Françoise Bianchi | Edgar Morin: entre Montaigne y Spinoza

Revista Iniciativa Socialista (primeiro período da revista trasversales atual), número 76, verão 2005-2006,
Texto inicialmente apareceu em Estudos Culturais FrancesesEdgar Morin , Universidade de Southampton, 1998, pp. 387-396. Traduzido e publicado com a permissão do autor. Françoise Bianchi é professora da Universidade de Pau e autora de Le fil des idées [Seuil, 2001], uma biografia intelectual de Edgar Morin.

A ideia de relacionar o pensamento de um escritor do século XX com a de seus ilustres antecessores dos séculos XVI e XVII pode ser surpreendente à primeira vista. A priori, tudo separa as obras de Montaigne e Spinoza da de Edgar Morin. São obras que surgiram às vezes muito diferentes para que seu confronto fosse frutífero. Na realidade, não se poderia falar de “filiação”· Incluindo. Para o resto, o que uma obra literária, uma obra filosófica e o trabalho de um sociólogo têm a ver com isso?
Mas aqui não se trata disso, mas sim de aproximar os projetos de escrita e de apontar suas preocupações comuns, aqueles que norteiam o interrogatório, além das mudanças de episteme, utilizando a terminologia de Michel Foucault [1966, 1968], além, sobretudo, das classificações usuais estabelecidas pela história da literatura e da filosofia.

De Montaigne

Embora seja estranho começar com isso, quero salientar que Edgar Morin é marrano, como Montaigne. Claro, por razões históricas bem conhecidas, uma memória familiar e comunitária estava presente que no século XVI não foi invocada, exceto talvez em alguma alusão amigável e codificada, como a que Edgar Morin [entrevista pessoal, 12/6/1996] acredita presente na carta de Montaige ao seu pai na qual ele relata as palavras de La Boêtie em seu leito de morte dirigindo-se ao padre que acabou de dizer missa: “Eu ainda quero dizer estas palavras em sua presença: eu protesto que como fui batizado e vivi, então eu quero morrer sob a fé e religião que Moisés implantou pela primeira vez no Egito, que os santos padres então receberam na Judéia, e que de mãos dadas, pelo passar do tempo, foi trazido para a França” [Montaigne, 1962].
Qualquer que seja o escopo exato dessas palavras, Montaigne, o Gascon, também era um espírito universal, cuja curiosidade o fez se abrir para outras culturas, e que, o que quer que Barrès diga, não tinha medo de estabelecer contato com o que estava além das fronteiras de sua terra natal [Montaigne 2003, I-31, III-6, III-9].

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“É preciso ensinar a compreensão humana” | Edgar Morin | in Revista Prosa Verbo e Arte

“Human understanding must be taught”

We have become accustomed to believing that thought and practice are separate compartments of life. Whoever thinks the world does not make the world and vice versa. But, there was a time when the sages, eventually called scientists or artists, circulated in different fields of culture. Mathematics, physics, architecture, painting, sculpture were the raw material of thought and action. The industrial revolution brought down the idea of Renaissance knowledge and, since the 19th century, specialization has been gaining strength.

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“É preciso ensinar a compreensão humana” | Edgar Morin | in Revista Prosa Verso e Arte

Nos acostumamos a acreditar que pensamento e prática são compartimentos distintos da vida. Quem pensa o mundo não faz o mundo e vice-versa. Mas, houve um tempo em que os sábios, eventualmente chamados de cientistas ou artistas, circulavam por diversos campos da cultura. Matemática, física, arquitetura, pintura, escultura eram matéria-prima do pensamento e da ação. A revolução industrial veio derrubar a ideia do saber renascentista e, desde o século 19, a especialização foi ganhando força.

Mas, sempre haverá quem nos lembre que a vida é produto de um contexto, de um acúmulo de vivências e ideias. Pense num filósofo que pegou em armas contra o nazismo para depois empunhar as ferramentas da retórica contra o stalinismo, que reconhece a importância dos saberes dos povos originais sem abrir mão de pensar e repensar a educação formal.

Com mais de 90 anos, o francês Edgar Morin, nascido e criado Edgar Nahoum no início do século 20, é um dos mais respeitados pensadores do nosso tempo. Com uma gigantesca produção literária, pedagógica e filosófica. Em tempos de radicalismos, Morin é herdeiro do melhor do humanismo francês. Em entrevista ao programa Milênio, Edgar Morin fala sobre o extremismo e o significado da educação na contemporaneidade. Leia abaixo:

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O verdadeiro papel da educação | Edgar Morin

“A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida. Esse é o seu verdadeiro papel.”

O filósofo francês Edgar Morin fala sobre um dos temas que o tornou uma influência mundial, a educação. Morin fala sobre a necessidade de estimular o questionamento das crianças, sobre reforma no ensino e sobre a importância da reflexão filosófica não tanto para que respostas sejam encontradas, mas para fomentar a investigação e a pluralidade de possíveis caminhos. Leia abaixo:

O senhor costuma comparar o nosso planeta a uma nave espacial, em que a economia, a ciência, a tecnologia e a política seriam os motores, que atualmente estão danificados. Qual o papel da educação nessa espaçonave?
Ela teria a função de trazer a compreensão e fazer as ligações necessárias para esse sistema funcionar bem. Uso o verbo no condicional porque acho que ela ainda não desempenha esse papel. O problema é que nessa nave os relacionamentos são muito ruins. Desde o convívio entre pais e filhos, cheio de brigas, até as relações internacionais — basta ver o número de guerras que temos. Por isso é preciso lutar para a melhoria dessas relações.

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Edgar Morin: “Estamos caminhando como sonâmbulos em direção à catástrofe”

Traduzido do site TerraEco

O que fazer neste período de crise aguda? Indignar-se, certamente. Mas, acima
de tudo, aja. Aos 98 anos, o filósofo e sociólogo nos convida a resistir ao
ditame da urgência. Para ele, a esperança está próxima.

Por que a velocidade está tão arraigada no funcionamento de nossa
sociedade?

A velocidade faz parte do grande mito do progresso que anima a civilização
ocidental desde os séculos 18 e 19. A idéia subjacente é que agradecemos a
ela por um futuro cada vez melhor. Quanto mais rápido formos em direção a
esse futuro, melhor, é claro.

É neste contexto que as comunicações, econômicas e sociais, e todos os tipos
de técnicas que possibilitaram a criação de transporte rápido se multiplicaram.
Penso em particular no motor a vapor, que não foi inventado por razões de
velocidade, mas em servir a indústria ferroviária, que se tornou cada vez mais
rápida.

Tudo isso é correlativo por causa da multiplicação de atividades e torna as
pessoas cada vez mais com pressa. Estamos numa época em que a
cronologia se impõe.

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NOS CEM ANOS DE EDGAR MORIN | José Tolentino Mendonça

Por estes dias fará cem anos Edgar Morin. É curioso que um dos pensadores decisivos da contemporaneidade se tenha, desde sempre, considerado um “autodidata”. Os seus pais desembarcaram como emigrantes em França, provenientes de uma cidade do império otomano. Eram judeus, de tradição sefardita, mas sem prática religiosa, que se exprimiam num espanhol antigo e em francês, sem nunca haver recebido a cidadania turca. Refletindo sobre as suas origens, Morin individua uma multiplicidade de raízes mediterrâneas, mas não propriamente um país, uma particular herança cultural ou uma tradição. Este facto, tornou-o disponível, até do ponto de vista biográfico, para procurar a verdade nas fontes mais diversas, sem nenhum tipo de reserva. Como ele conta, nunca sentiu operativo dentro de si um sistema imunitário de defesa.

Ao dez anos de idade, a morte da mãe fá-lo mergulhar numa experiência de luto, que de certa maneira moldará o que se torna um posicionamento mental, oscilante entre uma inquietação sem fim e uma esperança irreprimível. Ele viverá toda a vida tentando transformar esse contraditório balanço num movimento complementar, convicto de que cada polaridade transporta afinal consigo uma verdade: de um lado a dúvida sistemática e do outro a busca incessante de uma fé; de uma parte, o exercício metódico da racionalidade e, doutra, por exemplo, a abertura ao indizível entrevisto pela mística. Edgar Morin resume assim o seu itinerário: “Senti-me sempre chamado a construir um pensamento que me permitisse reconhecer e acolher as contradições, lá onde o pensamento dito normal não vê senão alternativas, e a descobrir as minhas verdades em pensadores que se nutrem de contradições.” Efetivamente, a sua ampla cartografia intelectual é marcada por uma heterogeneidade de referências que vão da literatura (Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov, Proust…) à ciência (Heinz von Foerster, Niels Bohr…), da espiritualidade (Jesus, Lao Tsé ou Buda) à filosofia (Heráclito, Pascal, Hegel, Marx ou Kierkegaard), do estrito campo científico à poesia (foi muito importante para Morin a convivência com alguns expoentes do movimento surrealista). Esta sua “fome omnívora de pensamento” forjou nele uma invulgar competência transdisciplinar que o conduziu àquele que constitui certamente um dos seus contributos centrais para o debate contemporâneo: a noção de complexidade.

E a complexidade é não só aquela verdade que nos forma, mas também aquela de que mais precisamos ganhar consciência. Por isso, segundo ele, o futuro obriga-nos a aprender a pensar dialogicamente, pois o que parece separado reenvia-nos, no fundo, à experiência da inseparabilidade. O mistério do humano constitui uma espécie de anel ininterrupto em que cada elemento reclama o outro: “O humano faz parte da vida e a vida faz parte do humano; o humano integra o mundo físico e este, por sua vez, o integra; o humano é indissociável da história do cosmos e esta não se conta sem o humano.” Do mesmo modo, cada um de nós é uma individualidade concreta, mas transporta em si a forma da inteira condição humana.

Somos um só e somos todos. Porém, devemos saber, que esta compreensão da complexidade não é um automatismo, mas uma escolha ética. O planeta mundializado pelo atual regime da globalização, por si só, não nos torna mais unidos, solidários e fraternos. Temos de ser nós a fazer valer eticamente as implicações da diversidade e da unidade, reconhecendo, como sugere Morin, que a diversidade humana é um precioso património da sua unidade e a unidade humana é um bem inalienável da diversidade que nos caracteriza. O humanismo que Edgar Morin propõe é, assim, uma lição de inclusão e de esperança.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

Edgar Morin | As certezas são uma ilusão | in Fronteiras do Pensamento

Ao conferir uma leitura sobre a pandemia do coronavírus e o isolamento social em entrevista ao jornal francês CNRS, o filósofo Edgar Morin explicita que o cenário nos impõe desconstruções: a desconstrução da crença em verdades absolutas na ciência, da obstinação por garantias e certezas, e da pesquisa sem controvérsias.

O momento em que vivemos tende a convencer cidadãos e pesquisadores de que as teorias científicas são biodegradáveis e que “a ciência é uma realidade humana que, como a democracia, se baseia em debates de ideias, embora seus métodos de verificação sejam mais rigorosos”.

Aos 98 anos, Morin acredita que somos obrigados a encarar as incertezas, mas que podemos abraçar a certeza dos fatos que acompanhamos diariamente: o despertar da solidariedade e a oportunidade de reforçar a consciência das verdades humanas que fazem a qualidade de vida: amor, amizade, comunhão e solidariedade. Leia a entrevista completa abaixo.

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Edgar Morin : “Qu’est-ce que l’amour ? C’est le comble de l’union de la folie et de la sagesse” | in France Culture

L’amour, la poésie, la sagesse, illuminent nos vies tout en cachant leur énigme et leur complexité… Dès lors se pose la question : que peut être une sagesse moderne ?

Le philosophe et sociologue Edgar Morin était l’invité de l’Université permanente de l’Université de Nantes, jeudi 12 décembre 2013, pour une conférence intitulée “Amour, poésie, sagesse”, titre éponyme de l’un de ses ouvrages. L’occasion pour l’un des plus grands penseurs contemporains de nous livrer sa vision de l’amour.

Edgar morin s’interroge sur l’amour, la poésie, la sagesse qui illuminent nos vies tout en cachant leur énigme et leur complexité… L’amour ne vit, soutient-il, que dans l’état d’un “innamoramento”, se régénérant sans cesse de lui-même. La poésie est cet “état second” qui nous envahit dans la ferveur, l’exaltation, et bien sûr l’amour : elle nous fait habiter, non seulement prosaïquement, mais aussi poétiquement la terre. Quant à la sagesse, elle était dans le monde antique synonyme de vie raisonnable. mais nous savons que l’homo sapiens est également un être d’affectivité, de passions et de délire, c’est-à-dire qu’il est à la fois sapiens et démens.

Quelles sont les sources de l’amour ? Dans tout individu, nous avons deux logiciels : le premier, c’est l’affirmation du “je”, le “moi je”. Je me mets au centre de mon monde, autrement dit, c’est l’égocentrisme. L’égocentrisme nous est vital puisque nous avons besoin de nous nourrir, de nous défendre, de nous protéger… Bien entendu, l’égocentrisme risque de dégénérer en égoïsme s’il n’y avait pas l’autre logiciel qui est complémentaire, en même temps qu’antagoniste, celui du “nous”. Nous avons donc en nous ces deux principes complémentaires.

Une conférence enregistrée en décembre 2013.

Edgar Morin, philosophe et sociologue | in FRANCE CULTURE

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