Carlos Esperança | É preciso resistir

O medo…

Quando o medo nos tolhe, porque é incerto o futuro, precário o emprego e desmedida a insegurança, a primeira vítima é o carácter. Perdemos o amor-próprio e descremos do futuro, arruinamos a confiança e duvidamos da sobrevivência, deixamo-nos tomar pelo medo e acabamos em pânico.

Vão maus os tempos, parece que a vocação suicida vai tomando conta de nós. Os novos anseiam por um lugar e os velhos temem que os abandonem. A cultura é um luxo que a vida atual dispensa, a leitura um capricho que alguns teimosos ainda ousam e a arte uma atividade supérflua à espera de outros dias.

As guerras que outrora eram castigos de um Deus vingativo, sinal de que bruxas, judeus e hereges ofendiam o deus de Abraão, servem agora para nos distrair da governação, e o medo para nos remetermos ao silêncio.

O medo é a arma contra a dignidade. E o medo, um medo que não é irracional, tolhe-nos primeiro a coragem, corrompe-nos depois a dignidade e, finalmente, mata-nos. Com os sucessivos eclipses da ética, da honra e do patriotismo dos governantes, acabamos como vegetais, sem luz para a fotossíntese, e mortos. De medo e de vergonha.

No início de 1974 vivíamos ainda o medo, imposto pelo partido único. Hoje, ofendidos e conformados, vivemos entre os que defendem verdades únicas, os que buscam voltar ao passado e os que sonham utopias.

Refocilam na gamela do orçamento os filhos daqueles que nos reprimiam, denunciavam e prendiam, dos que iam em bandos agradecer a Salazar a defesa das colónias e a morte de jovens soldados, dos que conviviam com a ditadura e ovacionavam os seus próceres.

Há neste trágico retorno, nesta conformação malsã, na melancólica resignação, a abulia de quem desiste por descrença, falta de memória e medo da vindicta de que são capazes os restauracionistas.

É preciso acreditar no poeta: «Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não». (Manuel Alegre, in Praça da Canção).

É preciso resistir.

Raquel Varela | Nas Vinhas da Ira, Tom despede-se da mãe, o mais belo adeus que o cinema já encenou.

Nas Vinhas da Ira, Tom despede-se da mãe, o mais belo adeus que o cinema já encenou, e, como ainda não sabe nomear o socialismo, diz-lhe, à mãe, – “Andarei por aí no escuro. Estarei em toda a parte. Para onde quer que olhem. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, estarei lá. Onde houver um polícia a espancar uma pessoa, estarei lá. Estarei nos gritos das pessoas que enlouquecem. Estarei nos risos das crianças quando têm fome e as chamam para jantar. E quando as pessoas comerem aquilo que cultivam e viverem nas casas que constroem. Também lá estarei.” Eu também ando por esse aí, a que os músicos Bruce Springsteen e Tom Morello chamaram e cantaram o “fantasma de Tom Joad”.

Aqui vai o meu semanal “fantasma de Toam Joad”, depois de um fim de semana cheio do maravilhamento com o encontro do congresso do Maio.

12 de Maio, amanhã. Acho que não vivemos um tempo de falta de atenção, em que supostamente as pessoas só aguentam segundos ou minutos, mas um tempo de falta de relações, e conteúdo transformador, sério, e também, creio, uma crise de imaginação (ideia do escritor Manuel da Silva Ramos). Faço televisão há 11 anos e não acredito no formato  “diga lá o que pensa em 3 minutos”. Acredito mais no formato conversa, e a rádio é uma delicia, ou documentário, conta-me uma história. Este mês fiz o 50º do programa que imaginei, o “Tempo Contra o Tempo”, o programa de podcast que fazia na rede, e agora faço semanalmente no YouTube do Maio. Amanhã e pela primeira vez vai ser ao vivo, sobre esperança e com a Ana Bacalhau e o António Pinho Vargas, na Livros a Oeste. Lourinhã, Centro Cultural Afonso Pereira, 21:30 entrada livre.

14 quinta. Na Escola Amélia Rey Colaço. A escola pública em debate público. 17 horas. Com um largo painel.

16 Sábado. Haverá Democracia Política sem Democracia Económica? O Festival Coopera começa com uma pergunta crucial: haverá democracia política sem democracia económica? Votar de quatro em quatro anos chega para chamar democracia ao mundo em que vivemos? Debate às 11 horas nos Jardins do Bombarda. Com um largo painel.

17 domingo. E no Domingo estarei  à conversa na apresentação do romance da Patricia Portela, “Hoje, 3 de Maio”, será em Lisboa, dia 17 às 18:15 na KEF Fundação Portugal, ali ao Adamastor. Romance que vai dar que ler a muitos. Muitas horas de conversa, em breve direi mais porque merece muito mais.

AS MEMÓRIAS POLÍTICAS DE CARLOS BRITO: “ÁLVARO CUNHAL. SETE FÔLEGOS DO COMBATENTE”, por José Pedro Castanheira

Foi há 16 anos que o ex-dirigente do PCP Carlos Brito publicou as suas memórias políticas, que são igualmente uma espécie de biografia de Álvaro Cunhal. Com o sugestivo título de “Álvaro Cunhal. Sete fôlegos do combatente”, com a chancela das Edições Nelson de Matos, é um dos livros mais interessantes alguma vez escrito por um dirigente histórico do PCP.

Para além de membro do seu Comité Central durante décadas, Carlos Brito foi o líder da bancada parlamentar comunista durante quinze anos e candidato a Presidente da Repúblicas nas eleições de 1980, tendo desistido a favor de Ramalho Eanes.

Carlos Brito faleceu a 7 de maio, com 93 anos. Aqui se deixa a recensão que publiquei no caderno Actual do semanário “Expresso”, a 22 de maio de 2010, daquele seu interessantíssimo livro, e a que então dei o título de…

CUNHAL SUFOCOU O PARTIDO POR AMOR

Carlos Brito conheceu Álvaro Cunhal em Paris, em Outubro de 1966, num café da Place de Clichy. Saído da prisão havia menos de três meses, Brito “ainda andava aturdido com a liberdade”. Militante do PCP desde 1954, recorda que o mítico dirigente era conhecido por “o chefe”.

A última conversa entre ambos foi em fevereiro de 2000, com Cunhal regressado “de facto ao comando do partido, impondo a férrea obediência” à “ortodoxia conservadora”. Brito escrevera um artigo no “Avante!” sobre a morte de Luís Sá, um dos expoentes da renovação e que muito admirava.

Da iniciativa do velho líder, a conversa serviu para “criticar” o artigo, com acusações de permeio, como “o Luís Sá não era leninista”. Horas depois, a conversa foi relatada ao Comité Central pelo próprio Cunhal, embora sem referir o interlocutor.

“Profundamente chocado”, Brito assumiu-se de imediato “como o interlocutor que Cunhal omitira”, após o que escreveu uma carta à direção do partido – publicada na revista “Visão” -, que serviria de pretexto à sua suspensão disciplinar por dez meses e à subsequente rutura.

33 ANOS DE CONTACTO INTENSO

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