O EXAME NACIONAL DE ENSINO PRIMÁRIO DE ACESSO À UNIVERSIDADE, por António Carlos Cortez

OBRIGATÓRIO LER este belíssimo comentário de António Carlos Cortez sobre a prova de exame, de Português

O EXAME NACIONAL DE ENSINO PRIMÁRIO DE ACESSO À UNIVERSIDADE 

Resposta e esclarecimento a Joana Mello.

0. Para além da insidiosa e patética estratégia de, nos próprios itens, se facultarem já muitas das respostas aos alunos, 

1. Para além do absurdo do preenchimento do cabeçalho com bolinhas, QRCode e folha de prolongamento de respostas que exige verificação dos itens anteriores, no que me parece ser mais um passo para transformar a educação em pouco mais que processo estúpido de certificação nem já de competências, mas somente de funções primárias, imediatas, as quais nada exigem do aluno seja a que nível intekectivo for, 

2. Para além de um grupo de gramática absolutamente facilitista e inflacionado – só nessas escolhas múltiplas o aluno que nada sabe pode ter logo 9.5 -, não havendo sequer nos exercícios em pauta uma mísera classificação de orações, 

3. Para além do questionário sobre Cesário Verde ser de uma total infantilidade e, cientificamente errado, como atesta a questão sobre o que é que o sujeito estava a sentir ( Roman Ingarden, Jauss e a estética da recepção, o fingimento como princípio de ficção é coisa que os fazedores destes exames nunca leram),

4. Para além de um item de preenchimento de espaços em branco que não afere nada de nada, 

5. Para além de um grupo de redacção que exigia a leitura de um cartoon, a meu ver, superficial, com tema por demais infantil (a pobreza e a exploração infantil era o obstáculo dificílimo a ultrapassar) e convidativo a que se redijam textos da mais cavalar subjectividade e impressionismo, 

6. Para além de este exame não exigir expressão escrita digna desse nome e tendo em conta que, penso eu, nas universidades, sobretudo em letras, escrever é coisa que ainda se pede que os alunos saibam fazer com rigor e capacidade de análise textual pensando argumentadamente sobre as três dimensões da obra de arte literária: a intento lectoris, a intento operis e a intento auctoris, 

7. Para além do absurdo, da estupidez e da infantilidade de se considerar que um texto crítico sobre um tema de cultura geral só deve ter 350 palavras – NINGUEM NA UNIVERSIDADE VOS IRÁ PEDIR TEXTOS CRITICOS COM O MAXIMO DE 350 PALAVRAS!!! ISSO NEM DÁ PARA TER 3 VALORES NUMA FREQUÊNCIA!!

PARA ALÉM destes e de outros óbvios sinais de estupidez avaliativa, incompetência científica e facilitismo soez

Eu pergunto se este Exame Nacional de português pode sequer aferir das competências e conhecimentos de qq alunos ao cabo de 12 anos de aprendizagem. 

Todos sabemos: o saber ler e o saber escrever são o que, em bom rigor, estes exames não pedem. 

Quem for honesto sabe por que razão os exames são esta ausência total de exigência científica: importa apresentar dados de sucesso, estatísticas para organismos internacionais. O sistema educativo em Portugal reduz-se a isto:

Os alunos fingem que aprendem 

Os professores, esmagados pela burrocracia, fingem que ensinam, 

A época de exames é um ritual sádico, infantil, mentiroso e burrocrático (neologismo de Herberto) que apenas serve de propaganda política. Com a digitalização do ensino serve, por outro lado:

a) os interesses das empresas de computação, 

b) a ideologia oca dos sucessivos ministérios, os quais, com a ascensão dos governantes da geração que Vicente Jorge Silva fotografou – e bem -, não podem fazer melhor, tal a impreparação, a falta de noção do que seja didáctica da língua e da literatura de muitos que polulam nesse Estado dentro do Estado que é o IAVE, 

c) a gradual transformação da escola e da universidade em centros de formatação digital dispensando, a la longue, professores, uma das últimas classes profissionais que interessa, em todo o mundo, depauperar, esgotar, empobrecer, 

Os exames nacionais são uma mentira absoluta: nenhum aluno de hoje faria jamais exames de 1990, a PGA, nem os exames de português de 99. 2003, 2008,…

 De 2019 para cá, com o pretexto da pandemia e a moda digital, escrever e ler com rigor é coisa que os estudantes não sabem fazer.

 A culpa? 

É das sucessivas reformas e da demissão de todos nós em relação a um ideal de país. 

A escola hoje, com tanto rigorismo, tanta proibição, tanta falsidade na avaliação dos professores, é o espelho fiel desta sociedade embrutecida e inculta que estamos a construir. A escola, a universidade estão hoje transmutadas em linha de monttagem de gerações de estudantes que sabem que nada precisam de ler porque o exame não é só acessível, é uma prova da subversão absoluta do que significa  ensaio nar e aprender. 

Assim, impõe-se perguntar: 

Que jornalistas, advogados, professores, juízes, polícias, políticos, escritores, funcionários do Estado, enfim, que miséria de país será este em 2036 quando as gerações educadas neste sistema que privilegia a mediocridade, a incultura, a competição estúpida, teremos?

País de doutores e engenheiros, que país real  teremos? O Portugal que fizemos: 

Estudantes que nada leram, 

Que ignoram o que seja a leitura metódica de um texto, 

Que não conseguem articular um raciocínio com causa e consequência, 

Que não entendem a ironia, 

Que desconhecem história das ideias, correntes do pensamento,…

Que Portugal teremos? 

Um país fechado na sua mediocridade, ingovernável, entregue a castas políticas e económicas que parasitam empresas e partidos, parasitam organismos do Estado, ganham concursos públicos que estão pensados para alguém já previamente pensado para o lugar. 

Um país, receio bem, irrespirável. 

O país onde a mediocridade ganha a melhor.

 Onde os que sabem e estudam, perderão sempre para os compadrios e os amiguismos, os poderes vários… 

Um Portugal vil, adormecido, Bruto, inculto, irrespirável. 

Este exame de português, como toda a lógica avalitiva que condiciona todo o 3º ciclo e o secundário;

estes exames, na verdade, estão apenas a servir, de há 20 anos a esta parte, para decapitar a própria sociedade portuguesa.

Se isto é um exame de acesso ao Superior, então Portugal poderia dispensar os milhares de quilos de papel destes novos exames do digital… E poderia dispensar os alunos de fazerem semelhantes provas de ingresso… Nenhum estudante está preparado para o Superior com estes exames que só privilegiam os que nunca estudam. 

E as televisões, e os políticos, que dizem eles? Que reportagens? 

URGE DEBATER O PAIS A PARTIR DE UMA SIMPLES pergunta:

A quem convém a estupidez geral em que se tornaram escolas e universidades? 

Eu respondo: 

à meia-dúzia de empresários e de banqueiros, essa oligarquia burocrático-financeira que nos desmoraliza e nos vampiriza

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