuportável, é o cheiro que isto tem a lama que nos foi atirada à cara por um homem em quem o país confiou e ofereceu uma maioria absoluta. Isso é simplesmente imperdoável.   

LO

Retirado do facebook | Mural de Luís Osório

FAZER PELA VIDA | Tiago Salazar

FAZER PELA VIDA I Abstenhamo-nos por instantes de julgar o juiz Rosa, os labregos, o tio Ricardo, o José.

Pensemos nisto: tenham ou não arrebanhado uns milhões, e porfiado no arrebanho de formas mais ou menos ínvias, todos os visados, esses malditos corruptos e corruptores, procuraram a sua felicidade e dos familiares e amigos.

Isto é digno de atenção.

Se um amigo nos acenasse com um milhãozito para lhe fazermos um obséquio digam lá que não hesitavam?!

Estamos furiosos porque isto é um regabofe, como se sentíssemos que o José e seus comparsas tivessem sido apanhados a lamber o nosso pote de mel.

Cambada de ursos gulosos é o que é.

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Salazar

SOFAGATE | A IMORAL MORALIDADE DA EUROPA | Paulo Sande

NÃO

Não aceitamos que o passado esclavagista da Europa, cujos epígonos são sobretudo portugueses, britânicos, espanhóis, franceses, permaneça vivo nos livros de História (e até nas histórias sussurradas de geração em geração). Em nome da moralidade e dos princípios, não o podemos aceitar, ainda que tenha sido essa mesma Europa a proclamar a imoralidade da escravatura e a decretar “urbi et orbi” a sua abolição.

MAS SIM

Toleramos o passado esclavagista de outros continentes, países e regiões, onde ainda hoje milhões de seres humanos vivem em condições que, quando não são de escravatura, são-no da mais abjeta servitude.

NÃO

Não aceitamos que as mulheres, a outra metade da Humanidade, sejam tratadas como seres de segunda categoria, sexualizadas para além da decência (um prolongamento da moral feita ética), maltratadas e abusadas. “Me too” e outros movimentos, todos de origem ocidental, o que é quase o mesmo que dizer europeia, decretaram respeito, consensualidade, tratamento igualitário. E se há abusos e excessos, o princípio é sagrado – homens e mulheres, iguais perante Deus, a sociedade, a lei.

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Paulo Querido | Há ou não há uma “nova direita” a medrar em Portugal?

Há ou não há uma “nova direita” a medrar em Portugal? A questão é suscitada a partir da observação repetida de títulos e artigos de sites de informação e da discussão que já tem algum lastro no “meu” Facebook. A resposta simples é fácil de dar: nos últimos 12 anos foram criados seis partidos em Portugal e três deles são clara, inequivoca e declaradamente de direita, medida em que é correto afirmar que há “novos partidos de direita”, que em linguagem descuidada pode redundar em “nova direita”.

Uma bosta semiótica, portanto. Um partido novo não tem necessariamente propostas novas, que é o sentido procurado com profissionalismo pelos sites de informação. O que me leva à resposta complexa — que contudo tem uma formulação muito simples que preenche a dúvida: não. Não, não há.

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Contribuição temporária para a crise VÍTOR GASPAR

(…) os Estados podem criar uma contribuição temporária sobre os rendimentos mais elevados para pagar o elevado custo da crise pandémica.

Em Portugal, este tema causou polémica após ter sido sugerido pela economista Susana Peralta, mas o Governo tem recusado essa hipótese.

“Para ajudar a dar resposta às necessidades relacionadas com a pandemia, uma contribuição temporária para a recuperação da Covid-19 imposta aos rendimentos elevados é uma opção“, escreve Vítor Gaspar, ex-ministro das Finanças português e diretor do departamento dos Assuntos Orçamentais do FMI.

A receita orçamental de Vítor Gaspar para o pós-pandemia

As recomendações de Vítor Gaspar no Fiscal Monitor não se ficam pela política fiscal, traçando toda uma política orçamental para o pós-pandemia. Para o economista, os políticos têm de encontrar um equilíbrio entre apoiar a economia através da política orçamental e, ao mesmo tempo, manter a dívida num nível gerível. Dentro desta recomendação geral, Gaspar escreve que “alguns países”, onde potencialmente se pode incluir Portugal, terão de começar a “reconstruir amortecedores orçamentais” para diminuir o impacto de choques futuros.

https://www.msn.com/pt-pt/financas/noticias/taxar-quem-ganha-mais-%C3%A9-op%C3%A7%C3%A3o-para-pagar-a-crise-pand%C3%A9mica-diz-v%C3%ADtor-gaspar/ar-BB1fohvb?ocid=msedgntp

Há 2021 anos | Paulo Mendes

Há 2021 anos, um judeu marxista foi torturado e cruxificado por uma potência imperialista por causa da uma mensagem revolucionária de igualdade e fraternidade entre os homens. Nos 20 séculos a seguir, esta mensagem foi sistematicamente expurgada do seu teor político de justiça social e igualdade, e vendida aos pobres como uma treta pseudo-espiritual de defesa da resignação para com as injustiças dos poderosos em troca de um reino imaginário após a morte, pela mais antiga, mais pérfida e bem sucedida corporação empresarial da História.

Esta corporação, 20 séculos depois, é gerida por um pequeno e geriátrico grupo de homens brancos que entretanto justificaram a acumulação de riqueza por tiranos, o genocídio de indígenas, o femicídio da inquisição, a escravatura, o holocausto e sujeitaram milhares de crianças a seu cargo aos mais horríveis crimes sexuais causados pelos seus juramentos de celibato forçado, que por sua vez derivam da necessidade que a corporação tem, ainda hoje, de proteger a propriedade acumulada, limitando o direito sucessório dos seus agentes comerciais que vendem a palavra adulterada daquele revolucionário judeu palestiniano.

Feliz Páscoa a todos e vivam os judeus revolucionários e os seus filhos que ainda hoje fazem, sempre que podem, a cabeça em água aos poderosos deste mundo.

Paulo Mendes

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Querido

O comunismo Agostiniano do Espírito Santo | Gabriel Leite Mota | in Jornal Económico

Agostinho da Silva previa que chegaria o tempo da gratuidade da vida, em que as máquinas já produziriam tudo o que o ser humano precisava para viver, tornando-o livre para ser o poema que estava destinado a ser.

Um dos grandes pensadores portugueses do século XX foi Agostinho da Silva.

Nos anos 90 desse século, regressado a Portugal depois de longa estadia no Brasil, onde teve grande impacto académico e público, Agostinho da Silva surpreendeu os portugueses com a sua filosofia na ponta da língua, particularmente durante uma série de entrevistas que deu para a RTP com o título de “Conversas vadias”, em que diferentes entrevistadores iam tentar decifrar e explorar o pensamento do filósofo. Estas entrevistas (disponíveis para visualização na internet) são um testemunho brilhante do seu pensamento, ao mesmo tempo profundo e provocador.

À época, muitos criticavam-no por entenderem que ele se contradizia, por ter o hábito de não ser absolutamente definitivo ou categórico nas suas respostas e, muitas vezes, responder com perguntas às perguntas (aí, o que Agostinho da Silva estava a fazer era, tão-só, querer ser preciso e clarificar o que realmente estava a ser perguntado). Na prática, notou-se nestas entrevistas, muitas vezes, uma décalage de profundidade filosófica entre os perguntadores e o respondente, e a perplexidade dos entrevistadores tinha muito a ver com isso.

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Did Einstein believe in God? | MARCELO GLEISER | com tradução para português e francês

Here’s what Einstein meant when he spoke of cosmic dice and the “secrets of the Ancient One”.

MARCELO GLEISER

  • To celebrate Einstein’s birthday this past Sunday, we examine his take on religion and spirituality.
  • Einstein’s disapproval of quantum physics revealed his discontent with a world without causal harmony at its deepest levels: The famous “God does not play dice.”
  • He embraced a “Spinozan God,” a deity that was one with nature, within all that is, from cosmic dust to humans. Science, to Einstein, was a conduit to reveal at least part of this mysterious connection, whose deeper secrets were to remain elusive.

Given that March 14th is Einstein’s birthday and, in an uncanny coincidence, also Pi Day, I think it’s appropriate that we celebrate it here at 13.8 by revisiting his relationship with religion and spirituality. Much has been written about Einstein and God. Was the great scientist religious? What did he believe in? What was God to Einstein? In what is perhaps his most famous remark involving God, Einstein expressed his dissatisfaction with the randomness in quantum physics: he “God doesn’t play dice” quote. The actual phrasing, from a letter Einstein wrote to his friend and colleague Max Born, dated December 4, 1926, is very revealing of his worldview:

Quantum mechanics is very worthy of regard. But an inner voice tells me that this is not the true Jacob. The theory yields much, but it hardly brings us close to the secrets of the Ancient One. In any case, I am convinced that He does not play dice.

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OPINIÃO | Rui Bebiano

Rui Bebiano: “A forma de impedir o retorno da direita ao poder, com todas as consequências das quais já tivemos um vislumbre na ação calamitosa e deprimente do governo neoliberal de Passos Coelho, passará assim por estabelecer uma estratégia de aproximação entre as diversas forças. No sentido de construir um acordo em condições de superar as debilidades que puseram termo ao anterior e de não se limitar, como aconteceu, a renhidas negociações parlamentares, por vezes com o aspeto de chantagem. Só que, para que tal seja possível, é necessário que todos, sem exceção, criem mecanismos transparentes de compromisso e de mobilização. Nesta fase parece difícil, mas não o fazerem será imperdoável. E também suicidário.”   / /in  A Terceira Noite : https://www.aterceiranoite.org/2021/03/20/as-sondagens-e-o-dever-da-esquerda/

PRECISAMOS MESMO DE UM NOVO AEROPORTO? | RAZÃO E PRECONCEITO | por Viriato Soromenho Marques – DN

«Numa notável crónica, Daniel Deusdado demonstrou de modo fundamentado e convincente a insensatez da insistência em construir na Margem Sul qualquer aeroporto complementar ao da Portela (DN, 07 03 2021). Mesmo antes da pandemia, todo este processo – que agora ainda fica mais desfocado com o ressuscitar da falsa opção entre Montijo e Alcochete – estava à partida programado para dar um resultado favorável, independentemente dos fortíssimos factores contrários: as irregularidades no processo de avaliação ambiental (tanto na vertente da protecção da biodiversidade como dos impactos das alterações climáticas); a falta de objectividade do Ministério do Ambiente; as objecções dos representantes dos pilotos sobre os enormes riscos colocados à segurança de aeronaves e passageiros; uma análise custo-benefício irrealista…

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Mariana Mazzucato | A economista que defende uma mudança radical do capitalismo para o mundo pós-pandemia

Mariana Mazzucato é professora de Economia da Inovação na University College London, no Reino Unido

Mariana Mazzucato é considerada uma das economistas mais influentes dos últimos anos. E existe algo que ela quer ajudar a consertar: a economia global.

“Admirada por Bill Gates, consultada por governos, Mariana Mazzucato é a especialista com quem outras pessoas discutem por sua conta e risco”, escreveu a jornalista Helen Rumbelow no jornal britânico The Times, em um artigo de 2017 intitulado “Não mexa com Mariana Mazzucato, a mais assustadora economista do mundo”.

Para Eshe Nelson, da publicação especializada Quartz, a economista ítalo-americana não é assustadora, mas “franca e direta, a serviço de uma missão que poderia salvar o capitalismo de si mesmo”.

O jornal The New York Times a definiu como “a economista de esquerda com uma nova história sobre o capitalismo”, em 2019. Em maio deste ano, a revista Forbes a incluiu no relatório: “5 economistas que estão redefinindo tudo. Ah, sim, e elas são mulheres”.

“Ela quer fazer com que a economia sirva às pessoas, em vez de focar em sua servidão”, escreveu o colunista Avivah Wittenberg-Cox.

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A propósito dos 100 anos do PCP | O PCP e a independência das colónias | Vítor Dias in O Tempo das Cerejas

Título no «Avante! de Julho de 1961

Contam-me que, num recente debate de âmbito universitário sobre os 100 anos do PCP, um historiador voltou a menorizar o papel do PCP na luta contra a guerra colonial preferindo atribuir uma maior coerência nessa luta a sectores católicos e de extrema-esquerda.

Sobre o assunto, entendo sublinhar o seguinte :

1. Bastaria consultar a imprensa clandestina do PCP, os seus numerosos comunicados e materiais de agitação, as emissões da Rádio Portugal Livre (que teve um enviado à guerrilha do PAIGC na Guiné-Bissau) ou ter em conta as acções da ARA contra o aparelho de guerra colonial para se concluir da completa falta de fundamento da referida menorização.

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RAPIDAMENTE E EM FORÇA | Francisco Seixas da Costa

Se acaso eu fosse democrata e adulto nos anos 40 e 50 do século passado, teria sido um orgulhoso colonialista.Como o haviam sido, desde o século XIX, os republicanos, os combatentes contra a ditadura, os anti-fascistas. Ser colonialista, ser adepto da manutenção do império colonial era um desígnio nacional, patriótico. Os republicanos puseram o país a ferro e indignação porque a “pérfida Albion” nos não deixou executar o sonho do “mapa cor-de-rosa”.

Portugal teimou, depois, em ir para a Grande Guerra para defender as suas possessões ultramarinas, as suas colónias. Cunha Leal, expoente da luta contra Salazar, era um ferrenho colonialista. Norton de Matos, antigo governador-geral de Angola, pedia meças ao ditador de Santa Comba no interesse em manter a nossa África nossa.

Nos anos 50, até o movimento descolonizador ter começado a abalar as anteriores certezas da esquerda portuguesa, as colónias eram “nossas”. Repito o que disse, com total convicção: se acaso fosse democrata e adulto nos anos 40 e 50 do século passado, teria sido um orgulhoso colonialista.

A legitimidade da “posse” colonial só começou a ser posta em causa, em Portugal, pelo PCP. Honra lhe seja! Fê-lo, naturalmente, porque a opinião de quem o guiava (leia-se, Moscovo) tinha entretanto mudado. Já havia tido lugar, entretanto, a Conferência de Bandung. A China de Mao, ainda antes do cisma sino-soviético, já tinha cheirado “l’air du temps” e pressentido que o “terceiro-mundo”, a Tricontinental, o suposto “não-alinhamento”, eram a nova fronteira de um Norte-Sul inevitável.

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A localização do novo aeroporto | Carlos Esperança

Não faço parte dos dez milhões de especialistas em aeroportos e, muito menos, dos que têm argumentos irrefutáveis sobre a melhor localização.

Sou dos raros que lamentam que os anos passem, os estudos se amontoem e as decisões retrocedam, quando é necessário, como parece, um novo aeroporto internacional.

Não esqueço a tirada demagógica de um futuro PM a dizer que, “enquanto houver uma criança sem consulta, não haverá TGV”. Crianças sem consulta existirão sempre, e a alta velocidade ferroviária excluiu Portugal, quando eram pingues os fundos e generosa a União Europeia, ficando nós “orgulhosamente sós”.

Difícil de entender o direito de veto das autarquias a projetos nacionais, resta acreditar agora que o aeroporto do Montijo irá para a melhor localização.

O atraso apenas gera despesas escusadas, inflação de preços e guerrilhas partidárias. A retirada do poder de veto às autarquias foi uma decisão que pôs termo aos humores dos edis e salvou a face de Rui Rio, com o argumento, agora sim, porque ficam várias soluções possíveis, sem que a localização no Montijo se altere.

A decisão não cabe aos partidos nem ao Governo, cabe à ANA, vendida ao desbarato, por Passos Coelho, durante 50 anos, com a liberdade de fixar os preços aeroportuários e interferir na localização de novos aeroportos.

Tanto quanto julgo, a ANA pode ser contrariada, mas terá de ser ressarcida dos 3 mil milhões de euros que desembolsou pelo setor estratégico, e receber os lucros previstos até aos 50 anos que lhe foram concedidos, depois de anos gloriosos, até à pandemia.

Portanto, cabe à ANA decidir e, se não obtiver ganhos ainda maiores, o novo aeroporto será no Montijo.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

O que a democracia deve ao PCP | Daniel Oliveira in Jornal Expresso

Tenta-se apagar o que existiu para escrever o que poderia ter existido. Comparam-se 48 anos de ditadura com um ano de poder na rua. Mas a democracia deve muito ao PCP. Pela duríssima luta contra a ditadura. Por, a 25 de novembro, ter evitado uma guerra civil. Melo Antunes disse que o PCP seria indispensável. Foi fundamental para um poder autárquico vigoroso, foi defensor do Estado de Direito e esteve presente em todas as lutas sociais. Quem respeita a História assume estas dívidas para com os comunistas.

resci numa família de comunistas. Interessava-me muito por política e filiei-me na Juventude Comunista Portuguesa (JCP) com 12 ou 13 anos, mal isso me foi permitido. Só de lá saí com 19 ou 20. As minhas discordâncias começaram por temas distantes: o que se passava na Polónia, a invasão do Afeganistão. Como é normal num processo inicial de politização, foram-se alargando a questões mais profundas e ideológicas. E, no confronto interno sobre estes temas, tornaram-se fatais perante as falhas formais na democracia interna. Quando uso o termo “formais”, não é para as diminuir. É que elas não são propriamente acompanhadas por ausência de debate interno. No PCP discute-se política e discorda-se. O problema é a representação dessas discordâncias. Só uns anos depois de deixar o PCP deixei de ser comunista. Só depois disso deixei de ser marxista. Tudo relativamente cedo na minha vida.

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(…) há sempre quem me diga que eu sou um comunista disfarçado | Ricardo Paes Mamede

Não falha. Sempre que elogio em público o PCP ou anuncio o meu voto naquele partido, há sempre quem me diga que eu sou um comunista disfarçado.

Para quem o diz, o facto eu insistir em afirmar-me como social democrata tem duas explicações possíveis: ou quero passar a mensagem dos comunistas de forma encapotada para a tornar mais aceitável (ou seja, sou um dissimulado); ou tenho receio de me afirmar comunista porque seria menos aceite nos meios sociais em que circulo e penalizado por isso (ou seja, sou um oportunista).

Qualquer uma das explicações, a ser verdade, daria de mim a imagem de alguém que nunca acerta no alvo. É que, como dissimulado, sou muito pouco discreto nas posições que assumo. Como oportunista, não ganho muito: os menos de esquerda desconfiam das minhas posições; os que se têm como revolucionários desconfiam sempre das minhas intenções.

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A IMENSA ESTUPIDEZ DE QUERER DEIXAR QUIETA A HISTÓRIA E OS CRIMES DE GUERRA, DE FORMA DESONESTA E IRRESPONSÁVEL | Alfredo Barroso

Ao invés do que sugere Miguel Sousa Tavares, no semanário Expresso, nem todos os combatentes que são envolvidos nas guerras cometem ‘crimes de guerra’, nem é compreensível que os cometam, porque há leis e convenções sobre a guerra que devem ser respeitadas. Mais: não é o facto de, no pós-guerra, prevalecer inevitavelmente a ‘justiça dos vencedores’, que inibe qualquer de nós, de denunciar que também estes cometeram vários ‘crimes de guerra’, os quais, nem por serem menos abomináveis do que os cometidos pelos vencidos, deixam de ser, também, aterradores. A grande diferença é a de que nunca serão julgados pelos vencedores, e muito menos pelos vencidos…

Se porventura existe uma qualquer ‘escala’ para a abominação, direi, então, que os terríveis e abomináveis crimes de guerra cometidos pelos nazis alemães e os fascistas italianos – quer na Guerra Civil de Espanha (1936-1939) em apoio às tropas franquistas (cujo símbolo maior é, sem dúvida, o bombardeamento de Guernica, no País Basco), quer durante a II Guerra Mundial (cujo símbolo maior, para além de outras inúmeras atrocidades, é, sem dúvida, o Holocausto, no qual foram assassinados milhões de judeus e muitos milhares de ciganos, de deficientes físicos e mentais, e de políticos antinazis comunistas, socialistas e católicos) – tais crimes são hoje considerados como a contrapartida que justifica os vários ‘crimes de guerra’ cometidos pelos aliados – cujos símbolos maiores são os bombardeamentos de Dresde (na Alemanha) e de Tóquio (no Japão), em que milhares de civis morreram queimados vivos pelas bombas incendiárias, além dos horríveis massacres cometidos pelos EUA com o lançamento das duas primeiras bombas atómicas em Hiroshima e em Nagasaki (também no Japão). Há o direito de esquecer tais atrocidades?!

Sou dos que acham que não existe – nem na vida comum, nem na vida política, nem no ordenamento jurídico democrático, e muito menos na História – qualquer “direito ao esquecimento”. E até acho vergonhoso que o Tribunal Constitucional seja agora presidido por um jurista que defende esse direito – inexistente – ao esquecimento, de nome João Caupers (colega de curso de Miguel Sousa Tavares, como este referiu) e que, a meu ver, devia ser removido do próprio TC pelos juristas que o cooptaram e que, agora, o elegeram.

Tenho à minha frente Histórias da Guerra dos Cem Anos (a qual, na realidade, decorreu entre 1337 e 1453), da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), e da Guerra dos Sete Anos (1756-1763). E, desde que as li, posso afirmar que – porventura com excepção da brutal Guerra Civil Americana ou Guerra da Secessão (1861-1865) entre os do Norte (Unionistas) e os do Sul (Confederados) – a Guerra dos Trinta Anos foi, sem dúvida, a mais cruel e devastadora de que há memória, até à eclosão da I Grande Guerra (1914-1918), da Guerra Civil de Espanha (1936-1939), da II Guerra Mundial (1939-1945) e da Guerra do Vietnam (1955-1975), na qual a prática dos bombardeamentos de napalm (a que também recorreram as tropas portuguesas em África) sobre florestas, campos de cultivo e camponeses vietnamitas, foi de uso corrente pelas tropas americanas.

Tudo isto para concluir que, a meu ver, por maior que tenha sido a valentia demonstrada por Marcelino da Mata nos cenários da Guerra Colonial (1962-1974) em que actuou, se de facto cometeu os crimes de guerra de que é acusado, não me parece que deva ser considerado um ‘herói’. Do mesmo modo me custa imaginar que seja considerado um herói da II Guerra Mundial o baronete inglês conhecido como Sir Arthur “Bomber” Harris – nomeado, em 1942, comandante-chefe do ‘Bomber Command’ da Royal Air Force e promovido a Marechal do Ar – que terá sido o responsável pela morte de quase um milhão de civis alemães, em consequência dos bombardeamentos que ele planeou e ordenou sobre mais de um milhar de cidades, vilas e aldeias alemãs, sobre as quais foram despejadas um milhão de toneladas de bombas incendiárias e explosivas, que forem assim fabricadas tendo em conta os materiais inflamáveis (sobretudo a madeira) predominantes nas habitações atingidas. Da longa série de bombardeamentos constam as bombas que devastaram a cidade de Colónia, em Maio de 1942, e as que arrasaram a cidade de Dresde, em Fevereiro de 1945. Outro tanto se diga do general norte-americano Curtis Le May – que ordenou os bombardeamentos que arrasaram Tóquio com bombas incendiárias e explosivas – e do presidente dos EUA, Harry Truman – que ordenou o lançamento das duas bombas atómicas que arrasaram Hiroshima e Nagasaki. A confirmação histórica destes factos obtive-a graças à leitura de dois livros impressionantes: a “História Natural da Destruição – Guerra Aérea e Literatura” (1999), do grande escritor alemão W .G. Sebald (1944-2001); e “O Incêndio – a Alemanha sob as bombas, 1940-1945” (2002), do historiador alemão Jörg Friedrich (1944), especialista em criminalogia da guerra, quer terrestre quer aérea, investigador dos crimes cometidos pelo Terceiro Reich, o Estado nazi, e colaborador da “Enciclopédia do Holocausto”.

Só para terminar: não é sério pegar no exemplo de um deputado e ex-governante de ‘poucochinha’ envergadura e sedento de atrair sobre si as atenções – desta vez com a ideia macaca e imbecil de ‘destruir o padrão dos Decobrimentos’ – para tentar generalizá-lo, indirecta mas sugestivamente, à classe política, sobretudo à do partido a que ele pertence, o PS. É truque barato e exemplo típico da desonestidade política e intelectual do jornalismo de baixo calibre que, infelizmente, continuamos a ter em Portugal.

Campo d’Ourique, 27 de Fevereiro de 2021

Retirado do Facebook | Mural de Alfredo Barroso

Carlos Moedas candidato à Câmara de Lisboa | Paulo Querido in “CERTAMENTE”

Rui Rio sacou um coelho da cartola e o país deve agradecer. A escolha de Carlos Moedas para candidato à Câmara de Lisboa tem, entre outras vantagens para o líder do PSD, três componentes que valorizam a vida pública portuguesa:

1 – eleva a fasquia das autárquicas em geral e a corrida à capital em particular: Moedas não é Cristas e não será um passeio para Fernando Medina. O PS terá de se empenhar seriamente em fazer melhor

2 – reduz o ruído interno do PSD que os megafones da SIC e da TVI ampliam para mal dos nossos ouvidos

3 – relança os valores (ou as pessoas e suas ideias) centristas e pragmáticos da área do PSD e com isso tira o tapete que se prepara(va) para o regresso do passismo, com o próprio a falar pela sua voz ou através de um dos seus bonecos.

O homem que deu Beja ao PSD e foi de Secretário de Estado para Comissário Europeu é em primeiro lugar um forte candidato à Câmara de Lisboa. Carlos Moedas é em segundo lugar um tampão à extrema-direita, desde logo dentro do PSD, mas com capacidade de impermeabilização também no CDS. Que, metido na coligação para Lisboa, terá de se recentrar.

Aos 50 anos de idade, desde hoje que tudo fica em aberto para Carlos Moedas. Câmara, partido, governo — todas as possibilidades para a melhor moeda do seu partido. Só tem a ganhar com esta corrida, ele e o PSD, conquistem ou não Lisboa a Medina.

[ Texto publicado na minha newsletter Certamente!, um diário de curadoria da atualidade. Se ainda não recebes, porque ainda não recebes? Envia email para paulo@querido.org a pedir inclusão na lista ]

https://paulo.querido.net/#diario

Vamos pôr os pontos nos ii | José Maltez

Vamos pôr os pontos nos ii. O 25 de Abril foi um movimento patriótico. O 5 de Outubro de 1910 foi um movimento patriótico. O 24 de Agosto de 1820 foi um movimento patriótico.

Já o 28 de Maio de 1926, que acabou suspendendo a lusitana antiga liberdade, não passou de uma guerra doméstica entre os republicanos do Cinco de Outubro. Brincaram à cavalariça e acabaram com freio, na sacristia.

Tenho medo que a classe política deixe de rimar com povo e entregue a democracia a gestores marketeiros da demagogia.

“Yo no creo en las brujas, pero de haberlas haylas”.

As vantagens da saúde privada | Jovem Conservador de Direita

Esta história ensina tudo aquilo que precisamos de saber sobre as vantagens da saúde privada. Uma senhora caiu nas instalações de um hospital privado. Foram socorrê-la, mas, antes disso, tiveram o bom senso de lhe perguntar se tinha seguro de saúde. Como não tinha, indicaram-lhe que o custo da assistência seria 600€. Teve, por isso, de ser transportada das instalações desse hospital para um hospital público. Tenho de elogiar o sangue frio da administração deste hospital que colocou o seu negócio à frente dos princípios. Seria muito fácil e humano assistirem a senhora de forma gratuita. Já que caiu num hospital parece absurdo que tenha de ser transportada para outro hospital para receber assistência. Mas nós não vivemos numa república soviética. Se uma pessoa está dentro de um restaurante e lhe dá a fomeca, o restaurante não é obrigado a servi-la gratuitamente.

Isto mostra que um profissional de saúde isolado não serve para nada. Um médico vê uma pessoa a sofrer e quer ajudar a aliviar esse sofrimento. É por isso que precisa de um gestor ao lado com distanciamento e um terminal de MB que lhe mostre que essa pessoa é o equivalente a um cheque de 600€. Alguém tem de lhes lembrar que eles não estão lá para salvar vidas, estão lã para criar valor para a organização através dos seus skills. É esta simbiose entre profissionais de saúde e gestores que alimenta o negócio de saúde. Os médicos estão lá para salvar vidas, os gestores estão lá para dizer “dentro das possibilidades.

“O juramento de Dr. Hpiócrates é socialista, já que não tem em conta a existência de seguros de saúde. A saúde do doente é a primeira preocupação, desde que tenha Médis ou ADSE. Caso contrário pode sofrer no chão enquanto espera por transporte para outro estabelecimento. E se o Dr. Hipócrates não concorda que vá para Cuba ou para a Venezuela.

Se o hospital a assistisse gratuitamente estaria a abrir um precedente muito grave. Estaria a incentivar que pessoas se deslocassem a este hospital para terem acidentes, só para poderem usufruir de cuidados de saúde de excelência. Assim, as pessoas sabem que podem ter acidentes em hospitais privados, desde que tenham seguro.

Por outro lado, esta situação também revela oportunidades. Por exemplo, abre a possibilidade de se colocarem armadilhas nestes hospitais, no sentido de angariar clientes. Se as pessoas souberem que circular no corredor de um hospital privado pode ser o mesmo que fazer uma prova dos Jogos Sem Fronteiras, garantem que não entram lá sem seguro de saúde.

Tenho todo um número da Le Docteur dedicado ao tema da saúde. Se gostam, poderão adquiri-lo através do email reservas@jovemconservadordedireita.pt.

Retirado do Facebook | Mural de Jovem Conservador de Direita

Este confinamento que nos dilacera e embrutece | Carlos Esperança

Na pungência dos lamentos de amigos onde o otimismo se apaga e a alegria dá lugar ao medo e à ansiedade, refletimos na anómala situação em que abdicamos dos amigos, até dos filhos e netos, que se tornaram suspeitos e perigosos.

Sabemos de amigos que morrem sem nos despedirmos, renunciámos às tertúlias que nos mantinham vivos e onde exercitávamos os neurónios, abdicámos dos passeios habituais, das idas aos locais de origem, enfim, de tudo, ou quase tudo, o que dava sabor à vida.

Os que outrora não abdicávamos da liberdade, renunciamos hoje a ela, por prudência ou por civismo, de motu próprio ou por imposição legal, sem nos darmos conta de que esta renúncia se pode tornar rotina e, à força do hábito, acabemos por nos resignar.

A máscara que nos tapa a boca e as narinas, que esconde a face e as suas expressões, é a metáfora da normalidade, uma peça de vestuário imprescindível, o disfarce que impede as manifestações de humor e transforma em autistas os extrovertidos.

Quando ao medo se junta a carência de meios de subsistência, se esgota a esperança e se entra em ansiedade incontrolada, já não é só a saúde individual que fica esmorecida, são as defesas contra os vendedores de ilusões que se debilitam.

Primeiro perde-se o sentido crítico, depois renuncia-se aos direitos, e acaba-se a aceitar oportunistas que exploram o medo, propagam o ódio e corroem a democracia.

Quem viu a miséria das aldeias portuguesas em meados do século passado, a resignação dos deserdados, e sentiu o horror de uma ditadura e o sofrimento da guerra colonial, não pode agora esmorecer.

A expectativa de uma vacina deve levar-nos a ser tão cautos como devemos, e a cultivar a esperança em melhores dias.

O que não podemos é deixar de ser críticos e de combater a propaganda que diariamente reabilita o antigamente, e a explosão do fascismo que encontra no medo e na ansiedade o húmus de que se alimenta.

O cavaquismo reabilitou e integrou os pides. Hoje, a ditadura passou a antigo regime, as colónias voltam a ser ultramar, os facínoras são exaltados, e as vítimas de um dos lados da guerra passam a ser designados como heróis do Ultramar.

Hei-de denunciar, até ao último dia, a operação de cosmética que compromete pessoas que me habituara a respeitar. Hei-de voltar a este dilacerante tema onde não deixarei que tapem as feridas abertas da minha geração com o bálsamo da reescrita da História.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

O covid mata os velhos e destapa os pobres | Inês Salvador

O covid mata os velhos e destapa os pobres. Empurra para o lado errado da vida os que estão em cima do muro. Uma queda desesperada a engrossar as intermináveis filas caridosas para obter alimentos, para o vão de escada em que se estende o papelão que faz de conta que é casa, as casas que não são casas, porque a habitabilidade não é condigna.

Um cão apareceu morto por afogamento no fundo das águas de Portimão com dois tijolos pendurados ao pescoço. O monstro que decidiu assim livrar-se do cão vai ser julgado.

Caminhar pelas ruas a cumprir os recomendados passeios higiénicos é cruzarmo-nos com semelhantes nossos que deambulam com dois tijolos pendurados ao pescoço. São mais e mais todos os dias. Mais degradados, mais perto do fundo, em queda livre no abismo de morrer afogado no fundo da vida. Alguns vociferam, fazem pedidos estranhos, querem falar, deles, da vida, do que foi, do que é, do que devia ser. De Deus e do desespero. Estropiados, não fisicos, estropiados emocionais, sociais. A doença, a degradação física é só consequência do total desamparo. Do trabalho que os mantém pobres, do trabalho que não existe, dos subsídios sociais que fazem chacota da dignidade.

E por isto quem é julgado? Logo cada um de nós na nossa consciência. Caminhar hoje pelas ruas do centro de Lisboa pode ser uma descida ao inferno. E chove, e a água não lava nada.

É triste e fácil a contabilidade dos óbitos dos infectados por covid, será imprecisa e impossível a contabilidade dos óbitos dos afectados.

Uma máscara para cobrir de vergonha o estado social em que vivemos.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

E depois do confinamento? | Jorge Conde in Diário de Notícias

Obviamente, o confinamento está a melhorar a situação pandémica em Portugal. São residuais as opiniões dos que não concordam, nem concordaram, com a necessidade de um confinamento. Uma larga maioria da população cedo percebeu a sua inevitabilidade e tarde – mas antes tarde que nunca – o governo resolveu adotar esta medida que (já percebemos todos) é parte da solução para a redução do número de doentes por covid-19.

Planeámos mal e o excesso de confiança com que saímos do verão levou-nos a acreditar que o pior tinha passado. António Costa várias vezes anunciou que não voltaríamos a confinar… não podíamos… a economia não aguentava. Mas cá estamos novamente nesse confinamento tido como impossível.

A seu tempo a vacinação fará o seu papel, com alguns chicos-espertos a intrometerem-se na ordem estabelecida, e esperamos ter toda a população vacinada até ao final do ano.

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Socialismo na gaveta? | Pedro Marques in Diário de Notícias

Orescaldo das eleições presidenciais fez emergir uma interessante discussão no Partido Socialista relativamente ao seu posicionamento ideológico e à sua capacidade para integrar esse debate e a divergência de opiniões.

Se a discussão ideológica é particularmente salutar quando se aproxima o congresso, marcado para julho, as acusações de monolitismo e falta de liberdade interna são particularmente estranhas, tanto mais que os supostos representantes das correntes alternativas têm lugares relevantes na estrutura partidária, são membros do Governo ou foram indicados para cargos de destaque. Nada os tem impedido de apresentarem as suas posições, nem interna nem externamente, do mesmo modo que essas posições não foram obstáculo à sua escolha.

Estranha falta de liberdade e democracia interna esta, em que se pode discutir e divergir sem qualquer problema…

Convivem no PS diferentes linhas ideológicas. Acontece apenas que a linha maioritária entre militantes e eleitores do PS não é a que os críticos eventualmente gostariam. Estão no seu direito, mas isso não torna o PS menos democrático.
A linha atual – que é maioritária, tal como o foi na maior parte da história do partido – é a esquerda moderada, o centro-esquerda. Foi com essa linha ideológica que António Costa ganhou o PS e o Governo. É essa a linha que se mantém e foi sempre com ela que o PS ganhou o país.

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Carta de um espetador de telejornais | Carlos Matos Gomes

Excelentíssimos Senhores Diretores de informação, pivôs, pivoas, repórteres de rua e de alpendre de lar de idosos, também às sentinelas de focos de infeção:

Após cerca de um ano de esforços de telescola da vossa parte para me elucidarem das maldades de um vírus (chinês, segundo o perito Trump) e da falência do Estado português no seu combate, de todas as suas instituições e entidades, das mais altas às mais baixas, do excelentíssimo Presidente da República à mais humilde auxiliar, lamento informar-vos de que chumbei à vossa cadeira. Fiz um autoteste e, reconhecendo o vosso esforço, competência, entusiasmo, alegria no trabalho, busca incessante pelas maiores e mais evidentes desgraças, alarmes e piscar de olhos, viagens ao estrangeiro, consultas a eminências várias me encontro no estado que passo a resumir: 

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As vacinas e os oportunistas | Carlos Esperança

Quando se acusam de corrupção os políticos, como se fossem uma espécie de celerados, num país de débil cultura cívica e de duvidosa probidade, recordo sempre os pedidos de que ouvia falar na infância, para um lugar de contínuo, polícia ou porteiro de Banco.

Hoje, na ansiedade de uma vacina que pode salvar vidas, vejo os pequenos decisores de lares, hospitais ou instituições prioritárias na vacinação, a incluírem os primos, os filhos e os amigos numa renúncia ao pudor e afronta à dignidade cívica.

São da massa de que eram feitos os próceres da ditadura cujo ADN anda aí na cadeia de transmissão do oportunismo, traficância e troca de favores, sem ética, pudor ou medo.

A veniaga seduz os pequenos decisores, arruína a honra de provedores de santas casas, a santidade de párocos de província, a idoneidade de autarcas de obscuras localidades, e a inveja move os que mais gritam, consome os mais fracos e dilacera os que, em silêncio, ruminam ódio.

É nestas situações de ansiedade e medo que uma legião de delatores está disponível para a denúncia, em gritos estridentes ou na cobardia da carta anónima, na exposição pública da indignação ou no lamento hipócrita bafejado em surdina.

Em quase 46 anos de democracia mudaram pouco os hábitos, a mentalidade e o civismo de um povo que parece regredir a cada sobressalto e regressar à indignidade sempre que a ocasião surge.

O favor da dose da vacina para amigos e familiares, obtida por nepotismo do decisor ou fraude de um imaginativo burocrata é a metáfora inequívoca do país que não deixámos de ser e teimamos em continuar.

Não é apenas o vírus que nos mata, é a falta de decoro que nos faz morrer de vergonha.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

NO JARDIM DO ÉDEN | António Pais

NO JARDIM DO ÉDEN vivia Adão a quem o Senhor Deus disse: “Podes comer de todas as outras árvores do jardim, mas da árvore da ciência do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres, morrerás ao certo.

“Depois o Senhor Deus adormeceu Adão e da sua costela criou Eva e “ambos estavam nus, Adão e sua mulher, e contudo não se envergonharam.” (ainda bem, acrescento eu).

A serpente astuta e sabendo que Eva ainda não existia quando o Senhor Deus proibiu Adão de comer o fruto da tal árvore perguntou-lhe se Deus a tinha proibido de comer o fruto ao que Eva respondeu afirmativamente dizendo que morreriam se o comessem.

Ao que a serpente lhe respondeu: “”Não, não morrereis. Antes, Deus sabe que quando dele comerdes, abrir-se-ão os vosso olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo o bem e o mal.

“Depois de comerem o fruto “subitamente abriram-se-lhes os olhos e ambos perceberam que estavam nus, por isso entrelaçaram folhas de figueira e fizeram cinturões para si.

“O resto da história já todos conhecem, ou quase todos.

Esse foi o dia em que um homem e uma mulher preferiram ir viver para fora do paraíso para poderem conhecer o bem e o mal, portanto não se admirem que haja quem pratica o mal. Nem as ordens do Senhor Deus fomos capazes de cumprir quanto mais as leis da República.

António Pais

Retirado do Facebook | Mural de António Pais

Certamente! | Domingo, 31 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Domingo, 31 de janeiro de 2021

Hoje abordo o caso das vacinas sobrantes na perspetiva não política e a terceira onda de choque das presidenciais, que está a molhar PS e BE. Também retomo as sugestões, que vão ter um novo figurino: nuns dias, como é o caso de hoje, é uma série em streaming, noutros dias será um livro, noutros ainda uma newsletter, ocasionalmente um podcast.

É também dia de dar as boas vindas a um grande número de novos subscritores, o maior desde que o diário começou em meados de outubro último: bem vind@s!

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Lavinia Fontana[ Capa 6 de 7 da série Pintura no feminino, escolhida por Ana Roque. ]Próxima série: A fabulosa mão de Vasco Gargalo

LER AQUI

https://paulo.querido.net/#diario

Certamente! | Paulo Querido

Sábado, 30 de janeiro de 2021
Hoje no diário: a direita mostra-se entre um disco riscado e uma pescadinha de rabo na boca, com as mesmas pessoas e os mesmos tiques e as mesmas respostas quando o mundo é outro. Tem tudo para correr mal. O Bloco digeriu bem as presidenciais e Catarina, a Realista, dá uma lição de damage control. Passo os dedos pelo anúncio da central nuclear chinesa. E antes das opiniões e do linklog ainda falo das mudanças no diário, que ficou mais legível (espero).
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Mary Cassatt[ Capa 5 de 7 da série Pintura no feminino, escolhida por Ana Roque. ]

Pedro Santana Lopes meteu-se hoje na fila dos que pedem um “governo de emergência nacional”. Rui Rio lidera a fila pelos políticos. Miguel Sousa Tavares lidera a fila pelos comentadores. Tanto vai ser dito sobre isto. Eu só leio e oiço: “vem aí uma pipa de massa, a maior pipa de massa de que há memória, e não há ninguém do centro-direita e da direita lá nos sítios onde a massa se distribui, pá, não há direito, e pelos votos não vamos lá nem daqui a três anos 😦 😦 😦 ”. Consegues ler mais do que isto? Diz-me o quê.
Francamente? Seriamente? Também se arranja. O partido no Governo tem 40% de intenções de voto, mais que toda a oposição de direita somada. Saímos de umas eleições em que o bloco Governo + Presidente registou uma votação superior a 85% dos votos expressos. Emergência? A única coisa da política em estado de emergência é o PSD. Não é um governo de emergência nacional que o laranjal pede: é um governo de salvação dos dirigentes do PSD. Digo dos dirigentes porque as clientelas do PSD, essas, estão cobertas.
Mais de Santana: quer o adiamento das eleições autárquicas! E quer ser candidato a presidente de câmara pelo seu antigo partido, não pelo novo que fundou. Não é claro que câmara — mas isso é o que menos importa.
Bem, ao menos os regressos de Santana Lopes e Adolfo Mesquita Nunes são uma benção pelo que vieram dar aos media. Jornalistas e pivôs podem descansar um dia ou dois dos seus flirts com a extrema-direita. E nós temos menos vezes a cara de Ventura nas televisões e primeiras páginas da imprensa.

¶E por falar em Adolfo Mesquita Nunes: “
se não conseguir ser eleito, não me voltarei a candidatar”, ameaçou. E o seu maior não-adversário, Nuno Melo, disse algo como se não houver mais ninguém, eu sou candidato. Mas isso é o menos, o pior é assumir que tem a capacidade de unir o partido.(pausa para rirmos todos à gargalhada.)(outra pausa para continuarmos a rir mais uns minutos.)Entretanto um antigo presidente do CDS, José Ribeiro e Castro, veio a terreiro acusar os críticos de abrirem uma “crise artificial” e considera que “há premeditação” no “ataque” à liderança de Francisco Rodrigues dos Santos. É o que se chama descobrir a pólvora. Claro que há premeditação: AMN escreveu com clareza, respondeu com clareza e não podia ter sido mais explícito acerca da premeditação!
Abençoado CDS! O momento era tão menos divertido sem os seus fantasmas às voltas nos media!

¶Do outro lado do arco, a coordenadora do Bloco de Esquerda admitiu este sábado que a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa nas presidenciais de domingo pode ser explicada com a transferência de votos do eleitorado da esquerda para o atual Presidente. Os eleitores socialistas e dos “partidos à esquerda do PS” foram “a força que quis esta estabilidade de uma vitória folgada à primeira volta de Marcelo Rebelo de Sousa”, disse Catarina Martins no final de uma reunião da Mesa Nacional para analisar os resultados das presidenciais.
Chama-se a isto estratégia de contenção de danos. Da boa. Daquela que o PS não tem.
Por acaso é verdade. Todas as análises sérias dos votos dizem o mesmo. Marcelo foi reeleito pelo eleitorado de esquerda, enquanto o eleitorado de direita expressou com clareza algo que Marcelo já sabia há algum tempo: o seu partido tem vindo a distanciar-se do centro onde ele, Marcelo, nunca deixou de estar, como aliás outros dos poucos sociais-democratas do PSD, e hoje são quase estranhos. As contas eleitorais da direita estão muito complicadas. E por ali a insistência é clara: de governos de salvação nacional a alianças com a extrema-direita anti-democrática vale tudo, menos ser sensato e olhar para o centro.
Mas a verdade pouco importa em política. Bom, mesmo, é ver o Bloco no caminho da reconciliação. O erro do voto no OE foi pago com juros pesados, mas está pagoNext.

¶Do outro lado do planeta e a 180º da política indígena: a agência noticiosa Xinhua noticiou o início hoje da operação comercial do primeiro reator nuclear desenvolvido pela China, o Hualong One.
A central de Fuqing, no sudeste da China, vai gerar dez mil milhões de quilowatts/hora (kWh) de eletricidade por ano, o que permite à China reduzindo as emissões anuais de dióxido de carbono em 8,2 milhões de toneladas.
Porque é importante?Há 45 anos tinha o meu crachá “nuclear não, obrigado!” Em quatro décadas a indústria nuclear evoluiu imenso. Gradualmente fui trocando a oposição convicta por uma atitude crítica. E com atenção especial à tecnologia. Este evento é importante por dois motivos:
o primeiro diz respeito à China, que conquista uma emancipação especial pois este, que equipa a 48ª central nuclear do país, é o primeiro reator não importado, com tecnologia made in China;
o segundo, porque se trata de uma nova geração de reatores que tem maior segurança e eficácia. Espera-se desta geração um contributo importante para reduzir as emissões de carbono.
A China não muda para já a sua terceira posição na lista dos países com maior número de centrais nucleares, mas as posições poderão inverter-se nos próximos anos. As centrais nucleares chinesas forneciam apenas 5% das necessidades de energia elétrica do país em 2019, mas a cota aumentará com o objetivo da China de alcançar a neutralidade nas emissões de carbono até 2060.¶No diário de ontem introduzi algumas alterações.

O método de produção foi bastante melhorado, produzo agora a newsletter em menos 25% do tempo. E aumentei as capacidades do ente digital Cecil, encarregue dos automatismos e outras tarefas. Mas foi ao nível gráfico que tu deste pela coisa. Nas opiniões, em vez dos títulos — a maioria das vezes maus ou inexpressivos — passei a incluir uma citação d@s autor@s. Mais sumo para melhor decisão sobre o que ler.

Hoje mudei a separação dos blocos de texto, ou assuntos. A numeração não me satisfazia, era um pouco agressiva ao olhar. O separador novo tem mais espaço branco envolvente, é menos agressivo, mais conservador — ganho em estética o que perco em dinâmica.Simplificar e aumentar a legibilidade é o objetivo.

Em breve regressará a sugestão de livros — de permeio com sugestões de newsletters, filmes e séries disponíveis em streaming, dando resposta aos assinantes que responderam ao meu pedido de sugestões nesse âmbito. Será na semana que entra, se tudo correr bem.
OPINIÕES
José Pacheco Pereira: “Todas as vantagens do analógico sobre o digital podem ser exploradas, e mesmo que alguém diga que tudo isto pode ser feito online, o online não chega às portas de um supermercado, ou às mãos dos polícias, não se dobra e mete no bolso, ou se leva num comboio de regresso do matinal trabalho das limpezas, e acima de tudo não se leva para casa, nem se lê devagar, nem se colecciona, não é da nossa dimensão física.”   // Público ($)
Bernardo Pires de Lima: “Talvez por ser um tema fundamental, passou ao lado da nossa imprensa. E é pena, porque o assunto interessa-lhe diretamente. Nos últimos dias, deram-se significativos avanços internacionais no cerco às grandes empresas tecnológicas, sobretudo no domínio fiscal, no qual operam continuamente à margem, numa zona de privilégios acumulados sem ponta de vergonha, privando os Estados e as sociedades onde deveriam ser tributadas de recursos financeiros e de um exercício de justiça fiscal indispensável à saúde do capitalismo e das democracias.”   // DiárioDeNotícias
Manuel Carvalho da Silva: “Os poderes dominantes querem fazer da gestão da pandemia uma oportunidade para executar os seus programas e tolher o futuro. Acelera-se a concentração da riqueza, o domínio de grandes plataformas e grupos empresariais sobre a estrutura da economia. O setor financeiro impõe-se e o chairman e diretor não-executivo da Goldman Sachs, indivíduo comprometido com a geopolítica da “economia que mata”, é o presidente da Aliança Global para as Vacinas. Os jovens estão a ser muito sacrificados, mas não há sinais de políticas novas que os venham a beneficiar.”   // JornalDeNotícias
Sandra Cunha: “Perante a dureza destes números e a crueza das mortes, não se percebe a resistência do governo em ativar o instrumento, previsto no Estado de Emergência, que permitiria aliviar a pressão sobre o SNS e que é a requisição civil dos privados da saúde. Permitiria, certamente tratar melhor e quem sabe salvar mais algumas vidas.”   // Esquerda
Eduardo Pitta: “Miguel Sousa Tavares glosa o tema em tom heróico. Chegou a hora, diz ele, do Presidente da República substituir o Governo de António Costa por um de iniciativa presidencial, «sem dissolver o Parlamento, sem necessariamente despedir todo o elenco do actual Governo…», apenas metade dos ministros, aqueles que «não fazem nada ou só atrapalham…» Um tal governo seria para governar «enquanto durar esta situação de catástrofe pública.» Vindo da boca de quem quem — além de jornalista, MST é advogado —, o dislate tem de ser associado a liberdade poética.”   // DaLiteratura
Viriato Soromenho Marques: “A tragédia portuguesa é de tal magnitude que as responsabilidades serão mais tarde ou mais cedo apuradas. Haverá teses académicas, estudos, obras de ficção. A maioria delas será produzida por autores estrangeiros. O colapso luso entrará, pela negativa, nos livros de estudo e nos manuais de Saúde Pública de todo o mundo. Da nossa amarga experiência será extraída uma sabedoria negativa, de alcance universal, sobre esta queda numa hemorragia demográfica sem paralelo desde a gripe espanhola de 1918-1919. Mas as contas e os estudos ficarão para depois.”   // Diário de Notícias 
LINKLOGNo, WallStreetBets isn’t robbing Wall Street to help the little guy. Analysis: A seductive “short squeeze” narrative obscures what’s really happening.  // Ars Technica 🇬🇧
Ce que cachent les passages noircis du contrat passé entre l’UE et AstraZeneca. La Commission européenne pensait avoir masqué les passages confidentiels du contrat passé avec le laboratoire anglo-suédois pour son vaccin anti-Covid. Mais une astuce permet de découvrir le montant du contrat.  // Libération ($) 🇫🇷
A new report by Corporate Europe Observatory clearly shows neoliberal reforms weakened public healthcare systems all over Europe, with dramatic consequences in terms of Covid-19 death, disability rates, and many other social impacts.  // EUObserver 🇬🇧
Prevent the Next Food Crisis Now. The number of chronically hungry people increased by an estimated 130 million last year, to more than 800 million – about eight times the total number of COVID-19 cases to date.  // ProjectSyndicate 🇬🇧
Caos, más trámites e incertidumbre, los efectos del brexit en el comercio de Reino Unido  // Público 🇪🇸
La transformación que ha sufrido la Tierra desde mediados del siglo XX está siendo brutal  // ctxt 🇪🇸
Acid rain is yesterday’s news? Acid rain seems to be a thing of the past, yet sulphate continues to rise in many inland waters worldwide. Researchers led by IGB and the Danish University of Aarhus provide an overview of the sources of sulphate and its effects on freshwater ecosystems. They point out that the negative consequences for ecosystems and drinking water production have so far only been perceived regionally and recommend that sulfate be given greater consideration in legal environmental standards.  // IGB 🇬🇧 
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Certamente! Sexta-feira, 29 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Hoje notícias menos más, enfim, depende da perspetiva: Portugal atingiu o pico da pandemia Covid-19, o que tem um lado bom, que é a partir daqui só pode melhorar; e se tens formado a ideia, as seen on tv and read on newspapers, que a corrupção está a alastrar em Portugal, bem, olha, pergunta-lhes onde vão buscar essa ideia porque o índice não mostra isso.

E ainda: a achega de Boaventura de Sousa Santos ao avanço da extrema-direita e um texto excelente que explica bem o caso GameSpot, junto com uma infografia.

Já lá vamos. Antes, uma nota pessoal: esta semana o diário passou a chegar a duas amigas chegadas e a um amigo de há quase meio século. Olá F., olá R., olá R.!


carrega imagens para ver imagem de Lilly Martin SpencerLilly Martin Spencer[ Capa 4 de 7 da série Pintura no feminino, escolhida por Ana Roque. ]

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RSI: mitos e factos, no país das desigualdades | José Soeiro in Jornal Expresso

Portugal continua a ser um país de contrastes e de desigualdades profundas. Muitos dos discursos que afirmam condoer-se com a pobreza (mesmo que sobre ela tenham uma visão fatalista), não parecem especialmente importunados com o crescimento da desigualdade. São insufladas clivagens internas aos pobres para alimentar conflitos que evitem pôr o foco nas desigualdades sistémicas, de classe e de distribuição da riqueza. Não se trata de um acaso ou de um pormenor, mas de uma estratégia consciente que precisa de quem se lhe oponha sem hesitações

Um fosso de desigualdades

Esta semana ficámos a saber, através de um estudo da consultora Mercer, os números mais recentes das desigualdades salariais nas empresas portuguesas. Com 916 mil euros de salário médio anual, os CEO das empresas do PSI-20 ganham cerca de 30 vezes mais, em média, do que os trabalhadores da sua empresa. Além do fosso enorme dentro das organizações, choca o facto de ele não parar de aumentar. Num ano, os salários do topo cresceram 20%, os dos trabalhadores 1,5%. O pódio da desigualdade tem vencedores recorrentes: Pedro Soares dos Santos, dono do Pingo Doce, ganha 167 vezes o salário médio de um trabalhador do grupo. António Mexia, ex-presidente executivo da EDP, auferia cerca de 2,17 milhões de euros de remuneração anual. Carlos Gomes da Silva, da Galp, 1,4 milhões.

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O uno e o múltiplo: lições das presidenciais | Porfirio Silva

1. Em maio de 2020, quando foi possível debater explicitamente as eleições presidenciais nos órgãos do meu partido, apresentei o meu ponto de vista, com dois alertas (como foi noticiado, com razoável rigor, por exemplo aqui). 

Primeiro, o apoio, declarado ou implícito, do PS a Marcelo Rebelo de Sousa introduziria desequilíbrios no regime democrático, porque, ao criar a expectativa de uma votação esmagadora (com o apoio de todos os partidos que alguma vez governaram Portugal em democracia constitucional), abriria um novo espaço à direita extrema, oferecendo-lhe o bónus de ser a principal novidade das presidenciais e, consequentemente, o palco da campanha, sendo desse palco que vivem os movimentos contra o sistema democrático. Com a agravante de que o palco à extrema-direita perturba a capacidade do PSD para ser uma alternativa decente de governo.

Segundo, alertei para o perigo de, naquele cenário de união de facto com MRS, virmos a ter na área socialista somente uma candidatura populista, sem histórico de um programa de esquerda articulado e coerente, mas vocal na crítica à política e nos ataques ao PS.

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CDS, Chega, IL, PSD – a direita em mudança | José Ribeiro e Castro in Jornal Público

Hoje temos dois problemas principais. O primeiro é o de a relação esquerda/direita não se alterar e favorecer a esquerda. O segundo são as posições políticas do Chega serem tão radicais e desrazoáveis. 22 jan 2021

O que se passa em Portugal é uma reestruturação do sistema partidário. Tem acontecido noutros países, como Espanha, França e Itália. Chegou a nossa vez. As razões, oportunidades e factores desencadeantes não são os mesmos; mas o fenómeno é. Já tinha começado à esquerda; agora, chegou à direita. À esquerda, começara em 1999 com o BE; recentemente, juntaram-se Livre e PAN. À direita, o fenómeno surgiu em 2019, com a entrada em cena de Chega e IL.

Porquê à direita? Por duas razões que sempre aparecem: uma, porque os partidos que ocupavam o espaço deixaram de representar preocupações e aspirações de partes relevantes do seu eleitorado, cavando nele frustração crescente; outra, porque correntes de opinião que se exprimiam dentro desses partidos quiseram autonomia e voz própria.

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Certamente! Quinta-feira, 21 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
Hoje não tenho disposição para escrever. Para compensar, deixo-te um conjunto mais alargado de opiniões e de sugestões de leitura.Amanhã ou no fim de semana tenciono abordar Marcelo Presidente 2.0, que deverá ser substancialmente diferente da primeira versão, bem como colocar em dia a correspondência dos leitores.A frase do dia: “O falhanço coletivo que nos trouxe até aqui é mais um rombo no deve e haver que as gerações mais novas têm para com um sistema político que os exclui e não os representa.” Susana Peralta

OPINIÕESEditorial: Voltar à escola. JornalDeNotícias👉Diogo Martins escreve: Obstrução do direito de voto sem paralelo na democracia portuguesa. LadrõesDeBicicletas 👉Rui Tavares Guedes escreve sobre a pandemia Covid-19: Não é a economia, estúpido. Visão 👉Fátima Marques escreve sobre viver em situação de catástrofe: Re-humanizar os índios e os cowboys. CapitalMagazine 👉Borja González del Regueral escreve sobre empresas e Europa: As tendências tecnológicas para 2021, um ano eminentemente digital. DiárioDeNotícias 👉Paulo Pisco escreve sobre democracia e André Ventura: O germe do fascismo. Público 👉Ricardo Salazar também escreve sobre André Ventura: Vírus Ventura. Público👉Valupi também escreve sobre Ventura: Das vantagens de Ventura ficar em 2º.AspirinaB 👉Mafalda Anjos: Escolas, trilemas e falhanços. Visão 👉 
LINKLOGWarming ocean waters could reduce the ability of fish, especially large ones, to extract the oxygen they need from their environment. Animals require oxygen to generate energy for movement, growth and reproduction. In a recent paper in the Proceedings of the National Academy of Science, researchers describe their newly developed model to determine how water temperature, oxygen availability, body size and activity affect metabolic demand for oxygen in fish.  //mcgill.ca 🇬🇧Electric car batteries with five-minute charging times produced. First factory production means recharging could soon be as fast as filling up petrol or diesel vehicles  //theguardian.com 🇬🇧A strain of covid-19 that appears to spread faster is colliding with the campaign to vaccinate Americans. That appearance of the variant has already led the US to require British visitors to test negative before flying. Some scientific leaders say the US should now consider a coordinated national lockdown period.  //technologyreview.com 🇬🇧Biden’s 17 Executive Orders and Other Directives in Detail. The moves aim to strengthen protections for young immigrants, end construction of President Donald J. Trump’s border wall, end a travel ban and prioritize racial equity.  //nytimes.com 🇬🇧Amazon sends letter to President Biden, says it is ‘ready to assist’ with U.S. vaccination efforts  //geekwire.com 🇬🇧Brave becomes first browser to add native support for the IPFS protocol. Brave users will now be able to seamlessly access ipfs:// links.  //zdnet.com 🇬🇧35 unforgettable images that capture Trump’s wild and bitter presidency  //medium.com 🇬🇧Adictos a las redes: ¿Tienes ansiedad digital? Aunque sirven para mantenernos conectados, las redes sociales también pueden ser factores para aumentar nuestro malestar y ansiedad.  //ethic.es 🇪🇸A estratégia para a Igualdade de Género para o período de 2020-2025 que foi aprovada esta quinta-feira em Parlamento Europeu quer atrair mais mulheres para as áreas de informática e tecnologia — e parte do processo passa por mudar a forma como as mulheres são retratadas nos canais audiovisuais.  //publico.pt 🇵🇹 
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Sobre a pandemia | José Vítor Malheiros

O presidente americano Lyndon B. Johnson, um texano apreciador da vida ao ar livre, disse uma vez a propósito de J. Edgar Hoover, director do FBI, que preferia tê-lo “dentro da tenda a mijar para fora, do que fora da tenda a mijar para dentro”. A tirada, que Johnson parece ter repetido muitas vezes a propósito de outros políticos, rivais ou adversários, é uma variação colorida do aforismo de Sun Tzu “Mantém os teus amigos próximos, mas os teus inimigos ainda mais próximos”. É um bom conselho.Nestes dias em que a situação da pandemia se agrava de forma alarmante, sem melhorias à vista, em que os governantes não parecem seguros do que devem fazer e em que a oposição começa a animar-se com a perspectiva de uma catástrofe (é difícil de acreditar, mas basta ver o tom triunfalista que certos políticos usam para referir os recordes de casos e mortes, como se fossem respostas às suas preces) tenho-me lembrado muito da tirada de Johnson.

E tenho-me lembrado, em particular, quando vejo, a propósito de uma decisão do governo ou de uma nova má notícia, a vaga de críticas com que é recebida por parte de organizações profissionais e de diferentes instituições.

A posição de Johnson era ditada por um mero cálculo político. Mas há muitas outras boas razões para, em situações de crise, convidar mais gente para dentro da tenda. Pessoas com outras perspectivas podem ter outras ideias e algumas delas podem ser boas. Pessoas de outras áreas (profissionais, regionais ou políticas) têm outras fontes de informação. Pessoas que participaram do processo de decisão não podem criticar o processo de decisão. Pessoas que conhecem as razões que existem para as medidas tomadas não poderão dizer que não as conhecem ou compreendem – ainda que discordem delas.

Numa fase de extrema gravidade como a que atravessamos, incluir no processo de decisão pessoas e instituições com competências relevantes e que têm influência nas atitudes dos cidadãos e na mobilização das organizações parece-me indispensável. E já me parecia antes de termos atingido a fase de extrema gravidade. Esta é a tal “comunicação” que não tem nada a ver com propaganda, que é absolutamente indispensável, e na qual as autoridades de saúde têm falhado continuamente. É a comunicação interna, no seio do Sistema Nacional de Saúde – que inclui mas excede o círculo do Serviço Nacional de Saúde e que inclui mas excede (em muito) a simples difusão de informação e a propaganda a que se quer resumir a comunicação.

Esta comunicação no seio do sistema é certamente difusão de informação por parte do Governo e autoridades de Saúde, mas é principalmente recolha, validação e agregação de informação (que não se resume a dados mas inclui também propostas e críticas), confronto de ideias, debate e negociação.

As “reuniões do Infarmed” podem ter parecido a alguns que servem para isto mas não servem. São organizadas como palestras oitocentistas, onde quem sabe ciência e medicina ensina aos ignorantes que não a sabem, para que depois estes tomem uma decisão política. Esta ideia autoritária de comunicação, unidireccional, de cima para baixo, onde sábios ensinam ignorantes, desperdiça o saber de quem ouve e desperdiça o conhecimento que nasce da discussão aberta e permanente. E isso acontece quer quando quem ouve os sábios são alunos quer quando são políticos. O facto de haver quem entre mudo e saia calado destas reuniões significa que elas não cumprem qualquer papel de construção de consensos ou de solidificação de opiniões.

É natural que, agora que a borrasca começou, os que mijam para dentro da tenda exibam alguma relutância em entrar num espaço cujo cheiro já não é muito agradável.

Mas as alternativas são todas piores.

José Vítor Malheiros

Retirado do Facebook | Mural de José Vítor Malheiros

Certamente! Quarta-feira, 20 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Hoje afirmo que — a confirmar-se a sondagem do dia — o candidato da extrema-direita é o grande derrotado das presidenciais, lembro que Rui Rio está vivo e aos pontapés e era bom que acertasse num alvo ou dois, explico porque não estou como toda a gente a pular de contente por ver Joe Biden na Casa Branca, e junto a minha à voz de Vital Moreira: nem mais um ministro infetado!Antes, uma rectificação: no diário de ontem escrevi “legislativas” quando era óbvio no contexto da frase que me referia às autárquicas, a disputar algures no outono. Era tão óbvio no contexto que aposto que metade de vós não deu pela coisa e, como eu a reler, entendeu “autárquicas” ao ler “legislativas”…
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Faltam 4 dias para a conclusão das eleições para a Presidência da República. Sondagem do CESOP da Universidade Católica para a RTP e o Público divulgada ao fim do dia dá o resultado dentro do esperado: Marcelo vence à primeira e Ana Gomes fica no segundo lugar. (RTPPúblico)
Em relação à minha bola de cristal, Marcelo tem um desvio positivo de 2 pontos, Ana Gomes tem um desvio negativo de 1 ponto e o candidato da extrema-direita tem um desvio positivo de 2 pontos.Parece-me claro que, a confirmar-se no domingo esta projeção, André Ventura será o grande derrotado desta campanha. Falha todas as metas menos uma. Colocou a fasquia elevada demais para a sua capacidade. Um soldado de infantaria armado em Napoleão. Por outro lado os seus 10% indiciam que a extrema-direita encontrou o seu limiar máximo em Portugal: o crescimento anti-democracia estabilizou nos últimos 7/8 meses depois da arrancada explosiva nos 4/6 meses anteriores.A meta que não falhou: consolidou a extrema-direita como a bússola da televisão e imprensa, fazendo gato-sapato da agenda dos jornalistas.
2
Passou despercebido no meio da confusão e desnorte em que vivemos. Rui Rio lançou um movimento visando reformas no sistema político e nos estatutos do partido. Rio colocou o PSD a trabalhar nas propostas: a “reforma da Justiça, que acho ser vital, a revisão constitucional, porque é tempo de fazer, e a reforma do sistema político, porque continua a ser muito importante”. Foram criadas as comissões cujo trabalho consiste em preparar as propostas de reformas nessas três áreas e nos estatutos. Nada de inesperado nas pessoas que integram as comissões: Paulo Mota Pinto, David Justino, Manuel Teixeira e Isaura Morais são os coordenadores de equipas tão cinzentas, históricas ou laranjas, como preferires, que eles.Eu diria que Rio está a pretender lançar um sinal de reconciliação com o centro e com o país, depois da traição à pátria e à União Europeia perpetrada nos Açores com a coligação com a extrema direita anti-democrática. Espero que tenha sorte, embora tenha dúvidas: não se perdoa facilmente o que Rio fez e o silêncio sobre a campanha eleitoral não ajuda lá muito: ao eleitorado laranja não foram apresentados argumentos para não votarem no candidato da extrema-direita. E deviam.
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E porque espero, e até gostava, que Rio tivesse sorte? Fácil. Primeiro, como compensação pelo seu comportamento de estadista ao longo da pandemia. O PSD nunca fez parte do problema. Votou com seriedade tudo o que tinha diretamente a ver com a pandemia. A direção fez oposição com responsabilidade, deixando aos apparatchiks as farpas e flamas, como é normal.Segundo, porque é vital para a democracia se aguentar nas canetas que haja uma alternativa no centro-direita na qual os eleitores possam confiar.Agora: confio em Rio depois da novilhada açoreana? Bem: não sou marinheiro daquelas águas e quero um país diferente do que Rio quer. Dito isto: a minha (des)confiança nele não mexeu um milímetro. Rio habituou-me a esperar boas e más decisões que surgem quando e onde menos espero — e isto já vem dos tempos da Câmara do Porto.
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O mais provável é teres hoje visto com otimismo a tomada de posse de Joe Biden como 46º Presidente dos Estados Unidos da América. O mundo vê-se livre de Trump e regressa à Casa Branca um democrata, como não estar otimista? Junta-lhe a primeira vice-presidente (um pormenor significativo para um homem como eu: Kamala Harris jurou a bíblia nas mãos do marido, uma honra que nenhum americano tivera antes), junta-lhe uma administração muito bem pensada e escolhida para o propósito de reunificar as tribos estado-unidenses — como não ficar sorridentemente otimista?Três razões. Uma: a Administração Biden não contraria, pelo contrário, a gerontocracia em que os EUA se tornaram, particularmente notório ao nível federal; não vejo que venha daí nada de bom.Outra: as divisões sociais não nasceram do trumpismo, que apenas acentuou as fracturas raciais que nunca pararam de se agravar ao longo da história do jovem país; tenho as maiores dúvidas que boas intenções e políticas manietadas pelas forças que controlam o poder (e das quais Biden nunca se afastou) cheguem para inverter o divisionismo social.Divisionismo que, bem vistas as coisas, é não só aceite como pretendido pelas maiorias: é pequeno e pouco poderoso o grupo de pessoas que vê as divisões raciais e de classe dos americanos como um problema. Pessoas mas também grupos empresariais olham para as divisões com bons olhos: das igrejas às armas, manter e incentivar o individualismo e o tribalismo dá mais lucro do que combatê-los.E outra: à medida que perde o momento geopolítico, a liderança e o protagonismo, fraqueja a cola que tem mantido federados os 50 estados e aumentam as vozes e o volume do coro que fala na independência de estados como o Texas (que é uma parte do México e nenhuma fronteira foi eficaz em mais de 100 anos) e a Califórnia; esta tendência vem-se agravando e era precisa uma administração do calibre de três ou quatro Roosevelts para a inverter.
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Quantos mais ministros infetados e quantos mais confinamentos dos seus círculos de contactos próximos são necessários para ser adotada a única decisão decente, que é de vacinar os principais dirigentes políticos do Estado (PR, PM e ministros, Presidente e vice-presidentes da AR, pelo menos), como grupo de risco que são, pelas numerosas reuniões oficias e de trabalho presenciais em que têm de participar, muitas vezes em espaços fechados, ao serviço do Estado?”, pergunta Vital Moreira no Causa Nossa.Eu junto a minha à voz de Vital Moreira. Pelo menos num anterior diário referi que a primeira linha política devia encabeçar a primeira vaga de vacinas. Não usar nesse grupo a primeira remessa de vacinas é um erro. Cometido por uma péssima razão: o medo da reação da opinião pública.

OPINIÕESFrancisco Seixas da Costa escreve sobre eleitorado e Belém: Bom senso e bom gosto. DuasOuTrêsCoisas 👉Cristina Siza Vieira escreve sobre turismo e União Europeia: Viajar é preciso. DiárioDeNotícias 👉Carlos Esperança também escreve sobre a campanha e o recandidato Marcelo: Eleições Presidenciais E Liberdades. PonteEuropa 👉Pedro Santos Guerreiro está em Estado de choque. Expresso $José Brissos-Lino escreve sobre A fraude do nacionalismo cristão. Visão 👉Maria José da Silveira Núncio alto e bom som: Em nome da saúde, fechem as escolas!. Público 👉Rui Tavares escreve: Uma ideia melhor do que votar num racista autoritário? Não votar nele. Público $ 
LINKLOGOs dois projetos de lei do PSD e um do PAN, hoje em discussão no plenário da Assembleia da República, tiveram o melhor acolhimento da bancada parlamentar do BE e do PCP, que sublinharam a necessidade de proteger o princípio do juiz natural (escolha aleatória de um juiz do processo para assegurar a imparcialidade) e de aperfeiçoar os diplomas na especialidade.  //rtp.pt 🇵🇹French constitutional change on environmental preservation faces long road ahead  //euractiv.com 🇪🇸La sociedad vigilada: la pandemia precipita la digitalización : Ethic. La crisis sanitaria acelera la importancia de la digitalización para combatir al virus, pero también abre el debate sobre cómo gestionar la privacidad.  //ethic.es 🇪🇸África sofrerá efeitos da retração do financiamento externo chinês. Dois principais bancos de fomento chineses diminuem o financiamento de projetos no exterior em mais de 90%. Analistas veem que África também sentirá os efeitos da “nova disciplina” de liberação de recursos da China.  //dw.com 🇵🇹Lawmakers who denied Biden’s victory also embrace a deadlier conspiracy: climate denial. 90 of the 147 members of Congress who voted to overturn the election deny basic climate science.  //heated.world 🇬🇧Majority of Europeans fear Biden unable to fix broken US. Survey finds more Europeans than not say US cannot be trusted after four years of Trump.  //theguardian.com 🇬🇧 
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Pandemia à beira do abismo | David Pontes in Jornal Público

Como o PÚBLICO titulou há uma semana na sua primeira página estávamos “no princípio do pior” da situação pandémica em Portugal. Todos os indicadores – números de mortes, número de novos casos, necessidade de cuidados intensivos – já apresentavam um recorde nesse dia e, daí até hoje, tem sido uma sucessão de máximos ultrapassados. Ontem foi mais um.

Somos um dos países com um dos registos mais complicados da Europa e esse cenário lúgubre, reforça-se com a previsão dos administradores hospitalares que calculam que o número de internados por covid-19 possa aumentar 60% durante a próxima semana. Podemos vir a ter mais de 7500 infectados nos hospitais, 900 em cuidados intensivos. E a ser correcto o alerta do epidemiologista Carmo Gomes, de que os 10 mil casos diários podem ser “um tecto falso” que escondem uma realidade bastante pior por incapacidade de testagem, as previsões poderão até ser conservadoras.

Na marcha inexorável da epidemia, já não vamos a tempo de evitar que o cenário das ambulâncias à porta dos hospitais, da corrida pelo aumento da capacidade de internamento, venha a ser a dura realidade dos próximos dias. O pior dos horizontes, o de atingirmos a capacidade de resposta do sistema de saúde, pode estar terrivelmente próximo. Leia-se com atenção as palavras do presidente do conselho de administração do Santa Maria: “A capacidade dos hospitais não é ilimitada.”

Perante esta realidade, a inclinação do Governo para manter o equilíbrio entre as necessidades de saúde pública e a subsistência de uma economia em transe, começa a assemelhar-se a uma inclinação para o abismo. O confinamento teve uma partida em falso e se, passado o fim-de-semana, a situação se mantiver e as autoridades não reforçarem as restrições rapidamente, poderá ser uma situação de verdadeira catástrofe a levar o Governo a agir, o que seria péssimo pelo tempo desperdiçado e pelas vidas perdidas.  

As imagens dos hospitais sobrelotados como o de Loures ou Torres Vedras podem trazer o medo, que funcionou em Março, e que poderá levar alguns dos que encararam de forma mais ligeira este confinamento a arrepiar caminho. Mas o cansaço acumulado, e a necessidade de muitos continuarem a sua vida, deixa cada vez menos margem às autoridades para hesitações. Não reforçarmos o confinamento, perante o abismo que se avizinha, até para preservar coisas essenciais como o ensino presencial nos primeiros ciclos, será um caso de cegueira colectiva.

David Pontes in Jornal Público

https://www.publico.pt/2021/01/17/opiniao/editorial/pandemia-beira-abismo-1946651

Certamente! Sexta-feira, 15 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

E pronto: metade do mês já lá vai. O tempo subjetivo passa cada vez mais depressa. Hoje no diário só dá eleições: as presidenciais portuguesas e para a liderança da CDU, o partido de Angela Merkel. E as rubricas habituais: opiniões (se és jornalista, não percas a opinião de Vital Moreira) e linklog (se és eco-sensível, não percas a vegetação senciente).
1
O Rui Tavares teme: a esquerda portuguesa preparando um desastre à francesa? (Público $). Refere-se à estratégia de candidaturas de cada área partidária somadas à desistência do partido do centro-esquerda a favor do candidato do centro-direita, “que nos deu duas presidências de Cavaco Silva e uma de Marcelo Rebelo de Sousa. E as direções partidárias continuam a justificar as suas escolhas como se estivéssemos em 1986. Pior ainda, a direção do maior partido à esquerda parece viver contente com a possível vitória do candidato da direita.”Há seis meses, quando as presidenciais se começaram a desenhar, estive entre os que acharam que a pulverização de candidaturas à esquerda não era uma coisa má. A popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa garantia-lhe a reeleição, que em si também não é propriamente uma coisa funesta. Só que isto é dinâmico. E chegados a dezembro, e mais particularmente a janeiro, vejo que essa minha interpretação foi um erro. O ganho com a divisão das esquerdas, que é Bloco e PCP manterem os seus eleitorados relativamente estanques, é largamente suplantado pelo prejuízo da candidatura da direita radical marcar a agenda e sair psicologicamente vitoriosa do inexistente combate com a esquerda.“Se em 1996 elegemos Jorge Sampaio à primeira volta contra Cavaco Silva”, recorda Rui Tavares, “foi porque os candidatos do PCP e da UDP, Jerónimo de Sousa e Alberto Matos, desistiram — e já se sabia que iriam desistir. Isso permitiu a toda a gente, mesmo a que via defeitos em Jorge Sampaio, a mobilizar-se a tempo para uma candidatura ganhadora”.É demasiado tarde para a candidatura de João Ferreira desistir a favor de outra. Nenhum sinal foi dado de que isso pudesse acontecer, nem sequer se notaram sinais de que alguém pensasse nisso. Acredito que a Marisa Matias tenha passado pela cabeça endossar Ana Gomes, por todas as razões a começar na força de uma candidatura feminina sinalizada informalmente por quase toda a esquerda e a terminar na camaradagem de ambas enquanto euro-deputadas. Mas ninguém desistiu e a janela está fechada.Objetivamente, a pulverização de votos nas três candidaturas da esquerda beneficiará a visibilidade da candidatura da direita. “Não está em causa a qualidade dos candidatos e candidatas à esquerda, tão estimáveis ou até admiráveis como os seus congéneres da esquerda francesa em 2002. Está em causa que juntos cilindrariam o candidato da extrema-direita com o triplo dos votos dele ou mais ainda. Separados, estão a dar-lhe uma hipótese de sair em segundo lugar, mesmo que só por umas décimas, como dizem certas sondagens”, acrescenta o Rui.
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Uma pessoa sente-se tentada a apontar o dedo ao primeiro responsável pela estratégia do PS nas presidenciais. Até eu ia fazê-lo e fui procurar conselho na evolução das intenções de voto, mas a leitura que me parece óbvia absolve António Costa do pecado da esquerda: o próprio PS subiu uns pontos nos últimos 2 meses, que coincidem com os candidatos presidenciais nas ruas, como se pode ver no gráfico abaixo (tirado do EuropeElects).Não absolve totalmente, claro. A absolvição não cobre o alheamento da direção do PS, que mesmo sem candidato formal podia ter tido alguma influência nas estratégias das campanhas à esquerda. Dir-me-ás: o gelo relacional pós-Orçamento de Estado não deixaria isso suceder. Dir-te-ei: aí está, o PS alheou-se da sua responsabilidade de liderança política da esquerda.Mas a responsabilidade maior não é nem do PS nem da candidatura informal da sua área política. É do BE e do PCP. As suas prioridades egoístas deixam a esquerda à beira de um momento de vergonha. E comprometem os dois partidos.A pandemia tem aqui um efeito invisível. O cansaço acumulado nas pessoas e os comportamentos de escape consubstanciam-se eleitoralmente em voto de protesto — e por causa da gestão dos medos na pandemia o voto de protesto não penaliza o PS, partido exposto na governação e partido que abdicou de candidato oficial, mas sim os partidos da esquerda que entre outras mantém a função de pára-raios dos votos de protesto.Uma única candidatura presidencial de esquerda viria inverter, ou estancar, a tendência de crescimento do Chega, que é hoje o terceiro partido?A questão é mais complexa do que sim/não. Como deixei bem vincado no diário de ontemos candidatos outsiders em re-eleições obtém resultados anormais, pontuais, que não se consubstanciam em mudanças de fundo que afetem eleições futuras. Manda a tradição eleitoral que nas autárquicas de outubro próximo o Chega tenha metade da percentagem que Ventura conseguir nas presidenciais deste mês.O problema é menos de tendência e mais de momento. O que a divisão das esquerdas conseguiu foi um momento de vergonha e embaraço. Claro que os momentos deixam marcas. Mas não são condenações para a vida.No simbólico dia 26 de janeiro começa o período no qual as esquerdas têm de refletir por sua vez no fenómeno do Chega e concertar respostas. É hoje claro que o CDS foi absorvido e o PSD está comprometido. A direita portuguesa meteu todas as fichas na destruição da democracia; os que não gostam disso calaram-se. Não aconteceu em Portugal o que sucedeu noutras regiões da União Europeia: Rui Rio não vincou a linha vermelha à direita do sistema partidário. Talvez porque Passos Coelho a tinha apagado e Luís Montenegro se preparava para construir uma auto-estrada entre o centro-direita e a direita radical.
3
Parece-me gritantemente óbvio que uma das reflexões urgentes a fazer nas esquerdas é a necessidade de alterar a relação de forças na Comunicação Social. A pandemia e mais recentemente o período das presidenciais mostraram que a direita tem a hegemonia na condução estratégica dos órgãos de Comunicação Social. Um dos efeitos funestos é a manipulação das meias verdades e das mentiras e das sondagens para criar e modelar dinâmicas sociais. Não há em Portugal nenhum órgão de comunicação social que subscreva um modelo de sociedade que se possa caracterizar em moldes mínimos de esquerda. E a influência nos órgãos existentes é cada vez menor.
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A chanceler alemã Angela Merkel deverá conhecer amanhã o próximo líder do seu partido, a CDU. O mais provável, segundo as sondagens, é Friedrich Merz, um adversário de Merkel que representa a linha mais à direita do partido democrata-cristão. Mas hoje a incerteza ainda pesava no processo eleitoral, que decorre online: os outros candidatos, Armin Laschet e Norbert Röttgen, mantinham a eleição em aberto.Se der Merz, a CDU abandona o pragmatismo de Merkel para abraçar o liberalismo económico — not that good para a União Europeia mas mau para a direita radical alemã da AfD. Enfim.De notar que se espera que, ao contrário do que é hábito e sucedeu com Merkel, o líder da coligação CDU/CSU a concorrer a chanceler em setembro venha não da CDU (o partido maior da coligação) mas da CSU: Marcus Söder.Aprofundar:German CDU on verge of electing divisive figure to replace Angela Merkel. Millionaire lawyer Friedrich Merz is favourite to take centre-right into federal elections // GuardianQuais as chances de um democrata cristão suceder Merkel? Em convenção virtual, 1.001 delegados da CDU vão escolher o novo chefe do partido de Merkel. Uma decisão de peso, pois novo líder conservador estará entre os favoritos para assumir a chefia do governo da Alemanha. // Deutsche WelleFriedrich Merz’s revenge. Thin-skinned lawyer who wants to succeed Merkel has a history of going after his critics. // PoliticoPrésidence de la CDU : Friedrich Merz veut sa revanche. L’expertise financière de cet homme d’affaires et son ambition réformatrice en font le favori des milieux économiques et conservateurs délaissés par Angela Merkel. Son passif avec la chancelière inquiète cependant nombre de délégués. // Les EchosTrês homens na corrida a líder da CDU. Para suceder a Merkel o favorito é outro. Friedrich Merz, Armin Laschet e Norbert Röttgen são os candidatos, mas é Markus Söder que poderá acabar por ir a votos nas eleições de 29 de setembro. // DN

OPINIÕESEurico Reis escreve sobre Lei e Estado de Direito: O combate pela democracia. Expresso 👉Vital Moreira escreve sobre o caso dos jornalistas vigiados pelo Ministério Público: Às Avessas (2): Quando Os Infratores “viram” Queixosos. CausaNossa 👉Ana Alexandra Carvalheira escreve sobre o impacto da pandemia nos relacionamentos: Procura-se parceiro: Solteiros com a vida amorosa em atraso. Visão 👉António Luís Marinho escreve sobre os debates das presidenciais: Elogio da direita democrática . ionline 👉Rui Bebiano escreve: A guerra contra a Covid-19 e os partidos. ATerceiraNoite 👉Jorge Sampaio escreve: O Presidente da República no semipresidencialismo português. Expresso 🔒Simões Ilharco escreve sobre as medidas: Portugal no rumo certo apesar do confinamento. DiárioDeNotícias 👉 
LINKLOGResearch suggests that at least one type of plant – the french bean – may be more sentient than we give it credit for: namely, it may possess intent. The issue of whether or not plants choose their actions and possess feelings or even consciousness is a thorny one for many botanists, with the more traditional-minded strongly disputing any notion of sentient vegetation. Although plants clearly sense and react to their environments, this doesn’t mean they possess complex mental faculties, they argue.  //theguardian.com 🇬🇧We Mock the Rioters as Ignorant Buffoons at Our Peril  //politico.com 🇬🇧Global coronavirus death toll reaches 2 million people. Our world has reached a heart-wrenching milestone says United Nations chief António Guterres  //theguardian.com 🇬🇧How to fix EU’s weak Digital Services and Markets Acts.  //euobserver.com 🇬🇧 
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Certamente! Terça-feira, 12 de janeiro de 2021 | Paulo Querido

Hoje é um belíssimo dia para evitar o uso da palavra caos. Adiante. No menu: o plano de vacinação, a gravidade da pandemia e uma boa notícia científica. Adenda em cima do fecho, uma sombria reflexão sobre o dilema do Partido Republicano: ser ou não ser pela democracia, eis a questão.Fica para amanhã o correio dos leitores que esteve previsto para hoje.
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A confiança nos grupos de técnicos e de governantes que integram a tomada de decisões faz parte da minha forma de encarar esta época extraordinária e esta é uma atitude tão profunda quanto inabalável. Isto não significa que não tenha dúvidas e opiniões. Vou tornar pública uma opinião contrária às prioridades do plano de vacinação em consequência do teste positivo do Presidente da minha República e por inerência comandante supremo das Forças Armadas e como tal o cidadão mais significativo do país.Entendo que a primeira linha política devia encabeçar a primeira vaga de vacinas. Não usar a primeira remessa de vacinas no Presidente da República, no Primeiro Ministro e numa lista de pessoas dos órgãos de soberania e de exposição pública elevada (uma lista fácil de fazer, filtrando ministros, secretários de Estado, líderes partidários, candidatos presidenciais, you name themé um erro. Cometido por uma péssima razão: o medo da reação da opinião pública.A um governante não peço que governe em função do que diz o grupo de privilegiados com espaço na comunicação social, nem dos trending topics do Facebook e Twitter, nem dos estudos de opinião. Peço que tudo isso tenha (bastante) menor prioridade que a eficácia das medidas a tomar, que as políticas sufragadas e que as necessidades de cada momento, sobretudo se estamos num momento excecional em que se pede ainda maior atenção às decisões.Se tiver de ser impopular, so be it. Governar não é um concurso de popularidade. Ser político é secundado por ser estadista. É assim que eu voto, é o meu pacto, a minha expectativa.
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De acordo com o período de confinamento. Um mês, disse António Costa. Disse bem. É a política do medo? Pois que seja. Qualquer pessoa com um dedo e meio de testa já compreendeu a dimensão e a escala da ameaça que o novo coronavírus representa para a espécie humana.Há tempos usei a metáfora da bola de neve. A Covid-19 é a bola de neve: à medida que se espalha, o seu impacto no sistema de saúde aumenta exponencialmente e atrai todos os recursos e esforços que normalmente seriam distribuídos por outras patologias. Não interessa se é público, privado ou não sabe/não responde: o sistema global é afetado. É arrasado à medida que a bola de neve desce a encosta aumentando de tamanho.
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Novo modelo de previsão da evolução da COVID-19 poderá aliviar a pressão sobre o sistema de saúde. Uma equipa de cientistas MedUni Vienna liderada por Alice Assinger no Centro de Fisiologia e Farmacologia desenvolveu um modelo para prever a sobrevivência de pacientes hospitalizados COVID-19 com um elevado grau de precisão. O aspecto importante deste modelo é que se baseia exclusivamente em medições clínicas de rotina existentes, de modo a não requerer qualquer análise laboratorial complexa adicional.Os médicos podem introduzir os parâmetros dos seus pacientes numa calculadora online, passando a dispor de uma ferramenta para os apoiar nas suas decisões relativas à potencial alta dos pacientes. O modelo matemático que sustenta a ferramenta foi desenvolvido por Stefan Heber do MedUni Vienna Institute of Physiology e baseia-se em medições repetidas do marcador inflamatório proteína C-reactiva, o marcador de creatinina que reflecte a função renal e o número de plaquetas (trombócitos) no sangue.Ainda sem o peer review, já estão disponíveis tanto o artigo científico como a ferramenta de cálculo para uso de especialistas.(Se escreves conteúdos para sites de imprensa ou és jornalista, toma o link para o press-release e dados adicionais.)
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Uma das principais consequências da cedência do Partido Republicano aos avanços da direita radical, que acabou por levar Trump à presidência dos EUA, está agora exposta como uma ferida profunda: o partido tem hoje duas correntes, uma corrente que é intrinsecamente pró-democracia e outra corrente que quer destruir a democracia americana e tornar o país numa autocracia plutocrata.Os republicanos terão de tomar uma decisão pública sobre isto. Terão de ser claros perante a América: ou são pró-democracia, ou não. Continuarem divididos não é opção.Rui Rio e o que resta do PSD devem mirar-se naquele espelho. Na sua escala, a porta aberta por Passos Coelho com o seu compromisso com o ninho de radicais de direita que emergiu este século em Portugal expôs o PSD ao mesmo dilema vital.A diferença esteve em André Ventura: não quis esperar pelo trajeto interno, apressou-se e saiu do PSD para fundar o Chega. A direita radical portuguesa ganhou o seu veículo, um trator capaz de arrastar eleitores e quadros dos PSD para um movimento de debandada; o esvaziamento do PSD é o facto político desta legislatura.Regressando aos EUA: o sistema político estado-unidense tem-se aguentado bi-partidário até hoje. Será o GOP capaz de manter a tradição e a fidelidade à democracia?

OPINIÕES

João Rodrigues desanca forte em Miguel Sousa Tavares: Passar o tempo. LadrõesDeBicicletas
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Marisa Fernandes escreve sobre a gestão política da tecnologia: De deusa da Terra a criadora da harmonia digital: Gaia a fechar a presidência alemã. DiárioDeNotícias
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João Figueira escreve sobre Jornalismo e André Ventura: As notícias da política rasca.SinalAberto
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Mariana Mortágua escreve sobre a extrema-direita: Pessoas de bem podem votar mal. JornalDeNotícias
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Afonso Camões escreve sobre o papel dos Estados: A desigualdade infeta. DiárioDeNotícias
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Rosália Amorim escreve sobre voto e MAI: Um novo normal exige um novo tipo de voto. DiárioDeNotícias 👉
LINKLOG
One of Trump’s most significant failures is a massive win for the climate movement. The fossil fuel divestment movement was a success in 2020. It will need to go even harder in 2021.  //msnbc.com 🇬🇧

Can Buddhism teach artificial intelligence engineers to make more ethical programs? In the MIT Technology Review, Professor Soraj Hongladarom of Chulalongkorn University in Bangkok argues that programmers not only in the East but also the West can benefit from the principles of Buddhism​ and that AI should strive to relieve “suffering from pain.”  //technologyreview.com 🇬🇧
50,4%
: a Chinese vaccine has been found to be significantly less effective than what previous data suggested, even as the Brazilian research institute that conducted the phase 3 clinical trials urges the public to not focus on the new efficacy rate.  //scmp.com 🇬🇧

10 momentos em que Ventura imitou Trump  //esquerda.net 🇵🇹
A extrema direita é um problema novo e não é apenas político-partidário. Os media e, por inerência, o jornalismo, têm de aprender a lidar com este fenómeno que, aproveitando o jogo e as regras da democracia, apenas as quer corroer. 
A política rasca exige mais vigilância e um jornalismo mais exigente, criterioso e completo. Tal significa que não se pode tratar de forma igual o que é desigual.  //sinalaberto.pt 🇵🇹 
Na web: diário | linklog

UM PAÍS QUE SE AUTODERROTA | Pedro Adão e Silva | in Jornal Expresso de 31/12/2020

Primeiro era o plano que não existia e as vacinas que não iam chegar. Depois, era a impreparação generalizada do país para administrar vacinas. No dia em que a vacina chegou, o problema passou a ser distinto: em lugar de um diretor do serviço de doenças infectocontagiosas de um dos maiores hospitais do país, o primeiro vacinado deveria ter sido outro.

É um padrão conhecido. Um país que desconfia, que se autoderrota, mesmo contra as evidências, e que aguarda com entusiasmo provinciano que as coisas corram mal.

Esquecemos com isso que nenhum país estava preparado para lidar com esta pandemia e que em todos os casos foram cometidos erros. Muitos erros, aliás. Mas, tendo em conta o que já percorremos, há motivos para nos congratularmos com a resposta que os serviços públicos portugueses deram às solicitações dos cidadãos: a segurança social que teve de processar centenas de milhares de pedidos de lay-off, enquanto os seus funcionários estavam em teletrabalho; o ensino que teve de se adaptar às aulas à distância; os lares, geridos numa combinação singular entre recursos públicos e boas vontades particulares, que se adaptaram a situações limite; e o Serviço Nacional de Saúde, que conseguiu lidar com uma pressão que se anunciava ingerível.

Temos níveis de cobertura de vacinação, por exemplo de sarampo e rubéola, superiores a 95%. Alguma coisa teremos feito bem.

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Álvaro Cunhal | por Jorge Amado

«Tão magro, de magreza impressionante, chupado a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português. Falava sobre Portugal, sobre que poderia falar?

Sua paixão e sua tarefa: libertar o povo português da humilhação salazarista, libertar Portugal dessa já tão larga noite de desgraça, de silêncios medrosos, de vozes comprimidas, de alastrada e permanente fome do povo, de corvos clericais comendo o estômago do país, de tristes inquisidores saídos dos cantos mal iluminados das sacristias e da História para oprimir o povo e vendê-lo à velha cliente inglesa ou ao novo senhor norte-americano. Sua paixão e sua tarefa: fazer de Portugal outra vez um país independente e do povo português um povo novamente livre e farto e dono da sua natural alegria.

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TAP – A HORA MAIS NEGRA | HELENA VASCONCELOS

A leviandade e ignorância que certos “comentadores” arvoram com arrogância e tibieza são, no que diz respeito ao momento terrível que a TAP atravessa, simplesmente criminosas.

Os ( e as) que afirmam com convicção que se deve “fechar a TAP” – como se se tratasse de um negócio de vão de escada – ou “deixar cair a TAP” – com a cobardia habitual de quem prefere cruzar os braços e é totalmente falho de visão – ou, como dizia uma dessas luminárias , “reestruturar” até a TAP estar a dar lucro e depois vendê-la – como se fosse uma vaca parideira ou um peru de Natal – toda esta gente que dá palpites a torto e a direito, sem informação fidedigna, sem uma verdadeira pesquisa aturada, é, simplesmente uma vergonha para o país.

O “caso TAP” é singular e particularmente intrigante . Uma Companhia que soma prémios de excelência, que é reconhecida em todo o lado como referência, que dá cartas em inúmeros sectores – os pilotos são considerados dos melhores do mundo, os serviços de manutenção são procurados por todos, sem contar com um sem número de serviços que vão para além da aviação propriamente dita – essa mesma Companhia é vilipendiada a cada momento pelos cidadãos e cidadãs deste país que têm a memória curta e uma atitude de desprezo provinciano por algo de que deveriam acarinhar e orgulhar-se. Quando constato que tanta gente se indigna com vendas a países estrangeiros de tranches larguíssimas de empresas e companhias portugueses que são de importância estratégica – como por exemplo, a EDP – mas estão prontíssimos para vender a TAP ao desbarato, pergunto-me : afinal, o que querem? Aliás, hoje só me ocorrem perguntas: o que tencionam fazer com 10 mil desempregados, se “fecharem as portas”? Quem irá pagar os seus subsídios de desemprego, quem irá sustentar os negócios que estão agregados à TAP? Quem irá providenciar o sustento de famílias inteiras?

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Ah, políticos como nós. Que refrescante! | por Mafalda Anjos | in Revista Visão

Os comentários acerca das lágrimas de Marta Temido mostram um equívoco enorme acerca da massa de que deve ser feito um líder e o mesmo machismo persistente em relação a mulheres em cargos de direção.

Uma das grandes epidemias deste século é a da falta de empatia. A tecnologia que colocou vários ecrãs entre nós e os outros tornou-nos menos capazes de ler quem está do lado de lá, de os sentir e de nos colocarmos no seu lugar. É cada vez mais raro alguém experimentar caminhar nos sapatos de outra pessoa, como dizem os ingleses, antes de tecer considerações sobre ela.

Desde o início da pandemia que Marta Temido e Graça Freitas têm sido sujeitas a esta epidemia da falta de empatia e a críticas que não teriam sido feitas a homens se estivessem nos lugares delas. Desde março que a sociedade portuguesa destila todo o seu preconceito em comentários maldosos que nada têm a ver com reparos à sua atuação, mas ao simples facto de lhes faltar a hormona da testosterona.

Quantas vezes ouviram que a tarefa de fazer face a uma pandemia é demasiado árdua para estar a cargo de duas mulheres? Que não têm força para isto, nem “tomates” para as decisões que é preciso tomar? Ou comentários infelizes aos dentes, aos alfinetes de peito, ao que vestem e como se apresentam? Eu li e ouvi centenas, milhares. Demasiados para o que seria de esperar em 2020. Não tenhamos dúvidas: liderar é difícil, liderar sendo mulher mais ainda. Sei do que falo.

Ontem, Marta Temido chorou em público e durante a tarde não se falou de outra coisa. Os comentários foram os mais variados, muitos deles irreproduzíveis aqui, tal e qual como quando se soube que Graça Freitas estava contaminada com Covid-19. A maioria tinha duas coisas em comum: um equívoco enorme acerca da massa de que deve ser feito um líder e o mesmo machismo persistente em relação a mulheres na política ou em cargos de direção.

Merkel, Lula da Silva, Jacinda Ardern, Obama e até mesmo Putin, imagine-se, já choraram em público. Um político não se pode emocionar? E não se pode irritar? Uma diretora-geral da Saúde não pode adoecer? Podem sim. Não só podem, como eu diria mesmo que é refrescante quando isso acontece. É sinal de que os dirigentes, políticos ou técnicos, são feitos da mesma massa do que os outros de nós, que são humanos, que também têm um coração que bate do lado esquerdo e um cérebro que funciona por sinapses. É sinal que têm consciência da repercussão das suas decisões nas vidas alheias e do peso da responsabilidade que assumem. É sinal de que não são robots analíticos desprovidos de humanismo.

Não se imagina o enorme fardo da tarefa que Marta Temido e Graça Freitas desempenham ininterruptamente desde março. As imensas dúvidas que terão tido, as decisões que tiveram de tomar não estando detentoras de toda a informação normalmente confortável para o fazer, os complexos dilemas que tiveram de ultrapassar, a frustração que sentiram perante a falta de recursos e de meios com que têm de atuar.  

Muitas vezes discordei das suas opções e muitas outras critiquei as suas decisões e declarações. Sim, é claro que cometeram vários erros. Mas esperar outra coisa é não ter noção nenhuma do que é conduzir a pasta da Saúde durante uma pandemia com um novo vírus.

Estamos cá para continuar a escrutinar. Quando tudo passar, será a História com o distanciamento devido a avaliar o seu legado e o seu desempenho. Creio que, perante as circunstâncias, não se estão a sair mal – mas ainda faltam os últimos quilómetros decisivos desta maratona, nomeadamente o plano de vacinação.

No entanto, desde já, uma coisa reconheço e agradeço a estas duas senhoras: a sua imensa resiliência, persistência e espírito de sacrifício, a sua quase inesgotável capacidade de trabalho, o seu talento para a gestão de crise com tato e serenidade. Atrevo-me a dizer que poucos seriam os homens à altura deste desafio. 

MAFALDA ANJOS DIRETORA da Revista Visão

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