O esplendor das amizades, por Guilherme d’Oliveira Martins, in DN

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

Dizia-me António Alçada Baptista que no momento em que chegou a Paris, nos anos 60, se espantou com a facilidade com que grandes personalidades intelectuais do momento o recebiam. Houve, é certo, quem o desiludisse, mas ficaram referências seguras, como Edgar Morin, Pierre Emmanuel e Jean-Marie Domenach.

Edgar Morin foi um dos raros intelectuais em que a vida e a obra se confundiam numa preocupação constante de pôr tudo em questão e, por isso, não deixou que se construísse o seu próprio mito. Organização e Complexidade foram duas palavras-chave na sua obra. A vida organiza-se, desorganiza-se e torna a reorganizar-se por uma série de trocas de referências e informações a um nível cada vez mais elaborado de complexidade. E o pensador demonstrou que esta ‘ordem complexa’ detetada na vida das células existe nas sociedades e que a organização em sociedade, longe de ser um privilégio do homem, é uma forma de organização de todos os seres vivos.

Esta é uma reflexão essencial porque o Homo Sapiens deixou de ser um semideus sóbrio e distante, pois está imerso na Natureza, fazendo parte da totalidade. Deixou de ser possível limitar a Humanidade a uma evolução biológica, espiritual ou sociocultural, porque há sempre um conjunto de causas complexas. O movimento de auto-organização tem como epicentro o cérebro humano, que integra e organiza. Tudo é real e imaginário, em simultâneo.

Um dia uma mãe-de-santo disse na Bahia: “Quando há mais que dez pessoas, a gente vira Natureza”. Afinal aí estava a explicação. Por isso António Alçada acreditava na proximidade das pessoas e na importância das pequenas comunidades. Só poderemos compreender a realidade que nos cerca se nos apercebermos do conjunto e do contexto, do erro e da ilusão, do inesperado e do incerto, da unidade e da diversidade, da identidade planetária, de uma ética do género humano e da importância da cidadania inclusiva. O microcosmos leva-nos ao entendimento da dimensão universal da dignidade humana.

Relendo e ouvindo Edgar Morin compreendemos que o humanismo significa o respeito e a consideração que qualquer ser humano merece. Vivemos na nossa aventura coletiva diversas crises: ambiental, económica, democrática e da mundialização. Contudo, as democracias têm perdido força.

Um país como a China dispõe de meios tecnológicos que controlam os indivíduos e a sua vida, mercê das tecnologias de informação e do reconhecimento facial, numa lógica perigosa de domínio. Os ataques russos na Ucrânia traduzem-se em verdadeiros crimes de guerra. Importa devermos estar de sobreaviso com os países que cultivam um despotismo de fachada democrática.

A mundialização levou ao surgimento do racismo, da intolerância, do medo das diferenças. As guerras em curso comportam grandes perigos além das destruições, das mortes, dos massacres em todos os campos e do risco da destruição de recursos alimentares e agrícolas e do património cultural.

Um novo conflito mundial está em curso. Assim, Edgar Morin afirmou nos últimos anos de vida, que temos de saber escolher entre a barbárie e a solidariedade, compreendendo o diálogo entre “polemos”, o debate de ideias, “eros”, a importância do amor, e “tanatos”, a consciência da morte. Temendo o risco da regressão, acreditava no pensamento e na esperança que as ideias criadoras representam. E contar com o inesperado é também acreditar na prevalência da dignidade humana como fator de respeito e de paz.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.