Poesia de exaltação à vida cotidiana. Em nova obra, Salomão Sousa reúne poemas líricos que evocam o seu passado rural – Adelto Gonçalves (*)

I

Depois de publicar Certezas para as madressilvas (Brasília, edição do autor,
2024), que reúne poemas escritos à época do isolamento forçado pela epidemia de
covid-19 (2020-2022), e Poesia e alteridade (Brasília, edição do autor, 2024), que
abriga artigos sobre Literatura e Psicologia Social, o poeta Salomão Sousa chega ao seu
19º livro, A selva escura dos cristais perdidos (Brasília, edição do autor, 2026), em que
retoma o ofício de poeta com peças em que procura estar próximo à vida cotidiana, livre
das amarras daquele tempo sombrio, solto para se manter fiel à sua memória, à família e aos amigos, certo de que “a poesia não deixa de ser uma fidelidade ao que amamos”,
como diz em texto que encaminhou a este articulista.
De fato, nesta obra, como diz o seu autor, as metáforas acabam assumindo um
fluir, um caminho, um ato de navegar e dar continuidade, mas resistindo, precisando de
portas e fronteiras livres. “O cotidiano está por debaixo das palavras, sem grande
angústia, mas é um convite para sermos participativos, sem omissão. O mundo se move
conforme as nossas ações”, diz. E acrescenta: “Não podemos destruir o nosso ambiente
nem nossas relações. Não podemos subir no telhado para gritar impropérios contra os
vizinhos, os familiares e os animais. Não podemos subir ao púlpito para a defesa de
ideias envelhecidas e germinadoras de opressão e repressão. Temos de nos libertar do
pragmatismo escravizante”.
Por aqui, pelas próprias palavras definidoras de seu trabalho poético, o poeta
adianta ao leitor o que irá encontrar ao longo de seus poemas reunidos. Ou seja, um
alerta para o mal que, volta e meia, tenta arrebentar as portas da frágil democracia que o
País tenta reconstruir a muito custo. “O nefasto, que deseja nos dominar, faz de tudo
para nos isolar. O isolamento nos enfraquece. A informação e a arte promovem o nosso
encontro”, adverte.


II


Oriundo de terras até hoje ainda pouco desbravadas no interior do Brasil,
Salomão Sousa é um poeta lírico e, como tal, preocupado com a expressão da
subjetividade, da alma e dos sentimentos. Por isso, em quase todos os seus versos, há
sempre a evocação do seu passado rural, sem que saia do círculo estreito de seu “eu”
poético, projetando-se nos amigos e familiares que ficaram para só ver a si próprio.
Como se constata no poema “Ao meu irmão Miguel”:
Sentávamos na cerca do curral / com algum graveto ou chicote, / lascávamos
tapiocangas ao longe / e entre os voos dos morcegos / chacoalhávamos as varas. / Na
porta surgia a nossa mãe: / Saiam já do sereno! / César Vallejo, exilado em Paris, /
distante do Peru, amada Pátria, / não tinha um naco de queijo / nem palhas para
dormir. / Ou mãe que lhe pedisse para colher / com Miguel folhas de chapéu-de-couro. /
E fomos colhê-las a cavalo em pelo. / A lua não desiste de quarar a noite. / Dou-te,
irmão, as rimas mais improváveis. / O perfume, perfume talvez de limas. / Para
estendermos as tranças de uma mãe /arrastamos ramas de fava. / E para as glórias de
teu nome, irmão, / sempre estarão estirados os varais do cé

III

Além de homenagear o poeta peruano César Vallejo (1892-1932), de se notar é
que em outro poema reverencia não só a atriz e modelo norte-americana Marilyn
Monroe (1926-1962), um dos símbolos sexuais do século XX, como o poeta e ensaísta
também norte-americano Walt Whitman (1819-1892), a quem o poeta e ensaísta
mexicano Octavio Paz (1914-1998) definiu, em ensaio que consta de O Arco e a Lira
(Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982), tradução de Olga Savary (1933-2020),
como um versejador que se dizia realista, mas que, na verdade, seria um sonhador, que
buscava a criação pura, para “escapar do pesadelo americano”.
Pois essa mesma definição pode ser transferida a Salomão Sousa, cuja poesia é
igualmente um sonho profético, um sonho dentro de outro sonho, que procura entender
o Brasil e escapar do “pesadelo brasileiro”, assim como Whitman tentou entender a
América saxônica, “com seus homens, seus rios, suas cidades e suas montanhas”. Eis o
poema “Marilyn lê Whitman”:
Ninguém vira o rosto para saudar / ou traz o mapa com as especificações / em
qual encosta as casas / e é tão rápido desmoronar / Onde vamos incendiar hoje? / Uma

3
pessoa morta não ama / Ficaremos nus e nem existia a cama / No certame não iremos
nos beijar / Quem aproveita as cortesias do dia? / Marilyn Monroe como uma libélula /
pousada sobre as páginas da relva / Whitman tira do fosso os nossos ossos
Por aqui se desvenda também as influências de outros poetas consagrados no
fazer poético de Salomão Sousa, que incluem, sem dúvida, o brasileiro Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987), que, em 1979, chegou a lhe encaminhar uma
carta, a propósito da publicação de seu livro de estreia, A moenda dos dias, dizendo que
a obra lhe dava uma impressionante visão de Ceilândia, cidade satélite de Brasília, e lhe
“devolvia às raízes rurais”, mineiro que era.
IV

Nascido em Silvânia, no interior de Goiás, Salomão Sousa (1952) é formado
em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (Ceub), mas foi alfabetizado
tardiamente na zona rural, onde convivia com pessoas iletradas. Quando tinha 12 anos, a
família deixou a casa em que vivia na zona rural que ficava a quinze quilômetros de
Silvânia e transferiu-se para esta cidade, onde ele teve acesso à biblioteca pública e à
leitura de jornais do Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1971, transferiu-se para Brasília,
onde ingressou no serviço público em 1973, passando a trabalhar na esfera do poder
executivo, na área de relações políticas, até que se aposentou pelo Ministério da
Economia em 2021.
É membro da Academia de Letras do Brasil (ALB), da Associação Nacional
de Escritores (ANE), ambas de Brasília, da Academia de Letras, Artes e História de
Silvânia-GO e da Academia Mundial de Letras da Humanidade (AMLH), de Santo
André-SP.
Com Francisca Andrade, constituiu família de três filhos (Vítor, Saulo e
Carlos Alberto), seis netos e duas bisnetas. Recentemente, teve a infelicidade de perder
o filho Vítor, a quem dedica (em memória) seu mais recente livro. Em quase meio
século de trabalho literário, tem conquistado leitores tanto no Brasil como no exterior, a
exemplo de suas idas ao Peru, Chile e Equador, com participação em uma antologia na
Argentina e outra na Espanha. Também tem admiradores na Cidade do México, onde
participou de encontros com escritores locais e estrangeiros e leu seus poemas.
Em 2022, publicou Bifurcações – memória, resistência e leitura (Cidade
Ocidental-GO, edição do autor), instigante texto em que procura mostrar que a obra da

4
poeta Cecília Meireles (1901-1964) ultrapassa os padrões originais do Modernismo,
corrigindo várias informações a respeito de sua vida, além de outros ensaios e artigos
sobre outros temas igualmente atraentes.
Está também na Antologia da nova poesia brasileira (1992), organizada pela
poeta Olga Savary, e em A poesia goiana do século XX (1998), organizada por Assis
Brasil (1929-2021). Foi um dos 47 poetas incluídos no número que a revista Anto, de
Portugal, dedicou, em 1998, à literatura brasileira, em comemoração dos 500 anos da
descoberta do Brasil.
Organizou antologias, entre as quais Deste Planalto Central – poetas de
Brasília, publicação da 1ª Bienal Internacional de Poesia da Biblioteca Nacional de
Brasília (2008), Em canto cerrado e conto candango, com escritores de Brasília. Obteve
o Prêmio Capital Nacional do Ano de 1998 de Crítica Literária. A União Brasileira dos
Escritores (UBE), seção de Goiás, concedeu-lhe o Troféu Tiokô como personalidade
goiana que mais se destacou fora do Estado no biênio 2010-2011.
É autor ainda de Falo (Brasília, Thesaurus Editora, 1986); Criação de lodo
(Brasília, edição do autor, 1993); Caderno de desapontamentos (Brasília, edição do
autor, 1994); Estoque de relâmpagos, Prêmio Brasília de Produção Literária (Secretaria
de Cultura do Distrito Federal, 2002); Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia (São
Paulo, 7Letras, 2006); Safra quebrada (reunião de livros anteriores e de dois inéditos:
Marimbondo (feliz) e Gleba dos excluídos (Brasília, Fundo de Apoio à Cultura, 2007);
Momento crítico: textos críticos, crônicas e aforismos (Brasília, Thesaurus Editora,
2008); Vagem de vidro (Brasília, Thesaurus Editora, 2013); Desmanche I (Brasília, Baú
do Autor, 2018); Poética e andorinhas (Brasília, Baú do Autor, 2018) e Descolagem
(Goiânia, Editora Kelps, 2017), entre outros.


A selva escura dos cristais perdidos, de Salomão Sousa. Brasília, edição do autor,
134 páginas, R$ 50,00, 2026. E-mail: salomaosousa@yahoo.com.br


(*) Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-
americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo
(USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999),
Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando
Pessoa: a voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o perfil perdido (Lisboa,
Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás
Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em terras d´El-Rei
na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José
Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), e O reino, a colônia e o poder: o

5
governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu
prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024),
lançado na Inglaterra. E-mail:marilizadelto@uol.com.br

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.