Hildegarda de Bingen, vivia enclausurada em uma cela de pedra e, ainda assim, mudaria para sempre a maneira como a Europa passaria a compreender o corpo feminino

Alemanha, 1098.

Em uma família nobre nasceu uma menina frágil, frequentemente doente e atormentada por experiências que não conseguia explicar. Era a décima filha da família e, por isso, considerada um fardo. Chamava-se Hildegarda de Bingen. Desde muito pequena dizia enxergar luzes intensas, ouvir sons e contemplar imagens que permaneciam vivas diante de seus olhos. Anos mais tarde afirmaria que essas visões provinham de uma “luz viva” que envolvia toda a criação.

No século XII, uma criança assim despertava mais preocupação do que admiração. Delicada demais para um casamento e distante do papel esperado para uma mulher da época, acabou sendo entregue à Igreja. Aos oito anos foi levada ao mosteiro de Disibodenberg, onde passou a viver reclusa ao lado da eremita Jutta von Spanheim. Sua nova realidade era uma pequena cela de pedra, marcada pelo silêncio, pela oração e por uma rotina rígida. Não recebeu educação formal e nada indicava que teria qualquer influência sobre o mundo.

Poderia ter sido esquecida ali, como aconteceu com tantas outras mulheres de sua época.

Mas não foi.

Aprendeu latim, aprofundou-se nas Escrituras e dedicou anos à observação, ao estudo e à reflexão. Durante décadas manteve suas visões em segredo, receando que fossem consideradas ilusões ou motivo de condenação. Naquele tempo, as mulheres não tinham autoridade para ensinar, escrever sobre teologia ou discutir assuntos ligados ao conhecimento, muito menos à medicina.

Em 1141, porém, tudo mudou.

Uma visão particularmente intensa a deixou gravemente enferma. Hildegarda concluiu que seu sofrimento era consequência de permanecer em silêncio e entendeu que precisava registrar aquilo que acreditava receber de Deus.

Foi assim que começou a escrever Scivias, uma extensa obra teológica repleta de simbolismo, interpretações bíblicas e reflexões espirituais. O livro levou cerca de dez anos para ser concluído. Quando parte do manuscrito foi apresentada ao papa Eugênio III, ocorreu algo extraordinário: ele aprovou publicamente seus escritos e reconheceu sua autoridade para divulgá-los.

A partir desse momento, Hildegarda tornou-se uma das vozes mais respeitadas da Europa medieval.

Fundou um novo mosteiro, orientou religiosas, aconselhou nobres, bispos, imperadores e papas, além de dedicar grande parte de sua vida ao estudo da natureza e da medicina. Escreveu obras como Physica e Causae et Curae, nas quais reuniu observações sobre plantas medicinais, minerais, alimentação, febres, infecções, ferimentos e diversas enfermidades. Defendia que a saúde dependia do equilíbrio entre corpo, mente e ambiente, uma ideia bastante incomum para sua época.

Registrou ainda observações sobre a digestão, descreveu propriedades terapêuticas de inúmeras plantas e foi uma das primeiras pessoas a destacar o uso do lúpulo na conservação da cerveja, prática que posteriormente se difundiria por toda a Europa.

Entretanto, uma das partes mais inovadoras de sua obra dizia respeito ao corpo feminino.

Hildegarda escreveu sobre a menstruação de maneira natural, sem tratá-la como impureza. Descreveu a sexualidade feminina com uma franqueza raríssima para o século XII, reconhecendo a existência do prazer sexual da mulher. Escreveu sobre gravidez, parto, fertilidade e saúde feminina como fenômenos naturais da criação, e não como consequências do pecado.

Também contestou a ideia de que toda doença representava um castigo divino, afirmando que muitas enfermidades surgiam do desequilíbrio do organismo e das condições de vida. Embora reconhecesse diferenças entre homens e mulheres, defendia que ambos possuíam igual dignidade diante de Deus.

Em uma sociedade que frequentemente via a mulher como inferior, Hildegarda afirmava que o corpo feminino era igualmente digno, sagrado e parte essencial da harmonia da criação.

Sua produção intelectual foi muito além da medicina.

Compôs dezenas de obras musicais de extraordinária complexidade, escreveu poemas, tratados científicos e teológicos, correspondeu-se com algumas das figuras mais poderosas de seu tempo e tornou-se uma das raríssimas mulheres medievais autorizadas a pregar publicamente.

Sua influência atravessou fronteiras e séculos.

Quando morreu, em 1179, aos 81 anos, já era conhecida como a “Sibila do Reno”, título que refletia a admiração despertada por sua inteligência e por suas visões.

Séculos depois, a Igreja Católica a proclamou santa e a reconheceu oficialmente como Doutora da Igreja, uma distinção concedida a pouquíssimos pensadores cristãos ao longo da história.

Hildegarda de Bingen foi enviada para um mosteiro quando ainda era criança porque muitos acreditavam que sua vida teria pouca importância.

Em vez de desaparecer atrás dos muros de uma cela, transformou-se em teóloga, médica, naturalista, compositora, escritora e conselheira de papas e imperadores.

Em uma época que ensinava as mulheres a silenciarem sobre o próprio corpo, ela lhes devolveu voz, dignidade e conhecimento.

História Perdida agradece por sua leitura 

Fonte: Hildegard of Bingen: The Woman of Her Age

Fonte: Voice of the Living Light: Hildegard of Bingen and Her World

Fonte: Vatican (canonização e proclamação como Doutora da Igreja)

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