Amar – Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!


Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!


Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!


E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Maria Emília Brederode Santos, por Francisco Seixas da Costa

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Um dia, escrevi aqui sobre as “giocondas” — as mulheres de sorriso enigmático que, ao entrarem numa sala, deixam um rasto de serenidade, ao mesmo tempo intrigante e elegante. Confesso que tinha na ideia duas amigas: Teresa Gouveia e Maria Emília Brederode Santos.

A Maria Emília morreu hoje, com 84 anos. Foi uma mulher de coragem, ao lado do grande amor da sua vida, José Medeiros Ferreira. Acompanhou-o no exílio e foi precisamente desse destino partilhado que a Maria Emília trouxe ao Congresso Republicano de Aveiro, em 1973, a comunicação em que Medeiros Ferreira, com inteligência premonitória, desenhou o quadro político-militar que iria “resolver” o 25 de Abril.

Mas a Maria Emília era muito mais do que a mulher do José Medeiros Ferreira. Tinha uma vida profissional e intelectual própria, centrada na educação, área onde assumiu responsabilidades singulares. Valerá também a pena recordar os seus excelentes programas na RTP.

Era irmã do Nuno Brederode — cuja obra quase completa ambos ajudámos a apresentar, há anos, numa bela sessão na Câmara de Lisboa. Espelhava, em tudo o que dizia, uma forte densidade. O seu humor, culto e preciso, tinha um registo deliberadamente diferente daquele em que o irmão mais novo era imbatível. Nas muitas e belas noites da tertúlia da “mesa dois” do Procópio, lembro-me de que tinha sempre uma palavra certa e delicada para todos.

Vimo-nos pela última vez há já algum tempo, numa boleia que lhe dei, depois de um almoço qualquer. Ela seguia para um evento público do PS a que eu disse que não tinha vontade de ir. Estranhou essa minha atitude: “Tem de me explicar um dia esse seu estado de espírito face ao PS”. Deixei-a à porta.

Há meses, a propósito de um livro do Nuno Brederode Santos que jaz, sem préstimo, nos armazéns de uma editora — ah, pois é! Deixo a novidade — prometi a alguém falar com a Maria Emília. Ela talvez pudesse ajudar a desbloquear o impasse que está a impedir a saída do livro. 

Hoje, abri o “A fazer” no meu telemóvel e lá estava a nota, o nome dela, ao lado de outras dezenas de lembretes sem sequência útil. A procrastinação é um defeito que, com o tempo, tenho vindo a aperfeiçoar de uma forma que pede meças.

O Zé Medeiros partiu há muito. O Nuno também. E agora sai de cena a Maria Emília. Resta aceitar as leis da vida — estranha expressão que usamos para nomear o imperativo da morte.

Adeus, Maria Emília.

Discurso de ódio e violência contra as mulheres, por Alexandra Leitão, in DN

O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo ao ano de 2025 apresenta dados que permitem dizer que Portugal é um país seguro. Houve um ligeiro aumento da criminalidade geral (3,1%), mas os crimes mais graves diminuíram 1,6%. A violência doméstica é o crime contra as pessoas com maior número de participações, embora tenha descido cerca de 1,9%, embora ainda se registem quase 30.000 participações.

Mas há dois indicadores que nos devem merecer particular atenção e grande preocupação. Um tem a ver com o aumento de 6,7% nos crimes de ódio, associados à radicalização e ao recrutamento de jovens online; o outro com o facto do número de queixas por violação ser o maior da década (578 casos, que comparam com 542 em 2024). Metade das violações ocorram no âmbito familiar e em mais de 90% das situações a vítima é mulher, tendencialmente dos 21 aos 40 anos.

Em 2015 foram registadas 19 ocorrências qualificadas como crimes de ódio, em 2025 esse número foi de 449, um crescimento de 2263%. No RASI associa-se este aumento ao uso da internet (pág. 31: “verificou-se um aumento da presença de utilizadores portugueses, sobretudo menores e jovens adultos, em grupos online de matriz aceleracionista e neonazi, de âmbito nacional ou transnacional, bem como em grupos satânicos, incel e niilistas ou pós-ideológicos, que glorificam a violência e que, em muitos casos, também apresentam relação com a extrema-direita”) e à extrema-direita (pág. 30: “ao disseminar propaganda e desinformação online, continuou a promover a normalização do discurso público da discriminação, do ódio e de ideias antidemocráticas, contribuindo para suscitar comportamentos racistas ou xenófobos, e radicalizar militantes e simpatizantes para a ação violenta”). Os perpetradores são sobretudo homens, portugueses, cada vez mais jovens.

Apesar de não haver estudos que relacionem diretamente o discurso de ódio com os crimes sexuais, a verdade é que aquele é dirigido contra minorias – em função da nacionalidade, da raça, da religião ou da orientação sexual, mas inclui também e cada vez mais um discurso profundamente misógino. O crescimento de conteúdos que promovem a superioridade masculina e a “masculinidade tóxica”, associado a comunidades de “incels” (celibatários involuntários) e a influenciadores agressivos com milhões de seguidores nas redes sociais que fazem a apologia da subjugação feminina – sendo que recentemente veio a público que têm presença em escolas portuguesas – cria um contexto favorável a todas as formas de violência contra as mulheres, incluindo, naturalmente, crimes sexuais.

Estes dados do RASI são alarmantes e demonstram bem como, a coberto de uma confusão propositadamente criada por alguns entre discurso de ódio e liberdade de expressão, aquele crime está a propagar-se. Além de ser uma forma de incitar à prática de outros crimes graves, o discurso de ódio é o oposto da liberdade de expressão porque procura condicionar, através do medo, a liberdade e os direitos das vítimas da violência e da discriminação que aquele discurso comporta.