Em defesa da literatura | Ana Cristina Pereira Leonardo

anacristinaleonardo-cvTema: as personagens. As personagens diferenciam-se das pessoas por serem ficcionais enquanto as pessoas são reais: Anna Karénina/ Tolstoi/, Macbeth/ Shakespeare, Quixote/ Cervantes, Madame Bovary/ Flaubert, Bartleby/ Melville, Sherlock Holmes/ Conan Doyle, Dâmaso Salcede/ Eça de Queirós, Quina/ Agustina Bessa-Luís, Palma Bravo/ Cardoso Pires, Rapaz/ Dinis Machado, Myra/ Maria Velho da Costa… e assim sucessivamente, como disse João César Monteiro que, sendo uma pessoa, ninguém poderá negar que seja uma personagem.
O que é, porém, mais real? Karénina ou Tolstoi? Shakespeare ou Macbeth? Holmes ou Doyle? Jorge Luis Borges, outro que tanto tem de pessoa como de personagem, escreveu uns versos maravilhosos (talvez os mais maravilhosos) sobre a condição humana: “Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca / aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach”. Quem foi Matilde Urbach? E Borges, saberemos mesmo quem foi Borges? “Na realidade não tenho a certeza que exista. Sou todos os autores que li, toda a gente que conheci, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados”, disse de si próprio o argentino.
Se o mundo, e não só o paraíso, for uma biblioteca a tender para o infinito, o que nos distinguirá de Medeia, Pierre Ménard ou Holden Caulfield? Alguém que tenha sido formado a ler livros tenderá a dizer que muito pouco (e a tentação de olhar, por exemplo, para os políticos da UE como personagens, no caso terciárias, torna-se tentadora, senão inevitável).
Avaliar as pessoas de acordo com a sua densidade enquanto personagens leva-nos a estabelecer hierarquias assentes em outros critérios que não os da mera simpatia: o que é, por exemplo, um Dijsselbloem tecnocrata ao lado de um Erdoğan ditador? Quem imagina um romance dedicado a Passos Coelho? A Maria de Belém? Uma novela sobre Cavaco Silva? Assunção Cristas ao lado de Catherine Earnshaw?! Isilda Pegado ao lado de D. Patrocínio das Neves?! Ou vice-versa: Felicidade de Noronha ao lado de Zita Seabra?! O tédio!
Não se trata, ter-se-á percebido, de simples escolhas políticas. Octogenário, Norman Mailer ficcionou os primeiros anos de Hitler no romance “The Castle in the Forest”. Foi criticado: “One can’t forbid artists from dealing with Hitler but art will never achieve an understanding of the phenomenon”. Mas se não chegarmos lá pela arte, como sobreviver ao fenómeno da realidade?

Retirado do Facebook | Mural de Ana Cristina Pereira Leonardo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s