“O livro que o Ocidente se recusa a ler “( Por Arnaud Bertrand ), por Rodrigo Sousa e Castro

Isto é realmente chocante e diz muito sobre nossa abordagem em relação à China. Decidi procurar resenhas independentes da versão em inglês do último livro de Xi Jinping, publicado há um ano, para ver o que as pessoas tinham a dizer sobre ele, já que eu mesmo não o havia lido. Para minha surpresa, não encontrei nenhuma: nem uma única resenha ponderada sobre o livro! Mesmo na Amazon, confira você mesmo (https://amazon.com/XI-JINPING-GOVERNANCE-CHINA-V/dp/7119143360/ ): o livro tem apenas 3 avaliações, só isso.

Independentemente da sua opinião sobre a China, você tem que admitir que isso é bastante absurdo: o presidente em exercício da superpotência emergente do mundo publica um livro de 700 páginas explicando exatamente o que está fazendo e por quê, e nós nem nos damos ao trabalho de ler. Se existe um fato que ilustra o quão deliberadamente ignorantes somos sobre a China, é este. Ainda mais porque depois repetimos os clichês de sempre sobre como o sistema chinês é secreto e impenetrável: o livro está na Amazon por US$ 21, para você ter uma ideia! Enfim, isso me pareceu tão errado que resolvi corrigir.

Comprei o livro, li atentamente e escrevi o que espero que vocês considerem uma resenha ponderada. O livro contém passagens genuinamente surpreendentes, como Xi Jinping escrevendo que a supervisão do Partido Comunista pelo “judiciário, pelo público e pela mídia” não era apenas algo que o Partido deveria “aceitar prontamente”, mas algo que ele enquadrou como historicamente decisivo – um componente essencial para “escapar do ciclo histórico de ascensão e queda” que condenou todas as dinastias na história da China.

Outra passagem que certamente surpreenderá muitos: uma narrativa comum é que a China culpa o Ocidente pelo século de humilhação e é movida por vingança. Bem, Xi explica que isso não é verdade: o século de humilhação foi um erro da própria China, originado na desastrosa “política de isolamento nacional” da Dinastia Ming, que “resultou na perda de oportunidades oferecidas pela Revolução Industrial” e “levou ao declínio da China”. Em suma, o livro é notavelmente introspectivo e ponderado.

Por exemplo, Xi reconhece que seu empenho por uma “governança interna plena e rigorosa” — incluindo a erradicação da corrupção do Partido — corria o risco de “instilar medo e apreensão, ou intimidar os membros, levando-os à inação”. Ele enfatiza a necessidade de pragmatismo nesse sentido, codificado em uma estrutura chamada “Três Distinções”, que separa erros honestos — cometidos durante experimentos, reformas ou operações sem precedentes — de violações deliberadas cometidas para ganho pessoal.

E muitas outras surpresas ainda. Achei a leitura genuinamente fascinante para qualquer pessoa interessada em como o sistema chinês funciona e como Xi pensa — ou para qualquer pessoa interessada em governança em geral, já que muito do que ele escreve é ​​bastante universalmente aplicável. Este é o link para minha resenha do livro, um artigo que intitulei

“O ​​Livro que o Ocidente se Recusa a Ler”:https://open.substack.com/pub/arnaudbertrand/p/the-book-the-west-refuses-to-read?