Conservadores querem novo espaço à direita, mas nem todos clamam por Passos Coelho, in Expresso

Centristas e sociais-democratas declaram-se “órfãos” por não se reverem em nenhum partido atual. Passos Coelho é visto, por uns, como “federador das direitas”, mas há também quem prefira um caminho “anti-Chega”

Orfandade política foi o sentimento partilhado por Nuno Gonçalo Poças, Pedro Gomes Sanches e Francisco Mendes da Silva em artigos de opinião escritos na semana passada. Centristas e sociais-democratas concordam que o PSD, o CDS, o Chega e a Iniciativa Liberal não representam muitos dos eleitores da direita conservadora e, por isso, há espaço para algo  ou alguém  surgir. A discordância está na figura que deve liderar esse novo capítulo – e no posicionamento que esse capítulo poderia assumir.

“Temos dois partidos [PSD e PS] exaustos, clientelares, com casos de corrupção, hesitantes e que partilham da mesma raiz social-democrata”, diz ao Expresso Pedro Gomes Sanches, que foi adjunto no Governo de Pedro Passos Coelho e que escreveu sobre a “falta” de uma “direita popular conservadora”, mesmo que isso signifique contrariar a sua “desconfiança” face a novos partidos. Gomes Sanches chega a dar o nome de “Partido Popular Conservador”, num claro aceno a quem gostaria de ver regressar à política ativa: Pedro Passos Coelho“É o federador das direitas, é quem tem o capital político e moral para levar avante a agenda reformista”, vinca, apesar de manter as expectativas baixas quanto a uma eventual anuência do ex-líder do PSD.

Mais do que procurando já a criação de um novo espaço político, o colunista do Expresso assume o seu artigo como exercício de “reflexão” e “provocação” aos partidos que compõem a direita. Ainda assim, Gomes Sanches admite que recebeu “várias mensagens” de apoio e nota que o eleitorado está “mais disponível para partidos novos” dado o panorama político atual onde as pessoas “não veem o elevador social a funcionar”.

Este artigo de opinião surgiu de uma reflexão semelhante feita por Nuno Gonçalo Poças, no Observador, que “entre o vazio do Chega, o cansaço do PSD e o congresso do CDS” também destacou a falta de um Partido Popular. Mas não destaca nenhum nome capaz de dar rumo a este movimento.

O regresso do antigo primeiro-ministro é desejado por várias personalidades da direita e o próprio tem aumentado as especulações quanto às suas ambições com o ressurgimento em vários eventos onde falou abertamente de atualidade política deixando até farpas ao Governo da AD.

Isto não significa, contudo, que todos vejam em Pedro Passos Coelho a chave para o futuro da direita. A ambiguidade quanto ao Chega – o ex-líder do PSD disse que o partido de André Ventura “não é antidemocrático” e recusou linhas vermelhas – coloca alguns autores com experiência política a olhar noutras direções.

Exemplo disso é o texto de Francisco Mendes da Silva no Público, onde argumenta que as presidenciais mostraram que uma boa parte do eleitorado de centro-direita não apoia uma aproximação à extrema-direita. “Existe uma fatia decisiva do eleitorado de centro e de direita que quer o PSD a vencer eleições, mas que em caso algum desejará ou se conformará com a possibilidade de ser o Chega a resolver o problema da governabilidade, aliando-se ao PSD. (…) A transferência de votos da primeira para a segunda volta das presidenciais, dos candidatos da direita para António José Seguro, mostra-o sem grande margem para dúvidas”, lê-se.

Ao contrário dos outros autores, Francisco Mendes da Silva pede uma nova alternativa à direita que se “defina como anti-Chega capaz de “prescindir da barbárie extremista”. Ao Expresso, o antigo deputado do CDS não avança nomes que podem protagonizar esta movimentação à direita. Contudo, garante que “há pessoas suficientemente exasperadas [com o cenário político atual] para pensar em avançar”.

A ideia de um regresso de Pedro Passos Coelho disponível para se coligar com o Chega pode servir de incentivo a esta lista de candidatos. Além disso, há também uma “alteração das regras do jogo”. “Antes um partido tinha de ter 20% [dos votos], hoje não é assim. Um partido com 5% pode influenciar, pode até criar uma maioria à direita sem o Chega”, explicou numa lógica que juntaria o PSD, a Iniciativa Liberal e um eventual novo partido. Além disso, Francisco Mendes da Silva defende que os partidos já não têm de ter a mesma implantação para serem revelantes e podem existir apenas de forma temporária.

Mas, mais do que apresentar um programa político para um novo espaço à direita, o centrista tinha como objetivo refutar a ideia de que já não há espaço para nascerem novos projetos com capacidade de influenciar o cenário político. Resta saber quem está disposto a dar esse passo e se o consegue fazer antes do tão esperado regresso de Pedro Passos Coelho. Se falhar o timing, é certo que será necessário aguardar que o ex-líder do PSD seja testado e, só quando este escorregar, é que é possível ir buscar os votos necessários para fazer nascer algo novo à direita.

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