ENTREVISTA EXCLUSIVA A MIGUEL ESTEVES CARDOSO: “SEM O PRAZER, É TUDO UMA ESTUCHA” | por JOÃO PEDRO GEORGE | in VISÃO

Entrevista exclusiva a Miguel Esteves Cardoso: “Sem o prazer, é tudo uma estucha”

Aos 67 anos, é um dos mais brilhantes retratistas de Portugal, país que ama, mas no qual identifica uma paralisante resignação e uma falta de sentido de humor. Numa rara e longa conversa, conduzida pelo escritor João Pedro George, falou de tudo – da infância, dos prazeres da vida, da escrita, de política

Há muitas pessoas que têm o costume de fazer listas com as coisas que gostariam de fazer antes de morrer: passear num balão, participar num safari, saltar de para-quedas, montar um elefante, ficar representado num busto, ver a Aurora Boreal, flutuar no Mar Morto, declamar Herberto Helder numa reunião de empresários, ir ao supermercado de pijama. A mim, o que mais gozo me daria, antes de morrer, era uma coisa muito mais insensata: conversar com o Miguel Esteves Cardoso. Consegui-lo tornou a minha vida realmente magnífica. Por isso, estou-lhe grato. Grato no duplo sentido de agradecido e agradado.

O Miguel Esteves Cardoso foi umas das minhas primeiras referências da literatura portuguesa. Foi o meu modelo e a minha inspiração, o meu ‘sensei’. As crónicas do Miguel Esteves Cardoso no ‘Expresso’ transmitiram-me o entusiasmo pela escrita e ensinaram-me a observar melhor aquilo que nos rodeia, mesmo o mais banal, mesmo o menos importante. Por isso tive sempre, em relação a ele, a sensação de uma enorme dívida. Mas também, servindo-me de uma frase dele sobre Adérito Sedas Nunes, neste último livro — ‘Independente Demente’ (onde diz que o considerava um segundo pai) —, uma sensação de incapacidade de pagar essa dívida.

O Miguel Esteves Cardoso transformou a crónica num exercício que mistura alguns códigos do ensaio académico com os códigos do jornalismo. Brincou com a tendência académica de converter o episódico em categoria, o particular em geral.

Enquanto o fazia, gozou com os nossos fracassos e defeitos, disse que somos mesquinhos, procastinadores, invejosos, desconfiados, preguiçosos, orgulhosos, desorganizados, atrasados, fatalistas, etc.

Retratou um país em câmara lenta, altamente desorganizado e pouco racional. Descreveu a nossa parolice (“uma indústria nacional de peso”), a arte portuguesa de subornar, o sistema português da aldrabice (“a nossa genial contribuição para o pensamento contemporâneo”), a pequena corrupção, a cunha, as luvas, as gratificações, o “dar um jeitinho”, o desenrasca, o facilitismo, as aldrabices, as trapaças, a lentidão, a ineficácia, a mediocridade, a incompetência, a rasquice geral.

Estudou os portugueses como se fossem bichos esquisitos. Coleccionou variedades de portugueses, entreteve-se a prendê-los com alfinetes, com a denominação por baixo, como se faz com as borboletas: os “portuguesinhos”, os “grunhos”, os “caramelos”, os “marmelos”, os “gabirus”, os “mânfios”, os “meliantes”, os “badamecos”, etc. (esta mania de classificar as manias, hábitos ou atitudes dos portugueses manifestou-se logo em 20 de Junho de 1980, n’O Jornal, na crónica “Guia de identificação da Fauna Musical. Punques, friques, pintas, travoltas, etc.”).

Ao mesmo tempo, singularizou os nossos defeitos. Referiu-se a eles como maneiras de ser e de estar “exclusivamente” portuguesas, como típicas (muitas vezes “embirrativamente típicas”). Utilizou fórmulas como “Todos os países hão-de ter a sua própria cultura amorosa. A portuguesa é excepcional”, “Há em Portugal muitas coisas que se desconhece noutras partes do mundo”, “O que é verdade em todos os outros países, em Portugal não o é”, “Somos tão estranhos que os estrangeiros não nos compreendem e nós também não” ou “Não há outro país como Portugal”.

Com isso, fez com que nos sentíssemos únicos e especiais (e conseguiu que, simultaneamente, nos aceitássemos nesse retrato devastador). Deu dignidade a todos esses defeitos, tornou-os carinhosos e simpáticos. Fez deles, quase, motivo de orgulho, coisas admiráveis. O atraso, a desorganização e a incoerência podem ser defeitos terríveis, mas são os nossos defeitos.

Portugal não é um país normal, mas também, quem é que quer ser normal? Todos querem ser diferentes, sentir-se incomparáveis (segundo ele, até o fígado dos portugueses não é igual aos outros fígados).

Ser português, na sua maneira de entender os portugueses, é ter imensos defeitos, mas é também uma coisa valiosa. Portugal, sendo muito pior que tantos países europeus, é para ele um país muito melhor para se viver. Não há maior luxo do que viver em Portugal. Somos o povo mais privilegiado do mundo.

Do seu ponto de vista, uma das grandes qualidades dos portugueses é “o sincero apetite pelas coisas interessantes que se passam nos países estrangeiros, a par com um civilizado desdém pela maior parte das coisas portuguesas, o que nunca afecta o amor que têm pelo seu país”.

É um truque inteligente: criticar violentamente, mas sem severidade, misturar ironia e juízos de valor duríssimos com humor (o lado humorístico do trágico e do grotesco) e ternura.

De certo modo, o Miguel Esteves Cardoso é um pequeno Deus, criou um país — Portugal — à sua medida.

Contudo, o que torna as crónicas de Miguel Esteves Cardoso significativas não é só o humor, o absurdo ou o sentido de observação, o talento para falar do sublime e do transcendente com palavras vulgares e para elevar as coisas humildes com palavras sublimes (técnica clássica do humor). É também a sua universalidade, porque elas reflectem o macrocosmo humano no microcosmo português. Os portugueses são os modelos — “aqui eu pertenço, estou na minha família” —, mas quando escreve sobre eles não está a escrever apenas sobre os portugueses. Porque todas as pessoas podem ver-se nos portugueses — confusos, imperfeitos, desorganizados, mesquinhos, desconfiados — que ele retrata.

Quando os críticos acusavam o escritor Raymond Carver de escrever apenas sobre as pessoas de origens humildes, de classes baixas ou com trabalhos de merda, esqueciam-se que esses modelos eram a forma de ele falar sobre o divórcio, a infidelidade, o alcoolismo, a inveja, etc.

Na verdade, as crónicas do Miguel Esteves Cardoso mostram-nos, paradoxalmente, que é impossível classificar os seres humanos, porque todos temos uma natureza (seja lá o que isso quer dizer) caótica e difusa, sem propósitos bem definidos, sem um sentido fixo ou estável.

Num mundo sujeito à mudança incessante e aos caos, e face às limitações da linguagem como meio para atingir ou comunicar verdades válidas, os textos do Miguel Esteves Cardoso mostram-nos a dificuldade em encontrar um propósito ou um sentido (daí, parece-me, a atracção dele pela classificação, porque a classificação serve para alimentar a ficção de que existe alguma ordem ou sentido no mundo).

As crónicas do Miguel Esteves Cardoso legarão à posteridade os costumes da sociedade portuguesa do nosso tempo. São mais fecundas e penetrantes que muitos tratados de sociologia. Nelas, as ideias movimentam-se a uma velocidade maravilhosa, não há ali gordura, só se vê os músculos.

Com o Miguel Esteves Cardoso, a arte da crónica atingiu, em Portugal, a suma perfeição. Como no jazz, o Miguel é um improvisador, mas nada sisudo, sorumbático ou soturno. É, como nos Beatles, descontraído, despretensioso, simpático, fluente e claro.

Por tudo isso, o Miguel Esteves Cardoso exerceu uma forte influência numa geração de escritores, humoristas e jornalistas que se afirmaram nos últimos anos e se reclamam herdeiros do seu espírito crítico, da sua liberdade de pensamento e da sua escrita desempoeirada e cheia de graça, sem pompa, nem pretensiosismo nem excessos de ornamentação.

Estranhamente, a sua importância na cultura portuguesa não é devidamente tida em conta pelas nossas instituições. Só isso explica que, ao fim de 40 anos a publicar em Portugal (o seu primeiro livro — ‘Escrítica Pop’ — é de 1982), ainda não tenha recebido o Prémio Pessoa ou o Camões. Não me lembro de outro escritor tão amplamente merecedor de ambos.

João Pedro George | SOCIÓLOGO E ESCRITOR

https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2022-12-06-entrevista-exclusiva-a-miguel-esteves-cardoso-sem-o-prazer-e-tudo-uma-estucha/?fbclid=IwAR0z6ohTD2vp2ztrSFm31EnI4S5OcevvPXN81upyIZoOrW4kFnMW0fe7Now

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