Guerra e paz | Miguel Sousa Tavares | in Jornal Expresso

Outro notável texto de Miguel Sousa Tavares  de análise da Guerra na Ucrânia publicado no Expresso 

Sim, invadiu. Vinte e quatro horas depois de ter insistido que estava ainda aberto a negociações “sérias e honestas”, Putin invadiu a Ucrânia e, pelo que se sabia até ontem à tarde, em larga escala.

Faço ideia da satisfação intelectual de tantos que passaram semanas a anunciar a invasão, às vezes parecendo mesmo desejá-la para poderem ver as suas previsões confirmadas. Não é o meu caso: sempre acreditei que Vladimir Putin não daria este passo extremo, com o qual tem muito mais a ganhar do que a perder, e que semanas e semanas de tensão a acumular-se eram pretexto e tempo suficiente para que os tão falados “esforços diplomáticos” conseguissem evitar uma guerra desta dimensão na Europa.

Porque, talvez ainda não tenham percebido bem, mas esta guerra não vai doer apenas aos ucranianos, com os seus mortos e o seu país ocupado, vai doer a todos na Europa e para além dela — e se a coisa ficar pela Ucrânia. Não tardará muito tempo até que aqui mesmo, em Portugal, o comum das pessoas se interrogue por que razão os que podiam não fizeram todos os esforços para evitar esta guerra e as suas consequências.

Em 19 de Janeiro passado, escrevi aqui isto: “Tudo o que a Rússia pede é a garantia de que nem a Ucrânia nem a Geórgia, nas suas fronteiras, vão aderir à NATO. Em troca, o que a NATO pode exigir à Rússia é a garantia de que não invadirá a Ucrânia. Custa assim tanto evitar a guerra?”

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Contra a invasão da Ucrânia | por Vital Moreira | in Blogue Causa Nostra

1. Não é admissível o silêncio sobre a invasão militar da Ucrânia pela Rússia, a maior operação bélica na Europa desde a II Guerra Mundial. Por mais previsível que fosse, não deixa de ser uma agressão, em grosseira violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, que só pode merecer condenação geral.

Só é de lamentar que a Ucrânia e a Nato tenham fornecido pretextos à Rússia para esta ofensiva, desde o abandono do estatuto de neutralidade ucraniana (que tinha sido condição explícita do reconhecimento da independência ucraniana por Moscovo), logo substituída pelo pedido de adesão à Nato (uma óbvia provocação à Rússia), até ao incumprimento do acordo de Minsk de 2015 sobre a autonomia dos territórios russófonos do leste da Ucrânia (que Kiev manteve sob constante assédio militar).

Quando se mora ao lado de um gigante ressentido, convém não lhe dar pretextos para a agressão.

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Somos Bielorussos! | Carlos de Matos Gomes

Vários países europeus iluminaram os seus monumentos e edifícios principais com as cores azul e amarelo da Ucrânia e muitos cidadãos europeus colocaram tarjetas da mesma cor nas suas fotografias com os dizeres: Somos ucranianos!

É um respeitabilíssimo reflexo de emoção e de bons sentimentos, mas é sabido quanto os sentimentos e as emoções perturbam a razão. Esta reação de entidades e de pessoas comuns é a esperada perante como resultado das ações de condicionamento de emoções que estão em curso nesta guerra, como em todas, aliás. Os nossos líderes querem que nos vejamos como ucranianos e fazem os possíveis através das imagens dos dramas pessoais que transmitem nas TVs que é reconfortante estarmos do lado do Bem. Mas a opinião que temos a nosso respeito pode não corresponder à opinião dos outros. Há quem nos veja como bielorussos. Julgo que é assim que nos vêm os dois antagonistas deste conflito, os poderes reais em Washington e em Moscovo.

Há pouco, 17 horas de domingo 27 de Fevereiro, a presidente da Comissão Europeia e o Alto Comissário para as Relações Externas da União Europeia vieram afirmar, de forma criptada, evidentemente, que a União Europeia estava para os Estados Unidos como a Bielorrússia para a Rússia: A UE era um Estado Satélite, por isso se prestavam a colocar em prática um conjunto de medidas de apoio à manobra dos Estados Unidos neste confronto com a Rússia, que é o que está a ocorrer e tendo essas duas superpotências como protagonistas.

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PIERRE LELLOUCHE | NA CNEWS – CANAL 16 TNTSAT (ASTRA) | por José Manuel Correia Pinto

Acabei de ouvir às 17 h portuguesas uma intervenção da personalidade acima citada, político francês, do Partido Republicano, que, além de ter explicado o que significa a recente decisão de Putin (alerta da força de dissuasão), deixou muito claro as estreias saídas para a crise que neste momento existem.

As saídas, segundo Lellouche, não são diferentes das inicialmente existentes, mas ainda existem. Se não forem rapidamente negociadas, o fim que nos espera será difícil de contar.

Lembrou que Paris, Londres ou Berlim estão a 5 minutos de Moscovo.

E lembrou que tudo o que está a acontecer se sabia desde 2007.

Enfim, disse o que os nossos militares têm dito. Mas tem dúvidas que os americanos percebam. Já que na compreensão deles a Europa não significa para eles, o que significa para nós.

A diferença sobre o que se passou nesta entrevista|comentário  é que os  PIVOTS  se remeteram aos “seus conhecimentos” e aprenderam o que lhes foi explicado.

O Acordo Plausível | Noam Chomsky

Hoje existem dois confrontos principais: Ucrânia e China. Em ambos casos existem acordos regionais plausíveis. Todos sabem que o acordo plausível na Ucrânia é não deixar que se junte à Organização Tratado Atlântico Norte (OTAN). A saída viável para a Ucrânia é uma neutralidade ao estilo-austríaco que funcionou muito bem ao longo da Guerra Fria.

Foi permitido à Áustria estabelecer todas as ligações que quis a Ocidente e com a União Europeia. A única restrição era que não tivesse bases militares dos EUA e forças no seu território.
A velha visão Atlantista da OTAN era que o seu propósito era manter a Alemanha em baixo, a Rússia fora e os Estados Unidos no comando.
Hoje as negociações do presidente francês, Emmanuel Macron foram agressivamente atacadas nos EUA porque iam na mesma direcção — em direcção a um acordo pacífico negociado por europeus.

Para os EUA este tem uma enorme desvantagem: põe os EUA de lado e isso não pode ser. Os EUA devem tentar bloqueá-lo e assegurar de que há uma solução atlantista que estes liderem.

Noam Chomsky

PAZ | Senhores Joe Biden e Vladimir Putin | por favor !

Imaginemos que voltamos a ver a Rússia a colocar bombas nucleares em CUBA, como em 1962. Assim, de surpresa, durante a madrugada, a pedido de Cuba, claro. Como reagiriam os USA?

Não zombar, nem lamentar-se, nem odiar, mas compreender.” BARUCH SPINOZA

HAJA BOM SENSO DE TODAS AS PARTES …. e PAZ !

O presidente Biden disse que penalidades mais severas se seguirão se Moscovo continuar sua agressão.

NÃO SERIA MELHOR NEGOCIAREM SERIAMENTE ?

O QUE VAI ACONTECER | José Manuel Correia Pinto |

Estive a ver na SIC N o que fez Ricardo Costa, director-geral da Informação da estação, a um convidado, o Major General Raul Cunha, que apenas teve oportunidade de afirmar que é preciso olhar para os dois lados do conflito. Não conseguiu dizer mais nada tendo sido positivamente massacrado com uma intervenção irada, em alta voz, cortando ao interlocutor qualquer hipótese de sequer entrar na discussão. Uma intervenção pretensamente baseada na moralidade.

Estive a ver uma intervenção do Cor. Carlos Matos Gomes na mesma estação e a tentativa de crítica esboçada por Milhazes que, independentemente da sua boçalidade e  da resposta que levou de Matos Gomes, vai exactamente no mesmo sentido da anterior.

Estive a ver, na RTP 3, a reacção que a brevíssima análise do Major General Carlos Branco mereceu ao “ciático” Carlos Gaspar, sempre tão cínico e assertivo na defesa de quanta porcaria os Estados Unidos fizeram desde o fim da II Guerra Mundial até hoje , descontrolando-o completamente até nos esgares faciais com que  acompanhou sua balbuciada fúria, pretensamente fundada nos mesmos argumentos das duas anteriores.

Estive a ver na CNN a reacção quase animalesca de Sérgio Sousa Pinto a uma proposta de análise da situação ucraniana apresentada por António Filipe, igualmente fundada na mesma pretensa moralidade das anteriores.

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DERROTA MÚTUA ASSEGURADA | Viriato Soromenho Marques

Opinião / DN

Entre a chegada de Gorbachev ao poder em Moscovo (1985) e a dissolução da URSS (1991) assistimos a um acontecimento sem paralelo na história mundial: um império colocou à frente da sua própria sobrevivência, o interesse da humanidade, evitando uma guerra nuclear generalizada que conduziria a uma “destruição mútua assegurada” (mutual assured destruction).

A liderança de Gorbachev salvou a paz no mundo, mas com um custo doloroso para a o povo russo. Na nova Rússia, do centralismo estalinista e de economia planificada, transitou-se para um centralismo autocrático e para um capitalismo brutal e oligárquico. Entre 1991 e 1994 a esperança de vida na Rússia diminuiu 5 anos…

Do lado ocidental, depois da simpatia inicial por Gorby, ganhou a tese de que a Rússia tinha perdido a guerra-fria, podendo doravante ser ignorada. Apesar das promessas de que a reunificação da Alemanha não implicaria o alargamento para leste da NATO, a verdade é que esta se efectuou em duas fases principais (1999 e 2004), integrando uma dezena de aliados do ex-Pacto de Varsóvia, e mesmo ex-repúblicas soviéticas, como foi o caso dos Estados bálticos. Como brilhantemente percebeu José Medeiros Ferreira (ver seu artigo de 20-02-2007 no DN), num “discurso histórico” numa conferência de segurança em Munique (10-02-2007), Putin interrompeu 15 anos de “hibernação” russa: os interesses e a segurança da Rússia não poderiam continuar a ser ignorados nas decisões dos EUA e aliados. Contudo, em 2008, a Geórgia e a Ucrânia foram convidadas a aderir à NATO.

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De Gaulle e a Europa | Helder Costa

A Europa do Atlântico aos Urais!

Pertenço ao imenso grupo de Europeus que estão desiludidos com a não- intervenção política  da Comunidade Europeia no actual conflito Rússia – Ukrania.

E lembrei -me de De Gaulle , general, político e estadista francês que liderou as Forças Francesas Livres durante a Segunda Guerra Mundial e presidiu ao Governo Provisório da República Francesa de 1944 a 1946, a fim de restabelecer a democracia na França.

Foi eleito presidente de França  e concedeu a independência a Argélia contra os colonos pieds-noirs e os militares franceses,  o que motivou um dos atentados de que foi  alvo em 8 de Setembro de 1961, pelo general Raoul Salan . Outros atentados foram em Paris, no ano de 1945, por atiradores furtivos alemães  e outro em 22 de Agosto de 1962, quando o seu carro foi crivado de balas. Ainda em 1963, seria desbaratado um complô na Escola Militar para o matar.

Como se percebe, os Pethainistas que apoiaram Hitler tinham muita força anti – democrática, o Nazism continuava , como já sabemos. Até aos dias de Hoje.

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Os sinos dobram em Kiev-2 | Carlos Esperança

Os sinos dobram em Kiev e ninguém apareceu no funeral de um país que comprometeu o futuro das democracias europeias e o bem-estar dos europeus. Os que lhe prometeram apoio temeram Putin e o espetro da guerra nuclear arrepiou a Europa.

A Nato, depois da extinção do pacto de Varsóvia, apesar do acordo de cavalheiros para não se expandir para os países dominados pela ex-URSS, não parou de cercar a Rússia e aumentar a zona de influência, acabando por sofrer um revés na Geórgia, com a Ossétia do Sul e a Abcásia amputadas.

Agora, com a credível suspeita da futura adesão da Ucrânia à Nato, o neonazi Putin, que se autointitulou libertador da Ucrânia neonazi, voltou a repetir aí a criação da república fantoche de Donbass depois de ter usado o mesmo expediente na Crimeia, em 2014.

O que há de novo e intolerável é a invasão da Ucrânia para tornar o próprio país em uma república fantoche, apelando aos militares para tomarem o poder que já conquistou. Não lhe faltarão apoiantes. É a sorte dos fortes contra os fracos.

Os sinos dobram em Kiev e ouve-se o choro e a raiva da impotência das democracias da Europa, cujas sanções à Rússia são também sansões contra si próprias.

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A EUROPA E AS SUAS FRONTEIRAS: DILEMAS CULTURAIS E GEOPOLÍTICOS | Ilídio do Amaral

EDITOR: ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA

“Fixai deste mundo a Europa, o sólido e imobilizado chão sobre o

qual desliza pacífica a europeia união para leste.”

Tendo em conta apenas o século XX as fronteiras de muitos países europeus, sobretudo do centro e do leste, foram desenhadas e redesenhadas várias vezes, resultando disso modificações políticas e sociais importantes. Isto ocorreu antes e depois da I.ª e da II.ª Guerra Mundial, bem como na sequência do colapso da União Soviética.

Mais modificações sobrevieram com os alargamentos sucessivos da União Europeia. Têm sido alteradas fronteiras externas, dissolvidas as internas, reemergiram velhas fronteiras, houve o estabelecimento de novas fronteiras. Um certo número de antigas regiões fronteiriças passou de fronteiras nacionais a regiões fronteiriças internas da União Europeia como um todo.

Muita gente viu-se perante mudanças que afectaram não só os quotidianos das suas vidas, mas também alteraram situações nos planos regional, nacional e europeu.

Num sentido político, os alargamentos da União Europeia mudam a natureza das relações entre Estados. Antes da adesão, eles eram tratados pela União como partes da sua política de relações externas, depois dela passaram a constituir questões internas, ainda que em muitos casos seja deficiente a política externa da União.

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O CONFLITO na UCRÂNIA – OS ERROS – O FUTURO | Miguel Mattos Chaves

AVISO: esta análise não tem “sound bites” nem “estados de alma”, nem obedece a “desejos do políticamente correcto”, pelo que poderá ser desinteressante para os espíritos que vivem da “espuma do dia” e do “sensacional”.

Comecemos então:

O Presidente de França Emannuel Macron afirmou há dias algo que me parece de elementar lucidez:

– “esta crise não é sobre a Ucrânia, mas sim sobre a NATO e sobre a segurança da Rússia”.

Tenho escrito por diversas vezes, ao longo dos anos, que alguns dirigentes de países europeus e alguns dirigentes políticos dos Estados Unidos têm cedido demasiado ao “politicamente correcto” imposto pela esquerda, quer pela comunicação social, quer pelas redes sociais.

Numa palavra, os dirigentes políticos dos países ocidentais, com muito raras excepções, não têm um pensamento estratégico, nem uma visão do médio e longo prazo em práticamente todas as matérias, neste caso, sobre o desenho da política internacional e sobre a forma de estabilização do Sistema Internacional.

Vivem apenas do dia-a-dia, vivem da “espuma dos dias”, vivem dos “sound bites”, preocupando-se apenas em como vão aparecer nas notícias do dia seguinte, nos meios de comunicação social ou nas redes sociais.

Convido-vos agora a acompanhar-me numa análise que faço sobre a questão que agora vivemos no leste da Europa.

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Duanne Ribeiro e a experiência da perda | por Adelto Gonçalves

                                                                                           

                                                 I

       O jornalista Duanne Ribeiro (1987), mestre e doutorando em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo (USP), surpreende a crítica e o público-leitor com o seu primeiro trabalho de ficção mais alentado, o romance As Esferas do Dragão (São Paulo, Editora Patuá, 2019), em que procura, a partir de experiências pessoais, especialmente ligadas à infância e adolescência, construir um texto que foge aos padrões tradicionais, pois permeado de referências à cultura pop e aos desenhos animados, especialmente o Dragon Ball, criado pelo desenhista japonês Akira Toriyama (1955), que, exibido no Brasil pelas redes SBT, Band e Globo, tornou-se um marco na programação infantojuvenil na década de 1990. 

            Se o romance de Duanne Ribeiro constitui uma releitura do desenho Dragon Ball, a produção do mangaká Toriyama, criador de mangás (quadrinhos japoneses), por sua vez, é inspirada em Jornada para o Oeste, um dos quatro clássicos da literatura chinesa, escrito no século XVI pelo romancista Wu Cheng’em (c.1500-c.1582), durante a dinastia Ming, que combina ação, humor e lições espirituais. Esse conto de aventuras ocorre no século VII e conta a história de um dos discípulos de Buda Sakyamuni que teria sido banido do paraíso celestial pelo crime de danificar a Lei do Buda e enviado ao mundo e forçado a passar dez vidas para expiar seus pecados.

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VIAGEM AO PASSADO POR CAUSA DO PRESENTE | por José Pacheco Pereira in Jornal Público | 22/12/2012 (nós, humanidade, não temos vergonha – vcs)

Hoje tudo é muito diferente em relação ao passado, mas também muita coisa é demasiadamente igual.

No final do século XIX, princípio do século XX, o incipiente operariado português concentrava-se em poucas fábricas dignas desse nome no Norte do país, em particular no Porto, e numa multidão de pequenas oficinas em Lisboa e Setúbal e nas principais cidades do país. Eram operários e operárias, tabaqueiros, têxteis, soldadores, conserveiros, corticeiros, mineiros, padeiros, alfaiates, costureiras, cinzeladores, cortadores de carnes verdes, carpinteiros, fragateiros, estivadores, carregadores, carrejonas no Porto, carvoeiros, costureiras, douradores, etc., etc. Havia uma multidão de criados e criadas, criadas “de servir”, e muito trabalho infantil em todas as profissões, em particular nas mercearias, onde os marçanos viviam uma infância muitas vezes brutal, dormindo na loja e carregando com cargas muito pesadas. Falei em operariado, mas na verdade, muito poucos correspondem ao conceito, porque se trata mais de artífices, trabalhadores indiscriminados, e em muitos casos com profissões hierarquizadas em que os aprendizes eram sujeitos a todos os abusos. Havia depois uma aristocracia operária, essencialmente entre os que faziam tarefas qualificadas e mais bem pagas, como era o caso dos tipógrafos, que sabiam ler e por isso tinham um mundo social diferente. Antero de Quental foi tipógrafo de passagem.

Deixo o campo de lado, em que a maioria dos portugueses ainda vivia, onde havia igualmente um território obscuro e pouco conhecido que despertou com a I República, os trabalhadores rurais alentejanos. Estes viviam uma vida violenta e esquecida no meio do deserto alentejano. Nos meios rurais vários grupos de trabalhadores vegetavam na mais negra miséria e vendiam o seu trabalho sazonalmente, nas vinhas do Douro, nos campos do Alentejo e Ribatejo como maltezes e ratinhos. O que de mau se pode dizer das cidades, pode-se dizer pior do campo ou das vilas piscatórias do litoral e mineiras do interior.

A economia do mundo operário centrava-se no salário muito escasso, na renda de casa, numa vila operária ou numa “ilha” se fosse no Norte do país, onde se amontoavam em condições higiénicas e sanitárias inimagináveis. A epidemia de cólera no Porto, e a habitual ocorrência de tifo, demoraram muito anos a lembrar os governantes do problema de insalubridade da “habitação operária” e deram origem aos bairros sociais no salazarismo.

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A Final Four na Ucrânia – A Europa apanha bolas | por Carlos de Matos Gomes

A Final Four na Ucrânia – A Europa apanha bolas

Hoje o pensamento é um subproduto do futebol. O futebolês passou a linguagem filosófica. Aderindo então aos ventos do momento: 

A “final four” é um torneio em que quatro equipas disputam uma classificação. Uma versão da final four apura os três primeiros e o quarto desce de divisão. O que se está a passar com a crise da Ucrânia é uma final four em que os dirigentes da União Europeia já decidiram que ficam em quarto lugar e deixam de participar nos jogos ao mais alto nível nas próximas temporadas

O que está em jogo na Ucrânia é decisivo para a União Europeia. Escrever e debater o papel da União Europeia neste confronto entre a Rússia e os Estados Unidos, tendo a China a observar, é decisivo em dois pontos: o político e económico (que papel para a União Europeia no Mundo?); e, principalmente, quanto à questão melindrosa e por isso raramente aflorada do conflito de civilizações.

Dirão alguns que se fala demais da Ucrânia, que a questão é da maldade intrínseca de Putin – e saem insultos, que são a negação do pensamento e a revelação da falta de argumentos: czar, filho de Estaline, soviético, facínora – e resmas de folhas de História para garantir que os russos veem aí, filhos dos comunistas sanguinários.

Na realidade:

A primeira questão que a Ucrânia coloca à UE é que o conflito assenta numa luta entre potências Estados Unidos e Rússia, com 3 vetores por parte dos EUA: (1) manutenção do dólar como moeda de troca internacional (a UE é o maior parceiro da Rússia e o segundo dos Estados Unidos); (2) o domínio militar em terra, no mar e no espaço (a Europa não tem poderio militar significativo em nenhum destes espaços); (3) por fim a questão energética (em particular o gás, de que a Rússia é um grande produtor e o coloca na Europa a 1/3 do preço do gás americano).

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Os três tipos de “obcecados” por Putin | por Rodrigo Sousa e Castro

Ontem ouvi o general Arnaud na RTP1 a considerar Putin um mestre de estratégia e a explicar porquê. Existem portanto três tipos de “obcecados” por Putin e pela sua conduta politico- militar-diplomática e que passo a caracterizar;

1 – Os que admiram genuinamente Putin, gente radical de direita e extrema direita/esquerda para quem os sistemas autocráticos capitalistas são a solução para calar o Povo , espezinhar as Liberdades, como Bolsonaro, Trump, Orban , o chinoca  o coreano, ;

2 – Os que desejariam que a Rússia fosse governada por um pusilânime como O Gorbachev ou por um bêbado como Yeltsin, que abrisse as pernas ao capitalismo predador ocidental, para que se apossasse das imensas riquezas russas o que teria acontecido sem o Putin ou um seu equivalente;

3 – Os que tal como os generais portugueses p.ex. o citado e o gen. Carlos Branco p. ex. procuram serenamente as causas, as motivações e as intenções do politico e não avacalham a discussão com sectarismos ideológicos que nada acrescentam à compreensão da crise. Procuro situar-me aqui;

4 – E por ultimo a legião de ignorantes, com uma amostra significativa nas redes sociais, que vêm a disputa de Poder à escala Global, Regional ou Local, com o sectarismo clubista e que disparam às cegas da bancada onde acriticamente se sentam.

Retirado do Facebook | Mural de Rodrigo Sousa Castro

O Paradoxo da Escolha do PSD — e o neoliberalismo | por Carlos de Matos Gomes

O PSD vive hoje o paradoxo da escolha que já atingiu mortalmente o CDS: Ser neoliberal ou ser social.

O neoliberalismo é fruto dos anos 70, e a sua versão prática foi estabelecida para contestar o modelo do Estado de bem-estar social do pós Segunda Guerra. Uma das primeiras experiências neoliberais foi levada a cabo no Chile. O ditador chileno Augusto Pinochet entrou em contacto com professores da Escola de Chicago (Milton Friedman, p.ex), que recomendaram medidas pró-liberalização do mercado e diminuição do Estado. Entre medidas constavam a drástica redução da despesa pública, demissão em massa de funcionários, e a privatização de empresas estatais. As eleições de Margareth Thatcher no Reino Unido e de Ronald Reagan nos Estados Unidos no início dos anos 1980 foram indicativos desse fenómeno de instauração da lei da selva económica e social, darwinismo social, chamaram-lhe, vencem os mais fortes e ai dos vencidos, a pobreza é fruto da preguiça ou da ausência de espirito lutador, não há sociedade, apenas clientes e consumidores.

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Silvya Gallanni | três mundos em haicais | por Adelto Gonçalves

                                                 I

          O haicai, modalidade de poesia de origem japonesa, sobrevive hoje no Brasil com várias vertentes: a tradicionalista, a de inspiração zen, a filiada ao poeta paulista Guilherme de Almeida (1890-1969), importante organizador da Semana de Arte Moderna de 1922, a epigramática e a de matriz concretista, conforme classificação feita pelo crítico literário e também poeta Paulo Franchetti, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e professor aposentado do Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que consta do artigo “O haicai no Brasil” publicado na revista Alea: Estudos Neolatinos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), v. 10, nº 2, julho-dezembro de 2008, pp. 256-269.

            Segundo o professor, “o que parece novo é o sincretismo que se opera entre elas (com exceção da vertente guilhermina, que pouco dialoga com as demais), ganhando mais peso a incorporação dos princípios e práticas do haicai tradicional, entendido antes como atividade, como aprendizado de uma determinada forma de olhar para o mundo e utilizar a linguagem, do que como técnica de composição ou forma fixa exótica”. É na vertente de matriz concretista, visual, vanguardista e não-formal e, portanto, destituída de estrutura poética de metrificação e versificação, que se pode classificar a poesia que se lê em HaiKai: Fragrâncias Poéticas (Lisboa, VuJonga Magazine, 2019), de Silvya Gallanni, brasileira radicada em Portugal desde 2010, que reúne peças produzidas entre 2009 e 2016 e algumas publicadas anteriormente no site Recanto das Letras, de São Paulo-SP.

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25 de Abril: uma revolução em ambiente de soberania limitada | Carlos de Matos Gomes

Todos os Estados, até mesmo os impérios, têm uma soberania limitada pela dos seus competidores. Contudo, a limitação da soberania do Estado Português tem características próprias, devido, por um lado, à sua pequena dimensão (um território de 89 mil km2), à diminuta população e à escassez de recursos e, por outro, a uma situação geográfica na fachada atlântica da Península Ibérica e da Europa continental, logo, possuidor de uma localização estrategicamente importante para as grandes potências europeias, como ligação do Atlântico Norte ao Mediterrâneo e à costa africana. Este quadro foi praticamente constante ao longo da história.

O Estado Português, dados os condicionalismos, foi desde a fundação o que podemos designar como um estado vassalo da potência marítima, a Inglaterra, e todos os momentos chave da sua história foram determinados por ela, desde logo a independência contra outros estados ibéricos e contra a tentativa de unificação peninsular. Os cruzados ingleses estiveram com Afonso Henriques na fundação do Reino, serão tropas inglesas que decidirão Aljubarrota, e será a uma inglesa, Filipa de Lencastre, que se deve a estratégia expansionista da ínclita geração. Será ainda a Inglaterra que viabilizará a restauração da soberania no processo iniciado em 1640 e que assegurará a independência na Guerra Peninsular, com Wellington a defender Portugal das tropas invasoras de Napoleão. Também serão os ingleses que introduzirão o liberalismo e a modernidade europeia em Portugal, que, a partir de 1822, conduzirão o processo de independência do Brasil e, que, na Conferência de Berlim, atribuirão as colónias a Portugal, complementares das suas. O colonialismo português começa pela mão dos ingleses. A instauração da República deve-se, em parte e ironicamente, aos ingleses, que tinham desencadeado fervores patrióticos com o Ultimato.

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Cartas a Spinoza | por Nise da Silveira, Francisco Alves | in Revista Caliban

As sete cartas escritas em 1989 compõem o livro Cartas a Spinoza, Nise da Silveira, Francisco Alves, 1995.

Pintura de Eduardo Ruiz, Dra. Nise da Silveira

Cada Leitor, um Spinoza

  • CARTA I

Meu caro Spinoza,

Você é mesmo singular. Através dos séculos continua despertando admirações fervorosas, oposições, leituras diferentes de seus livros, não só no mundo dos filósofos, mas, curiosamente, atraindo pensadores das mais diversas áreas do saber, até despretensiosos leitores que insistem, embora sem formação filosófica (e este é o meu caso), no difícil e fascinante estudo da filosofia.

Mais surpreendente ainda é que, à atração intelectual, muitas vezes venham juntar-se sentimentos profundos de afeição. Assim, Einstein refere-se a você como se, entre ambos, houvesse “familiaridade cotidiana”. Dedica-lhe poemas. O poema para A Ética de Spinoza [1] transborda de afeto: “Como eu amo este homem nobre / mais do que posso dizer por palavras”.

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A questão da Ucrânia | Carlos Matos Gomes

A questão da Ucrânia tornou-se uma farsa com farsantes rascas, que dá vontade de ir utilizando como divertimento.  O homem mais poderoso do mundo, o presidente dos Estados Unidos, o honorável Joe Biden, afirmou publicamente, que o ataque Russo iria ocorrer dia 16 de Fevereiro. Não aconteceu. Agora informa que “ Está convencido que o ataque à Ucrânia ocorrerá nos próximos dias”. Lê-se e não se acredita! O Presidente da super potência dominante que os Estados Unidos são, ou sabe e não diz, ou diz que não sabe: não está convencido de… . Quem pode estar convencido de… são os Marques Mendes, os opinadores de televisão. O chefe quando diz sim, podemos estar seguros que é sim.  E não é apenas mais um tarálogo.

Os  americanos já descobriram armas de destruição maciça no Iraque há 20 anos. Descobriram o Bin Laden sabe-se lá onde, o Saddam num buraco, o Kahdafi num esgoto,  e até descobriram os planos de um jovem de 18 anos no bairro dos Olivais, que ia realizar um massacre numa sexta feira de manhã no Campo Grande, em Lisboa e não conseguem descobrir o dia do ataque das divisões blindadas russas, com apoio de artilharia, de aviação, com a inundação do espetro eletromagnético para comunicações?

Em 1964 – há quase 60 anos, foi estreado o filme Dr Strange Love – How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (como deixei de me aborrecer e me apaixonei por uma bomba), com Peter Sellers a representar o General Ripper, que fica maluco e prepara um plano para iniciar a Guerra Nuclear. As mais altas autoridades dos Estados Unidos e da União Soviética tentam deter um avião-bombardeiro cuja tripulação recebera ordens de lançar uma bomba nuclear na Rússia. Quase 60 anos passados temos um Presidente dos Estados Unidos que em vez de evitar a ação do general doido, quer mesmo lançar as bombas. O doutor Strangelove, apaixonado por bombas, está aos comandos dos Estados Unidos, com o apoio dos dirigentes europeus! Um progresso!

Aliás o Biden ainda dá uns ares do pantera cor-de rosa, ou ao doutor Strangelove.

Retirado do Facebook | Mural de  Carlos Matos Gomes

Vladimir Putin: “Deberían haber tratado a Rusia como un aliado. Ha sido al revés”

“O sucesso da minha carreira permite-me ponderar ser candidato à liderança do PSD” | Ribau Esteves

Reeleito presidente da Câmara de Aveiro para um terceiro mandato, Ribau Esteves defende que o PSD deve “puxar pela sua costela popular” e assume que o partido deve estar disponível para fazer reformas com o PS. | Sofia Rodrigues e Manuela Pires( Rádio Renascença)

17 de Fevereiro de 2022

https://www.publico.pt/2022/02/17/politica/entrevista/sucesso-carreira-permiteme-ponderar-candidato-lideranca-1995761

Um livro por amor a Clarice Lispector | Hugo  Almeida | por Adelto Gonçalves

                                                 I

Se os grandes romancistas ou contistas projetam nova luz sobre os predecessores que lhes apontaram os caminhos e foram nada mais que ávidos leitores, então, a fronteira entre o vivido e o lido, praticamente, não existe e, portanto, procurá-la seria vã tarefa, como afirma o hispanista norte-americano Stephen Gilman (1917-1986) em Galdós and the Art of the European Novel: 1867-1887 (Princeton, 1981). Mais: que leitor, por mais desmemoriado que seja, não constatou nas páginas de uma novela gestos e palavras de outras?  

Afinal, como observou a filósofa e crítica literária búlgara-francesa Julia Kristeva (1941) no ensaio “Le mot, le dialogue et le roman”, escrito em 1966, “todo texto é construído como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto. E no lugar da noção de intersubjetividade o que se instala é a intertextualidade, e a linguagem poética é lida, ao menos, como dupla”. Nesse caso, o texto passa a ser um “diálogo de várias escrituras”, como define Julia Kristeva.

Estas observações foram extraídas de Entre lo Uno y lo Diverso (introducción a la Literatura Comparada – ayer y hoy (Barcelona, Tusquets Editores, 2005), do acadêmico e escritor espanhol Claudio Guillén (1924-2007), e vêm aqui a propósito de Feliz aniversário, Clarice: contos inspirados em Laços de família (Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2020), organizado pelo jornalista e escritor Hugo Almeida e que reúne 27 contos escritos por autores tanto novatos como experientes a partir da leitura de um dos contos que integram o livro Laços de família, de Clarice Lispector (1920-1977), publicado em 1960.

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Porquê a guerra? | João Fraga Oliveira

Isso acontece desde que temos consciência do mundo e sociedade em que vivemos mas o que é certo é que as circunstâncias actuais tornam mais relevante esta pergunta que foi mote de correspondência entre Einstein e Freud, dois convictos, activos e eminentes pacifistas.

“Existe alguma forma de livrar a Humanidade da ameaça de guerra?”.

É assim que Einstein, de Potsdam, na Alemanha, numa carta de 30/07/1932, interpela Freud.

Reconhecendo que “o objectivo habitual do seu pensamento” (a Física) “não lhe permite uma compreensão interna das obscuras regiões da vontade e do sentimento humano”, propõe a Freud a “elucidação do problema, mediante o auxílio do seu profundo conhecimento da vida instintiva do Homem”.

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A China é um exemplo da americanização da desigualdade | Francisco Louçã | in no Expresso

Já todos foram felizes em Davos. Era uma parada de estrelas, estadistas, empresários, influencers, tecnólogos, ocasionalmente alguns produtores de blockbusters, toda a cultura do pop-capitalismo contemporâneo se juntava uma vez por ano na elegante estância suíça para dar os seus sinais ao mercado ansioso. No ano passado, a pandemia arrasou a festa e transferiu-a para o mundo virtual, o que faz perder o glamour das flutes de champagne e dos encontros de negócios. Apesar dessa tragédia, houve pelo menos um dos frequentadores, Marc Benioff, um bilionário que fundou a Salesforce, uma empresa de software, que então conseguiu resumir a autocongratulação dos vencedores da crise: “temos de o dizer, os CEOs foram definitivamente os heróis de 2020”. Talvez essa saga explique como se vão definindo algumas das mudanças surpreendentes do nosso mundo.

Os heróis da crise

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“Não encontrei Deus no universo, mas Einstein sim, na perfeição e na beleza de suas leis” | Eduardo Battaner López in Los Físicos y Dios | in El País

O astrofísico espanhol Eduardo Battaner analisa num livro a relação dos físicos com as crenças religiosas ao longo da história.

Eduardo Battaner López (Burgos, 1945) não tem procurado Deus na física, mas físicos que o fizeram ao longo da história e aqueles que negaram sua existência —algo que, como dizia Paul Dirac, é um dos problemas fundamentais desta ciência. Battaner, astrofísico formado na Espanha e no prestigioso Instituto Max Planck da Alemanha, é professor emérito da Universidade de Granada e publicou Los Físicos y Dios (sem edição em português), que analisa a relação desses buscadores de respostas ao longo da história.

Pergunta. Por que Los Físicos y Dios?

Resposta. Os grandes pesquisadores têm trabalhado nesse horizonte que divide o conhecido e o desconhecido. Portanto, têm o privilégio de observar a natureza como isso nunca antes havia sido feito. Sua interpretação da natureza tem implicações na filosofia e na teologia. Por isso, muita gente quer saber qual era o pensamento religioso dos grandes cientistas e, portanto, dos grandes físicos. Mas é preciso dizer que neste livro não há nenhuma intenção de propaganda doutrinária. Não se defende nenhuma posição religiosa concreta. Nem se defende o teísmo ou o ateísmo. Fala-se da atitude dos físicos diante da ideia de Deus com base em suas próprias palavras. Este livro tem apenas um enfoque histórico.

P. Por que essa preocupação entre os físicos?

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O Fim da Civilização | Gustave Flaubert, in ‘Memória de um Louco’

Quando se extinguirá esta sociedade corrompida por todas as devassidões, devassidões de espírito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hipócrita a que se chama civilização, haverá sem dúvida alegria sobre a terra; abandonar-se-á o manto real, o ceptro, os diamantes, o palácio em ruínas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da égua e da loba.

Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.

Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensidão deve acabar por cansar-se desse grão de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de mãos e de corromper, o outro esgotar-se-á; este vapor de sangue abrandará, o palácio desmoronar-se-á sob o peso das riquezas que oculta, a orgia cessará e nós despertaremos.

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As Mulheres São Mais Fortes | José Saramago

Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação?

José Saramago, in ‘L’Orient le Jour (2007)’

Retirado do Facebook | Mural de Julio Machado Vaz

A teologia de Jesus | por JOSÉ BRISSOS-LINO in Revista Visão 16.02.22 | sobre texto de Viriato Soromenho Marques

Se um dia boa parte dos teólogos e das igrejas cristãs tiverem a coragem de se centrar efectivamente no discurso e obra do Mestre de Nazaré, deixando de lado o corpo das respectivas tradições, terão um choque ao verificar quão distantes se encontram daquilo a que podemos chamar a teologia de Jesus.

Grande parte das atuais controvérsias no campo religioso cristão, mas também das tensões entre este e o mundo secular relacionam-se com aquilo que S. Paulo denomina “preceitos e doutrinas de homens”: “As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens. As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:22,23). Com efeito, o que os textos neotestamentários nos fornecem relativamente tanto à palavra como à ação do Cristo dos evangelhos, parece ir em contramão com a pregação, os preceitos e a praxis do cristianismo como o conhecemos, nas suas diferentes versões.

Em obra recentemente publicada (“A Teologia de Jesus: Tudo o que o Mestre falou”, Lisboa: Ed. Univ. Lusófonas, 2021) e que Viriato Soromenho Marques me deu a honra de prefaciar, procurei abordar a questão, com apoio de um esforçado colaborador nesta investigação (Vitor Rafael).

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VÊM AÍ OS RUSSOS | Paulo Sande

São tantas e tão variegadas as opiniões sobre o iminente ataque da Rússia à Ucrânia, que confesso a minha dificuldade em contribuir. Mas estou desde o início céptico sobre a possibilidade de um ataque – e suspeito que a sua iminência não passa de um mero recurso de intimação no âmbito de um processo negocial que é a um tempo político, diplomático, estratégico e económico. No fundo, é mais uma questão de eminência do que de iminência.

Permitam-me uma breve e limitada análise.

A GEOPOLÍTICA E A UCRÂNIA

O país onde a civilização russa (“Rus”) nasceu é hoje um nó geopolítico sobre o qual giram os interesses opostos de dois pólos de poder mundial – os EUA e aliados, a Rússia e aliados. De facto, a Ucrânia é um corredor entre a Europa ocidental e a Ásia, através do qual a Rússia faz passar uma parte importante da energia que exporta.

Apesar das muitas narrativas divergentes, trata-se de um Estado frágil, com problemas demográficos crescentes, cuja população se divide entre russófonos, a sul e leste, e ucranófonos, a norte, sem que haja uma correspondência perfeita entre russófonos e russófilos e entre ucranófonos e russófobos. Mas a tendência é essa, o que permitiu a fácil e quase não contestada internamente anexação da Crimeia.

A divisão tem mais a ver com o idioma usado, do que com a pertença étnica, que é a mesma.

E foi este o país que, ao anunciar a disponibilidade para considerar a adesão à NATO, despoletou a presente crise, como o anúncio da celebração de um acordo comercial aprofundado com a União Europeia em 2014 levou à invasão da Crimeia.

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Eleições legislativas 2022 e as perdas da Esquerda

PS: 119 (+11); PSD 78 (-1); CH: 12 (+11); IL 8 (+7): CDU: 6 (-6) BE: 5 (-14); PAN: 1 (-3) ; L: 1

Os 11 deputados conquistados pelo PS, tendo o Livre recuperado o seu deputado, foram insuficientes para segurar na área da esquerda os 20 deputados que esta perdeu (BE-14 + CDU-6). Há agora mais 9 deputados na direita, com a agravante de o partido fascista ter mais 11 e os neoliberais mais 7, e ambos tinham 1 único deputado.

Resumindo, a esquerda perdeu para a direita 9 deputados e a direita democrática, depois dos deputados ganhos à esquerda e das trocas internas, perdeu mais 9 deputados (PSD – 1; CDS – 5; PAN – 3), para o partido neoliberal extremista e o fascista, que adicionaram ainda os 9 que a esquerda perdeu.

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Albert Einstein | “Acredito no Deus de Spinoza”

Acredito no Deus de Spinoza, que se revela num mundo regrado e harmonioso, não em um Deus que se preocupa com o destino e os afazeres da humanidade”.

“Não posso imaginar um Deus pessoal que influencia diretamente a ação das pessoas… Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração do Espírito Infinitamente Superior que se revela no pouco que compreendemos de nosso próprio mundo. A profunda convicção na presença de um Poder Superior, que aparece no universo incompreensível, forma minha ideia de Deus”

Pourquoi la crise ukrainienne est la faute de l’Occident | Par John J. Mearsheimer | in Arrêt sur Info

Arrêt sur info — 14 février 2022

Aujourd’hui, comme en 2014, les Occidentaux présentent le président Poutine comme le coupable. John J. Mearsheimer, l’auteur de ce texte remarquable, rédigé en 2014, fait porter aux Etats-Unis et à l’UE  la responsabilité de la crise ukrainienne. La racine du mal étant l’élargissement de l’OTAN. La Russie s’est opposée depuis les années 90 à cette stratégie visant à transformer l’Ukraine en un bastion de l’Occident à la frontière russe. Le coup d’Etat de 2014 a été la goutte de trop. Face au grave danger que représente cette nouvelle crise, les Etats-Unis et leurs alliés devraient répondre aux garanties mutuelles de sécurité que la Russie leur réclame depuis plus 20 ans, notamment en stoppant l’expansion de l’OTAN. [ASI]

Sous Barack Obama, Victoria Nuland a été porte-parole du département d’État avant d’assumer le rôle de secrétaire d’État adjoint pour les affaires européennes et eurasiennes. C’est dans ce rôle que Nuland a aidé à orchestrer le renversement d’un président démocratiquement élu de l’Ukraine, Viktor Ianoukovitch, en février 2014, qui a conduit à une guerre civile dans laquelle plus de 13’000 personnes sont mortes(*).

  • Les illusions libérales qui ont provoqué Poutine
  • Paru en septembre/octobre 2014 sur Foreign Affairs, sous le titre Why the Ukraine Crisis Is the West’s Fault

Selon la doxa dominante en Occident, la crise ukrainienne peut être attribuée presque entièrement à l’agression russe. Le président russe Vladimir Poutine, selon cet argument, a annexé la Crimée en raison d’un désir de longue date de ressusciter l’empire soviétique, et il pourrait éventuellement s’en prendre au reste de l’Ukraine, ainsi qu’à d’autres pays d’Europe orientale. Selon ce point de vue, l’éviction du président ukrainien Viktor Ianoukovitch en février 2014 n’a servi que de prétexte à la décision de Poutine d’ordonner aux forces russes de s’emparer d’une partie de l’Ukraine.

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“The Lady of Shalott” | Bronze Sculpture Benjamin Matthew Victor, 1979

American sculptor living and working in Boise, Idaho. “A gift from God” is how Benjamin Victor describes his ability to create spectacular works of art. He is the only living artist to have three works in the National Statuary Hall in the United States Capitol.

A HISTORIOGRAFIA DA DENÚNCIA E DO ÓDIO DO PRESENTE PARA COM O PASSADO | Arthur Virmond de Lacerda

Atualmente, a historiografia denunciadora e culpadora, muito em voga, enfatiza mortandades, genocídios, epidemias entre silvícolas. Culpam-se os brancos, os europeus em geral, os portugueses, por violências passadas.

É a história dos oprimidos, dos vencidos, dos excluídos, que é bem que se conte e tenha espaço: também é história e informação.

Mas é má a obsessão dos denunciadores em aterem-se a aspectos que nos são odientos no passado, como se ele se reduzisse a violências, atrocidades, genocídios, epidemias, com ocultação (ah, como eles gostam deste substantivo !) da contribuição das gerações pretéritas para com o desenvolvimento das sociedades que resultou no ponto  de civilização em que estamos.

Suspeito até de que os denunciadores dos brancos arvorem-se em senhores da moral e exalcem-se, por iniciativa própria, à posição de superioridade porque denunciam e acusam e odeiam e fomentam “merecido” ódio dos coevos pelos primevos. Na verdade, praticam outra espécie de violência, a de julgar gerações pretéritas pelos padrões que não eram os seus e sim são os nossos, no que praticam anacronismo presentista.

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As dimensões racista, xenófoba, misógina ou globalmente autocráticas | João Mendes

Há quem não compreenda as dimensões racista, xenófoba, misógina ou globalmente autocrática – to name a few – do Chega. Pior: há quem as compreenda, compreendendo também as consequências que daí resultam, mas opta por desvalorizar e normalizar, por ódio à esquerda, por simpatia envergonhada pelo Chega ou por comungar do mesmo ideário. Ou por todos estes motivos. E mais alguns.

Daqui salta-se quase sempre para a vitimização. E uma das modalidades de vitimização mais comuns é esta: então e a extrema-esquerda? Quando me deparo com esta sobrevorização do papel de micropartidos como o MRPP ou o MAS, fico sempre perplexo. Bem sei que o MRPP defende a morte dos traidores, mas será que alguém os leva a sério? Têm relevância política? Recebem financiamento significativo que possa transformar estes partidos numa ameaça real? Não, não e não. Três vezes não.

Depois percebo que estão a falar do BE e o PCP. E pergunto-me, como pergunto a essas pessoas, quando me cruzo com elas, que ameaça representam estes dois partidos. Raramente obtenho uma resposta clara e objectiva. Só frases feitas e clichés. Aparentemente, o BE quer impor uma ditadura em que todos temos que ser gays. E quer sair da Europa. E do Euro. Raios, isto é uma grande ameaça! Imagino-os logo na rua, de cabeça rapada, a espancar transeuntes pelo seu europeismo. Fico até com algum medo, na medida em que sou acérrimo defensor da UE, e a seguir posso ser eu.

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Emoceano | Beth Soares

Na noite passada, tive um sonho desses bem vívidos, difíceis de esquecer. Eu estava num lugar diferente do que vivo hoje, numa espécie de aldeia, para a qual eu havia acabado de me mudar. Era meu primeiro dia naquela casa, e eu tirava minhas coisas de caixas, quando a paisagem roubou minha atenção. Da janela, eu podia ver um castelo belíssimo, com uma cúpula arredondada. Eu sabia que estava perto do mar e, de repente, conseguia sentir a maresia e ouvir o som das ondas, que começaram a parecer cada vez mais fortes. Enquanto eu admirava o castelo, que agora parecia estar ao alcance das minhas mãos, comecei a ver as ondas arrebentando em suas muralhas. Pensei estar presenciando uma ressaca, algo que me é tão familiar na Ponta da Praia, em Santos.

Em poucos segundos, o mar avançou. As ondas ficavam cada vez maiores, mais fortes, até que uma delas cobriu o castelo. Eu sentia que a próxima seria ainda maior. Vi quando ela, gigante, começou a se formar e cobrir o sol. Eu me afastei um pouco da janela e, embora fosse um cenário cataclísmico, não senti um medo paralisante.

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POEMA 128 DO LIVRO INÉDITO “NA FLORESTA DO MÍNIMO” | Casimiro de Brito

Amo as mulheres: são belas

e sangram. Foram feridas por deuses

que já não existem. Sim,

elas descendem dos deuses cantados por Hesíodo!

Sal, espuma, resinas! E por igual

as amo

quando já não sangram: porque têm

do sangue

a suave memória. E então a sua ferida

é mais doce ainda: mel, perfumes,

especiarias!

Steve Hanks (1949 – 2015, American)

Steve Hanks (1949 – 2015, American) Finest hyper-realistic watercolor, figurative painter, recognized as one of the best watercolor artists. The detail, color and realism of Steve Hanks’ paintings are unsee of in this difficult medium. A softly worn patterned quilt, the play of light on the thin veil of surf on sand, or the delicate expression of a child – Steve Hanks captures these patterns of life better than anyone.

How trees secretly talk to each other BBC News | in Pensar Contemporâneo

Trees talk and share resources right under our feet, using a fungal network nicknamed the Wood Wide Web. Some plants use the system to support their offspring, while others hijack it to sabotage their rivals.

Árvores conversam entre si, detectam perigos ao redor e ajudam as plantas mais velhas a se alimentar.

Imagine uma superestrada da informação que acelera as interações entre uma população grande e diversificada de indivíduos, permitindo que indivíduos que possam estar amplamente separados se comuniquem e se ajudem.

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Borges, Cristina e a poesia cotidiana Beth Soares

A poesia já me salvou muitas vezes. Salvou-me, inclusive, da vontade de não escrever, sintoma que sempre indica coisa ruim, já que esta é a tarefa que mais me aproxima do que entendo por Deus. Falo de todo tipo de poesia. Daquela da vida cotidiana, que se esconde nos pormenores do mundo. Disfarçada de seu prato predileto, feito por uma amiga num dia despretensioso. Revelada na foto de um amigo, de tirar o fôlego pela beleza. Embalada pela prosa num comentário sensível ou numa mensagem de voz emocionada sobre algo que a gente escreveu. Ela está também na sabedoria de um pai que, do outro lado do oceano, diz a uma filha: “Não se preocupe. O Bem sempre encontra um jeito de chegar aos justos”.

A poesia sempre me pega de surpresa nas madrugadas. Acho que é nestas horas que ela anda por aí a nos espreitar pelos silêncios, pelas reflexões que chegam abraçadas à insônia. Quando o sono não vem – seja pela ansiedade por algo bom, seja pela preocupação com algo ruim – torno-me mais sensível aos sons, cores e acontecimentos comuns. E foi justo num desses dias pós-insônia que recebi o texto do escritor angolano José Eduardo Agualusa das mãos da professora Cristina. Nele, Agualusa dá voz ao escritor argentino José Luis Borges, falecido em 1986, tornando-se uma espécie de ‘médium’ e permitindo que Borges relate-nos como tem sido sua experiência no paraíso: “O Paraíso é pensar”, diz. O texto nos leva a uma reflexão sobre o mundo dos livros hoje e sobre a importância das pequenas editoras, com sua luta ingrata para que a literatura seja preservada. E termina: “A beleza é ingrata. E, contudo, é a beleza”. Diante daquele presente-poesia no meu primeiro dia de aulas em terras estrangeiras, deixei correr uma emoção aliviada. Aquela manifestação poética, para mim, era a confirmação de que eu estava há milhares de quilômetros da minha casa, da minha família, dos meus amigos e dos meus gatos, mas era exatamente onde eu deveria estar.

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Ele escreve para mim | Beth Soares

Eu só o conheci recentemente. Nunca havia me aproximado, pois achava que era demais para mim. O clichê “muita areia para meu caminhão”, gritava forte toda vez que eu pensava nisso. Até que um dia dei de cara com ele que, sedutor, acenou-me. Olhei ao redor, para confirmar se era mesmo comigo, e percebi que havia apenas eu e ele — que sempre foi meu crush —na sala. Naquele momento, tive certeza de que esse segredo já não fazia mais sentido. Tomei coragem e o convidei para sair dali. Ele foi simpático, agradeceu e, posso jurar, pareceu aliviado.

No início, conversávamos todas as noites. Na verdade, eu só me mantinha atenta às suas palavras. Ele contou-me a história de um pescador. Uma história que falava do humano e da sua coragem. E sobre não termos controle de todas as coisas o tempo todo:  circunstâncias, natureza, o que fazem as outras pessoas, nem mesmo das nossas necessidades essenciais. Falava da importância de olharmos para a vida com simplicidade. E que a medida da nossa força vai muito além do corpo que nos serve de instrumento. Contou-me isso de maneira seca. Direta. No fim da história, chorei um choro doído pela beleza crua da vida. Percebi como é frágil a matéria de que somos feitos. E, ainda assim, ela pode nos levar longe, pois tem algo de indestrutível.

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UMA AMIZADE PARA A VIDA | Francisco Seixas da Costa | in Jornal de Letras, Artes e Ideias

Naquele que era o meu primeiro dia de Paris, num agosto de brasa, já na segunda metade dos anos 60 do outro século, eu tinha iniciado uma espécie de peregrinação pelos clichés da cidade, que trazia bem gravados na imaginação, fazendo, à passagem em cada um, como que um “vêzinho” mental. E eles eram tantos!

O velho “Baedeker” que havia lá por casa, em Vila Real, tinha-me adubado a curiosidade e ajudado a colocar as imagens dos prédios e monumentos na geografia dos percursos que planeara. Aquela bela jornada de sol estava, assim, transformada numa espécie de “déjà vu” afetivo, desculpável deslumbre de quem tinha ido, quase diretamente, de uma pachorrenta Vila Real para aquele outro mundo que eu achava que era, afinal, o mundo que valia a pena.

Tinha chegado na véspera, à Porte d’Italie, à boleia (é verdade!), saído, dias antes, da rotunda do Relógio, em Lisboa. Ia sozinho, como os filhos únicos sabem andar, com um saco alpino ao ombro. Tinha ido dormir na camarata de uma residência para estudantes, depois de muita procura.

Sabia que “Paris é uma festa”, embora ainda não tivesse lido o livro (menor) de Hemingway.

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Os três mandamentos do Facebook | Ricardo Paes Mamede

1º) Respeita aqueles que discordam de ti com fundamento (são uma espécie rara neste ecossistema e com eles aprende-se sempre qualquer coisa).

2º) Ignora quem argumenta com os intestinos (nada do que possas dizer vai alterar quem debate com ódio ou má-fé, é pura perda de tempo).

3º) Usa abundantemente as funções “delete” e “block” para lidar com a falta de cordialidade (o ambiente fica mais saudável e não corres riscos de incumprir o 1º mandamento).

Retirado do Facebook | Mural de Ricardo Paes Mamede

Mão Invisível | uma história do neoliberalismo em Portugal | por Ricardo Paes Mamede

Desde os anos 80, as ideias económicas conhecidas por neoliberais tornaram-se dominantes em Portugal. A sua aplicação, em consonância com a integração europeia, modificou as estruturas económicas, mas registou fracos resultados no desenvolvimento do país. Como foi que essas ideias chegaram a Portugal, se difundiram e espalharam até se tornarem hegemónicas? E por que é tão difícil removê-las? Este filme procura responder as estas perguntas e questionar o futuro. Este trabalho tem o apoio financeiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT/MEC), através de fundos nacionais, e é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional – FEDER, através do Programa Operacional Competitividade e Inovação – COMPETE2020, no âmbito do projeto RECON – Que ciência económica se faz em Portugal? Um estudo da investigação portuguesa recente em Economia (1980 à atualidade).

A Ucrânia — a NATO — Siga a dança | Carlos Matos Gomes

Num post no FB, o embaixador Luís Castro Mendes escreve a propósito de uma prestação do historiador Fernando Rosas na CNN que este está a cometer o mesmo erro que foi o de Vasco Pulido Valente, noutro tempo: reduzir a análise da realidade ao precedente histórico e minimizar as diferenças do novo para magnificar as constantes do passado. O meu amigo David Martelo, historiador com vasta obra na área da polemologia faz uma excelente síntese do passado de conflito na Europa Central a que deu o título: CORTINADOS GEOPOLÍTICOS, sobre o conflito “que opõe atualmente a Rússia aos aliados da OTAN, localizada sobre a fronteira da Ucrânia”, mas essa história não explica o presente.

A História serve para tudo. O que quer dizer que serve de pouco. Há exemplos para todas as explicações. O passado pode ajudar a perceber o presente, mas sem entendermos o presente o passado serve de pouco. O Japão não percebeu que o presente tinha mudado com a arma atómica e teve uma terrível surpresa. Marcelo Caetano não percebeu que o Exército de 1974, após 14 anos de guerra colonial, não era o Exército que tinha partido para Angola em 1961 e teve a surpresa do 25 de Abril. A Revolução Francesa e a Russa são exemplos de surpresas por incapacidade de perceber que o presente não é uma evolução em linha reta do passado. São inúmeros os exemplos.

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Natalia Osipova

Decidida a seguir carreira como ginasta, quando ela era criança, Osipova apenas virou-se para balé por causa de um problema nas costas. De 1996 até 2004, ela estudou na Academia Coreográfica de Moscou com Marina e Kotova Leonova Marina. Embora sendo uma aluna na Academia, em abril de 2003, ela ganhou o “Grand Prix” no Concurso Internacional de Balé, no Luxemburgo, dançando variações de “La Bayadère”, “Don Quixote”, “Esmeralda” e “Tchaikovsky Pas de Deux”, bem como a peça contemporânea exclusivamente criada para ela, “Liturgia” por Yegor Druzhinin.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Natalia_Osipova

“𝐌𝐚𝐢𝐨𝐫𝐢𝐚 𝐚𝐛𝐬𝐨𝐥𝐮𝐭𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐞𝐠𝐮𝐢𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐨 𝐯𝐨𝐭𝐨 𝐝𝐨𝐬 𝐯𝐞𝐥𝐡𝐨𝐬”? | José Alves

A Dona Clara Ferreira Alves, no jornal Expresso de hoje, profere a frase que serve de título a este escrito. É curiosa esta afirmação (ou não, vinda de onde vem!), quando o jornal para onde a senhora escreve, dizia há menos de uma semana, em grande título, “Tudo empatado. Voto de jovens decide eleições.” (Expresso de 28 janeiro 2022).

Afinal foram os velhos ou os novos que decidiram as eleições? Seja como for, foram seguramente os portugueses eleitores, maiores de 18 anos. É claro que a Dona Clara Ferreira Alves, quando escreve o que está em título, fá-lo de uma forma depreciativa, querendo com isto dizer, que foram os velhos dependentes do aparelho do Estado, que possibilitaram tal resultado. O tal “Portugal triste”, como ela escreve.

Volta a ser curioso, porém, que o jornal que lhe paga a avença, destacava na edição online de 31-01-2022, que a “Maioria absoluta de Costa foi à custa de 344.861 votos da esquerda.” É da sociologia política, que o voto à esquerda é, em regra, do eleitorado mais jovem. O eleitorado mais velho (como diz a Dona Clara), em regra, é mais conservador e tende a votar em partidos dessa matriz. Mas, com se disse, o intuito da Dona Clara Ferreira Alves, com aquela frase, tem outros objetivos, principalmente, a tentativa de denegrir a vitória incontestável do Partido Socialista. Tendo sido a senhora uma “santanista” e mais tarde uma “pafiosa”, é de acreditar que esta maioria absoluta do PS, lhe cause engulho senão mesmo urticária. Como tem o privilégio de usar uma tribuna semanal para afirmar o seu desconsolo e tendências, o resultado é que quem paga é o povo que, como diz uma ex-vice-presidente do PSD (Isabel Meirelles), “o povo português falhou”.

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A oportunidade perdida do PCP e do Bloco de Esquerda | Carlos Matos Gomes

A “gerigonça” (um termo detestável, mas eficaz) constituiu uma aragem de frescura e de esperança no ambiente político português e europeu, que contrariava a ascensão do neoliberalismo nas suas várias vestes, mais bem comportado ou mais arruaceiro. A entrada na área do governo de um Estado da União Europeia de um partido caraterizado pela máquina de propaganda dominante como da esquerda radical e outro de estalinista, constituía um bom exemplo de que havia alternativa ao neoliberalismo, à destruição do estado social e à lei da selva. A geringonça era um bem comum dos progressistas, que fosse um fenómeno português devia ser motivo de especial cuidado na sua preservação e desenvolvimento.

O PCP e o BE não tiveram a largueza de vistas, a grandeza de perceber o que era fundamental: a esperança e a viabilidade de uma saída progressista para a ditadura neoliberal. Preferiram o pequeno, o que sendo importante, era menor perante o desafio, preferiram colocar-se de fora dessa batalha e voltar à segurança da “luta” por melhores salários e pensões, por horas de trabalho e dias de licença, como fazem há anos, rotineiramente, firmes e hirtos enquanto o mundo muda.

Há uma velha história da luta da águia e do corvo: a águia voa alto e vê longe. O corvo anda cá por baixo a debicar o que brilha, o corvo aproveita o olho da águia e coloca-se às suas costas, a águia, em vez de o enxotar, sobe até o corvo já não poder respirar e cair. Os romanos tinham uma frase que caraterizava a pequenez das pequenas coisas: de minimis non curat praetor – o pretor não trata de insignificâncias.

Em tempo de grandes batalhas, o PCP e o BE trataram de escaramuças e os portugueses perceberam.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

‘Certos casais’: contos escritos com raro talento | Hugo Almeida | por Adelto Gonçalves

                                                                          I

               Com textos que misturam diálogo, descrição, fluxo de consciência, vozes cruzadas e, às vezes, a combinação disso tudo, Hugo Almeida (1952) chega ao seu quarto livro de contos, Certos casais (São Paulo, Editora Laranja Original, 2021), dentro de uma extensa obra que inclui livros dos gêneros infantil e juvenil, romance, ensaios e uma tese de doutoramento, além da organização de coletâneas de contos e ensaios. Dividido em duas partes, Livro I e Livro II, Certos casais reúne nove contos inéditos, alguns escritos há duas ou três décadas, mas que receberam ajustes para esta publicação.

            O livro está dividido em duas partes distintas, mas os oito contos da primeira podem ser lidos como uma espécie de romance ou minirromance porque as personagens fazem parte de três gerações de uma mesma família. Seja como for, os relatos podem ser lidos separadamente, sem que haja dependência de um texto para outro.

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Deus de Spinoza | ALBERT EINSTEIN

Sobre Deus, Einstein chegou a se definir como agnóstico em carta de 1950 a Morton Berkowitz. Ele já tinha afirmado anteriormente que acreditava no “Deus de Spinoza”, em referência ao filósofo holandês Baruch Spinoza:

“Acredito no Deus de Spinoza, que se revela num mundo regrado e harmonioso, não em um Deus que se preocupa com o destino e os afazeres da humanidade”, afirmou ele em um telegrama ao rabino Herbert S. Goldestein, publicado pelo jornal americano “New York Times” em 1929 (segundo o livro “The Ultimate Quotable Einstein”).

Com essa declaração, Einstein afirmava a visão que repetiu diversas vezes durante a vida: que tinha mais simpatia por um Deus presente em todos os lugares e que fosse responsável pelas leis do universo num sentido científico, que por uma entidade personificada e preocupada com problemas individuais:

“Não posso imaginar um Deus pessoal que influencia diretamente a ação das pessoas… Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração do espírito infinitamente superior que se revela no pouco que compreendemos de nosso próprio mundo. A profunda convicção na presença de um poder superior, que aparece no universo incompreensível, forma minha ideia de Deus”, disse Einstein em carta de 1927, publicada em seu obituário no “Times”, em 1955.

POSTAL DO DIA | António Lacerda Sales | por Luís Osório

1.

Muito se falou na noite eleitoral da vitória esmagadora de António Costa.

Do modo como o PS conseguiu ganhar em todos os distritos – com a exceção da Madeira. Uma coisa que nunca acontecera na história da democracia. E muito se acentuou que Bragança, Viseu e Leiria eram objetivos que ninguém pensaria poder alcançar.

Então no distrito de Leiria era mesmo considerado impossível.

Nunca antes o PS lá vencera.

Aconteceu.

2.

E estou convencido de que a influência de António Lacerda Sales, secretário de Estado da Saúde e cabeça de lista no distrito, foi determinante.

Muitas vezes, as elites políticas e jornalísticas esquecem-se que as pessoas boas, as que passam uma imagem de bondade, seriedade e amor pelo próximo podem ser decisivas – esquecem-se do fator humano.

Lacerda Sales está nesse grupo.

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Chamadas Telefónicas, Roberto Bolaño

No conto que dedica a Enrique Vila-Matas, no livro Chamadas TelefónicasRoberto Bolaño esclarece que o poeta consegue suportar tudo, mas essa máxima leva-o à ruína, à loucura, à morte. «Enrique  queria ser poeta e punha nesse empenho toda a força e toda a vontade de que era capaz», escreve Bolaño, na sua primeira coletânea de contos, que a Quetzal faz chegar às livrarias a 10 de fevereiro.

Um bom conto – segundo Ernest Hemingway – deve ser como um icebergue: o que se vê é sempre menos do que aquilo que se mantém oculto debaixo de água e que é o que dá densidade, mistério, força e significado ao que flutua à superfície. Os contos de Chamadas Telefónicas cumprem cabalmente esta premissa.

Reunidos em três blocos, os catorze contos que compõem esta antologia remetem para outros romances, outros escritores, outras personagens do universo ficcional daquele que é um dos grandes criadores literários do século xx. Um complexo e fascinante organismo vivo, em permanente expansão.

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Transpenumbra do Armagedom | distopia depois de uma hecatombe  | Silas Corrêa Leite | por Adelto Gonçalves

Autor de livros polêmicos e diferenciados, Silas Corrêa Leite (1952), depois de publicar Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial), em 2018, O Marceneiro: a última tentativa de Cristo (Maringá-PR, Editora Viseu), em 2019, e Cavalos selvagens (Taubaté, Letra Selvagem; Curitiba, Kotter Editorial), em 2021, surpreende seus leitores com Transpenumbra do Armagedom (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021), obra em que, mais uma vez, mistura gêneros e estilos, fazendo com que a crítica fique em dificuldades para defini-la.  

I 

Na verdade, trata-se de uma reunião de textos que vão do romance de ficção científica a contos futuristas e crônicas minimalistas, passando por poemas de cunho libertário. Enfim, uma obra que traz uma visão épica e fantástica de um futuro que se desenha para o planeta Terra e que se avizinha como assustador. 

O autor reconhece que procurou fazer uma literatura de ficção futurista baseado na new weird fiction, (que pode ser traduzida como “ficção esquisita”), estilo que produz criaturas mutantes, personagens que não são totalmente humanos, que surgiu na década de 1990 com a ideia de subverter conceitos, combinando elementos da ficção científica, horror e fantasia, não seguindo convenções ou exemplos estereotipados. Um gênero que anuncia a chegada da distopia, também denominada cacotopia ou antiutopia, que representa a antítese do que se lê em Utopia, do escritor inglês Thomas Morus (1480-1535), onde um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. 

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Açorda de Alho | Final da Maré de Fado 2021

O Festival Maré de Fado, de onde este video foi extraído, está nomeado para os Iberian Festival Awards 2022, na categoria “Best Festival Online” – Melhor Festival Online. O público pode votar no Maré de Fado, até 31 de janeiro de 2022, nesta ligação: https://www.surveymonkey.com/r/IFA2022

Quem puder vote por favor 🙂 Uma moda alentejana da autoria de Joaquim Banza com música de Joaquim Marrafa, terminou a maré de Fado 2021 no Largo do Porto Covo. Uma iniciativa do Município de Sines. Um grupo de amigos: André Baptista, António Pinto Basto, Bruno Mira, Carla Nunes, Carlos Soares da Silva, Gonçalo Cercas, Gustavo, Joana Luz, Joáo e Miguel, Mafalda Vasques, Nuno Amaro e Pedro Sequeira.

Miguel Esteves Cardoso e o SNS

“Se não fosse o NHS – o sistema de saúde do Reino Unido, onde nasceram, muito prematuramente, as minhas filhas – elas não teriam sobrevivido. Elas devem a vida ao NHS. E eu devo-lhe o amor e a alegria de conhecer a Sara e a Tristana, para não falar no meu neto, António, igualmente devedor, mais as netas e netos que aí vêm.

Se não fosse o SNS (Serviço Nacional de Saúde) eu teria morrido em 2005, com uma hepatite alcoólica causada unicamente por culpa minha. Seria também coxo, quando me deram uma prótese para anca. E, sobretudo, teria morrido, se o SNS não me tivesse dado o antibiótico caríssimo (Linozelid) que me salvou do MRSA assassino que me infectou durante a operação.

Se não fosse o SNS, a Maria João, o meu amor, estaria morta. Se não fossem o IPO e o Hospital de Santa Maria, pagos pelo SNS, ela não estaria viva, por duas vezes.

Sem a NHS e o SNS, eu seria um morto, sem mulher, filhas ou netos. Estaríamos todos mortos ou condenados à inexistência.

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Branislav Hrvol | Você está perguntando sobre os resultados da “agressão” russa? | in Facebook

24 de dezembro de 2021

Um blogueiro finlandês chocou o Facebook quando publicou este artigo: Você está perguntando sobre os resultados da “agressão” russa? Eles são os seguintes: metade da Europa e parte da Ásia obteve a sua cidadania das mãos deste Estado em particular.

Vamos nos lembrar de quem exatamente:

– Finlândia nos anos 1802 e 1918… (até 1802 nunca teve seu próprio estado).

– Letônia em 1918 (até 1918 nunca teve seu próprio estado).

– Estónia em 1918 (até 1918 nunca teve seu próprio estado).

– A Lituânia restaurou o seu estado em 1918 graças à Rússia.

– A Polónia restaurou o seu estado com a ajuda da Rússia duas vezes, em 1918 e 1944. A divisão da Polónia entre a URSS e a Alemanha é apenas por um curto período de tempo!

– A Roménia nasceu como resultado das guerras russo-turcas e tornou-se soberana pela vontade da Rússia em 1877-1878.

– A Moldávia como um estado nasceu dentro da URSS.

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Na noite das eleições | Paulo Querido

Na noite das eleições “ao lado de António Costa sentava-se Pedro Nuno Santos, o seu maior adversário interno e o que mais ameaça ou difere do seu legado ideológico.

O diretor de campanha de António Costa foi Duarte Cordeiro, um dos melhores amigos de Pedro Nuno Santos.

Como secretário-geral adjunto apresenta-se José Luís Carneiro, ex-braço direito de António José Seguro.

No penúltimo comício de campanha apareceu Manuel Alegre que nos últimos anos criticou mais vezes António Costa do que elogiou.

Apesar de muito aplaudido por muitos de nós sempre que desanca na Geringonça, Sérgio Sousa Pinto nunca esteve em causa nas listas do PS.

António Costa mostrou aos portugueses que sabia unir, sabia fazer pontes quer com os seus adversários internos quer externos.”

Quem escreveu este que é um dos melhores elogios a António Costa (e ajuda a compreender a facilidade com que tantos eleitores lhe deram a maioria absoluta, ainda que tenha contado mais a excelente prestação económica dos últimos 6 anos) foi Duarte Marques.

O antigo deputado do PSD (que eu não lia há mais de 10 anos) estava a desancar em Rui Rio precisamente por ter ‘secado’ as oposições internas, numa via diametralmente oposta à de Costa.

A forma, tão de direita, tão das direitas, a antiga em ciclo decrescente e as duas extremas que estão em ciclo crescente, como se olha para as eleições como se de um jogo se tratasse, em que se vence para esmagar o inimigo, como se olha para o Parlamento como um território a capturar e como se vê o Governo como uma ferramenta legal para açaimar e desapoderar todos os que não são da tribo é um dos Grandes Males da democracia.

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Querido