A revolução pelo orçamento | Entre a tomada da Bastilha e o teatro no canal Memória | por Carlos Matos Gomes

A saga da discussão da proposta de orçamento geral do estado para 2021 é idêntica à dos anos passados. Os políticos são mais previsíveis que cantores de karaoke e os partidos são mais repetitivos que uma formatura da tropa a evoluir em ordem unida às ordens dos mesmos comandantes.

A discussão do orçamento é fácil para a direita, porque o regime vigente de capitalismo e democracia liberal corresponde à sua matriz de interesses. São contra os orçamentos dos partidos sociais-democratas porque estes atribuem sempre, e na sua visão, demasiados recursos a serviços públicos que podiam ser entregues ao lucro privado. A direita vota contra os orçamentos sociais-democratas porque transforma em despesa pública uma parcela significativa dos seus possíveis lucros. Une-se, por isso, com facilidade quer para votar contra, quer para encontrar fórmulas coligadas de governo. Simples.

O drama — se é que viver em contramão é drama — encontra-se na esquerda. A esquerda, por definição quer mudar o sistema e o mundo. Quer a revolução na posse dos meios de produção e no modo de produzir, visa a tomada do poder. Os sociais-democratas são seus inimigos. É histórico e há mais de cem anos.

A discussão do orçamento é a ocasião asada para a esquerda se apresentar revolucionária. O que é coerente. Que seja ao menos uma vez por ano. Mas essa coerência tem custos: a proposta de revolução fá-la aliada objetiva da direita e, no final do negócio, a direita enche os bolsos e a esquerda da revolução vai para rua gritar contra a exploração. Paga para poder dizer que luta pelo poder. Fica de alma cheia e pronta a firmar como os jogadores de futebol após uma derrota: «Há que levantar a cabeça e ir de novo à luta!» As entrevistas à porta dos balneários são aulas de ciência política.

Com o regresso da direita ao poder, volta tudo à situação primitiva para depois a esquerda avançar e ficar ao fim de quatro anos no lugar onde estava há oito! É a política dos dois passos atrás para um passo em frente.

Fazer a revolução com as reivindicações das alíneas do orçamento do Estado tem tido ainda aqui em Portugal e na Europa como consequência o definhamento da esquerda do tudo ou nada, dos maximalistas. Na análise aos resultados eleitorais pelos comités centrais é evidente que a discussão anual das propostas de orçamento é vista como uma cena da revolução francesa, em que as verbas e os escalões de impostos são as barricadas revolucionárias. Em teoria parece ser uma comparação legítima, a questão situa-se nos resultados, com perdas constantes.

Talvez, talvez a elevada abstenção nas eleições, o alheamento das pessoas da vida cívica e política, a alienação através do futebol e tantos outros fenómenos de anomia social se devam a este comportamento dos profissionais da política, do clubismo partidário… talvez… mas entretanto a revolução continua… o IRS para rua, por exemplo…

A realidade é o que é. Existe um guião conhecido, velhos atores com as mesmas rábulas, e seria estultícia esperar que, sendo idênticos os ingredientes, o espetáculo fosse diferente. É uma reprise, mas é o único programa de teatro, excetuando o Big Brother, que as televisões passam fora do canal Memória.

Carlos Matos Gomes

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