À roda da saia | Maria Isabel Fidalgo

A autora, Maria Isabel Fidalgo, “à roda da saia” obriga o leitor a entrar na roda, na roda da vida. Uma obra absolutamente feminina, sem idade,eternamente jovem, pronta a ser rodada no corpo de uma outra mulher , como património (ou matrimónio?) de uma cultura enraizada num lugar que se vai universalizando com o olhar fresco da geração que se segue: ” minha mãe deu-me uma saia / a saia de sua mãe/ a saia roda no corpo/ da minha filha também/ minha neta pequenina/ anda também a rodar / na roda da saia dela / em todas que há de gerar”.
Nestes versos vive uma sensualidade misturada com maternidade impressionantes.Porque “as mães têm braços enormes (p. 18),e (n)as rodas da saia ” uma manhã carnal entra pela luz”(p.41). Mas é na ria de Aveiro que a leveza de ser… ” um pedacinho me basta/ para ser asa que passa/ rente à água” (p51). E há uma vida, única, que continua ” como um fio de água que escorre pela nascente/assim me construí”. E a sensualidade aprende-se devagar ” saio do teu corpo / como se lá não estivesse estado” (p.65).E o corpo assume o seu grau maior de identidade e beleza ” rodinha da minha saia / meu tesouro de araça/não me quero noutro corpo/ com a roda que esta dá”. Mas, como em todos os poetas, o seu tempo era mais além e ” não me preveni contra o tempo/ sempre achei que a vida era para lá dos dias/ e que a ceifa do corpo/ era numa azenha muito ao longe”. Mas as rodas da saia continuam…” já não roda a saia/ rompe-se o vestido/ vem amor dormir/ um verso comigo.”
Um livro que merce ser dançado com vigor e mestria. A autora, Maria Isabel Fidalgo, está de parabéns. A obra foi editada por ” Poética Edições” em Janeiro de 2018.

“É uma saia que é uma celebração da vida e dos afetos, feita com o melhor tecido das palavras, com as rendas da ternura e da música, com os bordados das vivências, com os folhos das alegrias e das lágrimas, com um bolso discreto cheio de ensinamentos, com bainhas feitas de sonhos e engomada com saudades. É uma herança, portanto, e disso não duvidemos nunca: herança de um eu precedido por outros seres que não se esquecem, que não passam, que ficam marcados em cada ponto a mais que se der no tecido – porque esta saia está à espera que cada um a ornamente com a sua própria vida, agora que a recebeu.”

Tiago Aires, excerto do prefácio

O Beijo de Klimt na Síra | Tiago Aires

O Beijo de Klimt está no Velvedere na Áustria.
Não sei se alguma vez terá visitado Damasco
sem ser pela mão virtual de Tamman Azzam.
Não nego a mão do artista apenas o espaço.

O Beijo dourado nas paredes neutras do museu
atrai os olhares digitais do mundo moderno
e nada me diz do mundo que é o seu.
Neste aqui as flores parecem mais verdadeiras
no caos das pedras (que perderam morada
que parecem ter fugido ou pedido asilo
quando da destruição não se espera nada)
e o abraço mais sentido.

A tragédia de tudo isto é não passar de arte
e não veja mais do que uma morada morta
quem passar por aquela parte.

Tiago Aires