TEXTOS HISTÓRICOS | NATO, DA DEFESA À AMEAÇA | por Mário Soares

“A NATO, criada como organização defensiva, no início da «guerra fria», está a tornar-se, por pressão dos neo-cons americanos, uma ameaça à paz. Cuidado União Europeia!” | Out 06, 2008

Observadores da política internacional reconhecem que o mundo está inquietante. O Afeganistão, em que a administração Bush envolveu a NATO – o que considerei um «precedente perigoso» –, está porventura pior do que antes. As forças armadas eram, então, compostas por americanos e ingleses. Hoje, a participação alargou-se, incluindo até um contingente português. No entanto, a situação militar, expulsos os talibans, não é melhor: os talibans comandam uma guerrilha terrível; a Al Qaeda – e Bin Laden – não só sobreviveu como está mais forte, algures no seu santuário.

O Paquistão, depois da renúncia do Presidente Musharraf, está em risco de mergulhar no caos. E o pior é que dispõe, esse sim, da bomba atómica…

Para o Ocidente, a situação no Afeganistão é mais grave do que a no Iraque. Apesar de o Iraque estar praticamente destruído, dividido, a braços com uma guerrilha infindável, entre sunitas, xiitas e curdos, fustigado pelo terrorismo da Al Qaeda ou associados e tenha deixado de ser, por longos anos – o que é péssimo – um Estado laico e tampão relativamente ao Irão.

No Iraque estão hoje quase só militares americanos e mercenários, numa situação que lembra o Vietname. Mais tarde ou mais cedo, serão obrigados a retirar as suas tropas. Enquanto o desastre do Afeganistão/Paquistão está a corroer e a desacreditar a NATO – o que do meu ponto de vista não tem grande importância, visto que hoje é uma organização que não faz sentido – e afectará gravemente os europeus, se os seus dirigentes não tiverem a coragem e a lucidez de retirarem de lá as suas tropas, quanto antes…

A NATO, QUE SE TORNOU um verdadeiro braço armado dos Estados Unidos, está a fazer também estragos noutras regiões do mundo. Refiro-me ao Cáucaso, às zonas do Cáspio e do mar Negro e aos países limítrofes da Rússia Ocidental.

Estes quiseram logo entrar para a NATO, com a ilusão de que teriam mais garantias de segurança, sob o chapéu americano, do que na União Europeia… E a NATO, cercando a Rússia e instalando na Polónia e na República Checa bases de mísseis, começa a ser uma ameaça para a Rússia, que a pode tornar agressiva. Um perigo!

O vice-presidente Dick Cheney, em fim do mandato, fez uma recente visita, altamente desestabilizadora, para dar, em nome da NATO, apoio à Geórgia. Mas, felizmente, ficou tudo em retórica inconsequente. Após a provocação do Presidente da Geórgia – e da guerra –, os russos reagiram e os europeus procuraram pacificar a situação. Ainda bem. Se a guerra não acabasse, os europeus seriam os primeiros a ser atingidos, com o corte do petróleo e do gás; e pior: entrariam numa fase com grandes riscos para a paz na Região. Putine não é Hitler e não ressuscitemos a «guerra fria»…

CHENEY FOI À UCRÂNIA, onde tentou também dividir os dirigentes políticos, estimulando a primeira-ministra, Iúlia Timoshenko, anti-russa, contra o Presidente, Victor Yushchenko, mais apaziguador.

Tudo em nome da NATO. Isto é: a NATO, criada como organização defensiva, no início da «guerra fria», está a tornar-se, por pressão dos neo-cons americanos, uma ameaça à paz. Cuidado União Europeia!

Moratinos, o ministro espanhol dos Estrangeiros, bem advertiu, numa entrevista ao El País: «A Rússia actual não é a soviética, mas também não é a de Ieltsin. Devemos evitar que nos imponha uma agenda do tempo da guerra fria.» E eu acrescento: não ameaçar a Rússia, negociar, com firmeza, com ela.

Enquanto isto, a ONU esteve estranhamente ausente e silenciosa. Que diferença entre este secretário-geral, Ban Ki-moon, um homem, até agora, apagado e quase invisível, mais burocrata do que político, e o seu antecessor, o saudoso, prudente e corajoso Kofi Annan… A ONU vai ter de se reestruturar e democratizar, após as eleições americanas, para desempenhar o seu tão decisivo papel na construção de uma nova ordem internacional e da paz, neste nosso novo século tão conturbado.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

VER ( PÁGINA SEGUINTE), CRÓNICA DE JOÃO GOMES COLOCADO EM COMENTÁRIO NESTE TEXTO DO FACEBOOK

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João Gomes | Comentário ao texto anterior “TEXTOS HISTÓRICOS | NATO, DA DEFESA À AMEAÇA | por Mário Soares”

Boa tarde a Carlos Fino e participantes ! Um certo “cansaço” instala-se para continuar a comentar sobre esta matéria. Será a próxima evolução do conflito da Ucrânia que “ditará” que caminho o Mundo está a seguir pois, enquanto “discutimos” a questão da “operação especial”, outros embriões conflituosos se colocam em áreas próximas, como o caso da Sérvia/Kosovo e o agora da Arménia.

Bem dizia Mário Soares, astuto dirigente europeu que, para lá dos seus “defeitos” de um “socialismo” demasiado metido na gaveta, conhecia os meandros de certas politicas internacionais, nomeadamente as americanas.

Para os russos, a questão sobre se a OTAN é ofensiva ou defensiva não será o ponto. Para entender o ponto de vista de Putin, temos de considerar duas coisas que geralmente são negligenciadas pelos comentaristas ocidentais: o alargamento da OTAN em direção ao Oriente e o abandono incremental do quadro normativo da segurança internacional pelos EUA.

Na verdade, enquanto os EUA não lançavam mísseis nas proximidades de suas fronteiras, a Rússia não se preocupava tanto com a extensão da OTAN. A própria Rússia considerou-se candidatar à adesão, o que só não ocorreu pelo “medo” americano de abrir mão dos “segredos” da organização.

Os problemas que declararam-se em 2001, quando Bush decidiu retirar-se unilateralmente do Tratado ABM e implantar mísseis antibalísticos (ABM) na Europa Oriental. O Tratado ABM destinava-se a limitar o uso de mísseis defensivos, com a justificativa de manter o efeito dissuasivo de uma destruição mútua, permitindo a proteção de órgãos decisórios por um escudo balístico (a fim de preservar uma capacidade de negociação). Assim, limitou a implantação de mísseis antibalísticos a certas zonas específicas (notadamente em torno de Washington DC e Moscovo) e proibiu-o fora dos territórios nacionais.

Desde então, os Estados Unidos têm-se progressivamente retirado de todos os acordos de controle de armas estabelecidos durante a Guerra Fria: o Tratado ABM (2002), o Tratado de Céu Aberto (2018) e o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) (2019). Em 2019, Donald Trump justificou a sua retirada do Tratado INF por supostas violações do lado russo. Mas, como observa o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI), os americanos nunca forneceram provas dessas violações. Na verdade, os EUA estavam simplesmente tentando sair do acordo a fim de instalar os seus sistemas de mísseis AEGIS na Polónia e Roménia. De acordo os EUA, esses sistemas são oficialmente destinados a interceptar mísseis balísticos iranianos. Mas há dois problemas que claramente colocam em dúvida a boa fé dos americanos:

. A primeira é que não há indicação de que os iranianos estejam a desenvolver tais mísseis, como Michael Ellemann da Lockheed-Martin declarou perante um comitê do Senado americano.

. A segunda é que esses sistemas usam lançadores Mk41, que podem ser usados para lançar mísseis antibalísticos ou mísseis nucleares. O sítio radzikowo, na Polónia, fica a 800 km da fronteira com a Rússia e a 1.300 km de Moscovo.

As administrações Bush e Trump disseram que os sistemas implantados na Europa eram puramente defensivos. No entanto, mesmo que teoricamente verdadeiro, é tecnicamente e estrategicamente falso. Pois a dúvida, que lhes permitiu a instalação, é a mesma dúvida que os russos poderiam legitimamente ter em caso de conflito. Esta presença nas proximidades do território nacional da Rússia pode de fato levar a um conflito nuclear. Em caso de conflito, não seria possível saber precisamente a natureza dos mísseis carregados nos sistemas – deveriam os russos esperar por explosões antes de reagir ? Na verdade, sabemos a resposta: sem tempo de aviso antecipado, os russos praticamente não teriam tempo para determinar a natureza de um míssil disparado e, portanto, seriam forçados a responder preventivamente com um ataque nuclear.

Vladimir Putin não só vê isso como um risco para a segurança da Rússia, mas também observa que os Estados Unidos estão cada vez mais desrespeitando o direito internacional para prosseguir uma política unilateral. É por isso que Vladimir Putin diz que os países europeus podem ser arrastados para um conflito nuclear sem querer. Este foi o conteúdo de seu discurso em Munique em 2007, e ele veio com o mesmo argumento no início de 2022, quando Emmanuel Macron foi a Moscovo em fevereiro.

Mário Soares não falava de “borla”. Ele sabia que, no fundo, o processo de expansão da hegemonia dos EUA em relação à Europa se destinava a pressionar a Rússia e a obrigá-la a ceder ou encontrar as respostas que defendessem o seu ponto de vista estratégico. Ora, Putin optou pela segunda delas e, quem estiver atento à “história” dos desenvolvimento bélicos americanos, só pode estar de acordo com essa posição.

João Gomes in Facebook 15/09/2022 | João Gomes

Poema escrito por Mário Soares a Maria Barroso, em 1962, quando se encontrava detido na prisão do Aljube.

Para ti

Meu amor

Levanto a voz

No silêncio

Desta solidão em que me encontro

Sei que gostas de ouvir

A minha voz

Feita de palavras ternas e doces

Que invento para ti

Nos momentos calmos

Em que estamos sós

Sei que me ouves

Agora…

… uma vez mais

Apesar da distância

E do silêncio

Opera esse milagre

Simples

Como tudo o que é natural.

[Na fotografia: Mário Soares e Maria Barroso em 1958]

FLOR DA LIBERDADE | Miguel Torga

mario-soares-d-rSombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós… Também nós… E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.

Miguel Torga

Selecção de Maria Isabel Fidalgo

FILOSOFIA POLÍTICA | Soares e os cobardes by Daniel Oliveira in “Arrastão”

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Nunca votei em Mário Soares. Muitas vezes discordei dele, outras concordei. Muitas vezes o considerei um adversário, outras um aliado. Muitas vezes me surpreendeu positivamente, outras desiludiu-me. Sei dos ódios e das paixões que provoca. O que apenas quer dizer que não se limitou a passar pela vida e fez diferença. Para o mal e para o bem. Discordando e concordando com ele, respeito a sua história e a sua coragem.

Mário Soares foi hospitalizado. Esperemos, espero pelo menos eu, que não seja nada de grave.

Ao ler os comentários que pululam na Net perante à notícia da sua hospitalização tentei não me chocar em demasia. A Net não se limita a revelar o melhor e o pior da condição humana. A revelar coisas que nos parecem ser impensáveis. Ela amplifica, pela possibilidade do anonimato da opinião, os mais abjectos dos sentimentos. Na realidade, como sempre soubemos – dos bufos aos linchadores -, o anonimato sempre permitiu que os constrangimentos sociais e morais desaparecessem e a escória humana se exibisse sem pudor.

Um dos comentários mais habituais foi a crítica ao facto de Mário Soares ter sido hospitalizado no Hospital da Luz. Um hospital privado. Seria, escreveram vários, sinal de incoerência. Mas nem todos os que escreveram eram anónimos.José Manuel Fernandes, antigo diretor do “Público”, escreveu no seu twitter: “O dr. Mário Soares não deveria ter ido para um hospital do SNS para dar o exemplo? É só para saber, nada mais.”

Não vou aqui elaborar sobre o direito de qualquer cidadão se bater pelos serviços públicos e usar, se assim entender, serviços privados. Não é o momento. O que me choca, o que me deixa mesmo próximo do vómito, é alguém aproveitar um momento destes para fazer combate político. Quem aproveita a hospitalização de um homem para o combate político, quem aproveita a fragilidade física de um adversário para o atacar, tem apenas um nome: é um cobarde. E com cobardes não se debate. Desprezam-se apenas.

Daniel Oliveira | Publicado no Expresso Online

FONTE: http://arrastao.org/2727389.html