Carlos Brito. Rompeu com Cunhal para se afastar de Lenine, in Observador

No dia da Revolução dos Cravos, Carlos Brito encontrava-se em Lisboa onde era o responsável local pela estrutura do PCP. Por estar na clandestinidade, a queda do Estado Novo representou para ele um “dia espantoso”. “Antes, não podia ver a família, os amigos. O 25 de Abril foi para mim uma dupla ou tripla libertação”, relembrou em 2021.

Durante os primeiros anos do PCP em democracia, Carlos Brito confirmou a sua influência no seio do partido. Foi um dos 230 deputados constituintes, sendo eleito pelo círculo do distrito de Faro. Sobre essas primeiras eleições em democracia, reconheceu o “espanto enorme” que foi o curto resultado eleitoral dos comunistas (12,5%), muito longe do PPD de Francisco Sá Carneiro (26,4%) e ainda mais do PS de Mário Soares (37,9%). A expectativa era assumidamente outra, depois da “avalanche” de inscrições na sequência do golpe militar e da facilidade que o PCP tinha em mobilizar apoiantes para as ruas.

Ainda assim, o empenho de Carlos Brito na representação do partido não seria, por enquanto, abalado. Foi eleito deputado nas seis eleições legislativas seguintes, desde 1976 a 1991, tendo liderado a bancada parlamentar dos comunistas durante 15 anos. Apesar de ter ocupado um lugar central na estrutura do PCP ao longo destes anos, garante que mantinha a capacidade de divergir da linha oficial do partido. “Quando divergia, aceitava sempre, no entanto, a decisão da maioria. Defendi muitas vezes, na Assembleia da República e noutras instâncias, soluções e opções com as quais não estavam de acordo.”

Se o debate era “franco e aberto” no grupo parlamentar comunista, o “mérito” era de Carlos Brito, defendeu Vital Moreira numa crónica que dedicou ao amigo em 2021. Este outro dissidente do PCP, que foi vice-líder da bancada de Brito durante sete anos, destacou também a sua “convicta dedicação à frente parlamentar, quando o partido a menosprezava”.

No entanto, Carlos Brito esteve todos aqueles anos no centro de controlo da ação política do PCP. O seu gabinete era vizinho do líder do partido no sexto andar da sede oficial do partido, na rua Soeiro Pereira Gomes. Durante esses anos de grande proximidade com Álvaro Cunhal, o então líder parlamentar do PCP já ia defendendo que junto deste se fosse “esquecendo o marximo-leninismo”, contou anos mais tarde. Carlos Brito explicou que, apesar de tudo, existia uma boa convivência entre os dois, porque o líder do partido via nele alguém leal. “O Cunhal sabia que eu não queria ser secretário-geral do partido”, disse na mesma entrevista.

Essa confiança mútua ficou logo patente em 1980, quando Carlos Brito foi escolhido para ser o candidato apoiado pelo PCP às presidenciais do ano seguinte. Na apresentação da sua candidatura, afirmou que o seu “objetivo central e prioritário” era “barrar o caminho ao assalto da reação à Presidência da República”, que os comunistas viam representado no general António Soares Carneiro. Ora, dias antes de se realizar a eleição, Brito anunciou que “o Comité Central do PCP decidiu a desistência da sua candidatura” e apelou ao voto em Ramalho Eanes por este ser o melhor colocado para “derrotar o candidato das forças da reação”, que era apoiado pelo primeiro-ministro Sá Carneiro.

Anos mais tarde, voltou a assumir um papel de destaque na estrutura comunista. Entre 1992 e 1998, dirigiu o Avante, o órgão oficial de comunicação do PCP. Desde cedo com uma paixão pela escrita, Carlos Brito quis revitalizar o jornal, dando-lhe uma nova pujança. “No meu tempo, era um órgão vivo, polémico. Hoje não o é. E naquela altura foi muito difícil que o fosse”, lembrou em entrevista à RTP. Essa resistência em relação à linha editorial do jornal vinha diretamente das mais altas esferas do partido. “O camarada Cunhal dizia ‘Pá, isso não é muito um artigo de um órgão central, é mais um artigo de um semanário político’. E eu dizia-lhe ‘Mas eu quero fazer do Avante um semanário político’”.

“Há um grande sentimento de mal-estar e desgosto por ver que a direção do PCP entrou por este caminho persecutório que é um caminho de desastre para o partido.” Assim, reagia Carlos Brito ao seu afastamento do partido, numa altura em que já não tinha esperança que se revertesse a decisão. Dois anos depois da “carta-bomba”, continuava a militar no PCP, mas o secretariado comunista estava a ultimar a sua suspensão durante 10 meses. Nessa missiva privada, o histórico militante tinha considerado o clima de “suspeição” que se vivia no PCP era o seu “pior veneno”, prejudicando em grande medida o debate interno.

No entanto, a carta não apontava apenas o dedo, apresentava também medidas concretas para uma “profunda democratização” do partido. Estas passavam por reformas à organização do Congresso, através, nomeadamente, de outro método de eleição do Comité Central com possibilidade de apresentação de listas alternativas e voto secreto. Também se propunha a eleição de todos os coordenadores para pôr fim ao “comando dirigista” do partido. Além do mais, Carlos Brito pedia um incentivo à liberdade crítica com a promoção da “ampla circulação de informação e opinião”.

“Nunca ninguém discutiu a carta comigo e, a partir deste momento, passo a ser tratado quase como um inimigo da direção”, contou. A deterioração das relações acelerou quando a revista Visão publicou esse texto — segundo o autor, contra a sua vontade. Ao recordar esses momentos de maior tensão, o antigo diretor do Avante descrevia a sua postura como conciliatória, enquanto, por outro lado, acusava a direção do partido de promover uma campanha não provocada contra a sua pessoa.

Carlos Brito explicou que não tinha deixado de aceitar o programa político do PCP e de acompanhar “grande parte” dos seus estatutos. “O texto [da carta-bomba] não contraria estas ideias”, assegurou. Contudo, para ultrapassar o “marasmo ideológico e político” em que via o seu partido de sempre, o histórico dirigente comunista pedia um “regresso a Marx”, leia-se, um afastamento de Lenine. Como consequência da exposição pública destas ideias e críticas, Carlos Brito, assim como Edgar Correia e Carlos Luís Figueira, diziam estar a ser alvo de “sanha persecutória e estalinista” por “delito de opinião”.

A direção do PCP rejeitou que esse fosse o caso quando anunciou a sanção aos três militantes empenhados na renovação do partido, a 19 de julho de 2002. “Aquilo a que apelidam de ‘delito de opinião’ é tão só o artifício para disfarçar a sua recusa em aceitar que a sua opinião minoritária se não sobreponha à maioria de quem dela discorda”, denunciou o secretariado comunista, numa nota em que justificava as sanções aos três militantes sem nunca os nomear.

Depois, acrescentaram que os sancionados sabiam “pela sua própria experiência de dezenas de anos de militância partidária, que as opiniões diferentes ou divergentes nunca foram impedimento para o assumir responsabilidades, mesmo das mais elevadas, no PCP”. Ainda assim, segundo o secretariado do PCP, estes três militantes puseram em marcha “uma violenta e continuada campanha de deturpações e falsificações, sobre os princípios, práticas e principais orientações [do partido], visando atingir o seu prestígio e influência junto dos trabalhadores e da sociedade, dificultar a intervenção política, quebrar a sua unidade e provocar a desagregação orgânica”.

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