AUKUS: UM ACORDO PARA ACORDAR A UNIÃO EUROPEIA | Paulo Sande

Não podia vir mais a propósito.

Três países – EUA, Reino Unido e Austrália, aliados antigos, um dia depois de Ursula von der Leyen ter feito o seu discurso da União e apelado à Europa da Defesa, anunciaram um acordo de segurança que é, na opinião de muitos especialistas de segurança, o maior desde a 2ª guerra mundial.

O AU – (u)K – US (AUKUS) formaliza a cooperação de defesa entre estes países na região do Indo-Pacífico e foca-se na capacidade militar, com dimensões como a cibernética, tecnologias quânticas, inteligência artificial. E depois (ou antes) há os submarinos.

1. SUBMARINO AO FUNDO

A compra de submarinos nucleares pela Austrália, o investimento mais caro de todo o acordo, criou um incidente diplomático com a França. Não admira, pois fica em causa o contrato (de 2016) de venda de 12 submarinos convencionais por parte da França à Austrália que, com este acordo, compra submarinos nucleares aos EUA (que pela 2ª vez apenas partilham a sua tecnologia submarina), tornando-se o 7º país do mundo a tê-los.

2. UM PACTO DE SANGUE…

Os EUA reforçam a influência, presença e poder na região, que inclui o estreito de Taiwan, o mar da China meridional, o Pacífico do sudoeste. A Austrália associa o seu destino (militar) ao dos norte-americanos. Num conflito com a China, por exemplo, passa a estar na primeira linha de batalha.

3. CONTRA A CHINA, NAVEGAR, NAVEGAR (debaixo de água?)

Nenhum responsável dos três países assumiu que este acordo visa em 1º lugar o crescimento militar chinês. Mas à “langue de bois” dos políticos responderam sem paninhos quentes analistas  do mundo inteiro, sublinhando o seu objecto principal: conter o poderio chinês na região.

É que pelos mares do sul da China, a ligar Índico e Pacífico, circula um terço das mercadorias embarcadas do mundo. Há anos que a China constrói ilhas artificiais, instalando nelas bases aéreas, atacando navios e reivindicando (contra o direito internacional) o alargamento do seu território. A frota chinesa incha, a sua guarda costeira cresce ao ponto de se tornar, ela mesma, frota militar.

4. MAS A CHINA NÃO ACHA BEM O AUKUS

E um responsável chinês fala em regresso á guerra fria e lembra que os submarinos (e os porta-aviões) americanos navegam habitualmente por aquelas regiões – mas não se vêem navios chineses na Florida, no Havai ou nas Caraíbas. Não deixa de ser verdade…

5. OH LA LA, PAS COMME ÇA

A Nova Zelândia também não achou graça e avisou que proibirá os submarinos australianos de fazer mergulho nas suas águas.

Mas foi o governo francês que reagiu pior. E desta “punhalada nas costas” por parte de países aliados e amigos (um negócio de submarinos agita sempre as águas, como bem sabemos por cá) tira a lição da necessidade de a União Europeia definir uma estratégia geopolítica própria, independente dos EUA, acompanhada pela criação efetiva de uma força militar conjunta.

6. CHEGOU ENTÃO A ALTURA DO EXÉRCITO EUROPEU?

O assunto é sério e não cabe no tom ligeiro de uma crónica deste tipo. Três rápidas reflexões.

– Muito terá de mudar para que esse objetivo se concretize. É preciso vontade política, lembrou Ursula von der Leyen. É preciso (por exemplo) que as decisões de política externa – desde logo – deixem de ser tomadas por unanimidade. São indispensáveis recursos financeiros substanciais.

– A questão é tanto se a União Europeia quer como se a União Europeia pode. A chave para uma resposta positiva está nos Estados-membros – em cada um deles, sobretudo nos mais poderosos e ricos, como a Alemanha e a França. Da soberania nacional para a soberania europeia vai um passo, mas é de gigante.

– Se esse passo não for dado, dificilmente a Europa escapará a uma crescente irrelevância global, aliás já em crescendo; o Reino Unido, é verdade, cedeu parte do seu nome para o acrónimo agora anunciado, mas ficará necessariamente sujeito, como a Austrália, aos interesses geoestratégicos dos EUA. É verdade que já estão habituados.

A segurança europeia e o nosso futuro colectivo estão em causa – o AUKUS não passa de um lembrete disso.

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Sande

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