O sortilégio da arte e da moda, por Guilherme d’Oliveira Martins, Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura, in DN

Chega até nós o eco da relação íntima de Calouste Gulbenkian com o seu tesouro artístico, o cofre das maravilhas da Avenue Iéna: “Aí em deslumbrada solidão, admirava a beleza artesanal de um colar, de um alfinete de peito; a cintilação de uma esmeralda, de um rubi, de uma safira, a pureza de um diamante azul; ou ainda o requinte de uma guarnição de renda francesa ou veneziana, os folhos e entremeios usados pelas nobres damas de outrora.”

Quem o diz é Madame Chaunet, guardiã fiel da preciosa coleção. Desde a primeira moeda adquirida pelo jovem colecionador às preciosidades Lalique, é um mundo fantástico que se encontra no Museu. No ambiente requintado da exposição Arte & Moda podemos usufruir do secreto prazer que levou Gulbenkian a fazer a demonstração de que a moda nasce do paradoxo da permanente oscilação entre a singularidade e a coletividade.

Os diálogos são surpreendentes. Um bordado de Sarah Burton para Givenchy encontra-se com uma caixa lacada japonesa; um vestido Delphos de Fortuny e um modelo de Azzedine Alaïa revelam as sublimes divindades de Sir Edward Burne-Jones; o verde Nilo como cor da moda de oitocentos revela uma jarra de porcelana chinesa do período Qianlong, junto a um vestido de Balmain; o fantástico vestido Magnificent Gold, de Guo Pei, demonstra como uma máscara funerária egípcia do século IV a. C. ainda projeta a sua força transcendente; e o vestido de baile de Worth ilumina a senhora Lowndes-Stone no célebre retrato de Gainsborough.

Como diz Eloy Martinez de la Prada Celada, o comissário-geral, o tempo transcende-se através da forma. A arte prolonga-se no ilusoriamente efémero da moda. Estamos num autêntico laboratório de pensamento. Cada pormenor encerra uma chave universal.

António Filipe Pimentel, Xavier Salomon, Jessica Hallet emprestaram o seu gosto e talento a este “espaço de beleza, cumplicidade e memória”. Leia-se, siga-se com atenção, o extraordinário catálogo. Cada imagem, cada palavra, cada detalhe demonstram o verdadeiro sortilégio do tempo.

Flores intemporais marcam a presença da eternidade, o azul e branco chinês associa a cerâmica e a delicadeza dos têxteis, a gentileza do quimono enaltece as lacas japonesas, a alta-costura de hoje leva-nos aos motivos clássicos da China imperial e aos biombos de laca Coromandel, o dragão e a fénix resumem a sabedoria ancestral.

O nosso Filipe I, filho da mais bela imperatriz da cristandade, vestiu de negro, e impô-lo a todos os grandes do Sacro-Império, pois tinha o exclusivo do célebre “asa de corvo”, a partir da raiz do pau-campeche originário do México. Eis o paradigma da distinção. O retrato de homem, de Anton van Dyck ilustra bem o soberbo contraste entre a austera indumentária negra, a gorjeira e os punhos de alvura reluzente, tal como a renda de Alexander Mc Queen para Givenchy. O vestido e a écharpe de Roy Halston deixam-nos extasiados perante a serenidade da jovem de Ghirlandaio. E o enamoramento não cessa diante do vestido e bolero Oiseaux du Paradis de Jean Paul Gaultier, rendidos a Helena Fourment do imortal Rubens.

Não há palavras que possam definir o encantamento. E o entusiasmo posto na apresentação da requintada mostra pelo comissário não oferece dúvidas, como genuína prova de um amor intenso à arte, suscitada por uma fabulosa coleção. Colecionar beleza e salvaguardar a perenidade da moda, eis como é possível irmos em busca do tempo.

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