Poema | Maria Isabel Fidalgo

 

 

 

 

Desço pela margem da memória

e entro pelo cais do rio

onde havia o ouro das manhãs

e o sorriso lavado do vento

lento na mansidão matinal.

 

Havia o dorso molhado da água apetecível

e um ensejo de lume

sem saber que ardia

Desço sem pressa por onde andei

na idade antes desta idade

como viajante clandestino

sem rumo

no ventre azul da mocidade.

 

Era tudo bom e grande na promessa

o sol despontava como um dardo perdurável

e sem pressa desço por mim mesma

como duna estendida num lençol do areal

ou uma serpente.

 

Maria Isabel Fidalgo

Manhãs | Maria Isabel Fidalgo

Eram manhãs e manhãs
de corpo à solta
no amplo areal da juventude.
O sol gozava de aquecer
e decaía alaranjado ao pôr do dia
como quem diz adeus ao trabalho
e recolhe a casa para repousar.
Eram manhãs e manhãs de fogo
toda uma fogueira em cada dedo
com laranjas redondas despontando
nos pomares bicados de pássaros.


Eram noites e noites
luas cheias de ardores
e um love me tender
morno e mole
na campânula do poço.
Eram dias buliçosos
na clareira dos sonhos
choros, ânsias, desesperos
umas janelas mais que verdes
sempre dispostas a trinar
em nuvens coloridas de quimera
e hoje, um corpo a esmaecer,
já sem espera
na casa que resta
à beira-ver.

Maria Isabel Fidalgo

RECORDAR O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO | Maria Isabel Fidalgo

Faz hoje sete anos que José Saramago resolveu juntar-se a Blimunda, a sete-luas e a Baltasar, o sete-sóis. E também ao padre Bartolomeu de Gusmão. E a Scarlatti. Não sei qual o espaço onde habitam, mas ressoa a música, a passarola flutua e as vontades desprendem-se leves.
Por cá, a terra continua a arder.

Retirado do Facebook | Mural de Maria Isabel Fidalgo

FLOR DA LIBERDADE | Miguel Torga

mario-soares-d-rSombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós… Também nós… E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.

Miguel Torga

Selecção de Maria Isabel Fidalgo

Demain, dès l’aube… | Victor Hugo

victor_hugo-exileDemain, dès l’aube, à l’heure où blanchit la campagne,
Je partirai. Vois-tu, je sais que tu m’attends.
J’irai par la forêt, j’irai par la montagne.
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.

Je marcherai les yeux fixés sur mes pensées,
Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,
Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,
Triste, et le jour pour moi sera comme la nuit.

Je ne regarderai ni l’or du soir qui tombe,
Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,
Et quand j’arriverai, je mettrai sur ta tombe
Un bouquet de houx vert et de bruyère en fleur.

Selecção de Maria Isabel Fidalgo

Afrodite | Maria Isabel Fidalgo

Estátua_de_Afrodite_4Não negues o estio
as acácias abrem-se para as mãos
e Afrodite lava-se na fonte fria
junto ao parthénon.
Entra pela manhã
colhe a flor rosácea da luz
e desliza devagar
sobre a carícia das rosas
no ventre da água.

Solta os cabelos aos vendavais
do fogo
e morre sobre as brasas
que os deuses colhem.

maria isabel fidalgo

Páscoa | Maria Isabel Fidalgo

maria isabel fidalgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um caudal de água fria
numa margem do olhar
uma friagem vítrea na carne
um farricoco quaresmal
em procissão de enterro.
Gorjeia uma ave no ar esquivo
e medito um rio azul de azul
um verde numa aguarela
perto da lonjura. Ou perto de Ti
porto para a distância.
De todos os barcos onde naveguei sobram-me remos
mas nenhum atravessa de sol a varanda fria
onde penduro o que ainda recende a flor por abrir.
Na Páscoa árida do ser um Cristo ressuscitado
vem redondo de morte. Branco na cruz
o seu corpo de arcanjo agoniza espalmado
no círculo do poema onde o sepultaram
por toda a eternidade.

maria isabel fidalgo

 

Renascer | Maria Isabel Fidalgo

O tempo nos devora
e pouco se demora
em nós a primavera
mas há sempre uma ilha
e a linfa vacilante
entre a música e a luz
no caudal ligeiro
que a corrente leva.
Bom é jorrar na margem
que se julgava estagnada
um jato de água
que devolve à paisagem
o encanto da vertigem
um alento de tempo
que ficou suspenso
no pulsar da aragem.

maria isabel fidalgo

(Running along the beach- Joaquin sorolla )

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Poema | Maria Isabel Fidalgo

Não tens outro destino que não o mar
da lusitana terra portuguesa
teu berço de sangue e tua onda
azul de espuma à tua mesa.
Não tens outro remo outro navio
outro porto outra casa outra corrente
que a raiz de avós e o sangue antigo
a correr-te na veia efervescente.
Não tens outra manhã aberta sobre o peito
quando a semente é vera.mente mater
quando o céu cobre o ardor do corpo
e as mãos afagam o pulsar do coração
não tens outro destino não:
que o mar é uma canção de moinhos sobre as dunas
afagando a água onde regressas.

maria isabel fidalgo

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Em Nome do Pecado | Maria Isabel Fidalgo

É preciso recordar o medo
e trazê-lo à luz da hipocrisia.
É preciso recordar o Holocausto
com olhos viúvos de alegria.
É preciso chamar a humanidade
ao espelho da sua cobardia
e recordar os corpos desnudados
magros de sonho e fantasia.
É preciso recordar os rostos
de quem não pediu para nascer
e chorar com lágrimas de sangue
as crianças impedidas de crescer.
É preciso lavar o rosto
da poeira sinistra da amargura
dos que lixo foram antes de o ser
na cova da anónima sepultura.

maria isabel fidalgo

(escrito há oito anos)

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Maria Isabel Fidalgo

Maria-Isabel-FidalgoE Deus criou o homem e inquietou-lhe os olhos. E Deus criou a mulher e deu-lhe a extensão da água e uma fiada de violetas na bainha do azul. E Deus criou o dia que fosse três vezes três. Depois Deus escondeu-se onde O procurasses. E foi maravilhoso!

Maria Isabel Fidalgo, dando os parabéns a uma grande amiga, in Facebook