No fundo, não estamos separados… por David Bohm | Aproximando-se de Bento de Espinosa?

“No fundo, a consciência da humanidade é só uma”. David Bohm, um dos físicos mais originais do século XX, não ofereceu esta frase como poesia. Apresentou-a como uma proposta séria sobre a própria natureza da realidade, fruto de décadas dedicadas a investigar as estranhas implicações da teoria quântica.

Bohm passou a carreira atormentado por uma questão que a maioria dos físicos evitava. Se a mecânica quântica descreve a realidade com precisão, porque é que parece exigir um universo onde a separação é, a algum nível, uma ilusão? A sua teoria da ordem implícita propunha que, sob as coisas visíveis e separadas, reside uma totalidade indivisível.

Nesta perspectiva, partículas que parecem distantes e desconexas podem ser expressões de um único campo subjacente, desdobrado naquilo que aparenta ser separação. Bohm chamou a esta camada mais profunda ordem implícita, e ao mundo objetos separados que percebemos de ordem explícita, o seu desdobramento.

Estendeu este pensamento para além da física, abrangendo a própria mente. Se a matéria e a consciência emergem do mesmo fundamento indivisível, então as fronteiras que traçamos entre o eu e o outro, o pensamento e o pensador, o observador e o observado, podem ser muito menos fundamentais do que parecem.

É aqui que a amizade de Bohm com o filósofo Jiddu Krishnamurti se torna significativa. Os seus diálogos, que se estenderam por décadas, exploraram se a fragmentação, a sensação de um eu separado a observar um mundo separado, poderia ser a raiz tanto do sofrimento psicológico como da confusão científica.

Bohm suspeitava que o conflito humano, tal como o paradoxo quântico, deriva da confusão entre o explícito e o todo. Vemos fragmentos e esquecemos o campo ininterrupto subjacente. A consciência dividida contra si mesma produz divisão no mundo que percepciona e sobre o qual actua.

É uma afirmação surpreendente para um físico, mas ecoa a era profunda do Vedanta, que durante muito tempo sustentou que sob a aparente multiplicidade reside um fundamento único e indivisível do ser. A física moderna, nas mãos de Bohm, parecia regressar a algo ancestral.

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