Poema | Maria Isabel Fidalgo

Um dia morrerão todos os dias

e sem barulho ou vaidade

adormeceremos longe do orvalho

das gaivotas loucas na orla das ondas

da luz infinita da sede no alvor da madrugada.

Sorveremos exaustos o silêncio térreo

longe dos deuses mortais que tudo sabem

dos festins do metal e deferências.

Um dia iremos para além da noite

sem que nos seja possível o retorno

da felicidade infinita num jardim menino.

Um dia, apesar do amor

o peso das canseiras

transformará o suor em frio

um galo há de cantar de madrugada

a chuva calará a sede dos campos

o sol repetirá a nobreza da alegria

como graça divina

e numa manjedoura, príncipes do nada

repetirão o pão que o diabo amassou.

 

Maria Isabel Fidalgo

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