A castidade com que abria as coxas | Carlos Drummond de Andrade

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados.

Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘O Amor Natural’

Pour toujours | Carlos Drummond de Andrade

Pourquoi dieu permet
Que les mères s’en aillent ?
Maman n’a pas de limite,
C’est un temps sans heure,
Une lumière qui ne s’éteint
Quand souffle le vent
Et tombe la pluie,
Un velours caché
Au sein d’une peau rugueuse,
Une eau pure, un air pur,
Une pure pensée.

Mourir arrive
Soudainement
Et sans laisser de vestige.
Maman, dans sa grâce,
Est éternelle
Pour que dieu se rappelle
– mystère profond –
de la reprendre un jour ?
si c’était moi le roi du monde
je ferai une loi :
une mère ne meurt jamais
une mère resterai toujours
près de son fils
et lui, même vieux,
sera tout petit,
fait de grain de maïs.

Carlos Drummond de Andrade | photographie de ma mère (VCS)

Mon Regard | Le Gardeur de Troupeaux (Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Mon Regard | Le Gardeur de Troupeaux

Tout ce que je vois est net comme un tournesol.
J’ai l’habitude d’aller le long des routes
Tout en regardant à droite et à gauche,
Et de temps en temps derrière moi…
Or ce que je vois à chaque instant
Est cela même qu’auparavant jamais je n’avais vu,
Et je sais fort bien m’en rendre compte…
Je sais maintenir en moi l’étonnement
Que connaîtrait un nourrisson si, à sa naissance,
Il remarquait qu’il est bel et bien né…
Je me sens nouveau-né à chaque instant
Dans la sereine nouveauté du monde…

Je crois au monde comme à une marguerite,
parce que je le vois. Mais je ne pense pas à lui
Parce que penser, c’est ne pas comprendre…
Le monde ne s’est pas fait pour que nous pensions à lui
(Penser, c’est être dérangé des yeux)
Mais pour que nous le regardions et en tombions d’accord…
Moi je n’ai pas de philosophie : j’ai des sens…
Si je parle de la Nature ce n’est pas que je sache ce qu’elle est,
Mais c’est que je l’aime, et je l’aime pour cela même,
Parce que lorsqu’on aime, on ne sait jamais ce qu’on aime
Pas plus que pourquoi on aime, ou ce que c’est qu’aimer…

Aimer est la première innocence,
Et toute innocence ne pas penser…

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

Quando Eu não te Tinha | Alberto Caeiro, in ‘O Pastor Amoroso’

Quando Eu não te Tinha

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima …
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza …
Tu mudaste a Natureza …
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou. 

Só me arrependo de outrora te não ter amado.

Alberto Caeiro, in ‘O Pastor Amoroso’.

Há metafísica bastante em não pensar em nada | Alberto Caeiro | Heterónimo de Fernando Pessoa

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

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Poema | Maria Isabel Fidalgo

Um dia morrerão todos os dias

e sem barulho ou vaidade

adormeceremos longe do orvalho

das gaivotas loucas na orla das ondas

da luz infinita da sede no alvor da madrugada.

Sorveremos exaustos o silêncio térreo

longe dos deuses mortais que tudo sabem

dos festins do metal e deferências.

Um dia iremos para além da noite

sem que nos seja possível o retorno

da felicidade infinita num jardim menino.

Um dia, apesar do amor

o peso das canseiras

transformará o suor em frio

um galo há de cantar de madrugada

a chuva calará a sede dos campos

o sol repetirá a nobreza da alegria

como graça divina

e numa manjedoura, príncipes do nada

repetirão o pão que o diabo amassou.

 

Maria Isabel Fidalgo

Poema | Maria Isabel Fidalgo

Nesta manhã de sol rasgado
domingo triunfante de preguiça
a nitidez da luz esmorece os sobressaltos.
Resplandecem cores quase estrangeiras ao longe
ocorrem-me primaveras intensas na rosa encarnada da jarra
que me consente a breve graça da alegria.
Hoje exalto o dia e o mistério efervescente de claridade
este sagrado brilho onde o coração dos pássaros se ergue alto na ara dos olhos.
Hoje exalto esta matina clara
a planar numa colina onde se erguem voos
rendidos à destreza dos sentidos.
Depois cantamos.
és-me tão sempre quando te fazes cântico depois da noite.

«O caminho de Cristo é a única coisa que torna possível a nossa sobrevivência» | Martin Scorsese | Andrea Monda In L’Osservatore Romano

Quando a 21 de outubro passado se voltaram a encontrar, Martin Scorsese e o papa Francisco retomaram uma conversa como a que podem ter dois velhos amigos que se entendem sem esforço, ainda que a última vez que se tinham encontrado ocorreu praticamente um ano antes, a 23 de outunro de 2018, em Roma, por ocasião do encontro de jovens e idosos com o papa da apresentação do livro “A sabedoria do tempo”. O papa, depois de lhe ter perguntado pela esposa, quis saber informações sobre o seu novo filme, “The irishman”, e o realizador italo-americano explicou que se trata de uma película sobre o tempo e a mortalidade, a amizade e a traição, o remorso e o arrependimento pelo passado.

Entre os dois começou um diálogo tão simples quanto profundo, que depressa aportou ao nome de Dostoiévski, comum paixão de ambos, que com os seus romances faz de pano de fundo à obra do cineasta de “Os cavaleiros do asfalto” e “Silêncio”. E é precisamente do grande escritor russo que pretendo partir para retomar aquela conversa, ligando-me a “The irishman” e ao protagonista, Frank Sheeran (interpretado magistralmente por Robert De Niro), que surge como o único sobrevivente que, por isso, pode e deve falar, o único vivo que manda «notícias de uma casa de mortos». Não por acaso para todos os outros personagens, que fugazmente comparecem em cena, uma referência detém a imagem e indica-nos a data e a maneira, sempre violenta, da morte. Frank está vivo e fala, melhor, confessa-se, olhando fixamente para a câmara, nosolhos do espetador.

Este é outro filme profundamente espiritual da carreira de Scorsese. De resto, na longa entrevista dada ao P. Antonio Spadaro, aquando do filme anterior, “Silêncio”; o realizador de Nova Iorque revelou ser «obcecado pela espiritualidade», ou seja, pela pergunta sobre o que somos nós, seres humanos. Questão que, segundo ele, obriga cada um de nós olhar-se de frente, próximo, a olhar o bem e o mal que há dentro de nós.

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La femme philosophe rayée de l’Histoire | Hypatie d’Alexandrie in http://compediart.com

Connue comme la plus illustre des savantes antiques, Hypatie d’Alexandrie doit sa renommée à son sordide assassinat commis en public par des moines fanatiques. Pourtant, ce personnage fait encore l’objet aujourd’hui de nombreuses distorsions bien éloignées de la réalité historique. Retour aujourd’hui sur la véritable histoire d’une femme fascinante à plus d’un titre…

Née aux environs de 360 après Jésus-Christ dans une Alexandrie alors sous domination romaine, Hypatie suit l’enseignement de son père, le mathématicien Théon d’Alexandrie, avant de partir parfaire sa formation à Athènes où elle étudie notamment la philosophie. Quand elle revient dans sa ville natale, elle s’installe en tant que professeur, donnant des conférences publiques mais proposant aussi des cours privés aux jeunes gens de l’élite alexandrine. Son enseignement mêle mathématiques, sciences naturelle et philosophie néo-platonicienne et l’amène à devenir l’une des savantes les plus en vue d’Alexandrie à son époque. Bien qu’elle ne soit à l’origine d’aucune invention, Hypatie est reconnue pour ses brillantes qualités intellectuelles qui lui permettent d’étudier, synthétiser et commenter aussi bien des textes mathématiques que des traités astronomiques comme ceux du savant Ptolémée, un scientifique ayant vécu au début du IIème siècle à Alexandrie et étant notamment avec Aristote à l’origine de la théorie géocentrique du cosmos.

Les documents historiques au sujet d’Hypatie sont rares, et nous la connaissons surtout à travers sa correspondance avec l’un de ses disciples, Synésios, qui deviendra par la suite évêque de Ptolémaïs mais ne cessera de recourir à ses conseils intellectuels éclairés. A travers ces documents, Hypatie est présentée comme une femme très admirée tant pour sa grande intelligence que pour sa beauté et sa tempérance, restant vierge jusqu’à la fin de sa vie pour préserver sa liberté.

Pourtant, nous ne saurions sans doute rien d’Hypatie si elle n’était pas entrée dans la légende avec le sordide assassinat dont elle fut l’objet. En 415, alors qu’elle rentre chez elle, la philosophe est arrêtée par un groupe de moines fanatiques qui l’amènent dans une église où ils l’écorchent vivante avec des coquillages et des tessons de verre, avant de démembrer son corps et de le brûler sur une colline proche.

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Essa Gente | Chico Buarque

SINOPSE

Um escritor decadente enfrenta uma crise financeira e emocional enquanto o Rio de Janeiro colapsa à sua volta. Tragicomédia urgente, o novo romance de Chico Buarque, o primeiro depois da atribuição do Prémio Camões, encara de frente o Brasil do agora.

Autor de um romance histórico que fez furor nos anos 1990, o escritor Manuel Duarte passa por um deserto criativo e sentimental. Dividido entre várias ex-mulheres, espartilhado por pesadas dívidas, surpreendido por um filho de quem vai aprendendo a ser pai, Manuel Duarte bate perna nas ruas do Leblon no intervalo das horas em frente ao teclado, desesperando por um novo livro.
O pano de fundo é um Rio de Janeiro que sangra e estrebucha sob o flagelo de feridas sociais a cada dia mais ostensivas; cenário maior onde se desenrolam as feridas individuais das personagens, que juntas compõem um diário em que se procura fazer sentido do tumulto do presente.
Ao seu melhor estilo, Chico Buarque esfuma as fronteiras entre vida, imaginação, sonho e delírio, e constrói uma narrativa engenhosa, tão divertida quanto trágica, em cujas entrelinhas se descortinam as contradições de um país ameaçando despedaçar-se, assim como as deliciosas incoerências e ilusões da gente como nós.

CRÍTICAS DE IMPRENSA
«O livro de Chico é uma vertigem. Você é sugado pela primeira linha e levado ao estilo falso leve, a prosa depurada e a construção engenhosa até sair no fim lamentando que não haja mais, assombrado pelo sortilégio deste mestre de juntar palavras. Literalmente assombrado.»
Luis Fernando Verísssimo, O Globo

O novo livro de Chico Buarque confirma (mesmo não sendo necessário) a qualidade da obra já conhecida. Para quem ainda não conhece, é um excelente ponto de partida. Para quem já é apreciador, é mais uma oportunidade de deslumbramento.
Ana Magalhães | 23-12-2019

À PROPOS D’ALBERT CAMUS | Yacine Bouzaher

Dans un échange avec une amie, j’ai émis un avis concernant l’œuvre de Camus, que je reproduis ci-dessous:
-“J’ai une lecture de l’œuvre et une interprétation de Camus, que je n’ai jamais vue par ailleurs, ou alors ça m’a échappé. Pour moi, Camus, c’est celui qui a ma connaissance, à le mieux donné à voir, à ressentir, la solitude profonde de l’être. Nous sommes cadenassés dans notre être ontologique, seuls face à nous-mêmes, cerné par le monde qui nous entoure. Et nous aurons beau faire, nous ne sortirons jamais de nous-mêmes pour fusionner avec le monde.

Paradoxalement, la prise de conscience d’exister, nous condamne à cet enfermement en soi. Et le fameux, je pense donc je suis, se transforme en je pense donc je suis seul en moi.

Il y a deux moments dans la vie, ou cette réalité de la condition humaine ( l’humain en tant qu’être pensant) font exception. Mais de manière fugace et peut-être illusoire. C’est, quand, bébé, on n’a pas vraiment ( encore que) conscience d’exister, la fusion avec la mère, Camus a un peu évoqué cela. Et quelquefois, dans la fusion de l’amour ( qui ne dure qu’un instant comme dit la chanson), surtout au moment ( c’est hélas pas toujours le cas) de l’orgasme sexuel, une infra seconde, le temps s’arrête et nous sortons de nous-mêmes, pour une extase partagée. À cet infinitésimal instant nous ne sommes pas seuls, sinon … 

Cette solitude pour fondement, je l’ai particulièrement ressenti à la lecture de “L’étranger”. Mais, on retrouve cette épaisseur, qui avec le temps se transforme en pavois, dans toute son œuvre, Sisyphe ( le mythe de Sisyphe), “Caligula”. Dans la pièce ” Le malentendu”, il aborde explicitement ce thème avec l’amour ( celui de la mère ou celui d’une femme) comme possibilité d’y échapper, mais encore une fois ce sera raté. Il ne restera que la solitude. Dans “La peste” ( œuvre à plusieurs tiroirs) nous retrouvons également cette dimension.”

Yacine Bouzaher 

Retirado do Facebook | Mural de Yacine Bouzaher

Nos 60 anos da morte de Albert Camus | Rui Bebiano in “A Terceira Noite”

O escritor húngaro Imre Kartész, antigo deportado de Auschwitz-Birkenau, resumiu numa frase curta a afeição imediata e duradoura por Albert Camus: «Amei imediatamente a sua liberdade, mas também a sua insolência». A par do impacto da voz literária, as marcas de independência e de insubmissão do autor de Os Justos têm sido determinantes para manter um poder de atração, uma irradiação de heroísmo e resistência, que têm cruzado diferentes épocas e circunstâncias. Eclipsadas as grandes narrativas do tempo histórico, muitos dos que foram perdendo as certezas acolheram com agrado aquela que foi, como escreveu nas memórias Maria Casarès, o amor de muitos anos, «a sua paixão pela justiça e pela verdade». A dilatação desta influência tem sido, no entanto, diretamente proporcional às incompreensões mantidas dentro do território político ao qual pertenceu.

Alguns dos seus personagens são modelos de egotismo e desapego pelos outros, mas o mesmo não se passou com o seu criador. Um Camus solidário apoiou os republicanos contra Franco e opôs-se à ocupação alemã («comecei a guerra como pacifista, terminei-a como resistente», anotará um dia). Em 1935 tornou-se militante do PCF, de onde sairia dois anos depois por rejeitar as posições moderadas sobre o fascismo e o colonialismo impostas por Estaline. Desta passagem guardará a desconfiança face ao doutrinamento, a certeza de que a ética individual não pode ceder ao transitório, e a convicção de que a esquerda não tem dono ou procurador. O afastamento aumentará em 1946 com os artigos aparecidos no Combat, sob o título genérico «Ni victimes, ni bourreaux», nos quais denunciou os campos de trabalho soviéticos. E depois com O Homem Revoltado, de 1952, onde exaltou a revolta como instante crítico da emancipação do indivíduo. O caráter libertador desse momento parecia-lhe, porém, ameaçado pela opção revolucionária. Ao instituir a violência e a supremacia do coletivo como uma necessidade, esta arriscar-se-á sempre a subverter e a arruinar o princípio último em nome do qual funda a sua insubmissão.

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