Apresentação de Nem Todas as Baleias Voam, de Afonso Cruz | 14/12, às 19 h, Bar Rive Rouge | Praça Don Luís I ao Mercado da Ribeira

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Cláudia Marques Santos conversa com Afonso Cruz sobre o último romance do autor, Nem Todas as Baleias Voam.

“Será possível vencer uma guerra com a música? Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, que tinha como missão cativar a juventude de Leste para a causa americana. Organizando concertos com grandes nomes do jazz nos países do bloco soviético, os americanos acreditam poder seduzir o inimigo e ganhar a guerra.
É neste plano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista de blues, exímio e apaixonado, que vê sons em todo o lado e pinta retratos tocando piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro, sem deixar rasto, sem deixar uma carta de despedida.
Erik Gould tentará de tudo para a reencontrar, mas não lhe resta mais esperança do que o acaso. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que fará a diferença graças a uma caixa de sapatos.”

Natal é ter Mãe. Para quem a tem, para quem a guarda na memória, é sempre Natal. | Inês Salvador

ines-salvador-200Em tempos idos tive uma ocupação profissional que me levava a visitar prisões e a ter contacto com populações prisionais, melhor dito, com parte delas. A hora das visitas era sempre vivida com muita ansiedade, gente que vinha do mundo “lá fora”, que trazia esse cheiro, esse olhar, esse brilho. Vem, não vem, quem vem, e para muitos nunca ia ninguém. Para os que ia sempre alguém, ia sempre a Mãe. Mãe que pudesse estava lá sempre! Do lado de fora, perto da hora da visita iam-se juntando, irmãos, primos, outra família, amigos, mas sempre as Mães, até serem sempre e só as Mães. Enquanto esperavam o ritual era o mesmo. As novas naquilo guardavam uma distância de reserva, como se estivessem ali por engano, as mais assíduas já se falavam, entretinham o tempo da espera com conversa. Ah, o meu não fez nada, veio aqui parar, mas isto foi das companhias. Ah, pois, o meu, coitado, nem sabia ao que ia, sempre foi tão bom filho e agora uma coisa destas. Foi a droga. Ah, sim! Foi apanhado com quanto? Umas gramas. Isso não é nada. Ao meu, quando os apanharam, levavam mais de 1kg. E logo outra intervinha: o meu é que sim, fez um assalto à mão armada, nunca o imaginei capaz de tal coisa. Um assalto?! Pois o meu está acusado de 7! E da desculpabilização, a todas as justificações impossíveis para o desfecho de estarem ali, rapidamente passavam à escalada de meças do estranho orgulho de que em criminoso o meu filho é melhor que o teu. O orgulho de Mãe não olha a meios, por mais adversas que sejam as circunstâncias, o filho nunca sai mal visto. Abriam-se as portas e entravam, aliviadas das revistas e inspecções a elas e a tudo o que carregavam. Mãe chega sempre carregada de farnéis e marmitas e de tudo o que lhe seja possível para fazer ninho ao filho. Na época do Natal os ânimos alteravam-se, família que é família é mais família no Natal e o Natal sem a família não faz sentido. Será que lhe dão a precária, será que vai passar o Natal a casa? Mães e Mães, pais poucos, desapareciam. Quando iam, naquela vez em que iam, mantinham-se “ao largo”, alheios, distantes, não falavam, incapazes de olhar o espelho da sua própria genética, incapazes da consciência pública da sua marca deixada ao mundo. Honrosas excepções sejam feitas, a maioria dos pais desaparecia. As Mães mantinham-se estoicamente como só uma Mãe pode ser. Sem falhas, sem atrasos, sem vacilar. Se o povo diz que quem tem Mãe tem tudo, garanto-vos do que vi e ouvi nesses tempos, que Natal é ter Mãe. Para quem a tem, para quem a guarda na memória, é sempre Natal. Alivie-nos a vida de nos provar isso.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador