BARUCH SPINOZA | BENTO DE ESPINOSA

“Acredito no Deus de Espinosa, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens. Todos podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total.

Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico”

– Albert Einstein

VIDA

Baruch de Espinosa nasceu em 24 de novembro de 1632 e foi considerado um dos grandes filósofos racionalistas (ao lado de Leibiniz e Descartes) de sua época. Primeiro filho de uma família português-judia, tinha a agradável aparência de um português de estatura mediana, cabelos e pele morena, rosto oval. Espinosa era chamado por seus pais pelo seu nome português: Bento, e é curioso imaginar que ele aprendeu suas primeiras palavras na mesma língua que nós.

Seus pais eram prósperos comerciantes, mas por serem judeus, mudaram-se para Amsterdam fugindo da inquisição. Quando Baruch de Espinosa nasceu em Amsterdam, seu pai já possuía dois filhos de outro casamento. Quando criança, Espinosa fez seus primeiros estudos na sinagoga à qual pertencia, era um aluno brilhante, estudou profundamente o Talmude e a Bíblia, além de aprender hebraico, mas o consideravam também muito questionador (um defeito na época). No entanto, o dedicado aluno precisou largar seus estudos para tomar conta dos negócios da família.

JOVEM ESPINOSA

Espinosa fala livremente com seus amigos sobre suas concepções religiosas, a ideia de um Deus antropomórfico, separado do mundo real, agindo como um déspota, parece absurda para ele; também não encontra nos textos sagrados muitas das histórias que lhes contam, nem Leis supostamente divinas. Como era de se esperar, suas opiniões não agradam aos líderes religiosos de sua época e após muitas ameaças, avisos e reprimendas, Espinosa foi acusado de ateísmo e excomungado em 1656. Trocou seu nome Hebraico por um latino: Bento de Espinosa e passou a viver sem contato com os judeus.

Começou seus estudos de filosofia, latim e grego com Van dem Endem, leu Descartes, Platão, Aristóteles, Epicuro, Cícero, Sêneca, os filósofos medievais entre outros, além de estudar matemática e outras ciências. Foi também quando começou a redação do seu Tratado de Correção do Intelecto. Neste período, Espinosa sofre o ataque de um judeu fanático que tenta esfaqueá-lo por envergonhar a comunidade judaica. Assustado, ele percebe que não é mais bem vindo em Amsterdam.

O filósofo procurou companhias com quem pudesse dividir suas ideias. Mudou-se para Rijinsburg, em Leyden, pequena e tranquila cidade, com uma boa universidade que Espinosa visitava com frequência. Neste período escreveu seu Breve Tratado e os trechos iniciais de seu principal livro: Ética. Para sustentar-se, começou a trabalhar como polidor de lentes de telescópios e microscópios; exerceu este ofício, que aprendera ainda na sinagoga, até o fim de sua vida.

ESPINOSA ADULTO

O filósofo adotou uma das máximas de Epicuro: “viver os prazeres simples“. As práticas do filósofo do jardim moldam a vida de Espinosa: recusa de riquezas e bens materiais, prazeres sem exageros, uma vida dedicada à reflexão e ao conhecimento. Estas características não são vistas como um fim em si mesmo, mas são parte das condições para elevar seu pensamento. O asceticismo, neste caso, não é usado para a mortificação e preparação para outra vida, muito pelo contrário, é um meio de maximizar os efeitos de uma filosofia e de um pensamento rico e superabundante, que trazem felicidade e contentamento nesta vida.

Espinosa vivia discretamente, mas fazia amigos por onde passava, estes vinham de longe para visitá-lo, ele sempre os entretinha com conversas agradáveis e falava sobre suas ideias. Mudou-se para Voorburg, onde continuou a trabalhar e a escrever. Sua inquietação com a ignorância do conhecimento religioso o preocupa, resolve então escrever o Tratado Teológico Políticocom o fim de mostrar as limitações do pensamento sagrado e seus meios de criar obediência e servidão. O autor publica seus livros anonimamente, tomando o cuidado de não perder sua tranquilidade para pensar e escrever.

Espinosa era tão visitado e conhecido em Voorberg que resolve mudar-se em 1670 para Haia, cidade pequena e de ar agradável onde passa o resto de sua vida. Nesta cidade, Espinosa conclui sua obra de maior importância, Ética, demonstrada à maneira dos geômetras, um livro tão potente que seu autor só permite publicá-lo postumamente. Seus amigos recebem trechos do livro e conversam com Espinosa sobre as ideias lá contidas. Após isso, retoma assuntos políticos, com a complicada situação na Holanda, onde monarquia e democracia se enfrentavam.

Espinosa foi convidado para dar aulas na Universidade de Heidelberg, mas recusou por entender que não teria a liberdade de falar livremente sobre suas ideias. Ele tinha sinceras intenções de viver livremente, gozando de sua autonomia de vida e pensamento. Contudo, apesar de enorme resistência, aceitou uma pequena pensão de J. de Witt para ajudá-lo com seus gastos. Espinosa não tinha medo da pobreza, pelo contrário, o que temia eram o esbanjamento e a fama. Sua cabeça estava em outros lugares: como viver bem? Como livrar-se do medo? Como ser livre? Qual o melhor modo dos homens associarem-se politicamente?

OS ÚLTIMOS DIAS

Espinosa sempre foi o pensador da virtude e da potência, dos afetos e da alegria, de Deus e da Razão. Levantou-se contra o racionalismo de Descartes e os mandamentos religiosos, lutou contra o despotismo dos governos e também dentro de cada um de nós. Com um pequeno grupo de amigos, fez circular suas ideias. Até o fim de sua vida morou modestamente e sempre foi honesto para com seus pensamentos.

Morreu prematuramente em 1677 com apenas 44 anos, talvez em decorrência do pó de vidro que respirava durante seu ofício. Sua Ética foi publicada postumamente e logo proibida por todas as autoridades religiosas e políticas, seu Tratado Político permaneceu inacabado. Espinosa é mais um daqueles filósofos perigosos para o status quo da sociedade, é impossível passar ileso pela potência de seus pensamentos. Sua obra reflete sua vida: pensamento e ação tornam-se um só. Espinosa nos é um filósofo essencial, com ele, aprendemos a viver o pensamento e pensar a vida.

GUIA DE LEITURA

Espinosa é um dos filósofos fundamentais do nosso site, mas também um dos que possui menos obras escritas. Nosso guia de leituras será então pensada como uma via de acesso para suas principais obras: Tratado Teológico Político, Tratado Político e, claro, a Ética.

LIVROS INTRODUTÓRIOS

Muito bem, você ouviu o nome de Espinosa em uma roda de conversa, ou talvez foi a uma palestra e ficou sabendo que o filósofo holandês fala sobre os afetos, ou você simplesmente quer saber mais sobre Espinosa para impressionar os outros. Por onde começar? Temos certeza do primeiro passo:

A maior especialista brasileira em Espinosa, quiçá do mundo, é a filósofa Marilena Chaui, que escreveu “Espinosa: uma filosofia da liberdade“. Este livro é a melhor introdução possível para adentrar nos meandros da filosofia da imanência. Marilena é uma ótima escritora e este livro é de uma clareza impressionante. Os capítulos começam com a biografia e as questões históricas, passa pelos principais conceitos do filósofo e termina com trechos de suas obras mais importantes. Não temos dúvida, é nossa melhor indicação!

Para aqueles que além de ler gostam também de ouvir, nós indicamos a palestra de Claudio Ulpiano, “Pensamento e Liberdade em Espinoza” (com Z mesmo, os autores variam na tradução), onde o filósofo fala de maneira abrangente da obra do pensador, além de trazer outras influências.

Outro livro do qual gostamos muito e indicamos para começar é “Lições Introdutórias à Ética de Espinosa“, de Marcos André Gleiser; ele é mais voltado para um livro específico, a Ética. Este livrinho é um ótimo começo porque Gleiser separa os capítulos de maneira bem didática, passando por cada assunto com muita calma e cuidado: Deus, afetos, imanência, servidão, mente/corpo, liberdade e assim por diante. É um ótimo caminho antes de se aventurar pelas difíceis passagens da Ética.

Pois bem, que tal ler o autor, sem medo de ser feliz?

O AUTOR

A grande obra de Espinosa, com certeza seu escrito mais importante, mais abrangente e potente é a “Ética – escrita à maneira dos Geômetras“. Escrita originalmente em latim, este não é um livro para iniciantes e exige um pouco de coragem e muito de paciência. Por que? Espinosa resolveu escrever seu livro como se fosse um tratado geométrico, para ter o máximo de clareza e concisão possíveis. Acontece que um livro que poderia ter mais de mil páginas ficou com aproximadamente duzentas. A linguagem é seca, árida, áspera. As páginas não são percorridas com facilidade e sentimos que estamos lutando com algo profundo. Nós gostamos da edição da Autêntica, traduzida por Tomaz Tadeu, que nos fez o favor de deixar a linguagem menos erudita, mas ainda assim… não é fácil.

A Ética não foi publicada em vida pelo autor, ela foi encontrada na gaveta da mesa de trabalho do filósofo após sua morte. Ficou guardada, pois Espinosa temia as reações das pessoas ao terem contato com suas ideias. Mas se é tão difícil assim, por que então indicar este livro? Ora, simplesmente porque é uma das obras mais incríveis jamais escritas por um ser humano! Este é com certeza um dos cinco livros mais importantes deste site. A filosofia não será sempre fácil, mas vale o esforço, já que seus frutos são os mais saborosos.

Espinosa também escreveu um livro sobre política, que infelizmente ficou incompleto, chama-se “Tratado Político” e também foi publicado postumamente. Neste livro, o filósofo holandês faz reflexões sobre o direito natural e a questão do poder sem cair no idealismo de seus contemporâneos. Também fala sobre as formas de governo: Aristocracia, Monarquia e Democracia. O filósofo era um entusiasta da democracia e a defendia como a melhor forma de governo, onde os homens podiam viver sem ser dominados uns pelos outros. Infelizmente, porém, a obra acaba antes do pensador escrever sobre a Democracia, tendo a doença interrompido esclarecimentos sobre este importante assunto.

Outro livro com nome parecido é o “Tratado Teológico Político“, que foi publicado anonimamente mas logo reconhecido como um escrito de Espinosa. O livro faz uma genealogia dos discursos teológicos e mostra que trata-se de mais uma forma de submeter o pensamento à servidão e à obediência. No livro, Espinosa se esforça para mostrar que o caminho da política não está no campo da religião, mas sim no do livre pensamento e da filosofia. É claro que não foi bem recebido por estas ideias e o livro  logo foi proibido de circular.

COMENTADORES

Após as leituras da filósofo em questão, podemos passar para os comentadores. São dois: Gilles Deleuze e Marilena Chaui.

Deleuze faz o filósofo falar línguas diferentes, inventar conceitos novos, parir um monstro. E ele está certo, a filosofia não deve ser educada e guardar-se em determinadas linhas, deve ir adiante, criar, arriscar. Sendo assim, Deleuze escreve “Espinosa e o problema da Expressão” como tese complementar do doutorado. Este livro mostra um Deleuze inspirado que faz a filosofia de Espinosa digladiar-se com Descartes e Leibniz. O resultado? Uma filosofia da Expressão, implicada com o ato de desdobrar-se em novas e potentes direções.

Outro livro de Deleuze? “Espinosa, Filosofia Prática, livrinho curto, rápido e de incrível inspiração! Deleuze nos fala um pouco sobre a imagem do filósofo, sua conduta e missão, passa pelos conceitos mais importantes de Espinosa e termina trazendo a atualidade de seu pensamento. Vale muito a leitura e releitura deste livro, pois sempre encontramos algo novo quando o abrimos.

Podemos dizer que Marilena Chaui dedicou-se com afinco para escrever uma das maiores obras já escritas sobre Espinosa: “A Nervura do Real”, em dois volumes. São mais de mil e quinhentas páginas sobre o filósofo holandês! Sim, exatamente! Mas, para não assustar os possíveis interessados, nós asseguramos que a leitura é agradável! Marilena escreve absurdamente bem e leva seus leitores como que pela mão da “Imanência” até a “Liberdade”, subtítulo dos dois volumes.

Mais alguma coisa? Ora, mas é claro! Nós não poderíamos deixar de fora o filósofo Antonio Negri, que leva o pensamento de Espinosa para a política com toda a força! Dois livros, “Anomalia Selvagem” e “Espinosa Subversivo” podem ser muito interessantes para mostrar que o pensamento de Espinosa não fica atrás dos grandes pensadores da política e também que sua filosofia é de uma potência enorme no campo da ação, ainda mais quando associado a Marx, outro pensador que muito influenciou Negri.


SÉRIE DE TEXTOS SOBRE ESPINOSA


TeoPolítica

O TRATADO TEOLÓGICO-POLÍTICO DE ESPINOSA

No intuito de promover uma política mais potente, Espinosa publicou um livro em 1670, cujo subtítulo é bem grande:

Tratado Teológico-Político, contendo um número de dissertações onde é demonstrado que a liberdade de filosofar não só pode ser concedida sem prejuízo para para a piedade e paz da República, mas que estas estão em perigo pela supressão desta liberdade”

Espinosa pretendia demonstrar que o livre pensamento é o fundamento da República e que, se retirada essa liberdade, perde-se justamente a possibilidade de uma boa política. Ele pretende fazer isso de um jeito simples, embora absurdamente ousado para a época: fazendo uma leitura crítica, histórica e filológica das Escrituras Sagradas.

O Teológico-Político foi considerado pelos contemporâneos de Espinosa o livro mais perigoso já publicado. Steven Nadler dedicou um livro a essa história chamado “Um livro forjado no Inferno”, mostrando que Espinosa foi o primeiro a argumentar que a Bíblia não possui mistérios, que ela possui várias incongruências e que, apoiados nelas os Teólogos justificam um tipo de “religião verdadeira” que não passa de estímulo à ignorância e, como se não bastasse, essa religiosidade invade a política e promove a Tirania.

Para ilustrar essa série, escolhemos as pinturas de Rembrandt, contemporâneo e conterrâneo de Espinosa

Baseados no estudo desse tratado, forjamos o conceito de TeoPolítica, que nomeia um tipo de governo de inspiração teocrática baseado na dominação e na obediência. São óbvios os motivos que nos levaram a estudar esse tema. Passados mais de três séculos continuamos enfrentando os mesmos problemas. Faz tempo que tentamos desatar os nós entre religião e política, entre fé e razão, entre teologia e filosofia; mais ainda, faz tempo que tentamos (e fracassamos) em instituir uma democracia real. Por quê?

Podemos nos orgulhar sem medo ao dizer que Espinosa foi o primeiro filósofo a realizar uma apologia da democracia, apresentando-a como a melhor forma de governo possível. Até ele, todos os filósofos mais famosos da tradição política se apoiaram em figuras aristocráticas ou monárquicas para desenvolver suas teorias. Do filósofo-rei de Platão ao Leviatã de Hobbes, não se encontra um elogio filosófico da democracia como vemos em Espinosa, nem um conceito tão interessante como o de Multidão.

Diz-se que Espinosa interrompeu a redação da Ética para escrever o Teológico-Político. Em nossa visão, são projetos parecidos realizados em campos de atuação diferentes. A Ética destrona Deus e o Homem de toda transcendência e os insere pelo conhecimento na pura imanência. O que faz esse outro livro, o Teológico-Político? Uma leitura crítica das Escrituras Sagradas a fim de recuperá-las a imanência, inseri-las na história, averiguá-las pela filologia e, ao fim dessa investigação, questionar os fundamentos teológico-políticos com que o homem vem justificando suas tirânicas ambições.


O Sábio

BEATITUDE E LIBERDADE

Nesta parte, tratarei, pois, da potência da razão, mostrando qual é o seu poder sobre os afetos e, depois, o que é a liberdade ou a beatitude da mente. Veremos, assim, o quanto o sábio é mais potente que o ignorante”

 – Espinosa, Ética V, Prefácio

Utilizamos as imagens de John Martono para ilustrar esta série

Antes de falar do Sábio, Espinosa escreveu sobre o néscio, o ignorante, dominado pela imaginação, cheio de moralismos, ideias confusas e preconceitos. O homem ignorante está muito longe de adquirir o conhecimento, a felicidade e a liberdade contidos na sabedoria. Primeiro, ele precisa encontrar medidas, relações, disposições que o conduzam a pensar de maneira correta.

Isso acontece lentamente, com as pequenas felicidades, que são como âncoras para o barco não afundar, são como estrelas pelas quais um bom observador pode encontrar suas referências. O segundo gênero de conhecimento cria o homem virtuoso, forte, preparado para enfrentar um mundo que parece mais disposto em entristecê-lo do que dar a ele segurança e alegrias.

Mas e o sábio? Onde está ele? Retirado talvez em alguma cabana isolada, longe da cidade e dos outros homens? Claro que não! Não falamos aqui do erudito, muito menos dos profetas! Procuramos pelo sábio e sabemos onde encontrá-lo e quais são as suas características.

O sábio, enquanto considerado como tal, dificilmente tem o ânimo perturbado. Em vez disso, consciente de si mesmo, de Deus e das coisas, em virtude de uma certa necessidade eterna, nunca deixa de ser, mas desfruta sempre, da verdadeira satisfação do ânimo”

– Espinosa, Ética V, prop. 42, esc

Ou seja, o sábio é constante, pois encontra coerência em si e nas coisas ao seu redor. Estas duas características somam-se a uma última: tudo é conveniente ao sábio, pois ele é capaz de encontrar e criar a conveniência. Os dados parecem sempre cair ao seu favor. O tripé da Beatitude são as características do sábio: coerência, constância e conveniência. Veremos cada uma delas.


“Acredito no Deus de Espinosa, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens. Todos podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico”

– Albert Einstein

Sabemos que Einstein foi religioso a seu modo, à maneira de Espinosa, mas muitas vezes perdemos a dimensão do que isto quer dizer. Assim como também já ouvimos a frase “Somos poeira das estrelas” de Carl Sagan, mas perdemos a profundidade e o peso destas palavras. Os físicos e filósofos podem ser pessoas extremamente apaixonadas pela existência e suas mais diferentes manifestações. Mas eles rezam? Podemos até mesmo dizer que sim, mas de um jeito diferente do que estamos acostumados.

A realidade é mágica, como diz Richard Dawkins, mas não no sentido do sobrenatural. Dizemos que a realidade tem sua magia porque ela é extraordinária, inacreditável, poderosa, majestosa, impressionante. E quanto mais aprendemos das coisas mais confirmamos esta afirmação. A realidade tem um toque de divino, e dizemos isso sem vontade alguma de cair em uma servidão, numa dependência para com estes Deuses criados à nossa imagem e semelhança.

Ora, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem, portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contudo, seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e às vezes, também, de santidade. Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Espinosa se assemelham profundamente”

– Albert Einstein

Falamos aqui do Deus de Espinosa, partimos dele para chegar em nós. Não falamos de uma entidade separada do mundo, muito menos de um ser com características parecidas com as nossas (capaz de odiar, se vingar e julgar). O Deus de Espinosa é a realidade, é a potência de criação constantemente renovada (veja aqui). Deus é o mundo; Deus e a natureza, as duas são palavras para uma única e mesma coisa. E como Deus é infinito, nada pode existir fora dele. Tudo que existe está em Deus, as estrelas, os planetas, nós, os mares, as montanhas, cada molécula, cada átomo que existe faz parte da criação divina que cria a si mesma.

Ou seja, os filósofos, os físicos, os químicos e os astrofísicos são profundamente religiosos, eles abrem o livro do mundo para entender a criação e o criador ao mesmo tempo. Porque Deus não se afasta de sua criação, ele é sua criação, criador e criatura são a mesma coisa, eis a imanência pura.


A bíblia ensina como ir para o céu, mas não como é o céu” | – Galileu


Ao olharmos por um telescópio, estamos olhando o passado de Deus; ao olhar uma estrela em seu equilíbrio delicado, transformando hidrogênio em hélio, estamos entendendo como a natureza divina se comunica com suas partes, e mesmo ao focarmos um microscópio para melhor observar as menores porções de realidade, ainda estamos olhando para Deus. Procuramos as medidas, as maneiras pelas quais Deus é, os modos pelos quais a criação de afirma.

Nós, seres limitados por natureza, exprimimos parte da potência infinita de Deus (veja aqui). Sim, somos parte desta potência que se manifesta de maneira limitada no tempo e no espaço, mas nossa essência eterna está em Deus. Vemos o mundo como contingente e imprevisível porque somos pequenos demais, mas nós sabemos e nos sentimos parte da eternidade. Isto porque nós e o universo estamos intimamente conectados, sim, nós somos feitos de Universo, ele está literalmente em nós!

A natureza é nossa casa e na natureza estamos em casa. Este mundo estranho, diversificado e assombroso que exploramos, onde o espaço se debulha, o tempo não existe e as coisas podem não estar em lugar algum, não é algo que nos afasta de nós: é somente aquilo que nossa natural curiosidade nos mostra da nossa casa. Da trama da qual somos feitos nós mesmos. Somos feitos da mesma poeira de estrelas de que são feitas as coisas, e quer quando estamos imersos na dor, quer quando rimos e a alegria resplandece, não fazemos mais do que ser aquilo que não podemos deixar de ser: uma parte do nosso mundo” | Carlo Rovelli, Sete Breves Lições de Física

Em nossa árvore genealógica está a explosão de uma estrela. Os elementos em nosso corpo são estrelas mortas; isso não é uma metáfora, é literal! Sim, todos os elementos que temos na Terra foram feitos no núcleo das estrelas e espalhados pelo universo através de explosões magníficas chamadas de supernovas.

O ciclo de vida do Cosmos acontece passando por explosões de estrelas que espalham elementos mais pesados no universo. As sementes semeadas no espaço são a fonte de nossa vida. Primeiro porque nós precisamos de seus elementos para existir; e segundo porque o hidrogênio restante forma novas estrelas que nos alimentam com sua energia.

Que grande beleza é descobrir que esta magnífica realidade não está apenas lá longe, no céu, nas galáxias, mas também à nossa volta, nós também somos parte dele. Somos feitos dos mesmos materiais que constituem o universo! Se Deus é isso, somos partes de Deus! Tudo isso, vale a pena repetir, não é metaforicamente falando, é literal! Não precisamos de Bíblias, nem Torás, nem Alcorões com histórias, lendas e alegorias. Podemos olhar para o livro do mundo. Nós somos feitos de matéria estelar, somos poeira das estrelas se alimentando de luz das estrelas. Estamos mergulhados e implicados inextrincalvelmente na existência.

Por isso Espinosa dizia que o conhecimento é o mais potente dos afetos. Saber é algo que nos traz muitas vantagens, muita potência, muita alegria! E mais, o saber que nos liga a este mundo e a esta vida nos torna profundamente religiosos, ao modo de Einstein, Sagan, Espinosa e outros. O fato mais impressionante é o conhecimento que nos liga à existência.

Estrelas entraram em colapso e explodiram, nós não passamos de estrelas mortas olhando de volta para o céu; isso significa que uma supernova continua existindo através de nós, “é preciso dar lugar a uma estrela brilhante” (Nietzsche, Assim falou Zaratustra), e quando olhamos para o céu à noite nos sentimos profundamente conectados com o todo.

Se um Deus Criador existe, Ele ou Ela, qualquer que seja o pronome adequado, vai preferir um bronco que adore sem nada entender? Ou vai preferir que Seus devotos admirem o universo verdadeiro em toda a sua complexidade? Sugiro que a ciência é, pelo menos em parte, adoração informada. Minha crença profunda é que, se existe um deus do tipo tradicional, nossa curiosidade e nossa inteligência nos são dadas por esse mesmo deus. Não estaríamos fazendo jus a esses dons se suprimíssemos nossa paixão por explorar o universo e nós mesmos”

– Carl Sagan, Variedades da Experiência Científica

Estamos no universo, somos parte do universo, mas o mais impressionante é que o universo está em nós. Este sentimento pode nos tornar profundamente religiosos. Isso nos mergulha de tal forma na existência que nos sentimos eternos! (veja aqui) Sim, somos poeira das estrelas, olhando e nos alimentando de sua energia, a eternidade do universo se afirma em nós. Os átomos que hoje constituem nosso corpo já pertenceram a outros seres vivos, e nos alimentamos deles, de sua energia acumulada. Cientistas como Einstein e Sagan fazem esta ligação entre nós e o Universo: religião, religare, “unir, atar firmemente“, “Laço entre o humano e o divino“. E faz de nossa vida, como disse Alberto Caeiro, uma oração.

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Espinosa

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