Carlos Moedas | Entrevistado por Luís Osório

Deixo-vos uma conversa que tive com Carlos Moedas, em 2018. Uma conversa que está publicada no meu livro “30 Portugueses, 1 País”, editado pela Guerra e Paz, em 2019.

*

CARLOS MOEDAS

“Quando estamos lá fora somos sempre amados, mas depois um dia, ao voltar para cá, as pessoas já não gostam assim tanto”

Nasceu em 1970. Estrangeirado e sem anticorpos visíveis é um político que muitos acreditam poder marcar o futuro.

Conversámos no dia 11 de outubro. de 2018.  

Sabe que não existe nenhum alentejano que tenha conquistado o poder na nossa história?

– O Alentejo é a minha casa, o lugar onde me sinto realmente bem. Nunca pensei na razão que explique tal destino. E ainda por cima sou de Beja, Alentejo mesmo profundo. Não sei, talvez por ser uma região muito pobre e por sofrermos da interioridade e de outras dificuldades. Lembro-me de dizer aos meus pais que queria ir para a universidade, da dificuldade de o fazer por o dinheiro ser pouco. Muitos dos jovens alentejanos com talento não puderam ir para a universidade…

Podia ter acontecido consigo?

– Podia. O meu pai era jornalista no Diário do Alentejo, não era fácil, tempos de grande dificuldade, poderia ter acontecido comigo, sim. Obviamente que depois há aquele fator de nos conseguirmos desenrascar com pouco, especializei-me nisso. Vim para Lisboa e vivi durante vários anos num quarto na Rua Ferreira Borges, em Campo de Ourique, ao lado da pastelaria Tentadora, pagava seis contos por mês. Fui sobrevivendo a gastar pouco em cantinas universitárias, bati-as todas. À noite ia à cantina da Rua Escola Politécnica que era muito melhor do que as outras.

Era então injustificada a acusação que lhe faziam na sua juventude.

– Que era forreta? Achavam que tinha ar de abastança e chamavam-me forreta, mas infelizmente não tinha mesmo dinheiro. O Alentejo tem grandes poetas, grandes historiadores e gente de grande valor, mas nunca conseguiu projetar os melhores, verdade.

Esse é também um truque que levou para a política, fala com interlocutores abastados da Europa “civilizada” e de repente eles acham que Portugal está bastante melhor do que está.

– É uma das minhas funções lá fora.

Conseguiu enganar a troika?

– Não sei se consegui enganar a troika, houve dias. Mas naqueles dias seria muito difícil fazê-lo até por ser do nosso interesse resolver o problema do país. É essencial não mentir na política. 

Acha?

– É muito importante não mentir na política.

E é importante, por vezes, não dizer a verdade?

– Às vezes é importante deixar passar ou, como se dizia no Alentejo, fazermo-nos de parvos. O meu avô é que dizia: “Ó Carlos faz-te de parvo”, por vezes temos que fazer isso na vida, faz parte, mas nunca mentir ou pelo menos não o fazer conscientemente. Há determinados contextos em que a pessoa acredita que, naquela situação, temos que o fazer, mas mais tarde vemos que afinal devíamos ter feito de outra maneira. Estou convencido disso, convencido que é um dos fatores de descredibilização da política.

Muitos não querem pagar o preço de dizer a verdade.

– Sim, concordo. Alguns preferem omitir a verdade, preferem dizer que vão criar emprego quando as suas políticas não são dirigidas para concretizar o objetivo. A política não evoluiu à mesma velocidade que o mundo evoluiu.

É sensível ao tema dos centros de decisão?

– Sou bastante. E acredito que esses centros de decisão podem voltar para Portugal.

Como?

– No mundo digital em que vivemos os centros de decisão não têm porque estar num ponto geográfico específico, a beleza do digital é que as fronteiras físicas cada vez têm menos significado. Quando vemos que a maior empresa têxtil no mundo, a Zara, foi criada e ainda tem a sua sede em Arteixo, na Galiza, onde trabalham 30 mil pessoas, isso diz-nos que não devemos ter complexos. Podemos e devemos ter centros de influência e decisão. Cada vez mais veremos esta nova geração a criar centros em Portugal e a vender para o mundo, muitos deles já o fazem.

Temos o caso da Farfetch.

– Temos a Farfetch e outras que as pessoas não se lembram, como a Veniam, a Feedzai, a OutSystems, o Talkdesk que está avaliada em quase um bilião de euros. Os portugueses estão a fazer um caminho extraordinário.

Este mundo, que é um mundo cada vez mais virtual, tem perigos…

– E oportunidades. Todas as grandes mudanças tecnológicas trouxeram riscos e medos, o Homem por natureza tem medo da tecnologia e vimos isso durante toda a história. Quando os primeiros comboios chegaram a Inglaterra, em 1815, muitos escreveram nos jornais que se o comboio fosse a 30 milhas por hora as pessoas iriam desfazer-se por não poderem andar naquela velocidade. Sempre tivemos medo do futuro. Mas é também a função dos políticos tentar perceber o futuro e as suas oportunidades e explicar às pessoas essas oportunidades. O mundo nunca será totalmente digital, o mundo será um misto entre o que é físico e o digital e esse misto é um outro mundo, com oportunidades que nem sequer conseguimos hoje imaginar.

Não nega que muitas profissões desaparecerão.

– Claro que não. Mas mais uma vez volto às oportunidades. Acredito que a tecnologia nos vai ajudar a ser muito melhores. Nós não somos muito bons com números, não somos muito bons a associar uma grande quantidade de informação e se a máquina fizer isso por nós poderemos ser muito melhores. Se for a um radiologista preferia que fosse a inteligência artificial a ver no scanner se tenho cancro – a máquina pode ver o que não é visível ao olho humano -, mas eu não quero que seja a máquina a dizer-me qual a terapêutica que preciso, essa é a parte humana.

Depende do médico.

– Depende do médico, há os bons médicos e os maus médicos, mas estamos a falar dos bons médicos.

Claro.

– No princípio do século uma empresa que tivesse eletricidade tinha uma vantagem competitiva. hoje todos a têm e deixou de ser uma vantagem competitiva. Daqui a uns 20 anos quem tiver inteligência artificial também já não terá uma vantagem competitiva, todos a utilizaremos. E o que irá diferenciar será a criatividade humana.

O Sr. Comissário não parece mesmo alentejano. Em si não se vislumbra o “cisma”, definida como uma síndrome de pessimismo, de melancolia.

– Repare, quando vivíamos num Alentejo sem oportunidades, em que os nossos pais sabiam que os filhos não poderiam ir estudar, que não podiam ter a sua vida, não era uma questão de cisma, mas de realidade. Não acredito nisso. Também se diz dos portugueses face à Europa, é sempre uma questão de contexto, tem a ver com as pessoas com quem convivemos, com as situações que vivemos.

Prefere fado ou cante alentejano?

– Dos dois. Mas quando estou em Bruxelas, com um bocadinho de saudades, ouço Mariza.

Mais do que Ana Moura?

– Sim, não sei porquê.

A ideia de sair esteve sempre presente? O jovem Carlos adolescente em Beja olhava para o mundo?

– Lembro-me de muito pequeno ter atração por ver e conhecer outras coisas. Quando os meus pais me levavam a Espanha era todo um outro mundo, isso deixou-me um bichinho de querer conhecer o mundo, de viajar. Mas até aos 20 anos nunca andei de avião.

Qual foi a primeira viagem?

– Lembro-me muito bem. Andava no Técnico e aproveitei, na Associação de Estudantes, uma viagem barata para Toulouse. Senti-me como nunca me senti, num novo mundo.

E falava francês.

– Muito mal. Decidi que tinha de ir para o estrangeiro estudar. Quando surgiu a oportunidade do Erasmus não hesitei. Fui para Paris, para a École Nationale des Ponts et Chaussées, sem falar a língua. O meu francês era o da escola secundária de Beja com uma professora alentejana, com um sotaque alentejano.

Como conquistou a sua mulher? Foi com o olhar?

– Conheci-a a muito mais tarde. Fui para Paris, em 1993, e acabei lá o curso. No fim da licenciatura apeteceu-me viver a cidade um pouco mais, mas não tinha dinheiro… até que no Expresso, que comprava religiosamente num pequeno quiosque ao pé da Sorbonne, li um pequeno anúncio que dizia ont cherché engenier. Mandei uma carta e eles entrevistaram-me, foi a única entrevista que fiz sem conhecer ninguém e escolheram-me. Fiquei cinco anos a trabalhar em França e um dia, já cansado de ser engenheiro, ouvi dizer que havia uns MBA que se faziam numas escolas em França… foi aí que conheci a minha mulher.

Que é francesa.

– Com um nome português, mas francesa, sim. Eu, que não tenho jeito nenhum para conversa, lembrei-me de lhe perguntar, muito originalmente, se era portuguesa. Disse-me que não era portuguesa e começámos a falar… até hoje.

Viveu muitos anos fora, quase tantos como em Portugal.

– E cada vez gosto mais de Portugal. Mas sim, fui vivendo em vários lugares o que me deu algumas vantagens. A experiência de vida, e o que passei de dificuldades, foi um trunfo para compreender pessoas dos mais variados países e culturas. Com um olhar sei como as devo tratar, a quem dou um beijo ou um aperto de mão.

Está mais do que preparado para uma campanha eleitoral como cabeça de lista.

– Estou preparado é para voltar para Portugal, apetece-me muito estar em Portugal.

Senhor Comissário, que tempo histórico é este que estamos a viver?

– Um mundo que tem duas faces. A tecnologia globalizou a economia, mas de certa forma tribalizou a política. Existe uma desconexão entre uma economia cada vez mais global e uma política cada vez mais local, o que não me deixa totalmente otimista em relação ao futuro.

É quase como se a política continuasse a ser analógica?

– Sim, acho que sim. A política tem tido dificuldade em adaptar-se a este tempo. Hannah Arendt escreveu qualquer coisa como isto: “Se inundarmos as pessoas com informação haverá uma altura que já não fazemos a diferença entre a verdade e a mentira porque já estaremos cansados, it doesn´t matter”.

A ficção contaminou a realidade.

– Preocupa-me muito o caminho que a política está a tomar, basta vermos o que se passa no Brasil, nos Estados Unidos ou o Brexit, isso faz-me pensar nos meus filhos e no seu futuro.

É possível imaginar um regime que seja melhor que a Democracia?

– A democracia é realmente o sistema, mas a democracia analógica e a democracia digital são diferentes e nós ainda estamos na democracia analógica. No fenómeno Brexit, a maior parte das pessoas que votaram para sair eram os mais velhos, os mais novos simplesmente não votam porque vivem num mundo digital – se a democracia estivesse adaptada ao mundo de uma geração mais jovem não teria existido tanta abstenção. Teremos que mudar esse paradigma, não podemos ter medo de discutir sobre isso e não podemos dizer às pessoas que se forem para o digital pode haver manipulação, é que no mundo físico também há manipulação, quantos não são os países que manipulam as urnas e enganam os eleitores?

A chave pode estar então na conquista das novas gerações?

– É uma geração que não quer apenas ter um emprego ou um trabalho, quer contribuir para uma determinada mudança, esta geração voltou a querer mudar o mundo, participar na mudança. Em 1998 eu estava nos EUA a tirar o MBA e recebi um convite da Google. Lembro-me de ter pensado que a Google era uma coisa para procurar páginas na internet e recusei. Os que lá ficaram são hoje milionários. Aquilo para mim nem era uma profissão. Temos hoje que preparar os nossos filhos para profissões que nem imaginamos ainda que existem.

Acredita na União Europeia?

– Acredito muito e tenho pena que seja tão invisível aos olhos das pessoas.

Se o definir como um federalista é pacífico?

– Não sou um federalista, acredito sim numa Europa que seja feita de Estados-Nação e isso é um bocadinho diferente do federalismo americano.

Não seria um bom exemplo?

– Não o devemos copiar. Mas teremos de aceitar que determinadas decisões sejam tomadas a um nível superior. Um dia teremos de deixar de estar sentados vinte e sete à mesma pessoa para chegar a um acordo. A regra da unanimidade está a matar o projeto europeu. Teremos que mudar, uma regra de maioria qualificada estaria bem. Depois, quem não quiser pertencer ao clube poderá sair.

Acha que será a breve trecho?

– Vamos conseguindo devagarinho, estamos a tentar encontrar dentro do próprio tratado da União, sem ter que mudar os tratados, formas de contornar legalmente a regra da unanimidade.

Da mesma maneira que quando se dirige a uma senhora sabe se a beija ou lhe dá um aperto de mão, também sabe como se dirigir a um político húngaro, polaco ou francês?

– Sem dúvida. E o importante é saber manter as pontes. No lugar onde estou nunca poderia ser um maniqueísta. 

Consegue explicar-me a razão do sucesso da diplomacia portuguesa e dos portugueses em lugares de grande destaque internacional?

– O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa declarou ao El País que os portugueses são os novos nórdicos. Portugal é um país que tem caraterísticas para poder fazer essas pontes, é um país neutral, não somos imediatamente vistos com posições contra ou a favor e isso é bom. Temos uma tradição de tolerância muito grande, as pessoas olham-nos com confiança. Depois temos uma caraterística dos países pequenos, sabemos que não podemos ir a todo o lado só com a nossa língua, temos que falar outras línguas e conhecer outros mundos. Um português nunca assume que alguém fala o português. Tenho reuniões onde falamos várias línguas e depois misturamos tudo e inventamos palavras. Conseguimos comunicar.

Entende-se com chineses? Toda a gente me diz que são indecifráveis.

– E são um bocadinho. Não lhes consigo ler os olhos ou as expressões, senti essa dificuldade das duas vezes que lá estive.

Não tem esse problema com o primeiro-ministro português?

– De maneira nenhuma, António Costa tem-me tratado sempre muito bem, a relação é excelente.

Já não tem que explicar na Europa o que é a geringonça?

– Não de maneira nenhuma, até porque já há várias.

Surpreendeu-o a habilidade de António Costa para conseguir uma solução que muita gente não acreditava que fosse possível?

– Na altura, surpreendeu-me bastante. E surpreendeu-me a capacidade de gerir politicamente uma solução que tem dado resultados internacionais. Tenho imenso orgulho de ter pertencido ao governo do Dr. Passos Coelho, fizemos realmente a parte mais difícil, mas depois este governo conseguiu continuar a cumprir as metas, mantendo a paz social e o diálogo com os partidos à sua esquerda.

Pedro Passos Coelho não deve concordar consigo nesta parte.

– Pedro Passos Coelho ficará sem dúvida para a história por aquilo que fez. Tenho por ele uma admiração enorme. Sei das dificuldades e da sua retidão em momentos tão difíceis. Momentos em que quase todos colapsámos com a enorme pressão à nossa volta, mas ele manteve o rumo. Isso foi extraordinário. Depois chegámos às eleições, veio outra solução e era importante mostrar lá fora que, mesmo com outra solução, o país não se iria abaixo. E aconteceu isso. E isso foi reconhecido lá fora.

Continua a estar com ele?

– Temos uma relação quase familiar. Hoje em dia tem mais tempo e é bom vê-lo mais relaxado, um homem que cumpriu a sua missão. 

Tem também uma relação com Rui Rio?

– Tenho vindo a conhecê-lo nestes últimos meses. É um homem transparente, diz aquilo que pensa e isso é importante na política, não tenta arranjar maneiras de contar uma história diferente, é aquilo que é.

Sendo hoje um homem do mundo e acima dos partidos, esta pergunta parece ridícula, mas vou fazê-la porque às vezes as perguntas ridículas dão boas respostas. É completamente certo que vai votar Rui Rio nas próximas eleições legislativas?

– Sem dúvida, sou militante do PSD e votarei sempre no PSD.

Pedro Santana Lopes não achou isso pelos vistos.

– Tenho muita pena que Santana Lopes tenha deixado o PSD, é um homem com um magnetismo extraordinário, sempre gostei muito dele. No dia em que me disse confesso que senti uma certa mágoa. 

Já sabe o que vai fazer a seguir? O que deseja?

– Regressar a Portugal e contribuir de outra maneira, voltar para aquilo que é o privado onde trabalhei toda a vida. Uma vez um jornalista escreveu que sempre vivi à custa dos contribuintes, um engano grande. É que até aos 41 anos estive sempre em empresas privadas, criei postos de trabalho, tive que pagar salários, às vezes chegava ao fim do mês a tremer pois não sabia como ia conseguir pagar às pessoas. Esse é o meu mundo, o meu mundo não é o da política.

Marques Mendes confessou-me que o senhor é o futuro do PSD.

– Entendo isso como um elogio muito simpático. Tem a ver com o reconhecimento de um trabalho que estou a fazer. Mas sabe uma coisa, Luís? Quando estamos lá fora somos sempre amados, mas depois um dia, ao voltar para cá, as pessoas já não gostam assim tanto. Mas agrada-me acharem que estou a fazer um bom trabalho e que tenho capital político para continuar a fazer um bom trabalho, não é mais do que isso.

O senhor é marcelista?

– Sou marcelista, gosto imenso deste presidente.

E este presidente gosta imenso de si.

– Gosto dele mesmo se ele não gostasse de mim. É genuíno, gosta genuinamente das pessoas e conheci-o muito antes de ser presidente. O que tem com as pessoas nenhum político consegue imitar. Foi o homem certo no momento certo para o país. Ainda no outro dia estivemos numa sessão em Coimbra e no final decidiu que íamos jantar a uma cervejaria, não queira saber. Naquela cervejaria, entre as pessoas que lá estavam, não havia partidos.

António Vitorino, também Comissário Europeu, deixou também saudades. Que opinião tem?

– Um dos homens mais inteligentes que conheci, deu-me os melhores conselhos quando fui para lá, disse-me tudo aquilo que devia fazer e acertou em tudo. Foi ao pormenor de me aconselhar a falar várias línguas na audição, deu-me conselhos muito bons e é um homem de quem, em Bruxelas, as pessoas ainda falam como gostaria que falassem de mim um dia.

Continuando com alguns nomes. Jean-Claude Juncker.

– O último grande visionário político europeu. Estar sentado com Juncker é ouvir as histórias de Chirac, Clinton, Schröder.

E agora de Trump.

– Que ele não conhecia.

António Guterres.

– É também um homem de grande inteligência e de uma grande craveira, mas para mim António Guterres é sobretudo o consenso, o homem que consegue marcar e fazer o consenso geral de uma maneira como muito poucos são capazes.

Mário Centeno.

– Um ministro das Finanças responsável, cá e lá. Não o conhecia, vira-o duas ou três vezes quando estava no Banco de Portugal. É respeitado no Eurogrupo e desempenhou muito bem o seu papel.

Zé Moedas.

– Meu pai e poeta, um homem que viveu num mundo muito diferente do meu. Todos os dias penso nele de uma maneira ou noutra. O que faço também tem a ver com o que ele foi.

Foi um comunista.

– Sim, foi comunista. Mas respeitou sempre as minhas opções.

Em algum momento da sua juventude se aproximou politicamente do seu pai?

– Não. Uma vez o meu pai perguntou-me se queria ir para os pioneiros, tinha para aí 11 ou 12 anos, aquilo assustou-me imenso e não quis ir. O que fiz na minha juventude foi tentar não o dececionar. Com ele vivo nunca fiz qualquer coisa relacionada com política. Hoje, olhando para trás chego a essa conclusão. Penso que recalquei tudo o que era político para não o chocar e não o dececionar, guardei isso num cantinho interior. Como era bom aluno fui sempre fazendo a minha vida e um dia aceitei contribuir com o que sou.

Gosta da política.

– Muito.

E a sua mãe?

– A minha mãe é ternura.

Como se chama?

– Maria de Lurdes. Foi uma mulher que nunca teve oportunidade de estudar, começou por ser costureira e depois, numa altura em que as coisas começaram a correr mal no nosso dia-a-dia, trabalhou num infantário. Ainda é viva. E continua a ser ternura. Por vezes, quando preciso de encontrar calma, penso nela. E tudo fica bem.

Gostei mesmo muito.

– Agradeço-lhe bastante por esta conversa.

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