Páscoa | Maria Isabel Fidalgo

maria isabel fidalgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um caudal de água fria
numa margem do olhar
uma friagem vítrea na carne
um farricoco quaresmal
em procissão de enterro.
Gorjeia uma ave no ar esquivo
e medito um rio azul de azul
um verde numa aguarela
perto da lonjura. Ou perto de Ti
porto para a distância.
De todos os barcos onde naveguei sobram-me remos
mas nenhum atravessa de sol a varanda fria
onde penduro o que ainda recende a flor por abrir.
Na Páscoa árida do ser um Cristo ressuscitado
vem redondo de morte. Branco na cruz
o seu corpo de arcanjo agoniza espalmado
no círculo do poema onde o sepultaram
por toda a eternidade.

maria isabel fidalgo

 

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