BORGES, OS LAPSOS E A EUROPA DO EXTREMO-OCIDENTE | Fernando Couto e Santos

O recente Congresso Internacional da Língua Espanhola – que se realizou no final do passado mês de março na Argentina – ficou marcado pelo discurso inaugural do rei Felipe VI. Por lapso, o monarca espanhol, ao referir-se ao mais conhecido e universal dos escritores argentinos de todos os tempos, nascido em 1899 e falecido em 1986, trocou-lhe o nome e, em vez de o identificar como Jorge Luis Borges, chamou-lhe José Luis Borges. Muitos observadores glosaram sobre este equívoco de sua majestade, se seria sinónimo de desinteresse pela literatura ou resultado de uma mera distração. Afinal – afirmaram alguns – embora Jorge seja um nome comum, José é-o ainda mais e José Luis é no mundo hispânico – tal como no lusófono, aliás – mais corrente do que Jorge Luis (em castelhano Luis não leva acento na letra «i»). Em tempos, conversando com alguém que conheci e que, não sendo particularmente erudito, tinha a pretensão de saber alguma coisa de literatura, tive a surpresa de verificar que o dito cujo parecia nunca ter ouvido falar de Jorge Luis Borges, visto que me respondeu, perante uma citação que lhe fiz do génio argentino, que desconhecia que o padre José Luís Borga escrevesse livros, pois pensou que eu me referia a um tal padre cantor que, por acaso, entretanto, até já publicou um livro. Por conseguinte, a confusão entre Jorge Luís e José Luís é deveras vulgar. Que eu saiba, não existe nenhuma figura pública chamada Jorge Luís Gomes de Sá, pois correria o risco de ser confundido com uma reencarnação ou um descendente do famoso negociante de bacalhau e comerciante portuense José Luís Gomes de Sá Júnior (1851-1926) que deu origem à célebre receita de Bacalhau à Gomes de Sá.


Voltando a Borges – que tinha, aliás, um avoengo português -, o futuro escritor argentino foi batizado como Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, mas assinava como Jorge Luis Borges. Curiosamente, o lapso do rei Felipe VI não é original, pois não foi a primeira vez que trataram o conceituado escritor por José Luis Borges. Tudo começou com uma notícia apócrifa – com a cumplicidade, dirão alguns, do próprio Borges – da revista argentina Cabildo, nos anos setenta da pretérita centúria. A história foi relembrada com toda a propriedade, uns anos mais tarde, pelo escritor italiano Leonardo Sciascia (1921-1989), admirador de Borges, numa crónica intitulada «Borges inesistente», recolhida ulteriormente no livro Cronachette. De acordo, pois, com a revista argentina, Borges teria sido criado por um grupo de escritores dos quais fariam parte Leopoldo Marechal -já falecido na época, autor do famoso romance Adán Buenosayres -, Adolfo Bioy Casares – grande amigo de Borges e co-autor de dois ou três dos seus livros – e Manuel Mujica Láinez que escreveu, entre outras obras ilustres, o romance Bomarzo. A figura que aparecia publicamente apresentando-se como Borges seria um ator de segunda categoria chamado Aquiles Scatamacchia, um nome, como bem lembrava Leonardo Sciascia, digno da commedia dell´arte! Segundo as crónicas -obviamente apócrifas -, o «pot aux roses» teria sido descoberto pela Academia Sueca que se preparava para conceder o Prémio Nobel a Borges.
A história tem, lembrava ainda Sciascia, algum paralelo – embora de sentido inverso – com a de Romain Gary (1914-1980) que durante uns anos escreveu livros com o nome de Émile Ajar, convencendo o seu parente Paul Pawlovitch a fazer-se passar por este último, até a verdade ser finalmente revelada. Destarte, o conhecido escritor foi o único a ganhar por duas vezes o prémio Goncourt, o mais importante das letras francesas, uma como Romain Gary e outra como Émile Ajar. Quanto a Borges, o curioso da história é que o prestigiado diário francês Le Monde, ao dar a notícia da suposta impostura veiculada pela revista Cabildo, escreveu direito por linhas tortas ao denominar o escritor como …José Luis Borges. Efetivamente, não existia nenhum escritor argentino de nome José Luis Borges…
Jorge Luis Borges é a figura mítica e tutelar da literatura argentina, uma figura da qual – como escreveu há uns anos Alan Pauls- todos na Argentina são especialistas, mesmo aqueles que nunca leram a sua obra. A Argentina é, aliás, um país sui generis, cuja capital, Buenos Aires, baila ao ritmo do tango e das suas magníficas livrarias, entre as melhores do mundo, em beleza e na qualidade do acervo. Este país da América Latina que, no entanto, uma personagem de um breve romance de Edgardo Cozarinsky, lido há tempos – intitulado, La tercera mañana- classificava como a Europa do Extremo -Ocidente, tem uma literatura rica e variada. Houve Borges, mas também, entre outros, Roberto Arlt, Julio Cortázar, os já citados Adolfo Bioy Casares, Manuel Mujica Láinez e Leopoldo Marechal e ainda Macedonio Fernández, as irmãs Ocampo (Victoria e Silvina), Alejandra Pizarnik, Antonio di Benedetto (acabado de traduzir entre nós pela excelente editora Cavalo de Ferro), Manuel Puig, Ernesto Sabato, Rodolfo Walsh, Juan Gelman, Juan José Saer, e mais recentemente Ricardo Piglia, falecido em 2017. Por razões várias, há e houve inclusive autores argentinos que enriqueceram outras línguas, como Alberto Manguel que escreve em inglês, Hector Bianciotti e Copi que escreveram em francês e J.Rodolfo Wilcock em italiano.
Hoje, a literatura argentina continua a renovar-se com nomes como o já veterano César Aira, mas também Alan Pauls, Andrés Neuman, Martín Caparrós, Claudia Piñeiro, Pedro Mairal, Reynaldo Sietecase, Patricio Pron, Samantha Schweblin, Selva Almada, entre outros.
Infelizmente, em estudo recente, um número significativo de estudantes espanhóis manifestaram conhecer muito pouco da literatura argentina e da de outros países da América Latina, ignorando provavelmente que durante a censura franquista as editoras argentinas -bem como as mexicanas, por exemplo – foram uma lufada de ar fresco perante o então limitado e modorrento mercado editorial espanhol. Situação semelhante se verificará também em Portugal em que muitos estudantes desconhecerão nomes cimeiros da literatura brasileira atual (e da dos outros países de língua portuguesa), temendo-se que a realidade no sentido inverso também não seja muito diferente.
Uma língua é tanto mais rica quanto maior e mais diversificada for a sua literatura, independentemente do país de origem. Uma mensagem que deve ser veiculada à saciedade, numa época em que, apesar da globalização, a tendência para o enquistamento se torna, dia após dia, mais inquietantemente perigosa…

Fernando Couto e Santos
Facebook, 07/04/2019

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