ARGÉLIA | Francisco Seixas da Costa

argel fsc - 250Tenho um “fraco” pela Argélia, devo confessar. Pela sua cultura – de Camus a Kateb Yacine, embora não conheça muito mais -, pelo percurso complexo desse território atípico, que chegou a fazer parte das Comunidades Europeias (com efeitos até 1968, é verdade!), atravessado por uma das mais sangrentas guerras de libertação de que há memória. Mantenho presente a heroicidade dessa luta pela independência, bem como o papel desempenhado pelo país no contexto internacional que se lhe seguiu e, muito em especial, a sua contribuição para a manutenção da esperança da liberdade em Portugal, nos anos 60 e 70.

Da mesma maneira que entendo muito lamentável que os países africanos saídos do colonialismo português nunca tenham feito uma homenagem a quantos, por cá, arriscaram a liberdade e a vida para apoiar a sua luta (e estranhamente nunca ouvi ninguém falar disto), acho muito triste que a democracia portuguesa nunca tenha feito uma homenagem pública ao país que acolheu a FPLN e Humberto Delgado, nesses tempos difíceis em que a instauração da ditadura militar retirou ao Brasil o estatuto de esteio principal para o acolhimento dos lutadores anti-salazaristas. Com Paris, e mais limitadamente com Roma e algumas capitais do “socialismo real” onde se refugiava o PCP, Argel foi, por anos, a principal “capital” da luta pela nossa liberdade.

O regime em vigor na Argélia tem hoje (como sempre teve, aliás) contornos muito discutíveis à luz dos padrões democráticos ocidentais, mas acho que os últimos anos têm ensinado ao mundo que há que saber viver com as diferenças, por muito chocantes que estas sejam, desde que possam funcionar em favor de valores determinantes da nossa segurança geopolítica global. E mais não digo, nesta confissão de “realpolitik”.

Há cerca de dois anos, regressei uma vez mais à fascinante “cidade branca” de Argel, por cujas ruas passeio sempre como por senteiros da minha História afetiva. Dessa última vez, fiz perder aos meus guias algumas horas, para uma romagem a vários locais dessa presença portuguesa, um mundo conflitual de exílio, como são sempre esses meios de tensa diáspora forçada, com clivagens políticas a testar os caráteres. Por lá andei a fotografar o escritório da FPLN e da “Rádio Voz da Liberdade”, as casas onde morou e operou Humberto Delgado, bem como outros locais que tinha aprendido como geografias essenciais a essa aventura. Dias depois, tive um telefonema do meu amigo Carlos Antunes (esse mesmo, o das “Brigadas Revolucionárias”), a corrigir uma imprecisão que eu tinha deixado na descrição feita meu blogue.

É dessa última viagem a Argel que quero deixar aqui uma nota. Na sala de embarque do aeroporto, olhei as revistas e os livros e, surpresa das surpresas!, não encontrei rigorosamente nada que me interessasse. Uma das publicações à venda era um volume de fotografias, a preto-e-branco, sobre o massacre de 17 de outubro de 1961, a trágica noite em que a polícia francesa, dirigida pelo “infamous” Maurice Papon, liquidou dezenas (o multiplicador das dezenas nunca ficou estabilizado) de argelinos desarmados, nas ruas de Paris, parte dos quais atirados ao Sena. O álbum mostrava imagens da repressão e cadáveres amontoados junto aos “bouquinistes”, nessa jornada de vergonha para a democracia gaullista.

Sentei-me num banco na sala de embarque e, minutos depois, dei conta de ter por vizinhos dois jovens, com pouco mais de vinte anos. Um deles tinha o tal livro na mão, ia-o folheando e mostrando ao amigo, com comentários e exclamações iradas, em árabe, dando (lembro-me bem!) palmadas nas fotos. A indignação que ia nas suas caras revelava bem a revolta que neles germinava, adubada por aquela histórica e impagável injustiça. Quando, algum tempo mais tarde, os vi embarcar no voo da Air Algérie para Paris, fiquei a pensar na contribuição que iriam dar para a fogueira de ódio que por ali há muito se preparava, que era tão previsível como o é o dia seguinte, e que, tempos depois, iria desembocar no Bataclan ou na Promenade des Anglais.

Felizmente, ao que tudo indica, os migrantes ilegais argelinos que foram detidos, há dois dias, no aeroporto de Lisboa, não teriam necessariamente propósitos violentos. Espero bem que não. A Argélia é um magnífico país que, aos olhos portugueses, merece ser conhecida por muito mais do que isso.

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Seixas da Costa

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