A globalização no Brasil do século XVIII, by Kenneth Maxwell


Obra reúne textos do historiador inglês Kenneth Maxwell que mostram a
influência da independência dos EUA na Conspiração de Minas em 1789
Adelto Gonçalves (*)


I

Exatamente no ano que marca o 250º aniversário da assinatura da Declaração de
Independência dos Estados Unidos, a 4 de julho de 1776, o professor e historiador
britânico Kenneth Maxwell acaba de lançar Globalização do Século XVIII – a
Conspiração de Minas e o Atlântico Revolucionário (Dunstable, Grã-Bretanha, Robbin
Laird, editor, 2026), obra que mostra como aquele acontecimento desencadeou uma
série de movimentações políticas no mundo, em especial no Império português que se
abalou com a aspiração de súditos que, em 1788 e 1789, sonharam com a separação de
Minas Gerais e outras capitanias da América Portuguesa. Como se sabe, a chamada
revolução americana começou em 1765 e durou até 1783, mas o marco principal foi a
Declaração de Independência que selou a separação das treze colônias do domínio
britânico.


Em sua mais recente obra, que sai por uma editora inglesa com edições
impressas em Português, Inglês e Francês, Maxwell demonstra que a fundação dos
Estados Unidos não se limitou à Filadélfia, mas que a experiência republicana acabou
por influenciar no mundo espíritos que já não se conformavam com o predomínio dos
ideais monárquicos. E isso se deu inspirado numa coletânea de documentos
constitucionais norte-americanos no idioma francês, que à época predominava como
língua universal, originalmente reunidos pelo diplomata, escritor, jornalista, cientista e
empresário Benjamin Franklin (1706-1790) como ferramenta de propaganda.
Trata-se do livro Recueil des Loix Constitutives des Etats-Unis, volume de 1778
organizado por Franklin com traduções das constituições americanas —, elaborado em
Paris para convencer os ministros do rei francês Luís XVI (1754-1793), deposto em
1792, de que os Estados Unidos dispunham de uma ordem constitucional coerente e
exportável. Foi essa coletânea que acabou trazida para o Brasil por dois ex-estudantes
brasileiros na Universidade de Coimbra, uma por José Álvares Maciel (1760-1804) e

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outra por José Pereira Ribeiro (1765-1798), que, ao que se supõe, teria sido levada para
fora de Minas Gerais à época das prisões dos conspiradores, em junho de 1789, para
Pernambuco, onde pode ter influenciado a revolta federalista de 1817.
Seriam edições piratas com as indicações de “Filadélfia” e “Suíça”, que
correram entre as mãos de estudantes brasileiros formados em Coimbra, Montpellier,
Bordeaux e Birmingham. Dessa coleção, que trazia a Declaração de Independência,
constava também a Constituição da Pensilvânia, de 1776, que surgia como modelo para
a república que os conspiradores mineiros planejavam instituir. Dessa coleção, resta
hoje um exemplar preservado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, a antiga Vila
Rica, aquele que foi comprado por Álvares Maciel em Birmingham por dois xelins.
É de se ressaltar que, para a época, aquela seria uma constituição de inspiração
muito radical, pois previa até a liberdade para os escravos, o que logo haveria de
suscitar entre os escravocratas a ideia segundo a qual essa medida iria causar muitos
prejuízos, já que eles haviam construído suas fortunas às custas dos escravizados. É de
se notar que se trata de argumento que, hoje em dia, ainda é exercitado pelas classes
dominantes diante da possibilidade de o Congresso Nacional aprovar a escala 5×2, que
prevê cinco dias de trabalho e dois de folga (geralmente nos fins de semana) para os
trabalhadores.
Seja como for, como diz Maxwell, os conspiradores viam na Declaração de
Independência e nos demais documentos recolhidos na Recueil um modelo de revolta
colonial bem sucedida, bem como uma estrutura moderna para a formação das
instituições que um governo republicano poderia criar depois do êxito da rebelião.

II

Com base em décadas de pesquisas em arquivos no Brasil, em Portugal, na
França, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, Maxwell reconstrói uma densa rede
atlântica de mediadores — incluindo Franklin e Thomas Jefferson (1743-1826) em
Paris, estudantes brasileiros como José Joaquim Maia e Barbalho (1757-1788) e José
Álvares Maciel e conspiradores como os poetas Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) e
Cláudio Manuel da Costa (1729-1879) e o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o
Tiradentes (1746-1792), que teriam interpretado a coletânea de maneira um tanto
equivocada, adaptando-a à situação local de endividamento, escravidão e crise imperial.

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Na verdade, segundo o brazilianist, os insurgentes haviam avaliado muito mal as
prioridades dos Estados Unidos, ao esperar que houvesse um apoio prático da nova
nação norte-americana às suas aspirações. Afinal, Jefferson havia concluído que os
interesses dos Estados Unidos eram mais bem servidos por um acordo com Portugal do
que pelo incentivo a uma aventura arriscada na América do Sul. “A demanda de
Portugal por arroz e cereais era um mercado para a produção norte-americana,
especialmente para as exportações da Virgínia”, observa o historiador.
Num dos textos reunidos em sua obra, “As propostas constitucionais”, o
historiador explica que a conspiração havia sido desmantelada antes mesmo da denúncia
do arrematante de contratos Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819). E lembra que, para
aproveitar a explosão da insatisfação dos colonos, a revolta estava marcada para o dia
da imposição da “derrama”, uma operação fiscal que previa a cobrança forçada de
impostos atrasados imposta pela Coroa, na tentativa de garantir que 20% do ouro
extraído, o chamado quinto, atingissem uma cota mínima anual de 100 arrobas, o que
deixava a elite local à beira do pânico.
Como ressalta Maxwell, o governador Luís Antônio Furtado de Castro (1754-
1830), visconde de Barbacena, porém, temeroso diante das possíveis consequências da
medida, não seguiu as instruções de Martinho de Melo e Castro (1716-1795), ministro
da Marinha e Ultramar de Portugal, desistindo de impor a “derrama”. Isso levou
Silvério, um dia depois do adiamento da “derrama”, a procurar Barbacena para
denunciar a conspiração. Em troca, queria aquilo que o levara a apoiar inicialmente os
conspiradores: receber em troca o perdão de suas dívidas com o Erário.
Obviamente, por trás dos conspiradores, estavam mesmo os interesses
pecuniários de Silvério e de João Rodrigues de Macedo (1739-1807), outro grande
arrematante de contratos, em se livrar das dívidas com a Coroa. Explica-se: numa
espécie de privatização, os dois arrematantes faziam o trabalho de recolher os tributos,
mas sempre se “esqueciam” de repassar o dinheiro para a Coroa, tornando-se grossos
devedores (termo da época). Aliás, para o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa (1742-
1809), Silvério teria sido o “motor” da conspiração, aquele que imaginara a separação
da capitania de Minas Gerais porque queria se livrar de suas grandes dívidas.

III

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Maxwell destaca ainda uma profunda contradição que havia entre os
conspiradores, que, em suas conversações e nas primeiras anotações sobre como
funcionaria a futura república, invocavam os direitos humanos universais, embora
fossem frequentemente os beneficiários da escravidão. E lembra: “Alguns
argumentavam que os escravos deveriam ser libertados para se tornarem defensores da
Nova República. Outros apontavam o problema econômico: se os escravos fossem
libertados, os proprietários ficariam sem ninguém para trabalhar nas minas”, observa,
lembrando que a solução imaginada seria a de libertar apenas “negros e mulatos
nascidos no país”. Obviamente, “uma medida incompleta que revelou o profundo
abismo entre seus ideais e seus interesses”, acrescenta o historiador.
Enfim, a nova obra de Maxwell merece uma leitura essencial e especial de quem
se interessa em conhecer a verdadeira história do Brasil, que, adaptada aos dias de hoje,
pode mostrar também que os brasileiros não devem mesmo esperar dos atuais
governantes dos Estados Unidos nenhuma ação de boa vontade, mas apenas medidas
que visam a explorar a matéria-prima e as riquezas da terra sul-americana, para cujo
objetivo não prescindem nem mesmo de medidas arbitrárias como invadir os demais
países e até aprisionar os seus principais dirigentes.

IV

Kenneth Maxwell (1941) foi diretor e fundador do Programa de Estudos
Brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos (DRCLAS), da
Universidade de Harvard (2006-2008), e professor do Departamento de História de
Harvard (2004-2008). De 1989 a 2004, foi diretor do Programa para a América Latina
no Conselho de Relações Exteriores e, em 1995, tornou-se o primeiro titular da cátedra
Nelson e David Rockefeller em Estudos Interamericanos. Atuou como vice-presidente e
diretor de Estudos do Conselho em 1996. Lecionou anteriormente nas universidades de
Yale, Princeton, Columbia e Kansas.
Fundou e foi diretor do Centro Camões para o Mundo de Língua Portuguesa em
Columbia e foi diretor de Programa da Tinker Foundation, Inc. De 1993 a 2004, foi
revisor de livros do Hemisfério Ocidental para Relações Exteriores. É colaborador
regular da New York Review of Books, foi colunista semanal entre 2007 e 2015 do jornal
Folha de S. Paulo e é colunista mensal de O Globo desde 2015.

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Foi ainda Herodotus fellow no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e
Guggenheim fellow e membro do Conselho de Administração da The Tinker
Foundation, Inc. e do Conselho Consultivo da Fundação Luso-Americana. Também é
membro dos Conselhos Consultivos da Brazil Foundation e da Human Rights Watch
Americas. Fez bacharelado e mestrado no St. John’s College, na Universidade de
Cambridge, e mestrado e doutorado na Universidade de Princeton. É colaborador
regular do site Second Line of Defense (www.SLDinfo.com).
Publicou também A Devassa da Devassa – a Inconfidência Mineira: Brasil-
Portugal 1750-1808 (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1978), Marquês de Pombal –
Paradoxo do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1996), A Construção da
Democracia em Portugal (Oeiras, Portugal, Editorial Presença, 1999), Naked Tropics:
essays on empire and other rogues (Hove, Eats Sussex, Inglaterra, Psychology Press,
2003), Chocolate, piratas e outros malandros (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra,
1999), Mais malandros – ensaios tropicais e outros (Rio de Janeiro, Editora Paz e
Terra, 2005); Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century
looks at the contemporary world (Londres, Robbin Laird, editor, 2023), Brazil in a
Changing World Order (Londres, Robbin Laird, editor, 2024); Perspectives on
Portuguese History (Londres, Robbin Laird, editor, 2025); e The Tale of Three Cities
(Londres, Robbin Laird, editor, 2025), entre outros.


Globalização do Século XVIII – A Conspiração de Minas e o Atlântico
Revolucionário (18th Century Globalization – The American Revolutionary Ideal
Comes to Brazil / 18e siècle Mondialisation – Le Point de transit intellectuel
français), de Kenneth Maxwell. Dunstable, Grã-Bretanha, Robbin Laird, editor,
edições impressas em Português, Inglês e Francês, 201, 199 e 176 páginas, R$
113,38 (Amazon), 2026.


(*) Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e
Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de
Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga,
um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999), Barcelona
Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002);
Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o
Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de
Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora,
1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo

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Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros.
Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird,
editor, 2023), publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail:
marilizadelto@uol.com.br

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