Historiador Daniel Pires | Uma obra que mostra o verdadeiro Bocage, por Adelto Gonçalves

O historiador Daniel Pires consegue reunir numa pequena biografia os acontecimentos mais importantes da vida do poeta.

                                                                I
            Uma biografia sucinta, que abriga os principais aspectos de uma vida breve, porém repleta de acontecimentos inauditos que não impediram o poeta de construir uma obra marcante na história da literatura de língua portuguesa, é o que o leitor vai encontrar em O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda – IN-CM, 2025), do historiador, pesquisador e professor Daniel Pires, autor de outros livros sobre o biografado e coordenador e editor de vários trabalhos de divulgação da produção bocageana.
Escrito em linguagem fluente que não exige maiores atenções do leitor com numerosas notas de rodapé, esta obra destinada a um grande público é mais um esforço para reverter a desgastada imagem de Bocage (1765-1805) como poeta chocarreiro, visto apenas como autor de sonetos eróticos e piadas maliciosas. Esta é uma imagem que se foi construindo através de tempos imemoriais e que permaneceu inalterada até há alguns anos, mas que, agora, enfim, é revertida e cumpre a aspiração de alguns dos contemporâneos do poeta que seria a de elevá-lo à condição de um novo Luís de Camões (1524-1580).


            Afinal, como diz Daniel Pires, trata-se de um autor de obra vastíssima, apesar de ter falecido aos 40 anos, que nos legou “composições que, pela sua universalidade, depuração formal e autenticidade são intemporais”. E que, como acrescentou, “cultivou, de forma inovadora e autêntica, a poesia, o drama e a tradução, pondo em causa cânones, aparentemente inamovíveis, contribuindo para a construção de outros mais consentâneos com o dinamismo que caracterizou a sociedade do século XVIII”.
Para o pesquisador, esse Bocage, “livre-pensador insubmisso, heterodoxo”, foi “um arauto do porvir”, ao anunciar algumas das medidas que, mais tarde, a Revolução Liberal de 1820 e o regime republicano implementaram. E que, “aliando o gênio poético à sede de pugnar por direitos humanos inalienáveis, ponderou questões fraturantes que continuam pertinentes na atualidade”.
                                                           II
A obra começa mostrando como eram a época e a terra natal do poeta, a cidade de Setúbal, além de fazer um retrospecto da família Barbosa du Bocage, da qual ele descendia, que incluía ascendentes franceses, como o capitão de mar e guerra Gilles Hedois du Bocage (1658-1727), que, em 1711, já integrado às forças armadas lusas, ajudou a defender o Rio de Janeiro de um ataque empreendido pelo comandante francês René Duguay-Trouin (1673-1736). Sua mãe, Mariana Joaquina Xavier Lustoff du Bocage (1725-1775), descendia desse cidadão. Já o seu pai, José Luís Soares de Barbosa (1728-1802), formado em Cânones, em 1749, pela Universidade de Coimbra, ouvidor em Beja, seria acusado (sem provas) de desviar a arrecadação da décima e teve de cumprir pena na cadeia do Limoeiro, entre 1771 e 1777.
A breve biografia avança a partir dos anos escolares de Bocage e a influência da família sobre sua formação, inclusive sobre a sua opção pela poesia desde cedo, já que o pai também compunha poesias. E uma tia-avó, madame Anne-Marie du Bocage (1710-1802), interlocutora de Voltaire (1694-1778) e poetisa de vulto, seria uma figura tutelar sempre lembrada em conversas familiares.
Em seguida, há um retrospecto da carreira de armas de Bocage a partir dos 16 anos de idade, como soldado do Regimento de Infantaria de Setúbal, de 1781 a 1783, bem como sua viagem para o Oriente, a partir de 1786, a bordo da nau Nossa Senhora da VidaSanto Antônio e Madalena, mais conhecida apenas como Vida, que passou pelo Rio de Janeiro e seguiu para a Ilha de Moçambique, ancorando depois em Goa. Por lá, em 1789, seria promovido a primeiro-tenente do Exército, e mobilizado para Damão, onde desertou sem causa conhecida. Depois, passou por Cantão e chegou a Macau, antiga colônia portuguesa, região administrativa especial da China desde 1999, de onde regressou ao reino.
Em Lisboa, passou a frequentar cafés, botequins, casas de pasto, tabernas e o Passeio Público, mantendo contatos com pessoas que eram mal vistas pelo intendente-geral da polícia, Diogo Inácio de Pina Manique (1733-1805), que espalhava seus agentes, os chamados moscas, por todos os lados a pretexto de combater a subversão, especialmente aqueles que se mostravam adeptos das ideias propaladas pela Revolução Francesa de 1789. Seus versos passaram a correr de mão em mão e o levaram a aderir à Academia de Belas Letras com o nome arcádico de Elmano Sadino.
 Logo, porém, acusado de aderir à maçonaria e de dispor de papeis “ímpios”, conheceria as agruras do cárcere em 1797 e, depois, em 1802. Antes, em 1799, a convite de dom Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), então ministro do Negócios da Marinha e Ultramar, passou a trabalhar como tradutor na Oficina do Arco do Cego, tendo perdido o único emprego regular que teve na vida, em 1801, quando a editora passou para a jurisdição da Impressão Régia.
                                                           III
O estado de saúde de Bocage agravou-se no início de 1805, talvez em razão de sua vida desregrada, que incluiria alimentação irregular, uso imoderado de álcool e de tabaco e até “relações sexuais de risco”, como diz o biógrafo. Até então, já havia publicado o terceiro tomo de suas Rimas. Em seus dias de desespero diante da morte iminente, por iniciativa de um amigo, publicou Improvisos de Bocage na sua mui perigosa enfermidade, cuja venda de seus exemplares o teria ajudado a enfrentar aqueles dias difíceis. Por essa época, ainda publicou Colecção dos novos improvisos de Bocage, mas o aneurisma nas carótidas, enfermidade letal na época, de que sofria aumentou sua pressão e o levou à morte em 21 de agosto de 1805, pelas 22 horas e quinze minutos, um sábado de muitas chuvas.
Além da biografia, Daniel Pires faz ainda uma análise depurada da extensa e multímoda obra do poeta, que incluía praticamente todos os gêneros poéticos da época, como soneto, ode, glosa, epicédio, canto, cantata, décima, oitava, ditirambo, elogio, elegia, epigrama e outros. Só sonetos seriam cerca de 400, “os quais obreiam, bastas vezes, com os de Camões”. Mas “cerca de um quinto de seus poemas só viu os prelos postumamente”, observa o biógrafo, advertindo, porém, que muitas das composições que lhe teriam sido atribuídas não seriam de sua lavra, ou seja, muitas seriam da autoria de elmanistas, “que imitavam o seu mestre com destreza”, inclusive composições de caráter erótico e até pornográfico, que a tradição erroneamente atribuiu a Bocage.
O biógrafo mostra ainda Bocage como crítico do catolicismo. E lembra que no poema “Pavorosa ilusão da eternidade”, que circulou clandestinamente, ele acusa “o catolicismo de constituir uma caricatura do cristianismo porquanto se transformara numa doutrina punitiva”. E lembra que nesse poema a concepção teológica do poeta é radicalmente diferente, como se constata nestes versos:
            “Oh Deus, não opressor, não vingativo,
            Não vibrando com a dextra o raio ardente
            Contra o suave instinto que nos deste;
            Não carrancudo, ríspido arrojando
            Sobre os mortais a rígida sentença.
            A punição cruel, que excede o crime. (…)
            Há Deus, mas Deus de paz, Deus de piedade”.
Por fim, o biógrafo faz uma resenha das múltiplas homenagens que até hoje são prestadas ao poeta, como a inauguração de uma estátua em sua homenagem em Setúbal, em 1871, as comemorações em 1905 a propósito do centenário de sua morte e outras como a de 1965, aquando do bicentenário do seu nascimento, bem como a influência do poeta nas artes plásticas, no teatro, no cinema e na música. Em outras palavras: por estes ligeiros apontamentos se vê que o leitor irá encontrar nesta obra, de poucas páginas, um perfil muito bem acabado dessa “personalidade indelével da cultura portuguesa”.
                                               IV
            Doutor em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa, Daniel Pires (1951) é mais conhecido por suas pesquisas sobre Bocage, sua paixão literária, o que o levou a fundar em 1999 o Centro de Estudos Bocageanos, em Setúbal, além de defender tese de doutoramento a respeito da obra do poeta. Foi responsável pela edição da Obra completa de Bocage, publicada pela editora Edições Caixotim, do Porto, entre 2004 e 2007.  
Nascido em Lisboa, é licenciado em Filologia Germânica e já deu aulas de inglês no ensino secundário e foi professor em Setúbal. Sua paixão pela pesquisa e seu gosto pelo conhecimento já o levaram a trabalhar em São Tomé, Angola, Moçambique, Macau, China, Goa e Escócia. Em Macau, viveu por três anos, entre 1987 e 1990, onde atuou na Universidade local, e, mais tarde, ensinou na Universidade de Cantão, a cerca de 120 quilômetros de Hong Kong.
Tem realizado numerosas atividades, como colóquios, conferências, visitas guiadas e exposições, e desenvolvido intensa atividade editorial, tendo editado já dezenas de livros. É editor de Obras completas de Bocage (Lisboa, IN-CM, 2016-2018, 3 volumes, 4 tomos) e autor de Bocage ou o elogio da inquietude (Lisboa, IN-CM, 2019) e Fábulas de Bocage (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2000).
Organizou e publicou a brochura da Exposição biobibliográfica comemorativa dos 230 anos de nascimento e dos 190 anos da morte de Bocage (Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal/Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, 1995). Com Fernando Marcos, preparou a edição de uma pasta com 15 belos cartões postais (sépia) sobre Bocage na prisão (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 1999), além de fazer parte das comissões que organizaram as comemorações do bicentenário da morte de Bocage, em 2005, e as comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, em 2015.  
Acaba de publicar Obra de Bartolomeu de Gusmão (Lisboa, IN-CM, 2026), com quinze inéditos desse sacerdote secular nascido em 1685, em Santos, no Brasil, que ficou conhecido como padre voador, por ter inventado o primeiro aeróstato operacional (balão de ar quente), a “Passarola”, com o qual subiu aos céus em 1709, em Lisboa. Diplomata, poliglota e erudito, é considerado o primeiro cientista do continente americano. Morreu em 1724, em Toledo, na Espanha.
Daniel Pires publicou ainda o Dicionário da imprensa periódica literária portuguesa no século XX (Lisboa, Editora Grifo, 1996), constituído por três volumes.  Colaborou no Dicionário de História de Portugal e no Dicionário de Fernando Pessoa e é autor do Dicionário da imprensa de Macau do século XIX, trabalho iniciado em 1990 em que descreve todos os periódicos que foram publicados em Macau no século XIX, incluindo os jornais ingleses que, durante a Guerra do Ópio (1839-1842 e 1856-1860), saíram simultaneamente em Macau e em Cantão, e do Dicionário de imprensa periódica do Antigo Regime em Portugal (Lisboa, Theya Editores, 2024).
É autor de A imagem e o verbo – Fotobiografia de Camilo Pessanha (Instituto Cultural do governo da Região Administrativa Especial de Macau/Instituto Português do Oriente, 2005), além de artigos sobre esse poeta nascido em Coimbra em 1867 e que, a partir de 1894, viveu em Macau, onde morreu em 1926. Escreveu também trabalhos sobre o poeta Wenceslau de Moraes (1854-1929).  E organizou Camões pequeno – Obra completa de Francisco Álvares da Nóbrega (2024), que reúne produções desse poeta madeirense nascido em 1773, em Machico, e falecido em 1806, em Lisboa.
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O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage, de Daniel Pires. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 5,40 euros, 86 páginas, 2023. Site da editora: www.imprensanacional.pt E-mail: editorial.apoiocliente@incm.pt E-mail do autor: danielbrspires@outlook.pt
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(*) Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; LetraSelvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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