​A inversão mais cínica da política, por João Oliveira, in Facebook


A direita e a extrema-direita têm um truque velho: acusam o socialismo e a esquerda de tudo aquilo que elas próprias fazem, só que ao contrário. Chamam “despesismo” a qualquer medida que garanta que um trabalhador pague a renda, leve o filho ao médico ou se reforme sem miséria.

Dizem que “não há dinheiro” para salário digno, para escola pública ou para o SNS, mas há sempre dinheiro para perdão fiscal a milionários, para privatizar lucros e socializar prejuízos, para encher os bolsos dos patrões que já não sabem onde guardar tanto.


É a lógica do mundo ao avesso. Querem tirar a quem mais precisa para dar a quem já tem tudo. Cortam no subsídio de desemprego e chamam-lhe

“incentivo ao trabalho”. Retiram direitos laborais e chamam-lhe “flexibilização”. Atacam sindicatos e chamam-lhe “liberdade”. E quando a esquerda exige que ninguém viva com 700€ num país onde uma casa custa 1200€, gritam “populismo”.


Quem está mal nisto tudo? Está mal quem acha normal um CEO ganhar em um dia o que um empregado ganha num ano. Está mal quem defende que o Estado serve para proteger bancos, mas não serve para proteger pessoas. Está mal quem transformou egoísmo em programa político e ainda tem a lata de chamar “inveja” à exigência de justiça.


O “despesismo” que eles tanto atacam é comida na mesa, é creche, é transporte, é dignidade. O “rigor” que eles tanto defendem é fome, é precariedade, é gente a escolher entre aquecer a casa ou comprar remédios. 


Não há meio termo aqui. Ou o Estado existe para garantir que ninguém fica para trás, ou existe para servir de porteiro dos ricos. E se defender vida digna para todos é ser radical, então que sejamos radicais. Porque o verdadeiro extremismo é achar que direitos são um luxo e que explorar quem trabalha é “criar riqueza”.


Quem está mal? Está mal quem inverte a realidade para manter privilégios. E está na hora de dizer isso sem medo, sem eufemismos, sem pedir desculpa.
✍️ João d’Oliveira