Ricardo Araújo Pereira: “A ideia de que a tecnologia humaniza parece-me bastante absurda”, in RTP

O humorista Ricardo Araújo Pereira foi o convidado da Grande Entrevista da RTP esta quarta-feira. Ao jornalista Vítor Gonçalves falou do seu novo espetáculo, “Verificando se você é humano”, e da sua relação com as tecnologias. “A ideia de que a tecnologia humaniza parece-me bastante absurda”, disse o humorista, vincando que “nas redes sociais as pessoas fazem mais scroll, veem mais o que lá está do que publicam coisas lá”.

“Nessa medida, as redes sociais hoje são mais o nosso grupo de chat no WhatsApp com os nossos amigos. Isso sim, é uma rede social que estabelece esse contacto”, considerou.

Na visão de Ricardo Araújo Pereira, “as redes sociais começam a ser outra coisa em que uma celebridade ou um influencer diz qualquer coisa e as outras pessoas limitam-se a ser espectadores disso”.

Sobre a Inteligência Artificial (IA) disse achar essa área “fascinante” e reconhece o seu “lado útil”, mas frisou que “esses modelos são muito aldrabões”.

“Há uma arrogância da parte daquilo que me repele”, afirmou na entrevista, acrescentando que “o humor é um exercício prático de ceticismo, o humor duvida”.“Verificando se você é humano”

Falando acerca do seu novo espetáculo, Ricardo Araújo Pereira explicou que “é sobre estar vivo agora em 2026” e tem também a ver “com o nosso confronto com a questão da tecnologia”.

O humorista abordou ainda o seu regresso ao stand up. “Sinto que estou quase sempre na estaca zero, mas acho que ao longo da vida tenho estado perante várias plateias (…) e sei duas ou três coisas. Às vezes são mais instintivas do que racionais”, afirmou.

Questionado sobre se há piadas dirigidas a públicos específicos, respondeu que “o público em geral é igual em todo o lado” e que “essa massa comporta-se como um organismo”, mas adiantou que no Porto teve um segmento especificamente sobre essa cidade.

Ser humorista “é uma profissão perigosa”

Dando como exemplo o caso dos Anjos com a humorista Joana Marques, que acabou por ir a tribunal, Ricardo Araújo Pereira lamentou que há quem considere que “uma piada é uma agressão”, no “sentido literal”. E, por isso, “uma transgressão ética”.

“Curiosamente, a Joana faz piadas sobre o que as pessoas dizem e pensam”, recordou.

E, mencionando o exemplo de Donald Trump, que tentou despedir um humorista, Ricardo Araújo Pereira admitiu que “é uma profissão perigosa”.

“Há quatro anos, um humorista foi agredido no palco por dizer uma piada”.

“Sou fã da liberdade”

Grande parte dos programas que faz são de sátira política, como o próprio admite. Até porque acha que “há qualquer coisa bastante saudável na ideia de nós podermos rir dos nossos dirigentes”.

“A política interessa-me”, afirmou, não deixando de acrescentar: “eu não sou um messias. Não tenho esse impulso messiânico”.

Ainda assim, criticou o que chamou de “privatização da verdade”.

“Quando eu era pequeno não era assim. (…) Cada um tem a sua verdade”, frisou. “Não tenho esse impulso de ser a pessoa que diz a verdade. O meu impulso é mais infantil: é acertar com a maçã podre na testa do grande dirigente. Isso interessa-me”.

O grande interesse é, na verdade, “na linguagem” política e sobre a política.

Com o crescimento da inteligência artificial, Ricardo Araújo Pereira não negou que receia que a liberdade esteja em risco.

“A liberdade é desagradável, porque implica (…) ouvir coisas que não gostamos, implica assistir a pessoas que vivem de uma forma que não achamos correta. Tudo isso, às vezes, causa engulhos, aborrecimentos. Mas nos regimes em que está tudo mesmo muito certinho, eu acho que se vive pior”.

“Sou um grande adepto dessa coisa tão problemática e desagradável que é a liberdade”.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.