CENTROS DE DADOS – A ÁGUA USADA É DE TODOS, por João Gomes, in Facebook

Até que ponto as sociedades estão dispostas a aceitar que a revolução da inteligência artificial dependa do consumo massivo de recursos essenciais, sobretudo água e energia?

Durante anos, a tecnologia foi apresentada como algo quase “imaterial”. A internet parecia viver nas nuvens; a IA surge aos olhos do público como simples software. Mas a realidade é muito diferente. Por trás de cada modelo de inteligência artificial existem enormes infraestruturas físicas: edifícios gigantescos, milhares de processadores, sistemas eléctricos colossais e mecanismos de refrigeração que funcionam permanentemente. E tudo isso gera muito calor.

O problema central é que a computação moderna evoluiu exponencialmente, mas continua sujeita às leis fundamentais da física. Toda a energia consumida pelos chips transforma-se inevitavelmente em calor. Quanto mais avançados e rápidos são os sistemas de IA, mais energia concentram e mais difícil se torna dissipar esse calor sem destruir os próprios equipamentos. E é aqui que entra a água.

A água continua a ser, do ponto de vista puramente técnico, uma das formas mais eficientes, baratas e estáveis de remover calor. A sua capacidade térmica é extraordinária e nenhum sistema artificial consegue ainda competir com a mesma relação entre eficiência e custo. Por isso, muitos centros de dados utilizam enormes sistemas de refrigeração evaporativa, circuitos de água gelada ou refrigeração líquida direta.

O problema é que aquilo que faz sentido do ponto de vista da engenharia pode deixar de fazer sentido do ponto de vista social e ambiental. O caso da Geórgia, nos Estados Unidos, é revelador. As populações começam a perceber que a chamada “economia digital” não é neutra nem invisível. Quando um centro de dados pode consumir milhões de litros de água por dia, a questão deixa de ser abstrata. Em períodos de seca, perante alterações climáticas cada vez mais severas e pressão crescente sobre a agricultura e o abastecimento urbano, as populações perguntarão inevitavelmente: quem tem prioridade? A tecnologia ou a vida quotidiana das comunidades?

Este é o verdadeiro risco para o sector. Não apenas o custo energético ou ambiental, mas a perda de legitimidade pública. Se os cidadãos começarem a associar centros de dados a: escassez de água; aumento de preços; pressão sobre aquíferos; impactos ambientais; desigualdade no acesso aos recursos, então esses projetos poderão tornar-se politicamente “não desejados”, independentemente da sua importância económica. E isso já começa a acontecer.

Nos Estados Unidos, vários estados discutem limitações à instalação de centros de dados em regiões vulneráveis. Na Europa, o debate começa igualmente a crescer, sobretudo porque o continente enfrenta simultaneamente: transição energética; metas climáticas; secas recorrentes; pressão agrícola; aumento do consumo eléctrico.

Portugal não está fora desta realidade. Pelo contrário. O projeto previsto para Sines transformou-se num dos exemplos mais relevantes da nova economia digital europeia. A região tem características extremamente atrativas: ligação internacional por cabos submarinos; proximidade atlântica; disponibilidade energética; posição estratégica entre Europa, África e América; possibilidade de utilização de energias renováveis. O grande projeto associado a Sines pretende precisamente criar um dos maiores polos de dados da Europa, aproveitando essas vantagens geográficas e energéticas. 

Mas Portugal enfrenta um paradoxo evidente. Por um lado, quer atrair investimento tecnológico e posicionar-se como plataforma digital estratégica. Por outro, é um dos países europeus mais vulneráveis à seca e à escassez hídrica. Nos últimos anos, o país viveu: barragens em níveis críticos; restrições agrícolas; problemas de abastecimento; desertificação crescente no Sul; aumento das temperaturas médias.

Neste contexto, a aceitação social de megacentros de dados dependerá da percepção de equilíbrio e responsabilidade. A sociedade aceitará melhor estes projetos se houver garantias claras de: reutilização de água; utilização de águas residuais tratadas; refrigeração híbrida; eficiência energética elevada; transparência pública; compensações ambientais; integração com energias renováveis.

Caso contrário, poderá surgir uma reação semelhante à que hoje já existe relativamente a outras atividades intensivas em recursos naturais, como a questão da luta contra a exploração do lítio, por exemplo. E é precisamente aqui que entra o futuro da engenharia.

A solução não passará provavelmente por eliminar totalmente a água, porque a física continua a favorecer a sua utilização. Mas passará inevitavelmente por reduzir drasticamente a dependência de água potável.

As alternativas já existem: refrigeração por imersão; circuitos líquidos fechados; reaproveitamento térmico; centros instalados em regiões frias; utilização de água reciclada; inteligência artificial mais eficiente; chips menos consumidores; refrigeração eléctrica avançada. O obstáculo principal não é científico; é económico e industrial. As empresas cresceram numa lógica de computação abundante e relativamente barata. Agora terão de incorporar custos ambientais reais. E isso talvez seja inevitável.

Tal como aconteceu noutras revoluções industriais, a próxima fase da IA será provavelmente marcada não apenas pela potência dos modelos, mas pela sua sustentabilidade. O futuro não dependerá apenas de criar sistemas mais inteligentes, mas de construir infraestruturas tecnologicamente avançadas que não entrem em conflito direto com necessidades humanas fundamentais. Como noutras tecnologias a IA “veio para ficar”. Parece-me impossível “andar-se para trás” no atual momento tecnológico e até politico.

Mas a questão-base é que nenhuma sociedade aceitará indefinidamente que o acesso à água potável se torne secundário face às exigências da computação global. Por isso a tecnologia tem que encontrar uma solução que resolva esse problema: a água é o bem mais indispensável do nosso planeta e nenhuma população compreenderá que lhe roubem esse bem precioso para que as grandes industrias lucrem enormemente pelo uso de grandes centros de dados que lhes roubam a vida.

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