As estrelas Michelin | Inês Salvador

ines-salvador-200Ando um bocadinho apoquentada com a última saraivada do arquiteto torresmo Saraiva. Deu-lhe para desprezar as estrelas Michelin atribuídas aos restaurantes portugueses, nomeadamente, no advérbio do arquiteto, porque esses restaurantes não servem cozinha tradicional portuguesa. Mais saraivada, menos saraivada, já não se liga, o que apoquenta é ver a quantidade de apoiantes que colheu com isto. É ver num post alusivo a horda de apoiantes que junta, e pasme-se, a clamar pela quantidade de comida servida nos pratos dos chefs. Bom, está visto que esta gente toda nunca pôs o pé num destes restaurantes, não surpreende, são caros. Falam do que imaginam, do que vêem nas fotos, desconhecem o ritual, estão na fase primária de que comer bem é comer muito, é enfardar. Estão no terceiro mundo de uma infância passada com fome, senão foi a deles, foi ainda a dos pais, a dos avós. Há um gene faminto que persiste do tempo de uma sardinha para três, do tempo recente que era doutra senhora, um gene que persiste na memória, mesmo na mais inconsciente. Um gene da pobreza que estes tempos de crise acordaram a dominante. Tranquilize-se o gene. A estes restaurantes não se vai comer uma amostra de comida. Frequentemente, e assim compete, degusta-se, não se enfarda. Faz-se da mesa a arte da qualidade e não da quantidade. Faz-se da mesa uma arte, ponto.

Uma arte que passa por todos os estágios dum menu, da entrada, ao primeiro prato, segundo, até à sobremesa, pontuado com diferentes mimos do chef e amuse bouch que limpam o palato, para que melhor se aprecie o que se segue. Com distração, também se come, tudo junto, também se enfardou. E, sim, pelos motivos mais diversos, já me calhou ir a alguns destes restaurantes, estar em eventos em que se serve este tipo de comida. Recordo, há uns anos, um jantar de gala em Geneve, onde estavam presentes pessoas dos quatro cantos do mundo. Mal começaram a servir o jantar, eu e os outros portugueses presentes desatámos a comentar entre nós que toda aquela sofisticação sabia aos paladares da nossa terra. À medida que íamos evoluindo nos pratos já só tínhamos certezas e quisemos saber quem era o chef. Confirmou-se, um simpaticíssimo rapaz descendente de gentes de Sesimbra, crescido e criado com aqueles paladares. Se carregamos um gene faminto, carregamos outros de grande cultura e tradição também gastronómica, singular e inconfundível em qualquer parte do mundo. Claro que a cozinha tradicional portuguesa está presente na extraordinária arte dos nossos chefs e, claro que, a cada elogio ao jantar, lá estávamos nós, orgulhosos, a rematar que o chef era português como nós. Já o arquiteto torresmo Saraiva é que nem com o melhor pão alentejano se papa. Ele, e estas espécies de elites com quem regredimos, porque evoluir é mesmo muito devagarinho.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s