Workshops Internacionais de Turismo Religioso (IWRT) | Fátima, Portugal | LeopolDina Reis Simões

IWRT afirmam-se na décima edição como evento em crescimento

Ao final da tarde de hoje termina em Fátima a primeira parte do programa dos  Workshops Internacionais de Turismo Religioso (IWRT), este ano a celebrar o décimo aniversário e a afirmarem-se um dos eventos maiores na promoção internacional do turismo religioso.

A retomar o formato presencial após a realização online da edição de 2021, os IWRT voltaram a juntar em Fátima participantes de todo o mundo, este ano de 47 países. “Queremos que este Workshop seja referência mundial para o trade do turismo religioso, que seja um efetivo acelerador da recuperação turística pós-pandemia”, referiu Purificação Reis nasessão solene e comemorativa do X IWRT, realizada ontem no Centro Pastoral de Paulo VI, no Santuário de Fátima.

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Humor | Memórias de há 8 anos | Dona de Cabaré processa Igreja no Ceará

Em Aquiraz, região metropolitana de Fortaleza, Tarsília Bezerra iniciou a construção de um anexo do seu cabaré, a fim de desenvolver o negócio, em constante crescimento.

Em resposta, a igreja neopentecostal da localidade iniciou uma forte campanha para bloquear a expansão, com sessões de oração, no seu templo, de manhã, à tarde e à noite.

Os trabalhos de construção e reforma continuaram até uma semana antes da reabertura, quando um raio atingiu o cabaré de Tarsília, incendiando a instalação elétrica e causando um incêndio que destruiu tudo.

Tarsília processou a Igreja, o pastor e toda a congregação, com o fundamento de que a Igreja “foi a responsável pelo fim de seu prédio e do seu negócio, através de ações ou meios de intervenção divina, direta ou indireta.”

Na resposta à ação, os demandados, designadamente a Igreja, negaram com veemência toda e qualquer responsabilidade ou ligação das suas orações com o fim do cabaré.

O juiz leu a reclamação da autora e a resposta dos réus e, ao iniciar a audiência, comentou:

-“Não sei como vou decidir este caso. Pelo que li até agora, verifico o seguinte:

– há uma proprietária de bordel que acredita firmemente no poder das orações;

– e uma igreja inteira que pensa que as orações não valem nada”.

Retirado do facebook | Mural de Carlos Esperança

𝗣𝗮𝗽𝗮 𝗙𝗿𝗮𝗻𝗰𝗶𝘀𝗰𝗼 | Malou Delgado Rainho

(Eu leio italiano, mas como há quem o não faça, deixo a tradução do Google da resposta sobre a Ucrânia. Resposta integral, obviamente) | Malou Delgado Rainho

“Para responder a esta pergunta temos que nos afastar do padrão normal “Chapeuzinho Vermelho”: Chapeuzinho Vermelho era bom e o lobo era o mau. Não há bons e maus metafísicos aqui, de forma abstrata. Algo global está surgindo, com elementos muito entrelaçados. Alguns meses antes do início da guerra, conheci um chefe de Estado, um homem sábio que fala pouco, muito sábio mesmo. E depois de falar sobre as coisas que ele queria falar, ele me disse que estava muito preocupado com o andamento da OTAN. Perguntei-lhe por que, e ele respondeu: “Eles estão latindo nos portões da Rússia. E eles não entendem que os russos são imperiais e não permitem que nenhuma potência estrangeira se aproxime deles”. Ele concluiu: “A situação pode levar à guerra”. Esta era a opinião dele. A guerra começou em 24 de fevereiro. Aquele chefe de estado foi capaz de ler os sinais do que estava acontecendo.

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A heresia do papa Francisco | Carlos Matos Gomes

Estava a ler textos sobre a “guerra da comunicação” em que estamos envolvidos, felizmente sem os custos em sangue e destruição da que ocorre na realidade do campo de batalha, na Ucrânia. Parti de um filósofo cujo pensamento conhecia um pouco, Paul Virílio, francês, autor de livros sobre as tecnologias da comunicação, e deste cheguei a um outro, desconhecido, Slajov Zizek, esloveno. Paul Virílio, com formação base em arquitetura, define a sociedade da informação como perigosa, já que a informática nos leva à perda da noção da realidade ao proporcionar uma quantidade gigantesca de dados. É sobre a relação entre a realidade e a imagem que dela nos é transmitida que se travam hoje os combates da informação, desinformação, manipulação que nos são apresentados pelos meios de comunicação, que pretendem camuflar a sua qualidade de armas, atrás de um colete com a palavra PRESS, de uma direção editorial, ou de pastores com a pele de comentadores .

Para Zizek, com formação em sociologia, professor nas universidades de Lubiana e de Londres, o “real” é um termo que corresponde a um conceito enigmático, e não deve ser equiparado com a realidade, uma vez que a nossa realidade está construída simbolicamente; o real, pelo contrário, é um núcleo que não pode ser simbolizado, isto é, expresso com palavras ou com imagens. Só existe como abstrato. Para Žižek, a realidade tem a estrutura de uma ficção. Ou seja, acaba sendo apenas uma espécie de interpretação da “coisa em si”. Há quem não se limite a interpretá-la, mas a fabrique.

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DEUS sive NATURA | BENTO DE ESPINOSA

Acredito no Deus de Spinoza, que se revela num mundo regrado e harmonioso, não em um Deus que se preocupa com o destino e os afazeres da humanidade”.

“Não posso imaginar um Deus pessoal que influencia diretamente a ação das pessoas… Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração do Espírito Infinitamente Superior que se revela no pouco que compreendemos de nosso próprio mundo.

A profunda convicção na presença de um Poder Superior, que aparece no universo incompreensível, forma minha ideia de Deus”

ALBERT EINSTEIN

O futuro, segundo Maria de Lourdes Pintasilgo | Por Viriato Soromenho Marques | in DN

O Museu da Presidência da República (MPR) tem aberta ao público, até 31 de agosto, uma notável exposição dedicada à figura singularíssima daquela que foi a primeira mulher portuguesa pioneira em várias funções, nomeadamente a de primeiro-ministra: Maria de Lourdes Pintasilgo. Mulher de um Tempo Novo. Para a levar a cabo, e sob coordenação da sua diretora, Maria Antónia Pinto de Matos, o MPR recorreu ao concurso de várias entidades da esfera social e académica, reunindo também os contributos de várias dezenas de ensaios e testemunhos, onde se incluem textos do próprio presidente Marcelo Rebelo de Sousa, de António Ramalho Eanes e de António Guterres. Um extenso e muito bem concebido Catálogo permite guardar, não apenas na memória, o espólio exposto.

Nos doze anos que medeiam entre o 25 de Abril e a entrada na CEE, o país oscilou numa arriscada situação de impasse entre vários caminhos possíveis, à semelhança do que tinha ocorrido na década após a independência do Brasil, quando Almeida Garrett publicou o livro Portugal na Balança da Europa (1830). Ao contrário das dúvidas alimentadas pelos nossos intelectuais e políticos no século XIX, depois de abril de 74, a Europa comunitária aparecia como um cada vez mais consensual e inevitável destino nacional. Lembro-me de várias vezes ter lido textos de MLP criticando a orientação cada vez mais mercantilista e financeira do rumo europeu, em detrimento das vertentes social e cívico-política que estiveram na raiz do empenhamento de tantos dos militantes da Europa nas ruínas de 1945. MLP correspondia bem ao lema da filosofia de Ernst Bloch (1885-1977) para quem a consciência humana, por ser “uma consciência antecipativa”, está sempre projetada para o devir.

A religião não era propriamente uma Revelação tranquilizadora, mas antes um imperativo de ação em conformidade com valores de justiça e fraternidade.

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Le Dieu de Spinoza

00:00 I – Préambule sur le mot Dieu 06:52 II – Cerner le Dieu de Spinoza 22:00 II – Définitions du Dieu de Spinoza – L’immanence 29:15 II – Genre de Connaissance – la Partie et le Tout 36:04 III – La Finalité et l’Athéisme 48:27 IV – Matérialisme/Spiritualisme – Religiosité Cosmique 1:01:21 V – Rapport aux autres doctrines (Hegel, Bouddhisme, Hawkins, Enthoven, Luc Ferry) 1:14:35 VI – Conséquences Ethiques et Politiques

“Quem se aproxima da Igreja deve encontrar portas abertas e não fiscais da fé!” | Papa Francisco

Pensai numa mãe solteira que vai à Igreja, à paróquia e diz ao secretário: Quero batizar o meu menino. E quem a acolhe diz-lhe: Não tu não podes porque não estás casada. Atentemos que esta mãe que teve a coragem de continuar com uma gravidez o que é que encontra? Uma porta fechada. Isto não é zelo! Afasta as pessoas do Senhor! Não abre as portas! E assim quando nós seguimos este caminho e esta atitude, não estamos fazendo o bem às pessoas, ao Povo de Deus. Jesus instituiu 7 sacramentos e nós com esta atitude instituímos o oitavo: o sacramento da alfândega pastoral. (…) Quem se aproxima da Igreja deve encontrar portas abertas e não fiscais da fé!

(Papa Francisco)

Dieu existe-t-il ? – Dialogue avec Michel-Yves Bolloré

Trois ans de travail avec une vingtaine de scientifiques et de spécialistes de haut niveau : voici révélées les preuves modernes de l’existence de Dieu.

Pendant près de quatre siècles, de Copernic à Freud en passant par Galilée et Darwin, les découvertes scientifiques se sont accumulées de façon spectaculaire, donnant l’impression qu’il était possible d’expliquer l’Univers sans avoir besoin de recourir à un dieu créateur. Et c’est ainsi qu’au début du XXe siècle, le matérialisme triomphait intellectuellement.

De façon aussi imprévue qu’étonnante, le balancier de la science est reparti dans l’autre sens, avec une force incroyable. Les découvertes de la relativité, de la mécanique quantique, de l’expansion de l’Univers, de sa mort thermique, du Big Bang, du réglage fin de l’Univers ou de la complexité du vivant, se sont succédées.

Ces connaissances nouvelles sont venues dynamiter les certitudes ancrées dans l’esprit collectif du XXe siècle, au point que l’on peut dire aujourd’hui que le matérialisme, qui n’a jamais été qu’une croyance comme une autre, est en passe de devenir une croyance irrationnelle.

Dans une langue accessible à tous, les auteurs de ce livre retracent de façon passionnante l’histoire de ces avancées et offrent un panorama rigoureux des nouvelles preuves de l’existence de Dieu. À l’orée du XXe siècle, croire en un dieu créateur semblait s’opposer à la science.

Aujourd’hui, ne serait-ce pas le contraire ? Une invitation à la réflexion et au débat.

The Nature of Reality: A Dialogue Between a Buddhist Scholar and a Theoretical Physicist

Alan Wallace, a world-renowned author and Buddhist scholar trained by the Dalai Lama, and Sean Carroll, a world-renowned theoretical physicist and best-selling author, discuss the nature of reality from spiritual and scientific viewpoints. Their dialogue is mediated by theoretical physicist and author Marcelo Gleiser, director of Dartmouth’s Institute for Cross-Disciplinary Engagement.

Torquemadas do pensamento | José Goulão, 15.Mar.22

«A confraria transeuropeia de polícias de opinião deu finalmente corpo à assustadora profecia de George Orwell e criou o Ministério da Verdade». A violenta barragem há várias semanas em curso subiu exponencialmente de tom. Tom que, além de Orwell, evoca os tempos da Inquisição: qualquer heresia (ou qualquer recusa em condenar a heresia) conduzirá à fogueira. O que está em causa diz respeito a cada um de nós, e exige uma lúcida, determinada e combativa acção de resistência.

Passam por estes dias 19 anos sobre a segunda invasão do Iraque pelos Estados Unidos e outras potências da NATO, mantendo-se ainda a ocupação militar estrangeira do país. Uma guerra limpa, admirável sobretudo quando é apreciada de uma varanda de hotel de Bagdade, lançada por gente com plena sanidade mental, sustentada por razões de uma verdade inquestionável, sem crianças mortas, sem civis bombardeados, sem destruição da maior parte das infraestruturas do país, sem tortura nem chacinas, sem roubos de recursos naturais, sem jornalistas bombardeados de helicópteros como se fossem alvos de um jogo de computador, com espectaculares, cirúrgicos e inofensivos fogos-de-artifício lançados por máquinas de autêntica ficção científica. Um deleite para orgulhosos chefes políticos, inebriados jornalistas esgotando os arsenais de adjectivos e embasbacados telespectadores agarrados aos ecrãs, sorvendo a mais recente superprodução de Hollywood. Solidários com as vítimas? Uns esparsos milhares.

Que diferença dos tempos de hoje!

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Cartas a Spinoza | por Nise da Silveira, Francisco Alves | in Revista Caliban

As sete cartas escritas em 1989 compõem o livro Cartas a Spinoza, Nise da Silveira, Francisco Alves, 1995.

Pintura de Eduardo Ruiz, Dra. Nise da Silveira

Cada Leitor, um Spinoza

  • CARTA I

Meu caro Spinoza,

Você é mesmo singular. Através dos séculos continua despertando admirações fervorosas, oposições, leituras diferentes de seus livros, não só no mundo dos filósofos, mas, curiosamente, atraindo pensadores das mais diversas áreas do saber, até despretensiosos leitores que insistem, embora sem formação filosófica (e este é o meu caso), no difícil e fascinante estudo da filosofia.

Mais surpreendente ainda é que, à atração intelectual, muitas vezes venham juntar-se sentimentos profundos de afeição. Assim, Einstein refere-se a você como se, entre ambos, houvesse “familiaridade cotidiana”. Dedica-lhe poemas. O poema para A Ética de Spinoza [1] transborda de afeto: “Como eu amo este homem nobre / mais do que posso dizer por palavras”.

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A teologia de Jesus | por JOSÉ BRISSOS-LINO in Revista Visão 16.02.22 | sobre texto de Viriato Soromenho Marques

Se um dia boa parte dos teólogos e das igrejas cristãs tiverem a coragem de se centrar efectivamente no discurso e obra do Mestre de Nazaré, deixando de lado o corpo das respectivas tradições, terão um choque ao verificar quão distantes se encontram daquilo a que podemos chamar a teologia de Jesus.

Grande parte das atuais controvérsias no campo religioso cristão, mas também das tensões entre este e o mundo secular relacionam-se com aquilo que S. Paulo denomina “preceitos e doutrinas de homens”: “As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens. As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:22,23). Com efeito, o que os textos neotestamentários nos fornecem relativamente tanto à palavra como à ação do Cristo dos evangelhos, parece ir em contramão com a pregação, os preceitos e a praxis do cristianismo como o conhecemos, nas suas diferentes versões.

Em obra recentemente publicada (“A Teologia de Jesus: Tudo o que o Mestre falou”, Lisboa: Ed. Univ. Lusófonas, 2021) e que Viriato Soromenho Marques me deu a honra de prefaciar, procurei abordar a questão, com apoio de um esforçado colaborador nesta investigação (Vitor Rafael).

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Albert Einstein | “Acredito no Deus de Spinoza”

Acredito no Deus de Spinoza, que se revela num mundo regrado e harmonioso, não em um Deus que se preocupa com o destino e os afazeres da humanidade”.

“Não posso imaginar um Deus pessoal que influencia diretamente a ação das pessoas… Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração do Espírito Infinitamente Superior que se revela no pouco que compreendemos de nosso próprio mundo. A profunda convicção na presença de um Poder Superior, que aparece no universo incompreensível, forma minha ideia de Deus”

Deus de Spinoza | ALBERT EINSTEIN

Sobre Deus, Einstein chegou a se definir como agnóstico em carta de 1950 a Morton Berkowitz. Ele já tinha afirmado anteriormente que acreditava no “Deus de Spinoza”, em referência ao filósofo holandês Baruch Spinoza:

“Acredito no Deus de Spinoza, que se revela num mundo regrado e harmonioso, não em um Deus que se preocupa com o destino e os afazeres da humanidade”, afirmou ele em um telegrama ao rabino Herbert S. Goldestein, publicado pelo jornal americano “New York Times” em 1929 (segundo o livro “The Ultimate Quotable Einstein”).

Com essa declaração, Einstein afirmava a visão que repetiu diversas vezes durante a vida: que tinha mais simpatia por um Deus presente em todos os lugares e que fosse responsável pelas leis do universo num sentido científico, que por uma entidade personificada e preocupada com problemas individuais:

“Não posso imaginar um Deus pessoal que influencia diretamente a ação das pessoas… Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração do espírito infinitamente superior que se revela no pouco que compreendemos de nosso próprio mundo. A profunda convicção na presença de um poder superior, que aparece no universo incompreensível, forma minha ideia de Deus”, disse Einstein em carta de 1927, publicada em seu obituário no “Times”, em 1955.

Friedrich Nietzsche, Karl Marx, et Sigmund Freud

Selon la philosophie de Nietzsche( 1844 – 1900) , la religion est un stratagème utilisé par les analphabètes et les faibles , pour contrôler les intelligents, les intellectuels et ceux qui réussissent dans leur vie, leurs parcours académiques, qui à travers la religion, ils leur envoient un message codé selon lequel, si vous êtes une personne éduqué qui réussit dans sa vie , alors nous, nous somme spirituellement purs, nous sommes en relation avec Dieu, et nous sommes donc plus élevés aimés que vous aux yeux de Dieu. Où les perdants et les faibles entrent ici dans une bataille psychologique à briser les os , ils mènent une guerre froide dévastatrice, pour dominer les forts et les vainqueurs.

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De Roma | João Soares

“Quatro homens e uma mulher, católicos, estão num café, em Roma.

Diz o primeiro homem:

O meu filho é Padre e quando ele chega a um local público tratam-no por «Padre».

Diz o segundo homem:

O meu filho é Bispo e quando ele chega a um local  público tratam-no por «Sua Graça».

Diz o terceiro homem:

O meu filho é Cardeal. Quando ele chega a um local público todos inclinam a cabeça e tratam-no por «Sua Eminência».

Diz o quarto homem, orgulhosamente:

O meu filho é o Papa. Quando ele chega a um local público tratam-no por «Sua Santidade».

Como a única mulher continua a saborear o café em silêncio, os quatro homens dirigem-se a ela com um subtil:

– Então…?

E ela, orgulhosamente, responde:

Eu tenho uma filha, alta e elegante, 85 de busto, 65 de cintura, 82 de ancas, e … quando ela chega a um local público todos exclamam: ”Meu Deus!”

Retirado do Facebook | Mural de João Soares

RAZÃO VERSUS FÉ, UMA DIALÉCTICA DA IDADE MÉDIA (1) | António Galopim de Carvalho

Situada entre aproximadamente os séculos V e XV, a IDADE MÉDIA foi um tempo de alastramento do cristianismo e da vida cultural na Europa ocidental, sobretudo através do surgimento de mosteiros da Ordem dos Beneditinos. Seguidores de São Bento de Núrcia (480-547), os monges desta comunidade cristã, iniciadores do movimento monacal, foram os herdeiros da cultura latina e os depositários do essencial do saber do mundo antigo. Estão entre eles os criadores do enciclopedismo, com destaque para Santo Isidoro de Sevilha (570-636) que nos deixou “Etymologiae sive origines”, publicado oito séculos depois, em 1483. Durante este período, o estudo e o ensino transitaram dos mosteiros e conventos para as chamadas escolas catedrais, criadas por toda a Europa, estas que, por seu turno, foram os embriões das universidades nos centros urbanos mais importantes (Salermo, Bolonha, Paris, Oxford, Montpelier, Arezzo, Salamanca, Pádua, Orleães, Roma, Siena, Lisboa, entre muitas outras), privilegiando o ensino de disciplinas como teologia, gramática, retórica, dialéctica (lógica), aritmética, geometria, astronomia, direito, medicina e música.

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RAZÃO VERSUS FÉ, UMA DIALÉCTICA DA IDADE MÉDIA (2) | António Galopim de Carvalho

Visto como o mais ilustre professor da Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, o filósofo e alquimista dominicano alemão Albrecht von Bollstädt (1206-1280), o “Doctor Universalis”, é conhecido entre nós por Alberto, o Grande ou Alberto Magno e, também, por “Maître Aubert”, ou simplesmente “Maubert”. Lembrado como o maior filósofo e teólogo cristão da Idade Média, Alberto Magno foi também figura de grande prestígio no mundo da ciência do seu tempo, em domínios mais tarde incluídos na química e na mineralogia, que realizou na sua qualidade de alquimista. Após concluir os seus estudos em Pádua e em Paris, Alberto optou pela vida religiosa, ingressando na Ordem de São Domingos, em 1223, tendo chegado à dignidade de Bispo de Regensburgo (Ratisbona).

Tendo estudado o pensamento de Aristóteles e de Averróis, produziu uma das mais importantes sínteses da cultura medieval e defendeu a coexistência pacífica da ciência e da religião, tendo sido o primeiro a aplicar as ideias do fundador do Liceu de Atenas no pensamento cristão. Mas não se limitou a repetir a obra do “Estagirita” (Aristóteles nasceu em Estagira, antiga cidade da Macedónia, na Grécia). Procurou recriá-la com a sua própria experiência e as suas observações. No propósito de subordinar o aristotelismo à fé cristã, o Papa Gregório IX incumbiu Alberto Magno dessa árdua tarefa. Em resultado do seu trabalho, a física e a metafísica, a lógica, a ética, a psicologia e a política de Aristóteles passaram a fazer parte da escolástica.

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Reforma Protestante 500 Anos | A Verdadeira História de Martinho Lutero

Um Documentário sobre os Passos de Martinho Lutero para estabelecer a Reforma Protestante. Neste filme Gláucia Rosane te conduz, na Alemanha, pelas Principais Cidades que marcaram a História da Reforma. A Vida completa de Lutero: Seu Nascimento, Sua Universidade, A Igreja, Os 5 Solas, As 95 Teses, A Tradução da Bíblia, Sua Biblioteca, Katharina Von Bora, Sua Casa, Sua Morte e muito mais. Aqui estão as verdades estabelecidas a partir da Reforma e um pequeno resumo sobre a vida dos Pré-Reformistas até Lutero: Wycliffe, John Huss, Lutero, Comenius e Zinzendorf.

AS TENTAÇÕES DE CRISTO Anselmo Borges

Poder e autoridade

11 Dezembro 2021 — DN

Anselmo Borges

No Evangelho, as três tentações de Jesus estão todas relacionadas com o poder. Antes de iniciar a sua vida pública, Jesus teve de decidir se queria ser um Messias político, do poder, ou um Messias do amor, do serviço. Foi por esta segunda via que seguiu: “Eu não vim para ser servido, mas para servir”, e servir até dar a vida, dar a vida para testemunhar a verdade e o amor. A verdadeira tentação, segundo o Evangelho, é a do poder, no sentido da dominação.

Evidentemente, em qualquer sociedade o poder é inevitável, tem de haver instâncias de poder. Toda a questão consiste em saber como é que ele é exercido e com que finalidade. Quantos se lembram de que Ministro, etimologicamente, significa pura e simplesmente servente, aquele que serve? Primeiro-Ministro é o que está à frente no serviço. Por isso, Jesus disse aos discípulos, também ao Papa, bispos, cardeais, padres: “Sabeis que os chefes das nações governam-nas como seus senhores. Não seja assim entre vós; pelo contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós seja vosso servo”.

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What is Spinoza’s God?

Spinoza is one of the most controversial and debated philosophers in the last few centuries. This video attempts to give a very general overview of his perspective on God as well as some ways that it can be interpreted.

The video is a collaboration with the lovely channel “Seekers of Unity”, which you can find here: https://www.youtube.com/channel/UCL9A…

Pedro Hispano | o português mais poderoso de sempre | in vortexmag

Quem foi Pedro Hispano? O português mais poderoso de sempre viveu na Idade Média e foi o Papa João XXI. Conheça a sua história e como chegou a Papa.

A 20 de setembro de 1276, Pedro Julião (ou Pedro Hispano, como também era conhecido) foi coroado com o nome de Papa João XXI, uma semana depois da sua eleição para o papado, em Viterbo. Esta votação esteve envolvida nalguma agitação, já que o seu predecessor, Adriano V, tinha falecido prematuramente, pouco mais de um mês após a sua eleição.

Numa altura em que na Europa prevaleciam os conflitos e guerras entre vários pequenos reinos e com a ameaça dos muçulmanos à porta, ser Papa significava ser a pessoa mais poderosa do mundo naquela época. Reis, nobres e povo… todos deviam obediência ao sumo pontífice. Era ele quem ditava as leis, estabelecia as regras e mediava conflitos.

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Epístola sobre o que celebramos hoje | Todos os Santos. Há festa no Olimpo.

A ideia de a Igreja Católica Romana, através do Papa Bonifácio IV, no século sétimo, de dedicar o Panteão dos deuses romanos a todos os santos do cristianismo, de promover um festival de santos, o que na neolinguagem poderia ser uma Rave de santidade, foi e é, porventura, bem intencionada, mas não deixa de ser desanimadora.

Olhando a história da humanidade, e não só o seu presente, desde há quinze séculos que em vez de esperança, apesar dos esforços e sacrifícios de todos os santos, mártires, virgens, doutores, o que temos é um percurso do homem lobo do homem e predador da natureza. Os santos não conseguiram que o homem ganhasse, se não bondade e virtude, pelo menos juízo.

Este dia de Todos os Santos de 2021 não é diferente dos anteriores e não será, presume-se, diferente dos do futuro. No caso, todos os grandes santos do momento estiveram reunidos na cimeira do G-20 e partiram em voo de Roma para Glasgow, a fim de tratarem das ameaças das alterações climáticas que os santos que estiveram nas anteriores celebrações causaram com a sua ganância e perversidade, explorando recursos até os humanos comuns, os que não obtiveram reconhecimento de santidade, terem decidir se querem desaparecer afogados ou gaseados.

Entretanto, os atuais santos e os seus arcanjos, os que à volta deles surgem nos ecrãs de televisão e nas páginas de jornais gordinhos, a tocar trombetas, já fizeram desaparecer das preocupações as tristes figuras que lhes poderiam entortar a auréola dourada que paira sobre as suas cabeças e borrar as asinhas que os fazem flutuar.

De repente, os santos do momento, através dos seus mágicos manipuladores da realidade, fizeram desparecer as vergonhosas imagens do Afeganistão, por exemplo. Como estarão os homens e mulheres do Afeganistão a celebrar o dia de Todos os Santos? E os migrantes do Mediterrâneo? E os sírios? E os palestinianos? E os hondurenhos e haitianos? Não há, como parece evidente, santos que lhes valham. Nem todos juntos.

Sendo os santos tão historicamente inúteis o que celebramos hoje nos vários templos e púlpitos? Que som sai dos sinos?

Born 1946; retired military, historian Carlos Matos Gomes

SINAIS DE BARBÁRIE | Massacre do Triunvirato | Pintura de Antoine Caron | por Vítor Serrão

A História da Humanidade poderia ser contada seguindo o rol sangrento das atrocidades cometidas contra os «outros». É um ciclo ininterrupto e, hoje, com crescente refinamento na maldade: os homens, sejam alienados, incultos, insensíveis, tomados pela cobiça pessoal ou seguindo a febre das massas, enfrentam aquilo que desconhecem e temem como legitimação para as suas intolerâncias e preconceitos e, no extremo, justificação dos massacres que praticam ou toleram…

Sempre me impressionou a crueldade descrita numa pintura de Antoine Caron (1521-1599), maneirista francês ligado à Escola de Fontainebleau que viveu a sinistra noite de St Barthélemy, no seu ‘Massacre do Triunvirato’ (1566), exposto no Musée du Louvre.

Também a História da Arte poderia ser contada através da miséria das guerras e da refinada crueldade contra os indefesos: será esse, afinal, o seu maior papel ? Como perguntava em 1547 o atormentado pintor florentino Jacopo Pontormo (na célebre parangona de Benedetto Varchi sobre a superioridade das artes: seria a Pintura superior à Escultura, ou vice-versa ?), que Deus inepto é este que criou de tão vil barro estas criaturas que somos ?

Só os artistas (e só por vezes) superam essa inépcia ao tocarem as asas do sublime: na música, na poesia, na literatura, na pintura — no humanismo… Por isso também, o poeta Sidónio Muralha (1920-1982), em ‘A Viagem dos Argonautas’, escalpelizava estes «selvagens gnomos que nós fomos — e somos», que querem ir a Marte buscar a sobrevivência da espécie não cuidando antes da paz e da harmonia na Terra.

Retirado do Facebook | Mural de Vitor Serrão

AO ENCONTRO DE JESUS HISTÓRICO Maria Helena Ventura

Tinha em mãos o projecto do livro UM HOMEM SÓ, título que poderia ser interpretado como “um homem sozinho”, ou “apenas um homem”.

Chegava a contemplar a segunda dimensão, depois de um longo cepticismo em relação ao que aprendera em criança, mas a figura de Jesus Cristo, como a de qualquer outro profeta, era e é demasiado importante para aqueles que acreditam na sua palavra. Não podia desrespeitá-los.

E depois, à medida que ia lendo e pesquisando documentos, ia recordando que o evangelho de Jesus Cristo não é uma religião, contém em si a significação universal mais completa, que abrange o princípio de todas as religiões.

Lembra que os homens têm a mesma origem e um destino comum, partilham um só planeta, a mesma casa. As suas vidas pessoais e colectivas só têm significado com o compartilhamento dos recursos e adopção do respeito mútuo, porque é inevitável que se cruzem em trocas de experiências e miscigenações.

Antes de todos os princípios, o da fraternidade é essencial. Era esse, essa filosofia de vida, que Jesus pregava. O outro, subentendido, é o do acesso à educação, ou abertura da mente, na altura pela escuta da palavra, para que o esclarecimento afaste os densos véus do obscurantismo.

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São Paulo | Frederico Lourenço

Pelo que se tem visto, lido e ouvido ultimamente, parece que Portugal descobriu a existência, na Bíblia, de um autor polarizador e polémico: São Paulo.

Quem foi este homem? O que pensar dos textos que escreveu?

Paulo é, na verdade, o único autor do Novo Testamento a cuja identidade podemos associar uma biografia real, mas a reconstituição da sua biografia esbarra de imediato contra um célebre problema: a discrepância entre aquilo que é dito sobre Paulo nos Actos dos Apóstolos e aquilo que Paulo diz sobre si próprio nas suas cartas autênticas. Este problema influi no grau de credibilidade que podemos adscrever aos dados que nos chegaram sobre a biografia de Paulo exclusivamente via Actos dos Apóstolos. Isto porque a lógica mais básica nos exige que pelo menos equacionemos a hipótese de estarem errados os elementos biográficos sobre Paulo em Actos quando estes colidem com o que é escrito pelo próprio Paulo nas suas cartas.

 Assim, para muitos estudiosos atuais, a metodologia crítica mais defensável na abordagem à biografia de Paulo implica dar primazia à credibilidade de Paulo nos pontos em que há contradição entre as cartas autênticas de Paulo e outras fontes.

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Cabul e a vitória da guerrilha | Luís Alves de Fraga

O Afeganistão foi um território onde ingleses, russos e americanos nunca conseguiram impor-se à cultura local.

Só há uma explicação para isso: ao contrário de compreenderem o povo afegão, os seus costumes, as suas necessidades e os seus anseios, tentaram ocidentalizá-los, abrindo estradas, fazendo escolas e hospitais. Tudo isso constituiu um tremendo erro.

O islamismo tem de ser compreendido, estudado e interpretado segundo os princípios que o regem. A primeira grande diferença entre as culturas ocidentais, influenciadas pelas culturas greco-romana e judaica é que a religião, tal como Jesus afirmou, “é de Deus” e a política “é de César”. No islamismo, política, justiça e religião confundem-se sem dar lugar à tripartição do poder ‒ legislativo, executivo e judicial ‒ porque, soberano é Deus, que se revelou e ditou a justiça, as leis e a governação, através do seu profeta, Maomé.

As fontes da Lei são o Alcorão seguido da Suna (relato da vida e dos caminhos do profeta) e, depois, os hádices (narrativas do profeta). Tudo está contemplado nestes escritos tidos como sagrados e, mais do que isso, soberanos no sentido atribuído pelo Ocidente à palavra (depois da Revolução Francesa), ou seja, detentores de todos os poderes.

É assim, deste modo que, para um muçulmano, o Estado, a chefia do Estado e a chefia religiosa se confundem. Um condutor religioso é, também, um condutor político e jurídico.

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L’Éthique de Spinoza (1/4) : De Dieu | L’Éthique de Spinoza (2/4) : De l’esprit | L’Éthique de Spinoza (3/4) : Affects et servitude | L’Éthique de Spinoza (4/4) : De la liberté humaine

Les Nouveaux chemins de la connaissance Émission diffusée sur France Culture le 11.04.2016. Par Géraldine Mosna-Savoye et Clément Baudet.

Intervenant : – Ariel Suhamy : philosophe, maître de conférences au Collège de France, éditeur du site “La Vie des idées”.

“Le vulgaire entend par puissance de Dieu la libre volonté de Dieu et la juridiction sur toutes les réalités qui existent”, sur le modèle de la liberté d’un roi. C’est un autre concept de Dieu que Spinoza propose dès les premières lignes de l’ ‘Éthique’. Pour nous en parler aujourd’hui, Ariel Suhamy.

Cathédrale du Sacré-Cœur d’Alger

La cathédrale du Sacré-Cœur d’Alger, construite à partir de 1956, est devenue la nouvelle cathédrale d’Alger après que la cathédrale Saint-Philippe d’Alger eut été réhabilitée à sa vocation d’origine comme mosquée après l’indépendance puisqu’une mosquée se fut effondrée sur une petite partie de la parcelle sur laquelle la cathédrale avait été édifiée. Elle eLa cathédrale du Sacré-Cœur d’Alger, construite à partir de 1956, est devenue la nouvelle cathédrale d’Alger après que la cathédrale Saint-Philippe d’Alger eut été réhabilitée à sa vocation d’origine comme mosquée après l’indépendance puisqu’une mosquée se fut effondrée sur une petite partie de la parcelle sur laquelle la cathédrale avait été édifiée. Elle est l’église cathédrale de l’archidiocèse d’Alger.

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L’ÉTERNITÉ DES ÂMES DANS LA PHILOSOPHIE DE SPINOZA | Victor Brochard

[371] Les historiens ne sont pas d’accord sur le sens et la portée qu’il

convient d’attribuer à la doctrine de l’éternité des âmes exposée dans la seconde

moitié de la cinquième partie de l’Éthique. Qu’il ne s’agisse pas de l’immortalité

au sens vulgaire du mot, c’est ce qui est attesté expressément dans le texte même

de la Proposition XXI, où la mémoire et l’imagination sont considérées comme

liées à la vie présente. D’ailleurs il est indubitable que l’existence de l’âme dans

son rapport à la durée cesse avec celle du corps. L’éternité de l’âme affirmée par

Spinoza est attribuée uniquement à l’essence, et, dans toute cette dernière partie

de l’Éthique, c’est uniquement de l’essence opposée à l’existence qu’il est

question. Mais cette éternité de l’essence, comment faut-il l’entendre ? On peut

être à première vue tenté de croire qu’il s’agit d’une éternité tout impersonnelle,

plus ou moins analogue à celle qu’Aristote attribue à l’intellect actif qui vient

éclairer quelque temps l’âme humaine sans cesser d’appartenir à la divinité, ou

encore comme l’étincelle de feu divin qui, selon les Stoïciens, éclaire un instant

l’âme humaine, et, à la mort du corps, se réunit au feu universel.

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An Atheist’s God | The Paradox of Spinoza

Beth Lord discusses Spinoza with Alan Saunders in an episode of the Philosopher’s Zone from a few years back. Baruch Spinoza, one of the greatest philosophers of his day, was expelled from the Amsterdam synagogue in 1656 because of his unorthodox religious views. Ever since, he has been regarded as the great atheist of the Western tradition. Yet he mentions God very often throughout his writings.


Beth Lord discute Spinoza com Alan Saunders em um episódio da Zona dos Filósofos de alguns anos atrás. Baruch Spinoza, um dos maiores filósofos de sua época, foi expulso da sinagoga de Amsterdão em 1656 por causa de suas opiniões religiosas pouco ortodoxas. Desde então, ele é considerado o grande ateu da tradição ocidental. No entanto, ele menciona Deus com muita freqüência em seus escritos.

Espinosa, uma subversão filosófica | Espinosa, une subversion philosophique Marilena Chauí | TRADUIT POUR LE FRANÇAIS

I. Maledictus

A 27 de julho de 1656, a assembleia dos anciãos que dirige a comunidade judaica de Amsterdã promulga um herem (excomunhão, em hebraico), excluindo e banindo Espinosa, que, nessa época, tem 24 anos.

Em 1670, aos 37 anos, Espinosa publica o Tratado Teológico-Político, impresso sem o nome do autor. A obra se destina à defesa da liberdade de pensamento e de expressão. A 19 de julho de 1674, trazendo o brasão e as armas de Guilherme de Orange III, os Estados Gerais da Holanda, sob orientação e exigência do Sínodo calvinista, promulgam um édito em que declaram o livro pernicioso, venenoso e abominável para a verdadeira religião e para a paz da república, proibindo sua impressão e divulgação.

Em 1678, um ano após a morte de Espinosa, um novo édito do governo da Holanda proíbe a divulgação do conjunto de sua obra, publicada postumamente por seus amigos.

Afinal, o que dissera o jovem Espinosa – em 1656 –, o que escrevera o filósofo – em 1670 – e o que deixara escrito – em 1678 –, para que fosse expulso da comunidade judaica e condenado pelas autoridades cristãs? Por que alguns leitores, seus contemporâneos, afirmam estar diante de “nova encarnação de Satã” e que seu nome, Benedictus em latim, deveria ser mudado para Maledictus?

A filosofia espinosana é a demolição do edifício filosófico-político erguido sobre o fundamento da transcendência de Deus, da Natureza e da Razão, voltando-se também contra o voluntarismo finalista que sustenta o imaginário da contingência nas ações divinas, naturais e humanas. A filosofia de Espinosa demonstra que a imagem de Deus, como intelecto e vontade livre, e a do homem, como animal racional e dotado de livre-arbítrio, agindo segundo fins, são imagens nascidas do desconhecimento das verdadeiras causas e ações de todas as coisas. Essas noções formam um sistema de crenças e de preconceitos gerado pelo medo e pela esperança, sentimentos que dão origem à superstição, alimentando-a com a religião e conservando-a com a teologia, de um lado, e o moralismo normativo dos filósofos, de outro.

II. Deus, ou seja, a Natureza: a filosofia da imanência

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QUINTA FEIRA DA ASCENSÃO (DIA DA ESPIGA) | António Galopim de Carvalho

Hoje 13 de maio, Quinta feira, é para os cristãos, o dia em que se comemora a ascenção de Jesus ao Céu. É também o popular Dia da Espiga.

Eis o texto do meu confrade Firmino Cacheirinha (da Confraria Gastronómica do Alentejo) sobre o este dia, que me foi enviado.

“A Festa da Ascensão, ou Quinta Feira da Ascensão, é uma festa marcadamente católica, sendo feriado municipal em muitos concelhos de Portugal. No entanto em simultâneo com ela, e provavelmente com maior adesão, celebra-se o Dia da Espiga, ou Quinta Feira da Espiga.

A Origem da Tradição

Os rituais pagãos, com especial enfoque nas culturas célticas e romanas, de celebração das primeiras colheitas, e pedido pela qualidade e quantidade destas, remontam à antiguidade.

Com a chegada do Cristianismo, tendo em conta a data das celebrações da Páscoa, em Portugal acabou por se colar à Festa da Ascensão, celebrada 39 dias depois da Páscoa. Até porque era um Feriado oficial em Portugal, até 1952.

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PERMANÊNCIAS | Vítor Serrão

Na entrevista de Luís Miguel Cintra saída ontem no Expresso, o actor narra uma conversa com Manoel de Oliveira onde o cineasta lhe disse: «Sabe como é a morte ? A pessoa deita fora o último suspiro, é o espírito que abandona o corpo.

O corpo morre completamente, é lixo, mas o espírito sai e mistura-se com o espírito universal.

É como os rios, que perdem o seu carácter quando chegam ao mar. Mas fazem parte dele, e ele é igual em toda a parte». Conclui Cintra (que é crente): «Esta explicação é aquela que, usando conceitos nossos, humanos, me pareceu a melhor».

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ADAM ET ÈVE | Quelle faute ont-ils commise ? | Le Précepteur – Charles Robin

📏 Selon le christianisme, l’être humain est marqué, dès l’origine, par le sceau du péché. En succombant à la tentation du fruit défendu, Adam et Ève auraient plongé l’humanité dans la souffrance et la corruption. Mais au-delà de la dimension religieuse, que nous enseigne cette épisode biblique sur notre condition ?

👨🏻‍🏫 QUI EST LE PRÉCEPTEUR ? Charles Robin est précepteur et enseignant en philosophie, français et mathématiques. Depuis plusieurs années, il accompagne des élèves de tous niveaux dans leur parcours scolaire. Ses élèves l’apprécient pour son franc parler, son sens de l’écoute et sa capacité à rendre claires des notions parfois complexes. Son projet, à terme, est de créer une école populaire autonome dans laquelle seraient valorisés les savoirs fondamentaux, les arts et l’initiative collective.


A BÍBLIA | UMBERTO ECO

TEXTO DE UMBERTO ECO SOBRE A BÍBLIA

Via José Gabriel:

“Dolenti declinare(relatórios de leitura para um editor)

Anónimos. A Bíblia.

Devo dizer que quando comecei a ler o manuscrito, e ao longo das primeiras centenas de páginas, fiquei entusiasmado. Tudo é acção, e acção é tudo o que o leitor de hoje pede a um livro de evasão: sexo (em profusão), com adultérios, sodomia, homicídios, incestos, guerras, massacres, e assim por diante.

O episódio de Sodoma e Gomorra, com os travestis que os dois anjos querem fazer-se, é rabelaisiano; as histórias de Noé são Salgari puro, a fuga do Egipto é uma história que aparecerá mais cedo ou mais tarde nos écrans… Em resumo, um verdadeiro romance-rio, bem construído, que não economiza os golpes de teatro, cheio de imaginação, com a dose de messianismo suficiente para agradar, mas sem cair no trágico.

Depois, seguindo para diante, dei-me conta de que estava, afinal, perante uma antologia de vários autores, com numerosos, excessivos, trechos de poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, perfeitas jeremíadas sem pés nem cabeça.

O resultado é um conjunto monstruoso, arriscando-se a não agradar a ninguém, por tanto ter de tudo. E, depois, será um problema tratar de todos os direitos dos diversos autores, a menos que o organizador trate disso, ele próprio. Mas do organizador nunca consegui descobrir o nome, nem sequer no índice, como se fosse proibido nomeá-lo.

Eu diria que se fizessem contactos a ver se será possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Seria andarmos mais pelo seguro. Com um título como “Os Desesperados do Mar Vermelho”.

Umberto Eco, “Diário Mínimo”

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

JESUS – UM BREVE ROTEIRO HISTÓRICO Reinaldo José Lopes

O milagre da multiplicação dos livros sobre a figura histórica de Jesus já virou uma das tradições da Semana Santa. No entanto, não é fácil achar uma obra com essa temática que se disponha a começar do começo, explicando as bases dessa área de pesquisa, em vez de expor uma nova hipótese bombástica sobre o Nazareno. Para quem quer dar os primeiros passos nessa discussão, um livro recém lançado por um historiador brasileiro pode ser útil.

“Jesus – Um Breve Roteiro Histórico para Curiosos” é a primeira obra escrita sobre o tema por Alex Fernandes Bohrer, professor do IFMG (Instituto Federal de Minas Gerais) e especialista em história da arte. Com uma estrutura simples, a partir de capítulos em formato de perguntas —“Oque é a Bíblia?”, “Como foi a infância de Jesus” etc.—, a obra busca explicar, com considerável sucesso, o que os historiadores sabem sobre Cristo e sobre as origens do cristianismo.

Pintura de Matthias Grunewald, representando a morte e o sepultamento de Jesus Cristo

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Há 2021 anos | Paulo Mendes

Há 2021 anos, um judeu marxista foi torturado e cruxificado por uma potência imperialista por causa da uma mensagem revolucionária de igualdade e fraternidade entre os homens. Nos 20 séculos a seguir, esta mensagem foi sistematicamente expurgada do seu teor político de justiça social e igualdade, e vendida aos pobres como uma treta pseudo-espiritual de defesa da resignação para com as injustiças dos poderosos em troca de um reino imaginário após a morte, pela mais antiga, mais pérfida e bem sucedida corporação empresarial da História.

Esta corporação, 20 séculos depois, é gerida por um pequeno e geriátrico grupo de homens brancos que entretanto justificaram a acumulação de riqueza por tiranos, o genocídio de indígenas, o femicídio da inquisição, a escravatura, o holocausto e sujeitaram milhares de crianças a seu cargo aos mais horríveis crimes sexuais causados pelos seus juramentos de celibato forçado, que por sua vez derivam da necessidade que a corporação tem, ainda hoje, de proteger a propriedade acumulada, limitando o direito sucessório dos seus agentes comerciais que vendem a palavra adulterada daquele revolucionário judeu palestiniano.

Feliz Páscoa a todos e vivam os judeus revolucionários e os seus filhos que ainda hoje fazem, sempre que podem, a cabeça em água aos poderosos deste mundo.

Paulo Mendes

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Querido

Did Einstein believe in God? | MARCELO GLEISER | com tradução para português e francês

Here’s what Einstein meant when he spoke of cosmic dice and the “secrets of the Ancient One”.

MARCELO GLEISER

  • To celebrate Einstein’s birthday this past Sunday, we examine his take on religion and spirituality.
  • Einstein’s disapproval of quantum physics revealed his discontent with a world without causal harmony at its deepest levels: The famous “God does not play dice.”
  • He embraced a “Spinozan God,” a deity that was one with nature, within all that is, from cosmic dust to humans. Science, to Einstein, was a conduit to reveal at least part of this mysterious connection, whose deeper secrets were to remain elusive.

Given that March 14th is Einstein’s birthday and, in an uncanny coincidence, also Pi Day, I think it’s appropriate that we celebrate it here at 13.8 by revisiting his relationship with religion and spirituality. Much has been written about Einstein and God. Was the great scientist religious? What did he believe in? What was God to Einstein? In what is perhaps his most famous remark involving God, Einstein expressed his dissatisfaction with the randomness in quantum physics: he “God doesn’t play dice” quote. The actual phrasing, from a letter Einstein wrote to his friend and colleague Max Born, dated December 4, 1926, is very revealing of his worldview:

Quantum mechanics is very worthy of regard. But an inner voice tells me that this is not the true Jacob. The theory yields much, but it hardly brings us close to the secrets of the Ancient One. In any case, I am convinced that He does not play dice.

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«Dar de comer a quem tem fome» | a Pastoral do Bispo de Beja, em 1953 | via Helena Pato

«Dar de comer a quem tem fome» – a Pastoral do Bispo de Beja, em 1953Um apelo à caridade cristã como forma de superar a dolorosa situação de fome nas populações alentejanas. Mas contem um quadro real da enormíssima pobreza à época, corajosamente denunciada nessa pastoral. Em minha opinião é uma surpreendente pastoral, onde fica dito: «Saudemos e bendigamos essas iniciativas e auroras de benéficas esperanças; que se congreguem, sim, todas as boas vontades para as levar a cabo; que se institua um regímen de trabalho que dê a cada um aquilo a que tem insofismável direito, mas o que importa desde já, e para já, é atenuar a gravidade da hora presente e essa só entra em aspectos de solução proporcionando o alimento aos que têm fome!»

( na íntegra, abaixo)

O AMPARO DOS POBRES

Para as Crianças – para os Inválidos – para os sem Trabalho

Meus caríssimos diocesanos:

SEM esquecer a palavra profética de Jesus Cristo, de que há-de haver sempre pobres no meio de nós, sem pretender estudar as origens dum problema gravíssimo e, muito menos, dar-lhe cabal remédio, eu venho dirigir aos corações bondosos, caritativos e generosos um veemente apelo pastoral que se resume na verificação deste facto doloroso: as condições económicas dos pobres não têm melhorado, antes se agravam impiedosamente, de ano para ano, e o estendal da sua miséria é cada vez mais lancinante. Não posso calar por mais tempo a denúncia de circunstâncias no nosso Baixo Alentejo – não tenho senão que confinar-me aos limites da minha Diocese – que tornam amargurante, definhadora e horrivelmente descaridosa a vida das classes proletárias rurais, circunstâncias que as lançam numa parte sensível do ano nos braços da fome. Seria parcialidade negar os importantes esforços para vencer este mal, já por meio das organizações oficiais, no notável desenvolvimento da assistência pública, no constante progresso das instituições de mutualidade, na periódica preparação de contractos colectivos de trabalho – contractos que ainda não beneficiam as classes rurais – já por tantas obras de caridade particular disseminadas por vilas e aldeias, e pelas generosidades pessoais de tantos corações beneméritos. Tem-se feito alguma coisa: é indubitável. Se as iniciativas oficiais são de louvar, também há que fazer justiça, sincera e profunda, aos sentimentos caritativos do povo alentejano, e aos arreigados e compreensivos movimentos duma compaixão que se traduz em fazer bem, em valer aos necessitados.

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O HOMEM LIVRE EM DEUS | POR BENTO ESPINOSA | Wiltonn William Leite

UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA
DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA
CURSO DE MESTRADO

(…)

Bento Espinosa apresenta um único método para conhecer o processo do
pensamento humano, pois é pelo intelecto que a verdade é conhecida. Pierre-François
Moreau afirma que seu método faz com que não seja possível anexá-lo a nenhuma outra
corrente filosófica: “temos de pensá-lo num espaço teórico do qual talvez ele seja o único representante.

Seu método intelectual para conhecer a verdade da expressão do
fenômeno pelo intelecto é o que realmente importa ser estudado, entendido,
compreendido, apreendido e repetido. Conhecido pela razão e intuição, por suas leis
matemáticas e geométricas, portanto, por suas leis divinas eternas. Chaui afirma que,
Espinosa,

revolucionariamente, demonstra que a verdade é imanente ao próprio
conhecimento, não precisa de qualquer garantia externa: conhecer
adequadamente uma coisa é conhecer seu modo de produção. A verdade
é índice de si mesma e do falso, não reside na adequação da ideia à coisa.
Pelo contrário, é porque a ideia revela a produção da coisa que ela mesma
dá a garantia de adequação. Com Espinosa, o racionalismo ocidental
descobriu a imanência da verdade ao objeto, graças à demonstração da
gênese do objeto. Não são necessários critérios para a verdade; é ela que
julga o falso, e não o contrário.

Bento Espinosa apresenta um método para conhecer de forma adequada
(intrinsecamente verdadeira), por aperfeiçoamento do intelecto, os modos finitos por
aquilo que eles realmente são (por sua causa próxima e genética), por sua essência atual
(conatus), na ordem natural e necessária das coisas na natureza. Bento Espinosa parte de
uma ideia que considera verdadeira, a existência de um Ser Perfeitíssimo, a quem ele
denomina Deus ou Natureza, causa de si e causa de todas as coisas, para explicar com
rigor matemático por síntese a essência ou natureza das coisas existentes nessa Natureza
ou Deus, em particular, explicar e compreender a natureza do homem. (…)

CLICAR NESTE ENDEREÇO

https://repositorio.ucs.br/xmlui/bitstream/handle/11338/1260/ Dissertacao%20Wiltonn%20William%20Leite.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Entrevista ao Correio da Manhã | 12 de fevereiro de 2014 | Carlos Esperança


O presidente da Associação Ateísta Portuguesa já foi católico e ainda não conseguiu a anulação do batismo. No entanto, o que mais inquieta Carlos Esperança, de 71 anos, ex-professor primário e reformado de uma farmacêutica, são os laços entre o Estado e as religiões.

A religião continua a ser o ópio do povo?   

Não diria que é propriamente o ópio do povo, mas é frequentemente um detonador de ódios. Teria dúvidas em usar essa frase de Marx, mas também não a repudio, mesmo sem subscrever o marxismo.

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Natal 2020 | Frederico Lourenço

Quem leu o famoso romance “Brideshead Revisited” de Evelyn Waugh lembrar-se-á de uma conversa entre Charles e Sebastian sobre a fé, em que Charles se afirma não-crente e exprime a sua estranheza perante o facto de o amigo acreditar na lenda do Natal (com Reis Magos e burrinho junto da manjedoura). Diz Charles: “but my dear Sebastian, you can’t seriously believe it all… I mean about Christmas and the star and the three kings and the ox and the ass”. Ao que Sebastian responde: “oh yes, I believe that. It’s a lovely idea”.

Neste ano de pandemia, tão dilacerante para milhões no mundo (e que nos trouxe em Novembro a notícia deprimente de que Donald Trump obteve mais 11 milhões de votos do que em 2016 e, em Dezembro, mutações super contagiosas do coronavírus), a “lovely idea” do Natal é mais precisa do que nunca, capaz de consolar pessoas religiosas e pessoas sem nenhuma religião. Na verdade, não preciso de acreditar que o menino deitado na manjedoura é filho de Deus para reconhecer a espantosa beleza da ideia de que o filho de Deus pudesse estar deitado num estábulo de animais, calmamente observado por um burro e por um boi. Também não preciso de acreditar na virgindade da mãe que o deu à luz para achar “a lovely idea” a noção de que uma virgem pudesse engravidar e parir uma criança.

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Papa cristão | Daniel Oliveira | in Jornal Expresso

Ao defender uma lei civil que enquadre as relações entre pessoas do mesmo sexo, o Papa Francisco não reconheceu ou aceitou o casamento. Mas deu mais um passo. E se este gesto pode não ser importante para o conjunto da comunidade, porque os Estados laicos não precisam de bênção papal para garantirem igualdade de direitos, é-o para milhões de católicos LGBT, que passam a sentir-se um pouco mais em casa na sua Igreja. Como mostrou com os divorciados, o Papa quer recuperar aqueles que a Igreja foi deixando pelo caminho e que já não aceitam a culpa dessa exclusão.

Quer impedir que a Igreja Católica se transforme num reduto de ultraconservadores, incapaz de lidar com a pluralidade dos seus fieis. Dirão que se adapta aos tempos modernos. É o contrário. Estes não são tempos de inclusão e pontes, são de polarização. O Papa Francisco tenta livrar a Igreja de uma guerra cultural que tem sido suicida para sectores políticos tradicionais e que a entregaria a nichos fanatizados. (…) Tenta colocar a Igreja num lugar mais próximo da radicalidade do cristianismo. (…)

Para os que se habituaram a ver a Igreja como um lugar de castigo, que usam o perdão como forma de agressão, que se armam com a religião para perseguir o que não compreendem, que vivem obcecados com o sexo consensual entre adultos mas fecharam os olhos ao abuso de menores, deve ser perturbante ter um Papa cristão.

Frateli tutti: a política como ternura e amabilidade. Artigo de Leonardo Boff

nova encíclica do Papa Francisco, assinada sobre a sepultura de Francisco de Assis, na cidade de Assis, no dia 3 de outubro, será um marco na doutrina social da Igreja. Ela é vasta e detalhada em sua temática, sempre procurando somar valores, até do liberalismo que ele fortemente critica. Certamente será analisada em detalhe por cristãos e não cristãos pois se dirige a todas as pessoas de boa vontade. Ressaltarei neste espaço aquilo que considero inovador face ao magistério anterior dos Papas.

Há 480 anos – A inquisição portuguesa | Carlos Esperança

Portugal, tal como Espanha, não teve os benefícios da Reforma, e sofreu a violência da Contrarreforma.

Aos países ibéricos não chegou a Reforma, causa do atraso a que foram remetidos, mas veio a Inquisição, instrumento cruel da Contrarreforma. A piedade dos Reis Católicos, de Espanha, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, que nunca tomaram banho ou faltaram a obrigações pias, e a do sr. Dom João III, com o cognome ‘Piedoso’, levou-os a exigirem o santo tribunal. O padecimento de quem não seguisse a religião verdadeira, ou de quem pecasse contra ela, assegurava-lhes o Paraíso. Os Reis Católicos, ainda não canonizados, já tinham imposto a D. Manuel I, para o acordo de casamento com a sua augusta filha, entre outras cláusulas, a criação da Inquisição.

A mercê papal estorricou bruxas, hereges, judeus, adivinhadores, feiticeiros e bígamos, com santos frades dominicanos dedicados à incineração dos vivos e à criatividade para lhes prolongar o sofrimento, para maior glória de Deus, recreio dos créus e purificação das almas dos réprobos supliciados.
O Tribunal do Santo Ofício contou com o entusiasmo de dominicanos, jesuítas e outros clérigos de mau porte, piores instintos e amplos poderes, de Ordens diferentes, durante os 285 anos que duraram as perseguições aos hereges (1536-1821). Foi o liberalismo, de que decorre o segundo centenário, esse mal que Pio IX excomungou, a pôr-lhe termo.

Foi a maçonaria, igualmente excomungada, que fez a Revolução de 1820, a responsável do Vintismo, que só os meios académicos progressistas parecem comemorar, que trouxe o liberalismo e aboliu o opróbrio de quase três séculos.
Há, talvez, na longa sequência do ADN um gene da crueldade que molda o cromossoma humano, e ninguém faz o mal com tanto entusiasmo e tamanha alegria como quem tem uma fé à prova da clemência e uma devoção que exonera a compaixão, como mostraram amplamente os santos inquisidores.
O primeiro auto de fé, em Portugal, teve lugar em Lisboa, no Ano da Graça de 1540, no dia 20 de setembro, perante o entusiasmo da Corte e do bom povo temente a Deus.

Foi há 480 anos, como a imagem documenta.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

20 de Setembro de 1378 | Crise na Igreja Católica dá início ao Grande Cisma do Ocidente

No dia 20 de Setembro de 1378,  treze cardeais reúnem-se secretamente en Anagni, sul de Roma. Descontentes com o papa imposto pelo povo romano em 8 de Abril de 1378, sob o nome de Urbano VI, eles designam o prelado de Saboia, Roberto de Genebra, como novo sumo pontífice. O eleito assume o nome de Clemente VII e instala-se em Avinhão, sede abandonada em 17 de Janeiro de 1377 pelo seu predecessor Gregório XI. A rota de colisão com Urbano VI, qualificado de “antipapa”, torna-se inevitável.

O episódio marca o início do Grande Cisma do ocidente, também conhecido como Cisma Papal, ou simplesmente Grande Cisma, crise católica que duraria 39 anos (1378-1417).

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Dieu existe, je le rencontre tous les jours ! | par Sid Lakhdar Boumédiene in Le Quotidien d’Oran

Que certains lisent un peu plus loin dans le texte avant d’attraper une apoplexie, ils y verront un texte de respect et d’espoir.

Paradoxalement, dans l’histoire, les religions ont été la chose la plus merveilleuse qu’il soit arrivée à l’humanité. Elles ont été une tentative d’explication du monde et de ses phénomènes ainsi que celle d’arrêter la barbarie humaine. Si nous laissons de côté l’échec de la première tentative à ceux qui sont si crédules en se focalisant toujours au premier degré du texte et qu’aucune emprise de l’instruction ne peut atteindre, parlons de la seconde.

On a pour habitude de mettre en avant la création de la philosophie par la Grèce antique comme première lumière de l’esprit moderne. Si on peut en convenir partiellement, l’étape postérieure a été beaucoup plus cruciale pour la rédaction de valeurs qui « humanisent » l’être humain car la société grecque antique était entièrement consacrée au culte de la guerre et à la violence, on l’oublie trop rapidement.

Palavras dos Evangelhos | Frederico Lourenço

O quadro de El Greco na Colecção Frick de Nova Iorque, que representa Jesus a expulsar os vendilhões do templo, deu-me recentemente que pensar por duas razões.

A primeira foi a notícia lida algures de que, estando comprovado que a contemplação de grandes obras de arte aguça e refina a capacidade de atenção, existem hoje iniciativas em grupos profissionais que ninguém esperaria (como o exército ou a polícia nos EUA) programadas para ensinar futuros militares a analisar obras de arte e a memorizar os seus pormenores. Um grupo de futuros polícias foi levado, pois, à Colecção Frick de Nova Iorque, onde uma professora de História de Arte lhes propôs a análise do quadro de El Greco que vêem na imagem. A professora perguntou ao grupo o que achavam do quadro. Um dos futuros polícias disse imediatamente que mandaria prender «the guy in pink, because he’s causing all the trouble».

Uma segunda ocasião que me pôs a pensar no quadro de El Greco foi o visionamento de uma conferência proferida pelo brilhante director da Colecção Frick, Xavier Salomon (cujos vídeos no YouTube vos recomendo vivamente). Falando deste quadro, o Dr. Salomon explicou que representava um episódio do Evangelho de Mateus. Na verdade, Jesus expulsa os vendilhões do templo em cada um dos quatro Evangelhos, mas a cena pintada por El Greco não representa o episódio de Mateus, mas sim o de João. Pois é só no Evangelho de João que Jesus expulsa os vendilhões à chicotada. A passagem de João tem um carácter individual por várias razões: uma delas é que nos dá a única ocorrência no Novo Testamento da palavra «phragéllion» (φραγέλλιον), «chicote».

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O frustrado concurso de beleza monástica | Crónica inédita (2008) | Carlos Esperança

Em 2008, um padre italiano propôs uma competição que pretendia eleger a freira mais bonita, via internet. Face às críticas, voltou atrás e suspendeu tudo.

De onde vem este ódio ao corpo feminino, a fúria misógina, o ranger de dentes, perante a forma de um corpo, as curvas do desejo e a beleza da mulher?

Paulo de Tarso, um místico desequilibrado, rotulou o cabelo e a voz das mulheres como coisas obscenas e Agostinho de Hipona entrava em desvario por não poder resistir-lhes, e ambos foram santos na infância dos milagres, quando a produção em série estava por inventar e a Igreja católica era avara na produção de taumaturgos.

Mas que obsessão é essa dos que lhes querem cobrir o corpo, seja com o hábito, alvo, de freira ou com a negrura da burca, e esconder-lhes as formas, porque temem a beleza, e as reduzem a um corpo sem feitio porque lhe adivinham a inteligência da alma?

Não, não é dessa alma que falo, da criação ontológica que alimenta um deus sedento no Olimpo de todos os medos, da metafísica dos negócios pios, do pretexto para a renúncia à vida e ao sortilégio do amor. Falo da alma com que as mulheres cantam, riem, choram e gritam, da alma com que animam a vida, da alma com que amam e procriam, da força que lhes vem dos séculos de tirania e humilhação.

Quem oprime as mulheres são doentes de desejos reprimidos, inquietos com a perda do poder, célibes que temem o amor e o escândalo, maníacos da castidade que a educação e o múnus castram e que, no êxtase de fantasias sórdidas, se entretêm a inventar castigos.

Quando homens e mulheres descobrirem que a liberdade é feminina, dar-se-ão conta de que a igualdade não é uma utopia e a discriminação dos livros pios é uma afronta que se perpetua para gáudio de homens sós e eterna perdição da felicidade humana numa vida irrepetível.

Agosto de 2008

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

A mulher e as religiões | Carlos Esperança

Que demência misógina levou os patriarcas tribais da Idade do Bronze a impor a metade da Humanidade a subalternidade que castigou a mulher durante milénios e que, ainda hoje, 72 anos depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos, persiste? Não lhes ocorreu que ninguém é livre se alguém for escravo.

O que surpreende é a condescendência com a alegada vontade divina, a manutenção dos preconceitos que impuseram a infelicidade e indizível sofrimento das mulheres, como se os algozes não fossem filhos, irmãos, pais e avós das vítimas que querem perpetuar. O mais implacável dos monoteísmos é o paradigma do despotismo e do desprezo contra quem dá aos homens a vida e o amor, e lhes garante a eternização do ignóbil privilégio.

Carlos Esperança

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

O PADRE ANTÓNIO VIEIRA E A ESCRAVATURA | por João Pedro Marques – (2018)

Seria o padre António Vieira um defensor da escravatura dos africanos? A resposta, depois do que ficou exposto, é claramente não. Aceitar ou tolerar não são sinónimos de defender ou promover.

“Cada Um é da Cor do seu Coração” (…) é uma seleção de textos representativos do pensamento do padre António Vieira sobre a escravatura. Trata-se de uma obra muito útil pois continuam a escrever-se e a dizer-se coisas incrivelmente ignorantes sobre a forma como Vieira via a escravatura dos africanos. Algumas confusas cabeças deram, até, em acusá-lo de ser um acérrimo defensor da escravidão dos negros. Terá isso algum fundamento?

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Albert Einstein | Baruch Spinoza

Quand Albert Einstein donnait une conférence dans les nombreuses universités des États-Unis, la question récurrente que lui faisaient les étudiants était :

Vous, Monsieur Einstein … Croyez-vous en Dieu ?
Ce à quoi il répondait toujours :
Je crois au Dieu de Spinoza.

Seuls ceux qui avait lu Spinoza comprenaient …
Spinoza avait passé sa vie a étudier les livres saints et la philosophie, un jour il écrivit :
Je ne sais pas si Dieu a réellement parlé mais s’il le faisait, voici ce que je crois qu’il dirait aux croyants :
Arrête de prier et de te frapper à la poitrine !

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O comentário mais antigo aos Evangelhos em latim | Frederico Lourenço

Em 2012, o latinista austríaco Lukas Dorfbauer fez uma descoberta sensacional no fundo de manuscritos da catedral de Colónia. Descobriu o mais antigo comentário aos Evangelhos em latim, que desaparecera de vista na época carolíngia. Escrito no século IV por Fortunaciano, bispo de Aquileia, este texto transporta-nos directamente para o cristianismo pré- e pós- constantiniano: «pré-» porque quando Fortunaciano nasceu, no início do século IV, o cristianismo era ainda uma religião ilegal, cujos adeptos a praticavam com risco de vida; «pós-» porque Fortunaciano teve a fortuna (quiçá plasmada no seu nome) de pertencer à geração que viveu com alegria a despenalização da fé cristã e se confrontou com a realidade surpreendente de um novo cristão no seu meio: o próprio imperador Constantino. Este supremo benfeitor da igreja (que não viu incompatibilidade entre ser cristão e mandar matar a mulher e o filho, entre muitas outras acções condenáveis à luz dos ensinamentos de Jesus) legou ao cristianismo uma tensão que até hoje não está resolvida: e essa tensão reside na permissibilidade de alguém se intitular cristão, e de ser incentivado nessa auto-percepção pela hierarquia esclesiástica (sobretudo se for rico e poderoso), sem precisar de pôr em prática quase nada do que Jesus ensinou. Penso muito em Constantino cada vez que vejo a corte de pastores evangélicos à volta de Trump e de Bolsonaro – e, para não batermos só nos evangélicos, não esqueçamos como os vários papas nunca deram a Pinochet, a Franco ou a Salazar motivo para auto-questionarem a sua identidade de bons católicos.

 

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Nietzsche e o cristianismo | in Revista Cult

Interessa ao filósofo não a verdade histórica, ou seja, o texto da verdadeira pregação do Cristo, mas a reconstituição de seu tipo psicológico.

Que possibilidades restam hoje para um diálogo entre Nietzsche e o Cristianismo? Tomemos a frase de O anticristo que, de imediato, nos lança no campo filológico das relações entre texto e interpretação: “Eu volto atrás. Conto a autêntica história do Cristianismo (des Chirstenthums). Já a palavra ‘Cristianismo’ (Christenthum) é um mal entendido – no fundo houve um único cristão, e este morreu na cruz. O ‘Evangelho’ morreu na cruz.”1.

O Cristianismo (Christenthum) é um mal entendido porque resulta de uma falsa interpretação do Evangelho, da vida de Jesus de Nazaré. “O ‘Evangelho’ morreu na cruz” – isso significa que o mal entendido consiste na fé cristã, tal como esta se apresenta no Cristianismo histórico. Desvirtua-se a Boa Nova de Jesus, considerando-a sob a óptica teológica do pecado, da culpa e do castigo; tomando-o como vítima expiatória de um sacrifício vicário.

Nietzsche estabelece uma oposição entre Christenthum (Cristianismo) e Christlichkeit e Christ-sein (respectivamente Cristianicidade e ser-cristão). O Cristianismo ‘oficial’ consiste na redução do Ser-cristão, da espiritualidade própria à Cristianicidade, a dogmas, fundamento da crença eclesiástica.

“Reduzir o Ser-cristão, a Cristianicidade a um ter-por-verdadeiro, a uma mera fenomenalidade da consciência, significa negar a Cristianidade. De fato não houve em absoluto cristãos. O ‘cristão’, aquilo que há dois milênios se chama cristão, é meramente um mal entendido psicológico.!”2?

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Voltar aos Evangelhos, dia após dia | Frederico Lourenço

Levado pela curiosidade e ajudado pela propensão poliglota com que tive a sorte de nascer, em 57 anos de vida já li muitos textos em várias línguas. Mas os quatro textos a que volto sempre são os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, que leio todos os dias em grego e também nas luminosas traduções latinas conhecidas como «Vetus Latina» e «Vulgata» (no caso dos Evangelhos, «Vulgata» designa no fundo a «Vetus Latina» retocada por Jerónimo).

Por estranho que pareça, o facto de eu ter publicado uma tradução dos Evangelhos e de eles fazerem parte do meu quotidiano não trouxe o efeito que eu previa de familiaridade, muito menos o que eu receava de banalidade. Estes textos, que conheço de trás para a frente, nunca me são familiares, porque são todos os dias uma descoberta fulminante; e, em vez de o meu estudo operar um efeito de banalização, o que acontece é que estes textos se me tornam cada vez mais especiais, mais únicos – e, ao mesmo tempo, mais enigmáticos, mais ambíguos, mais difíceis de entender.

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