Entrevista a Daniel Bessa: “O Diabo não veio, mas isto está por arames”| in Jornal “O Observador”

Entrevista conduzida Por Edgar Caetano | 21/01/2019 

Quando se diz que Portugal “dá lucro”, excluindo as responsabilidades com o pagamento da dívida — como fizeram recentemente Catarina Martins e Marisa Matias, do Bloco de Esquerda — isso mostra que somos governados por pessoas comparáveis a “alguém que vai pedir ajuda ao balcão de sobreendividados da DECO mas garante que ‘está tudo muito bem, só não consigo pagar a dívida´”. Em entrevista ao Observador, Daniel Bessa diz que este é um tipo de raciocínio que não vem só dos partidos mais à esquerda mas, também, de um Partido Socialista onde os “pedronunistas” têm cada vez mais influência, pese embora a “mestria” de António Costa a conter essa transformação do partido em algo “muito diferente do que era dantes”, do que era no tempo de Mário Soares e do tempo em que Daniel Bessa foi ministro da Economia (de Guterres).

Daniel Bessa acredita que Mário Centeno não irá fazer outro mandato como ministro das Finanças, até para não ter de ser ele a “gerir as consequências da política que tem sido seguida”. Depois de anos em que o Governo “não investiu nada”, agora estão a ser lançados “novos investimentos todos os dias, talvez para promover o ministro Pedro Marques”, mas já a partir do próximo ano “não vai haver dinheiro para esses investimentos todos”. “Vão ter de pagar às farmácias… Vão ter de recrutar os funcionários para resolver o problema das 35 horas. Não vão querer reduzir os salários ou aumentar os impostos… Têm os compromissos que foram agora anunciados em matéria de investimento… A maionese não prende, como se costuma dizer”, afirma Daniel Bessa, atirando que “o Diabo não chegou, mas isto está por arames”.

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Jesus, mestre do Bem | Frederico Lourenço

Se é verdade que os quatro evangelhos canónicos retratam Jesus como profeta, não é menos evidente para quem lê estes mais maravilhosos de todos os textos que a sua figura central, Jesus de Nazaré, é retratado também como mestre. A palavra «mestre» (em grego «didáskalos») é usada como forma de alguém se dirigir a Jesus pela primeira vez, no evangelho mais antigo, em Marcos 4:38. Neste evangelho, há uma dúzia de ocorrências da palavra «mestre», em que tanto os discípulos de Jesus como pessoas do público em geral se lhe referem por meio dessa palavra.

Marcos também nos clarifica o conteúdo da didáctica praticada por este extraordinário «didáskalos»: trata-se de um «ensinamento novo» (διδαχὴ καινή, Marcos 1:27). Nunca é de mais sublinhar a novidade cortante daquilo que Jesus veio ensinar. Jesus – com a doutrina de «fazei bem àqueles que vos odeiam» (Lucas 6:27) – veio ensinar à humanidade a novidade absoluta do Bem.

Mencionei que, em Marcos, tanto os discípulos como o público em geral se dirigem a Jesus com a interpelação «mestre». Curiosamente, a situação é subtilmente diferente nos evangelhos de Mateus e de Lucas. Nestes dois evangelhos, o público em geral usa a palavra «mestre» para referir Jesus, mas os discípulos não lhe chamam διδάσκαλος. Chamam-lhe «senhor» (κύριος) e, em Lucas, temos a situação curiosa de Jesus ser chamado por um nome que está ausente de todos os outros livros do Novo Testamento: trata-se da palavra homérica «epistátês» (ἐπιστάτης), que ocorre pela primeira vez na literatura grega no Canto 17 da Odisseia.

O termo em Homero significa algo como «suplicante», mas na literatura grega da época clássica tem o sentido de «comandante». No «Édipo em Colono» de Sófocles, o deus Posídon é referido como o «epistátês» de Colono, ou seja «divindade tutelar de Colono». Quando os discípulos de Jesus no Evangelho de Lucas aplicam ao seu mestre esta palavra ausente de todo o restante Novo Testamento, estão a aplicar-lhe uma palavra cheia de História.

Voltando a «mestre» como «didáskalos»: a palavra também é usada por Lucas com referência a João Baptista (Lucas 3:12). Há muitas semelhanças entre Jesus e João Baptista que ressaltam da leitura dos quatro evangelhos. Entre as diferenças, no entanto, há uma fundamental: João Baptista preconizava o ascetismo. Jesus, não.

Isso está claríssimo logo a partir de Marcos 2:18. O prazer da vida humana fazia parte da maneira de Jesus estar na terra – e os seus discípulos, contrariamente aos de João, não jejuavam: apreciavam o prazer da boa mesa e do bom vinho. Esta desvalorização do ascetismo e da abstinência por parte de Jesus está clara em Mateus 9:19; 11:18, Lucas 7:33-34. Toda a gente sabe o que Jesus fez perante a perspectiva de dar água a beber numa festa: transformou-a em vinho.

O cristianismo que se estabeleceu a partir do «ensino novo» de Jesus pautou-se, na sua obsessão pela abstinência, por João Baptista. Estabeleceu a ideia de que o prazer terreno é mau, que é preciso jejuar, que há uma incompatibilidade básica entre espiritualidade e corporalidade: que o corpo é, de alguma forma, intrinsecamente profano. Os apetites humanos são para NÃO satisfazer, na doutrina do cristianismo, à boa maneira de João Baptista. No entanto, não foi esse o ensinamento do mestre do Bem, Jesus.

Por isso, uma das frases mais deliciosas de Jesus é a que ocorre quando Jesus, já ressuscitado e, para todos os efeitos, já só com corpo espiritual, aparece aos discípulos e diz: «Rapazes! Tendes algo para comer?!» (João 21:5)

Comamos, pois. Não martirizemos o nosso corpo. Porque o mestre do Bem nos ensinou que fazer bem ao corpo faz bem.

(na imagem: Jesus e João Baptista por Guido Reni)

Frederico Lourenço

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Lourenço

 

Vinte Poemas de Amor e Uma Crônica Desesperada | Valdeck Almeida de Jesus

Sinopse: O poeta Valdeck Almeida escreveu vinte textos poéticos e uma crônica, os quais refletem um amor não realizado por uma pessoa conhecida através de cartas e outra através de redes sociais. Ambas são do Triângulo Mineiro, e nenhuma das duas foram encontradas pessoalmente, nesse trânsito que durou mais de trinta anos. O livro foi traduzido ao espanhol, com ilustrações de Zezé Olukemi.

Interessados podem clicar nesse link e baixar gratuitamente:
Para Valdeck “esta é uma oportunidade de circular por lugares não acessíveis e ter a sensação de poder fazer parte do imaginário de leitores de todos os cantos, além de ser uma alternativa para escritores iniciantes e/ou veteranos para democratizar sua produção literária”.

“Uma coligação à direita é a única forma de retirar a esquerda do poder” | Pedro Santana Lopes in ENTREVISTA TSF DN

O Dr. António Costa introduziu este fator novo que acho que foi muito clarificador na política portuguesa. Fazia falta o PCP e o Bloco estarem comprometidos com soluções governativas e essa experiência aconteceu. Agora o caminho, na minha opinião, é apresentar alternativa à política que eles seguiram, e é por isso que estou a trabalhar. Portanto, falam por mim os atos e as propostas pela positiva que faço. Não gosto de dizer que nunca me coligarei com o PC ou com o Bloco ou com o PS, ou seja o que for, não comparando. Prefiro falar pela positiva, sobre com quem admito a hipótese de me coligar depois das legislativas, se tivermos representação parlamentar (…) | 19 DE JANEIRO DE 2019

Pacificado no seu papel de líder do Aliança, Pedro Santana Lopes apresenta o seu novo partido à direita do PSD – indicando os impostos e as empresas como prioridades. Aliás, diz que só haverá uma alternativa à esquerda quando a direita se unir. E quer fazer parte dessa união.

A manutenção de Rui Rio na liderança do PSD é uma boa ou má notícia para o Aliança de Pedro Santana Lopes?
Vamos ver, que os outros partidos políticos tenham a sua casa arrumada e a sua vida organizada é bom para o sistema político em geral. Neste caso, trata-se obviamente de um partido com quem a Aliança poderá trabalhar – não é um partido distante do Aliança. Eu, por ter deixado esse partido, não passei a estar mais próximo do PCP ou do Bloco de Esquerda, estou no espaço político onde sempre estive. Por isso, é bom que as outras forças políticas tenham as suas decisões tomadas, preparando as opções que têm de fazer em ano eleitoral para os programas serem nítidos, as diferenças também, e para se saber qual é a estratégia política de cada um.

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O PSD QUE EU CONHECI E O ACTUAL ESTADO DA ARTE | Rodrigo Sousa e Castro

Após a revolução tive a oportunidade de conhecer notáveis personalidades do PPD.
Era jovem, comprometido com a revolução e com a mudança e também comprometido com a defesa intransigente das Instituições Democráticas nascentes, particularmente a Constituição da República Portuguesa tinha um enorme interesse em conhecer esses políticos e com eles dialogar.
A notável plêiade de fundadores e artífices do PPD, Sá Carneiro, Sá Borges, Magalhães Mota , Pinto Balsemão, Jorge Miranda , Victor Crespo, Fernando Amaral, Mota Amaral e muitos mais, confortava os que lutavam pela Democracia, Igualdade e Justiça e colocava o partido como elemento estrutural do novo Regime , a III República, conjuntamente com o partido socialista de Mário Soares, Salgado Zenha, Almeida Santos e outros.
Era claro, que ao longo do País e sobretudo nas pequenas localidades, os que apoiavam ou militavam no partido, constituíam na maior parte dos casos, núcleos conservadores muitas vezes tutelados pelos curas católicos, mas gente, que havia acatado a ideia de Liberdade e Democracia como uma nova esperança.
A liderança politica, acima citada, urbana, cosmopolita e académica teve a arte e o condão de conduzir essa massa conservadora em apoio duma solução progressista para a Nova República, e foi ela própria muitas vezes o motor da mudança (Jorge Miranda p. ex.) tal como noutras alturas foi o moderador dos excessos.
Essa insigne geração de políticos desapareceu ou está em vias disso e o partido PPD que entretanto tomou o nome de PSD gerou dentro de si, através do carreirismo partidário, as alternativas subsequentes.
A transição foi feita por um homem de características totalmente diversas, Cavaco Silva, que rodeado de arrivistas da “ província” geriu o partido numa fase de vacas gordas, constituindo um núcleo duro de indivíduos que hoje podemos recordar pelas piores razões.
Uma parte enveredou por processos fraudulentos de enriquecimento sem causa, outra parte aninhou-se na comodidade dos negócios privados mais ou menos sérios e benéficos para a Nação.
Eis agora chegados a um ponto em que a liderança perdeu valor e prestigio, qualidade humana e técnica, e mais grave perdeu a noção do tempo politico e da vacuidade do seu vazio estratégico e de pensamento.
Resultante de uma cooptação sem critério das lideranças intermédias, o arrivismo, nepotismo e compadrio não é mais escamoteável como uma realidade incontornável deste e de outros partidos políticos.
É nesse quadro que Pedro Passos Coelho, alguém sem a mínima preparação ou qualidade para governar o País, chega a Primeiro Ministro.
A inércia das Instituições garantirá pela certa que o PSD não vai desaparecer de pé para a mão, mas o caminho que se perfila, a não ser arrepiado, é de decadência .
O que não augura nada de bom para a saúde da Democracia que tanto prezamos.

Rodrigo Sousa e Castro

Retirado do Facebook | Mural de Rodrigo Sousa e Castro

Entrevista a Catarina Martins | “Extrema-esquerda está associada a totalitarismos, perseguição, ódio. Não encontra disso no BE” | in Jornal “O Observador”

“As pessoas precisam de saber que estamos a pagar a um sistema financeiro — que salvámos repetidas vezes e que nunca quer socialização de ganhos — tanto como gastamos no SNS.”

Em quase hora e meia de conversa, só por uma vez Catarina Martins hesitou a meio de uma resposta. Foi quando lhe pedimos um defeito que apontava a António Costa. Não porque não tenha críticas a fazer-lhe (tem várias, do ponto de vista político, a ele, ao governo e ao PS), mas porque estava à procura da melhor formulação para aquilo que queria dizer: “Tem esperança de que os problemas se resolvam mais depressa, quando eles precisavam de um pouco mais de olhar.” Que é como quem diz, fica à espera que as coisas se resolvam por si. De resto tinha frase pronta para quase todas as perguntas do Observador, naquela que é a primeira grande entrevista deste ano eleitoral para a dirigente bloquista.

A conversa começa na Lei de Bases da Saúde (a do governo seria “perfeita” se tivesse lá escritas as palavras da nova ministra da Saúde), segue pela legislação laboral, Europa, propinas. E quando chega ao tema professores, Catarina Martins ataca com palavras duras: “O governo está a fazer populismo. É absolutamente irresponsável”. Estabelece como uma das prioridades económicas do país e da Europa as alterações climáticas. Não traça metas nem cenários de governo para as próximas legislativas, diz apenas que a esquerda precisa de “mais força”. Até porque “o Partido Socialista é o Partido Socialista”.

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Bernini, Pluto et Proserpina | Gian Lorenzo Bernini

Gian Lorenzo Bernini, Pluton et Proserpine (Persephone), 1621-22, marbre de Carrare, 225 cm de hauteur (Galleria Borghese, Rome) Entretien entre les docteurs Beth Harris et Steven Zucker. Proserpine est la variante latine du mythique Perséphone grec. Créé par Beth Harris et Steven Zucker.

O Livro do Império | João Morgado

Um manuscrito resgatado pela Inquisição para redenção de Portugal.

«Portugal tem um império em declínio, com um rei destemido, mas influenciado por uma nobreza e um clero corruptos. Omnipotente, a Inquisição não hesita em prender, matar e destruir as mentes e as obras mais brilhantes.

No país vizinho, observam a decadência de Portugal, jogam com o poder e o apoio dos jesuítas, e mantêm a esperança de voltar a dominar toda a península.

Mas eis que um trota-mundos sem eira nem beira, apesar de uma vida de prisões, putaria e inimigos poderosos, decide cantar as glórias desse povo num poema épico que lembra todos “aqueles, que por obras valerosas” se foram da “lei da morte libertando”. Mas ao cantar uma estirpe de homens que se igualara a deuses, por contraste compunha também um libelo acusatório contra a depravação vigente. Como foi possível que el-rei e o Santo Ofício tenham deixado publicar esta obra?

Livro do Império narra a vida de um poeta arrependido e a história de Portugal em vésperas da batalha de Alcácer-Quibir.»

JL Jornal de Letras “Glória, Decadência, Redenção”, por Miguel Real (19.12.2018)

“Se um Eça do nosso tempo se atrevesse a perguntar a João Morgado – Filho, tu estavas lá? – teria rigorosa resposta – Sim, estive lá. Porque a expressão aliciante da sua prosa consegue despertar a convicção de que o autor estava efectivamente esteve lá, e tudo o que diz tem igual autoridade à dos documentos que lhe permitem enriquecer a crónica dos acontecimentos, que recria e medita com a minúcia do seu espírito criador”,

Prof. Adriano Moreira Apresentação da obra, 17.DEZ.18

“Após séculos de mal-entendidos, «O Livro do Império» vem, por fim, reconciliar um Camões humanizado com o público leitor”, numa obra que “pela sua argúcia analítica, pela cultura da época, riqueza da linguagem e ritmo narrativo, consagra João Morgado como um escritor de referência no romance histórico e na literatura portuguesa.”

F. Delfim dos Santos, Universidade Nova. Apresentação da Obra, FNAC Chiado, 17.DEZ.18

Os Lusíadas, (Canto IX, 83) | Luis Vaz de Camões

Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Os Lusíadas, (Canto IX, 83)

Luis Vaz de Camões

YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente 
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte     violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas     portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida     há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

MÁRIO CESARINY

Poema | Licínia Quitério

Há homens que atravessam a rua
sem olhar
Levam nos ombros pedaços da noite
e não há cor que os vista
São homens cinzentos 
indiferentes ao sol ou à borrasca
Quem os vê diz
ali vão os homens tristes
mas nem eles sabem o tamanho
da tristeza ou da improvável alegria
O chão da rua conhece
a cadência incerta
a leveza ausente
dos passos destes homens
Há quem lhes chame homens de bruma
porque vagos são
os seus contornos
Virá uma manhã sem homens tristes
Ninguém perguntará
para onde foram
Alguém escreverá a sua história
no livro branco
do esquecimento
A rua permanece

Licínia Quitério

Estados Unidos da América | o mais longo “shutdown” da sua História | Germano Almeida

A partir de ontem, segunda, 14 Janeiro 2019, os Estados Unidos estão já a viver o mais longo “shutdown” da sua História – e já tiveram mais de 20. Nunca se assistiu em Washington DC a um clima de paralisação e impasse político tão grave e irresolúvel como o que existe neste momento, com Presidente e liderança democrata no Congresso a terem posições aparentemente inconciliáveis sobre o financiamento do muro. Já vamos no dia 25 da paralisação parcial dos serviços federais – é certo que só afetam cerca de um quarto do total dos ministérios, mas parece-me, no mínimo, ridículo desvalorizar (como já vi um ou outro comentador da nossa praça fazê-lo) a dimensão e o alcance que isso tem: estamos a falar de mais de 800 mil funcionários públicos americanos sem ganhar há quase um mês, alguns deles já almoçam e juntam à custa da caridade. É isto “melhorar a economia americana” e “proteger o trabalhar americano”? Esqueçam. Não são só “os museus e os parques” que deixam de funcionar. Há vários serviços que não abrem, há programas de assistência que não se cumprem, há pessoas necessitadas ou dependentes que deixam de ser assistidas.

Tudo por causa de um Presidente disfuncional, que preso a um egocentrismo cego não sabe negociar politicamente – nem faz a mínima ideia do que significam as palavras “compromissos” ou “cedências”. Trump insiste em tentar virar o bico ao prego e vai dizendo que “os democratas estão a prejudicar os americanos” e está à espera que “eles comecem a trabalhar”. Mas não é assim: num impasse como este, quem tem que ter a chave da solução é, obviamente, o Presidente. Ameaças de recorrer à “emergência nacional” (utilizando fundos que estariam destinados a acontecimentos como catástrofes) não vão, desta vez, safar Donald. O que esta enorme crise política do “shutdown” está a revelar, essencialmente, é que o estilo manhoso de “artista de variedades” de Donald Trump – uma espécie de vendedor de banha de cobra com uma conversa sexy para quem é vulnerável a cair em populismos baratos e nada sustentados em factos – resultou no ambiente eleitoral da campanha de 2016 para um nicho muito significativo do eleitorado americano. Mas é curto – mesmo muito curto – para alguém que ocupa as funções (mesmo muito difíceis) de Presidente dos EUA. Trump está a exibir, nesta crise, toda a sua incompetência e todas as suas limitações políticas. Naquele sistema complexo, ser Presidente implica saber negociar, fazer compromissos, ceder um pouco para levar a sua avante. Trump tem sido o contrário disso: tem passado os últimos dias a insultar os democratas, a minimizar os efeitos do que provocou.

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QUANDO A PASIONÁRIA VIROU CATÓLICA | José Luís Andrade | in “Observador” 14/1/2019

Depois de ter sido uma das figuras maiores da máquina de propaganda de Moscovo, a “Pasionaria” acabou os seus dias reconciliada com a sua fé de infância e juventude, tendo regressado à Igreja Católica.

Dolores Ibárruri Gómez, mais conhecida por la Pasionaria, foi uma encarniçada militante comunista espanhola, membro do Bureau Político do Partido Comunista de Espanha desde 1932, e sua presidente desde 1960 até à sua morte em 1989. Nascida em 1895, crescera numa família basca de simpatias carlistas, entranhadamente católica. Os parcos recursos do pai, mineiro, e a sua larga prole (11 filhos), levaram-na a ter de sair da escola aos 16 anos para ganhar a vida e ajudar a família. Pouco depois, conheceu o seu primeiro companheiro, Julián Ruiz, um militante socialista filo-bolchevista, com quem casaria em 1916. Ruiz foi determinante na sua conversão ao comunismo e, com ela, e com outros defensores da inscrição do PSOE na Internacional Comunista, fundaria o PCE, em Novembro de 1921.

Ao escrever o seu primeiro artigo em El Minero Vizcaíno, adoptou o pseudónimo de Pasionaria, ou porque o tivesse redigido durante a Semana Santa, como sugere a maioria dos seus biógrafos, ou porque o usasse nos seus anteriores textos de colaboração no boletim paroquial, como defendem alguns. Mercê do seu papel na revolução das Astúrias de 1934, iniciada pelo PSOE mas a que o PCE se anexara oportunisticamente, foi «eleita» para o Comité Executivo da Komintern, no 7º (e último) Congresso da Internacional Comunista, em Agosto de 1935. Foi nesta reunião magna dos comunistas estalinistas que foi aprovada a estratégia das Frentes Populares que, poucos meses depois, daria frutos em Espanha. A Pasionaria seria uma das principais intérpretes dessa orientação política e uma das figuras de proa da eficaz máquina de propaganda de Moscovo.

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Lancement du Prix littéraire francophone régional : «Le Choix Goncourt de l’Algérie» | in “alifa” le magazine de l’art et de la culture

Le Choix Goncourt de l’Algérie est un prix créé par l’Académie Goncourt et porté par l’ambassade de France et l’Institut français Algérie.

L’Institut français d’Algérie a obtenu cette année la création d’un prix littéraire spécifique, parrainé par l’Académie Goncourt : «Le Choix Goncourt de l’Algérie». Organisé seulement dans une douzaine de pays à travers le monde, le Choix Goncourt sera décerné pour la première fois en 2019 en Algérie. Cette première édition est donc un événement.

Dans chaque ville où l’Institut français d’Algérie est présent (Alger- Annaba – Constantine – Oran – Tlemcen), des jurys composés d’étudiants, de lycéens et d’adhérents aux médiathèques des cinq instituts français voteront pour désigner leur lauréat. Ce dernier sera choisi parmi les huit ouvrages francophones présélectionnés en 2018 par l’Académie Goncourt, en vue de l’attribution de son célèbre prix.

La proclamation du prix «Le Choix Goncourt de l’Algérie» aura lieu en mars 2019, à l’occasion de la Semaine de la langue française et de la francophonie, en présence des présidents des différents jurys. L’écrivain(e), dont le roman aura été choisi, sera invité(e) à parrainer l’édition suivante.

Pour en savoir plus : www.academiegoncourt.com/choix-goncourt-algerie.

Contact presse : meliza.beghdad@diplomatie.gouv.fr

https://www.alifa-dz.com/lancement-du-prix-litteraire-francophone-regional-le-choix-goncourt-de-lalgerie/

Se eu morrer | Maria Isabel Fidalgo

Se eu morrer grita aos céus que foi por ti. vela o meu rosto com um leque de seda e encosta-o ao teu bafo quente para que o frio não me quebre. ficarei assim um pouco mais de tempo sobre o mundo num agasalho de hálito perfumado. não me despenteies. olha-me como no primeiro momento em que me cegaste com os ponteiros do olhar e talvez eu acorde para uma última despedida. pega no meu corpo inerte como num lenço de vidro e pousa-o sobre o mar no travesseiro das ondas onde o teu busca a liquidez no verão. escreve no azul – amo-te- e sorrir-te-ei em cada braçada de água como um verso que se desnuda quando se diz amor pela primeira vez.

mif

Casimiro de Brito | Fragmento 3454 | LIVRO DE EROS

“Era como se as nossas cerimónias de amor fossem um quarteto de cordas (a mais perfeita das formas musicais) e tivessem quatro andamentos brilhantemente improvisados:
um, “lento assai, cantate e tranquillo”, em que as nossas ondulações empreendiam a bela iniciação da respirar e aspirar o outro, o seu corpo todo;
um “andante cantabile”, em que ela subitamente se inclinava sobre o meu corpo deitado e lambia e moldava o meu sexo detendo-se apenas quando ele já se transformava em mármore exactamente ao mesmo tempo que os meus dedos ligeiramente ensalivados tocavam no seu clítoris e se sentiam subitamente dulcificados sob uma ainda frágil cascata;
seguia-se depois a penetração, o “allegro vivace”, com ela quase sempre por cima de mim, cavalgando-me, e assim o prazer era cada vez mais profundo e duas vezes fogoso;
e, por fim, depois do grande orgasmo dela (o meu sabia retê-lo e deixava-o para os seus seios ou para a sua boca) — ó como se contraíam e vibravam todos os nossos músculos —, “o adagio ma non troppo e molto expressivo”, em que ela se deitava e abria as pernas e colocava os pés no meu peito ou nos meus ombros e eu sugava todos aqueles delicados odores, a sua ambrósia, os seus sucos tão delicados que não apenas os conservava na boca como os derramava na boca dela, e assim ficávamos irradiados pelos corpos que, deste modo, o meu estendido sobre o dela, abraçados, pareciam um só animal terroso e sagrado. Depois gemíamos e ríamos e chorávamos até adormecer.”

Casimiro de Brito
Fragmento 3454
LIVRO DE EROS

Retirado do Facebook | Mural de Sónia Soares Coelho

Declaração de Melo Antunes em 26 de Novembro: a mão estendida ao PCP

Numa longa declaração emitida no dia seguinte à vitória novembrista, um dos vencedores, o conselheiro da Revolução Melo Antunes afirmou que considerava indispensável a participação do PCP na construção do socialismo.

VER VÍDEO 

Em 26 de Novembro de 1975, o major Melo Antunes, conselheiro da Revolução, verberou os “desvarios” de militares e civis que quiseram promover ideias por ele consideradas pseudo-revolucionárias. Falou ainda da “desagregação das estruturas do Estado que ameaçavam tornar-se irreversíveis”, verificáveis nos meses anteriores.

Melo Antunes referiu-se à sublevação dos páraquedistas como uma causa próxima da crise mais recente, tendo havido vários outros factores que ultrapassaram largamente a mera sublevação dos páraquedistas.

O ideólogo do “Grupo dos Nove” emitiu um rasgado louvor a Jaime Neves, comandante do regimento de comandos, e passou daí a apelar a uma acalmia da situação, com vista a uma transição para o socialismo sobre carris democráticos, dando corpo a um “projecto viável de esquerda”.

Melo Antunes descartou ainda os caminhos de “retorno directo ou indirecto às formas de organização capitalista da sociedade”, que considerou “para sempre cortadas”.

E, ao defender uma “sociedade pluralista, em transição pacífica para o socialismo”, sublinha que considera muito importante o PCP participar num socialismo com essas características. Era este o ponto essencial da declaração de Melo Antunes, que delimitava o terreno relativamente a outros vencedores do 25 de Novembro, e que ficou conhecido como o seu beau geste, de mão estendida aos putativos vencidos, na hora da vitória.

VER VÍDEO : https://www.rtp.pt/noticias/25-novembro-1975/declaracao-de-melo-antunes-em-26-de-novembro-a-mao-estendida-ao-pcp_v874940

Autismo | Valério Romão

ROMANCE FINALISTA DO PRÊMIO FEMINA (França, 2016)

“Uma obra maior.” — Le Figaro

“Eu acho que o Henrique é
Faltava só uma palavra, era o parto ao contrário, já tinha saído o corpo todo e faltava unicamente a cabeça da frase, o cérebro da frase, o complemento que dava o significado integral à frase e Rogério, como um carro que desaprendesse de arrancar à primeira, soluçava num martírio solitário as sílabas […], e Marta, do seu lado, esperava pelo fim da frase com os pés bem calcados no soalho do carro, com as mãos a agarrarem os estofos com a força possível, com todo o corpo eriçado como um gato a quem quisessem tirar da caixa no veterinário.
O Henrique, Marta, eu acho que ele é autista.”

“Um livro tremendo, brutal de tão honesto, sobre um casal que descobre no filho os sinais de uma doença que o isola do mundo e do afeto dos pais. Autismo revela um escritor capaz de tocar nas feridas humanas mais fundas.”
—Expresso

“Romão vai diretamente à jugular. Um livro impiedoso, que impressiona pela proximidade entre enredo e biografia. O autor pode estar a exorcizar os seus fantasmas, mas fá-lo com uma capacidade única de meter o leitor dentro da sua casa assombrada.”
—Time Out

«DAQUI A 20 ANOS VAI SER UM PESADELO» | Jonathan Littell | in Jornal Expresso

( … ) Diz o escritor Jonathan Littell na importante entrevista que o “Expresso” publica hoje. E a entrevistadora pede para ele desenvolver. Littell desenvolve:

«Vamos estar demasiado ocupados em sobreviver. Se nada mudar, podemos até ter uma guerra na Europa. É matemático: se não fizermos nada acerca das alterações climáticas, as previsões são catastróficas. Agora temos um milhão de migrantes. Imagine 20 ou 30 milhões, a virem de toda a aprte, porque as suas regiões foram destruídas. Nessa altura, toda a gente se vai passar, e muito sangue vai ser derramado. E as democracias ocidentais vão sucumbir nos seus valores elementares – o que é típico da forma como os seres humanos gerem as coisas. Criamos todos estes brinquedos, estes computadores, estes “smartphones”, e nem sabemos como os usar. Uma das mais complexas conquistas da humanidade é utilizada parar tirar “selfies” e fotografias de comida, que partilhamos nas redes sociais.» A entrevistadora observa que Littell «pinta um quadro de alienação generalizada, o reinado do egocentrismo». E o escritor acrescenta: 

«Amplificado por estas máquinas, que foram desenhadas para aumentar os traços mais negativos das pessoas. Gostemos ou não do comunismo, o movimento que o originou foi o das pessoas a unirem-se e a tentarem mudar a sociedade. O mesmo aconteceu com as democracias: é sempre a acção colectiva que faz o mundo avançar. Todos estes brinquedos estão a conduzir à desintegração da sociedade, cada um está a olhar para si próprio, a entreter-se e a tirar fotografias. Neste contexto, as pessoas mais estúpidas ficam muito vulneráveis a tipos como Trump ou Bolsonaro. E as pessoas inteligentes estão demasiado ocupadas com as “selfies” para empreender algum tipo de acção. Então, quando Lisboa se tiver afundado no Oceano Atlântico, vão poder fotografar-se enquanto se afogam e vai ser genial! Vão com certeza captar momentos muito bonitos.»

Retirado do Facebook | Mural de Mário Machaqueiro

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa | Assinado em Lisboa, em 16 de Dezembro de 1990

Considerando que o projecto de texto de ortografia unificada de língua portuguesa aprovado
em Lisboa, em 12 de Outubro de 1990, pela Academia das Ciências de Lisboa, Academia
Brasileira de Letras e delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São
Tomé e Príncipe, com a adesão da delegação de observadores da Galiza, constitui um passo
importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestigio
internacional,

Considerando que o texto do acordo que ora se aprova resulta de um aprofundado debate nos
Países signatários.

a República Popular de Angola,
a República Federativa do Brasil,
a República de Cabo Verde,
a República da Guiné-Bissau,
a República de Moçambique,
a República Portuguesa,
a República Democrática de São Tomé e Príncipe, acordam no seguinte:

Artigo 1º

É aprovado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que consta como anexo I ao presente
instrumento de aprovação, sob a designação de Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
(1990) e vai acompanhado da respectiva rota explicativa, que consta como anexo II ao mesmo
instrumento de aprovação, sob a designação de Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da
Língua Portuguesa (1990).

Artigo 2º

Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as
providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário
ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador
quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.

Artigo 3º

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrará em vigor em 1 de Janeiro de 1994, após
depositados os instrumentos de ratificação de todos os Estados junto do Governo da República
Portuguesa.

Artigo 4º

Os Estados signatários adaptarão as medidas que entenderem adequadas ao efectivo respeito
da data da entrada em vigor estabelecida no artigo 3º.
Em fé do que, os abaixo assinados, devidamente credenciados para o efeito, aprovam o
presente acordo, redigido em língua portuguesa, em sete exemplares, todos igualmente
autênticos.

Assinado em Lisboa, em 16 de Dezembro de 1990.

CLICAR AQUI PARA VER O TEXTO DO ACORDO

http://www.cplp.org/Files/Filer/cplp/Acordos/maisAcordos/AcordoOrtogrLinguaPortug.pdf

DiEM25 | Reunião aberta em Cascais

Olá a tod@s,

Gostava de vos convidar para uma reunião em Cascais aberta a todos os membros inscritos no DiEM25 nessa área e que queiram participar de uma forma mais activa no movimento.

Vou estar no dia 12 de Janeiro pelas 17h no andar de cima da SMUP (https://www.smup.pt/) ao lado da estação de comboios da Parede.

Deixo o meu e-mail para que me possam contactar directamente: martadesousaesilva@gmail.com

Obrigada e até lá!

Marta de Sousa Silva 

Um ‘New Deal’ contra o populismo | Bernie Sanders e Yanis Varoufakis | AMANDA MARS in El País

O democrata norte-americano Bernie Sanders e o ex-ministro grego Yanis Varoufakis promovem uma Internacional Progressista | AMANDA MARS | 3 JAN 2019

Reunião da Internacional Progressista com Ada Colau no centro, Bernie Sanders a sua esquerda e Yanis Varoufakis de perfil.

“Há uma guerra global em curso contra os trabalhadores, contra o meio ambiente, contra a democracia, contra a decência. Uma rede de facções direitistas está se espalhando através das fronteiras para erodir os direitos humanos, silenciar a discordância e promover a intolerância. Desde 1930 a humanidade não enfrentava uma ameaça dessas.” Com estas palavras tão diretas começa o manifesto da Internacional Progressista, uma plataforma promovida pelo veterano senador esquerdista norte-americano Bernie Sanders e pelo célebre economista grego Yanis Varoufakis como resposta a velhos e novos inimigos. Os velhos são as elites que eles acusam de criar um sistema econômico cada vez mais desigual; os novos são os movimentos populistas de corte conservador com os quais ninguém contava há alguns anos.
As vitórias eleitorais de Donald Trump nos Estados Unidos, de Jair Bolsonaro no Brasil e do vice-premiê italiano Matteo Salvini serviram como um atestado de vida dessa tendência, uma prova empírica, quase um endereço postal. A Internacional Progressista procura o seu de alguma forma. Propõe uma “rede global” de esquerda que rebata essa maré que vem da direita. Quando políticos e intelectuais se reuniram entre os dias 29 de novembro e 1º. de dezembro na sede do Instituto Sanders, em Burlington (Vermont), para apresentar a iniciativa, chegaram a diagnósticos muito similares.

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O mito da honestidade de Salazar | Inês M. Santos

O mito da honestidade de Salazar só interessa a quem tem uma ideia errada do que era a vida naquela altura. A quem vive numa ignorância deslumbrada. E que não quer aprender o que realmente se passou.

Argumentam que naquele tempo é que era, que naquele tempo não havia políticos corruptos, naquele tempo os valores morais é que eram.

Sabem que mais? Salazar era corrupto. Salazar favorecia elites. Salazar sabia que eram as elites que lhe davam o poder e o mantinham à frente do país. Salazar sabia que a ignorância da população o ajudava a manter-se à frente do país. Salazar tirava aos pobres para dar às elites. Estão a ver o Robin Hood? É exactamente o contrário.

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Eu, Guilhermina | Ou a Verdadeira História das Mães de Bragança | Jorge Monteiro Alves

Esta estória baseia-se numa série de acontecimentos extraordinários registados em Bragança no Outono de 2003. Contudo, qualquer semelhança entre ficção e realidade será pura coincidência.

Dedicado a todas as nordestinas, de um e do outro lado do Atlântico

A estória da nordestina Guilhermina e do seu marido Quitério, tentado por fragâncias de amores-perfeitos que depressa murcharam, ou como um homem com uma rica vidinha estraga tudo por um par de mamas.

Santo Amaro de Oeiras

Jorge Monteiro Alves é natural do Porto, desse Norte onde não corre sangue lusitano nem magrebino, mas sim suevo, vândalo e godo, e onde as gentes parecem paridas do granito que cobre a terra. Talvez por isso não haja vento que as dobre. Ali, muito cedo aprende-se com as árvores – antes quebrar que torcer. E também elas gostam de morrer de pé. Partilham um sonho desde crianças: ver o Benfica na 2ª divisão. Ainda não o concretizaram. Mas não perderam a esperança.

— // — 

I – A velha apontou o dedo indicador na sua direcção e os olhos fizeram um esgar trocista, assim como a boca, coberta de dentes podres. Que podia ela fazer, pobre cega, contra poções de raízes de amor-perfeito, restantes ervas do demónio e macumbas com água suja das partes? Nada! O feitiço era demasiado poderoso. Mas que não perdesse a esperança, que vinha aí luz por entre nuvens escuras! Guilhermina, chorosa, ainda se atreveu a perguntar àquela bruxa medonha, coberta de rugas e de um xaile negro, se não havia mesmo forma de matar a vadia. A curandeira soltou um grunhido de protesto e fez um gesto brusco com a mão esquerda, como se afastasse maus espíritos ou a mandasse embora. Na dúvida, foi isto que fez. Não sem antes largar uma nota no imundo copo de plástico verde que servia de ornamento único à mesa comida pelos ratos.
Guilhermina saiu do casebre para a rua com alívio, liberta do cheiro a mofo, olhos de morcego e rabos de lagartixa. Má ideia tivera a comadre Otília em recomendar-lhe aquela ida à Benfazeja. E lá se tinham ido 50 euros naquela história! Mais do que não arranjar forma de matar a outra, o que lhe doía mesmo era ter largado tal quantia. E em troca de quê? De nada, pois então, que é igual a coisa nenhuma! Ela sabia lá quando vinha a luz ou que história era aquela das nuvens escuras! Quais esperanças, qual carapuça! Certo, mas certinho mesmo, era que o dinheiro se estava a ir. E mais depressa do que um balão furado perdia o ar.
Cumprimentou à direita e à esquerda. Olá, Guilhermina, olá! Onde vais a esta hora? Tu, por aqui? Ora bons olhos te vejam, rapariga! E ela estugava o passo, respondendo ao acaso e fugindo a todas. Atravessou meia Bragança cosida com as paredes das casas, como se fugisse do sol daquela manhã de Outono. Passou pelo cabeleireiro, cheiinho de vadias a tresandarem àquele perfume, de esplanadas com moças bonitas de perna traçada que falavam alto. E decerto dela. E assim passava de cabeça baixa, envergonhada, quase a medo. Estava certa, chegada que estava às portas da Igreja de Santa Clara, que todas a apontavam agora a dedo. Correu os últimos metros que a separavam do portão de casa, que abriu com dedos trémulos.

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JESUS CRISTO | Narrativas evangélicas do Natal | Anselmo Borges | in Jornal “O Observador”

A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem de dignificação de todos, mensagem que mudou a História.

Para se entender o que se passa com as narrativas dos Evangelhos à volta do Natal, há pressupostos fundamentais.

1. Em primeiro lugar, a fé cristã dirige-se a uma pessoa, Jesus confessado como o Cristo (o Messias) e, através dele, a Deus que Jesus revelou como Pai e poderemos também dizer como Mãe, com todas as consequências que daí derivam para a existência.

O que diz o Credo cristão, símbolo da fé? “Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia.” Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é verdade. Mas segue-se a pergunta fundamental: o que deriva dessas afirmações para a nossa existência de homens e mulheres, cristãos ou não? O Credo é teologia dogmática, especulativa, em contexto linguístico da ontologia grega. Ora, a teologia dogmática tem que ver com doutrinas e dogmas, com uma estrutura essencialmente filosófica. Pergunta-se: os dogmas movem alguém, convertem alguém, transformam a existência para o melhor, dizem-nos verdadeiramente quem é Deus para os seres humanos e estes para Deus?

Exemplos mais concretos, um do Antigo Testamento e outro do Novo, até para se perceber a passagem do universo hebraico em que Jesus se moveu e o universo grego no qual aparecem redigidos os Evangelhos. No capítulo 3 do livro do Êxodo aparece a manifestação de Deus na sarça ardente e Moisés dirige-se a Deus: se me perguntarem qual é o teu nome, que devo responder-lhes? E Deus: “Eu sou aquele que sou”. Dir-lhes-ás: “Eu sou” enviou-me a vós. A fórmula em hebraico: ehyeh asher ehyeh(“eu sou quem sou”, “eu sou o que sou”) é o modo de dizer que Deus está acima de todo o nome, pois é Transcendência pura, que não está à mercê dos homens, mas diz também (a ontologia hebraica é dinâmica) o que Deus faz: Eu sou aquele que está convosco na história da libertação, que vos acompanha no caminho da liberdade e da salvação. Depois, com a tradução dos Setenta, compreendeu-se este ehyeh asher ehyeh como “Eu sou aquele que é”, “Eu sou aquele que sou”, o Absoluto. Filosofando sobre Deus, a partir daqui, Santo Tomás de Aquino dirá que Deus é “Ipsum Esse Subsistens” (O próprio ser subsistente), Aquele cuja essência é a sua existência. Isto é verdade, mas significa o quê para iluminar a existência? Perdeu-se a dinâmica do Deus que está presente e acompanha a Humanidade na história da libertação salvadora.

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Putin praises ties with China in New Year greetings to world leaders

MOSCOW, RUSSIA – DECEMBER 20, 2018: Russia’s President Vladimir Putin gives an annual end-of-year news conference at Moscow’s World Trade Centre. Sergei Bobylev/TASS

MOSCOW, Dec. 30 — Russian President Vladimir Putin sent Christmas and New Year greetings to heads of state of dozens of countries and leaders of international organizations, the Kremlin said Sunday.

Putin wished Chinese President Xi Jinping good health, happiness and every success, and the Chinese people happiness and prosperity, according to the Kremlin’s press service.

He also praised the “comprehensive trust-based partnership and strategic interaction” between Russia and China as well as their positive cooperation, saying that effective joint work of the two sides will continue in the coming year.

In his greeting message to U.S. President Donald Trump, Putin underlined that Russia-U.S. relations is of great importance to ensuring global security and stability and reaffirmed Russia’s readiness to resume dialogue.

Putin hailed the “significant potential” of Russia’s relations with various countries including Japan, France and Germany, saying that Russia looks forward to continuing constructive dialogue with their leaders and promoting cooperation in various fields.

Meanwhile, Putin expressed confidence in his address to South Korean President Moon Jae-in that the two countries will have closer interaction to help consolidate peace and stability on the Korean Peninsula and Northeast Asia in general.

The Russian president also sent greetings to leaders of a number of international organizations including the United Nations, the International Monetary Fund (IMF) and the International Olympic Committee.

He expressed confidence that joint efforts will lead to further growth in various areas and better coordination of efforts on key issues on the regional and global agenda within the UN, BRICS, the Shanghai Cooperation Organization (SCO), the Group of 20 (G20) and other multilateral bodies.

http://www.chinadaily.com.cn/a/201812/30/WS5c28ea30a310d91214051cd9.html?fbclid=IwAR0k-3iuSbofrzDblQ2UYJDT4H8lM6JzGEZL6iQbtlqYsWEKvpZHC-ZLu2w

AS DUAS OSESSÕES FANTASMÁTICAS DA DIREITA | A MAIORIA ABSOLUTA DO PS E A “MORTE DA GERINGONÇA” | José Gabriel Pereira Bastos

Os “media” de direita (que são todos, não existe qualquer “media” de esquerda, que corresponda a uma maioria actual de 60%) andam excitadíssimos a anunciar que o PS pretende atingir a maioria asoluta (pondo Costa a competir com Sócrates e a poder governar sózinho, livre para construir alianças à direita) e, desse modo, ‘liquidar’ a Geringonça, afastando a Esquerda do poder e, obsessivamente, o PCP, para voltarem aos péssimos dias de antanho.

São, obviamente, intrigas e manifestações delirantes do seu desejo de voltar ao Governo, sem qualquer mérito. A aliança de esquerda devia ter governado Portugal desde o 25 de Abril e todos perdemos com as guerras do PCP com o PS (empurrando o PS para os braços da direita) e com as lideranças de Sá Carneiro, Cavaco Silva, Durão Barroso e Passos Coelho.

Depois desta experiência feliz, o PS não vai voltar a isolar-se (mesmo com maioria absoluta, que obviamente não acontecerá, felizmente) e a aliança de esquerda tornou-se a alternativa para construir o futuro e melhorar a vida dos pobres e dos trabalhadores.

A Geringonça vai funcionar, com o PCP ou sem ele, e seria uma péssima aposta do PCP voltar a isolar-se, por decisão própria. Esta foi a única oportunidade de o PCP influenciar um Governo de Esquerda, e fora da Geringonça, não terá outra – e as bases sabem-no.

Depois da queda do Muro de Berlim, da implosão da URSS e da China se ter voltado para a abertura ao ‘Ocidente’, o PCP tem que actualizar-se, num mundo sem comunismo – e quanto mais depressa melhor, sem deixar de combater pelas causas que a Intersindical representa melhor que o PCP, que é, actualmente, depois da morte do comunismo, um Partido Trabalhista e não um Partido Revolucionário (não há qualquer Revolução no horizonte e o perigo maior está no crescimento de direitas populistas radicais – um perigo que a Geringonça anula com enorme eficácia.

José Gabriel Pereira Bastos

Retirado do Facebook | Mural de José Gabriel Pereira Bastos

AMOS OZ | Já viu um fanático com sentido de humor? | ENTREVISTA POR ISABEL LUCAS EM 11 DE OUTUBRO DE 2018 | in Jornal Público

Amos Oz, 79 anos, morreu esta sexta-feira (28-12-2018), vítima de cancro, anunciou a sua filha, a historiadora Fania Oz-Salzberger. “Ele morreu… agora mesmo, após rápida deterioração, durante o sono e em paz e rodeado pelos seus entes queridos.”

Nascido em 1939, tinha quase mais nove anos do que o Estado de Israel e conhecia como poucos esse território tão disputado pelos homens em nome de Deus. Lutou até ao fim pela paz nesse lugar. É que o tal território não foi apenas o centro da sua vida, mas também o de toda a sua literatura.

Mesmo que politicamente zangado, amargo ou só, Amos Oz continua a lutar pela sua ideia de Israel e de civilização. Caros Fanáticos é uma carta endereçada a todos, porque esse é um gene universal e deve ser combatido com antídotos como a imaginação, a curiosidade ou humor.

ENTREVISTA POR ISABEL LUCAS EM 11 DE OUTUBRO DE 2018

O fanatismo, escreve Amos Oz, “é a essência perene da natureza humana, o ‘gene mau’.” Atribuí-lo a uma civilização, a um povo, a uma religião é contribuir para propagar o gene e criar políticas de ódio identitário. Num momento em que se assiste ao exacerbar do fanatismo, o escritor israelita, várias vezes mencionado como um candidato ao Nobel, reflecte sobre fé, fanatismo e os desafios de viver em conjunto no século XXI num volume que reúne três ensaios breves e incisivos. Publicado em 2017 em Israel, Caros Fanáticos traz três reflexões. De 2002, 2014 e de 2015. Oz reviu e actualizou cada uma e o resultado é um acutilante olhar para o presente do mundo, com um foco nas questões judaicas e do Estado de Israel de que tem sido um crítico atento. Uma conversa com um homem de voz calma que começou por falar de Maio deste ano, um mês que não consta deste livro e que alterou equilíbrios políticos. Foi quando os EUA mudaram a sua embaixada para Jerusalém. É de Amos Oz a primeira frase desta conversa: “O problema não é se Jerusalém é ou não a capital da Israel. O problema é como é que a outra metade de Jerusalém pode ser a capital da Palestina no futuro.”

Em Israel, como em muitos, muitos outros países, o fundamentalismo e o fanatismo estão em ascensão. As pessoas estão a tornar-se mais nacionalistas, mais chauvinistas, mais egoístas e de visão estreita, e a destilar mais ódio em relação aos estranhos, os estrangeiros. Isto está a acontecer na Europa Ocidental, na Europa do leste, Estados Unidos, na Rússia, em Israel e em muitos outros países do Médio Oriente. Preocupa-me, porque acho que se nos afastarmos dos princípios fundamentais do humanismo estabelecidos depois da II Guerra Mundial, estaremos muito depressa a viver um inferno. Os problemas estão a tornar-se mais complicados e muitas pessoas procuram respostas muito simples; procuram respostas de uma frase, capazes de pôr tudo na ordem; frases que nos digam quem são os maus, quem são os inimigos, quem são os perigosos. Acham que se souberem isso o paraíso pode vir.

É também por isso que fala de uma infantilização da sociedade?
Sim, a infantilização tem que ver com o facto de muitos milhões de pessoas acreditarem que a vida deve ser um entretenimento e que a política é um jogo divertido e a essência da vida passa por fazer compras.

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Mozart | Piano Concerto No. 25 in C, K. 503 [complete]

Paver la route! 
Mozart Concerto pour piano n ° 25

Voici une petite question piège. voyez si vous connaissez la réponse? Quelle composition majeure de Wolfgang Amadeus Mozart a dû attendre 147 ans après sa mort pour être à nouveau interprétée? La réponse est vraiment incroyable car il s’agit d’une œuvre de son genre le plus populaire composée au cours de ses dernières années à Vienne. Si vous aviez dit le Concerto pour piano n ° 25 en do majeur, K. 503, vous auriez eu raison. La question que nous devrions nous poser est alors pourquoi aucun pianiste ou chef n’a touché ce concerto pendant un siècle et demi? Nous savons que Mozart a exécuté l’œuvre le 5 décembre 1786 à Vienne, un jour après avoir terminé la composition. Dès le lendemain, Mozart se rendit à Prague avec une nouvelle symphonie – le numéro 38 en ré majeur K. 504, à juste titre surnommé «Prague» – et dirigea une représentation de Figaro. Il n’existe aucune trace de Mozart exécutant son nouveau concerto pour piano à Prague, mais il le fait à nouveau le 7 avril 1787 à Vienne et le 12 mai 1787 à Leipzig. La toute prochaine exécution de ce travail aura lieu en 1934 !!! À cette occasion, Artur Schnabel a joué le rôle solo et George Szell a dirigé le Philharmonique de Vienne. Il fallut encore une dizaine d’années avant que l’œuvre reprenne enfin la place qui lui revient de droit dans le répertoire. Alors qu’est-ce qui s’est mal passé?

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Quem foi Jesus? | Frederico Lourenço

Quem foi o homem cujo nascimento hoje celebramos? Desde o século XIX, o estudo crítico do Novo Testamento e do primeiro cristianismo tem tentado reconstituir quem terá sido o «Jesus histórico». Em que ponto estamos desta investigação? Vou dar-vos uma proposta de biografia do Jesus real.

Jesus nasceu em Nazaré, na fase final do reinado de Herodes, o Grande (rei que morreu em 4 a.C.). Era filho de um construtor chamado José e da sua mulher, Maria. Jesus era o mais velho de vários irmãos e irmãs. Em casa, falava-se aramaico; mas Jesus beneficiou do facto de Nazaré estar perto de cidades gregas, como Séforis, cuja distância de Nazaré corresponde à que medeia, na nossa cidade do Porto, entre o Estádio do Dragão e a rotunda da Boavista. Em toda a volta de Nazaré, falava-se grego. De Gádara, uma das dez cidades gregas da zona, era originário o maior poeta grego do século I a.C., Meleagro. A helénica Séforis tinha um teatro; e Jesus sabia o que era o conceito grego de «actor», pois usou a palavra grega «hipócrita» numa acepção sem qualquer equivalente no aramaico falado em casa ou no hebraico da Escritura.

Jesus recebeu uma educação judaica baseada nessa Escritura e foi certamente o rapaz intelectualmente sobredotado de que vemos reflexo em Lucas 2:47. As pessoas não lhe chamaram «mestre» à toa.

Nos anos 20 do século I, Jesus contactou com o movimento de João Baptista, que apelava aos israelitas que «mudassem de mentalidade» e que, por meio do baptismo no rio Jordão, obtivessem o cadastro limpo perante Deus que, oficialmente, só podia ser obtido por meio do sacrifício de animais no templo. João Baptista atraiu a má vontade da elite sacerdotal de Jerusalém; o mesmo aconteceria com Jesus.

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Simone de Beauvoir | O Segundo Sexo | volume I

É por ela (mulher), através do que nela há de pior e de melhor, que o homem faz a aprendizagem da felicidade, do sofrimento, do vício, da virtude, do desejo, da renúncia, do devotamento, da tiranias, que faz a aprendizagem de si mesmo; ela é o jogo e a aventura, mas também a provação; é o triunfo da vitória e o mais áspero, do malogro superado; é a vertigem da perda, o fascínio da danação, da morte. Há todo um mundo de significações que só existem pela mulher; ela é a substância das acções e dos sentimentos dos homens, a encarnação de todos os valores que solicitam libertação. Compreende-se que, embora condenado aos mais cruéis desmentidos, o homem não deseje renunciar a um sonho no qual todos os seus sonhos estão envolvidos.

Eis, portanto, por que a mulher tem um duplo e decepcionante aspecto: ela é tudo a que o homem aspira e tudo o que não alcança. Ela é a sábia mediadora entre a Natureza propícia e o homem: é a tentação da Natureza indomada contra toda a sabedoria. Do bem ao mal, ela encarna carnalmente todos os valores morais e os seus contrários; é a substância da acção e o que se lhe opõe, o domínio do homem sobre o mundo e o seu malogro; como tal, é a fonte de toda a reflexão do homem sobre a própria existência e de toda a expressão que possa dar-lhe;  entretanto, ela esforça-se por desviá-lo de si mesmo, por fazê-lo soçobrar no silêncio e na morte. Serva e companheira, ele espera que ela seja também seu público e juiz, que o confirme no seu ser; mas ela contesta-o com a sua indiferença, e até com os seus sarcasmos e risos. Ele projecta nela o que deseja e o que teme, o que ama e o que detesta. E se é tão difícil dizer algo a seu respeito é porque o homem se procura inteiramente nela e ela é tudo. Só que é tudo à maneira do não-essencial: é todo o Outro. Enquanto Outro, ela é também outra e não ela mesma, outra e não o que dela é esperado. Sendo tudo, nunca é isso justamente que deveria ser; é perpétua decepção, a pópria decepção da existência que nunca consegue atingir-se nem reconciliar-se com a totalidade dos existentes.

Simone de Beauvoir

História de um muro branco e de uma neve | José Saramago

Não haveria nada mais fácil no mundo das histórias que escrever um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o caso de que uma criança que nasce está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral andamos das infâncias que vivemos, foi pensar que as crianças nascem uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de que o tempo passe e as transforme em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie diferente de seres humanos. A criança começa por nascer uma vez, que é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo: não tem outro remédio nem há outra maneira. Como se verá pelas duas breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras.

A terra, àquela hora, cobria-se de uma noite tão escura que parecia impossível que dela pudesse nascer o Sol. Não tem chovido, as tempestades andam por longe, o rio descansa da sua primeira cheia de Inverno, os charcos são de mercúrio. O ar está frio, parado, e estala quando respiramos, como se nele se suspendesse uma ténue rede de cristais de gelo. Há uma casa e luz lá dentro. E gente: a Família. Na lareira ardem grossos troncos de lenha de donde se desprendem, lentas, as brasas. Quando à fogueira se lhes juntam gravetos, ramos secos, um punhado de palha, a labareda cresce, divide-se em trémulas línguas, sobe pela chaminé encarvoada de fuligem, ilumina os rostos da família e logo volta a quebrar-se. Ouve-se o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas redondas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves baixas do telhado e nas roupas húmidas. São talvez nove horas, a modesta mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação, e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro.

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O Natal de Jesus e a dignidade humana | Anselmo Borges in Diário de Notícias

Ernst Bloch, um dos maiores filósofos do século XX, ao mesmo tempo ateu (não acreditava no Deus pessoal) e religioso (estava religado à divina Natureza), quando era professor na Universidade de Leipzig, na antiga República Democrática Alemã, na última aula antes das férias de Natal desejava a todos os estudantes boas-festas, falando-lhes do significado do Natal e terminava, dizendo: “É sempre Advento”, querendo desse modo apelar para a esperança: o mundo e a humanidade continuam grávidos de ânsias e de possibilidades, e a esperança está viva e há razões objectivas para esperar. Apesar do Natal, ainda é Advento, porque a plenitude ainda não chegou.

Foi em Tubinga que o conheci, pois Ernst Bloch, embora se confessasse marxista e ateu, acabou por ter de deixar Leipzig e a República Democrática Alemã: as autoridades comunistas acusavam-no de misticismo religioso. Ele defendia-se, sublinhando o carácter único, na história das religiões, do judeo-cristianismo e do seu livro, a Bíblia. Para ele, “a Bíblia é o livro mais significativo da literatura mundial”, pois responde à pergunta decisiva do ser humano, que é a questão do fim, do sentido e da finalidade do mundo e da existência. Ir ao encontro da Bíblia “não pode prejudicar” nenhum ser humano que queira bem à humanidade e a si próprio. Concretamente, não é possível compreender o homem europeu e as suas obras literárias e artísticas, sem um conhecimento aprofundado da Bíblia. Os nazis, por exemplo, ao rejeitar a Bíblia como algo estranho que não devia ser estudado, não só não puderam compreender a cultura alemã como caíram na barbárie.

Sem a mitologia grega, não podemos entender a Antiguidade clássica. Assim também, sem o conhecimento da Bíblia, não podemos compreender as catedrais, o gótico, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Händel, Bach, Beethoven, os Requiem, “absolutamente nada”, escrevia Ernst Bloch. Impõe-se pôr termo ao desconhecimento da Bíblia, porque este desconhecimento constitui uma “situação insustentável”, pois produz bárbaros que, por exemplo, perante a “Paixão segundo São Mateus” ou o “Messias”, de Händel, ficam como bois a olhar para palácios.

Está aí o Natal. E o Natal, mesmo que alguns já não se lembrem disso – li há dias que um terço dos norte-americanos não sabem que o Natal se refere a Jesus – e haja até quem menospreze a data, é o aniversário natalício de Jesus Cristo. Sobre ele deixou escrito Ernst Bloch: Jesus agiu como um homem “pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido”. Anunciou o Deus próximo, de amor, o Deus da misericórdia, um Deus amoroso e amável, e o seu Reino: o Reino de Deus, reino da liberdade – “onde está o espírito de Cristo aí está a liberdade”, proclamou São Paulo -, reino da justiça, do amor, da fraternidade, da paz, da igualdade radical de todos perante Deus e perante os outros seres humanos, o reino da realização plena de toda a esperança.

Sobre Jesus, Mahatma Gandhi também deixou estas palavras: Jesus “foi um dos maiores mestres da humanidade”. “Não sei de ninguém que tenha feito mais pela humanidade do que Jesus. De facto, nada há de mau no cristianismo.” Mas acrescentou: “O problema está em vós, os cristãos, pois não viveis em conformidade com o que ensinais.” E tem razão.

Para quem está atento e não tem preconceitos é claro que um dos fundamentos da Europa é o cristianismo. É necessário confessar os erros, fragilidades e crimes do cristianismo histórico, mas é indubitável que da compreensão dos direitos humanos e da democracia, da tomada de consciência da dignidade inviolável do ser humano – de todo o ser humano -, da ideia de história e do progresso, da separação da Igreja e do Estado, portanto, da laicidade, de tal modo que crentes e ateus têm os mesmos direitos, faz parte inalienável a mensagem originária do cristianismo.

Lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A Figura Histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real, portanto, apenas a partir da história, independentemente da fé. Ele conclui que é possível saber que o centro da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, que entrou em conflito com o Templo, que compareceu perante Pilatos e que foi executado. Mas, continua, também sabemos que, “depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a “ressurreição””: aquele que tinha morrido realmente apareceu como “pessoa viva, mas transformada”. “Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso.” Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a história. Grande parte da humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta.

A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem que mudou a história.

Anselmo BorgesPadre e professor de Filosofia | in Diário de Notícias 22-12-2018 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-dez-2018/interior/o-natal-de-jesus-e-a-dignidade-humana-10347645.html?target=conteudo_fechado

Querida Mãe Natal | Maria Isabel Fidalgo

Querida Mãe Natal

aí onde estás, não entre as renas,
mas vestida de estrelas soalheiras,
espaço estelar onde o espírito cintila
nas palavras que me inspiras,
faz-me ser, se possível for essa proeza,
ser eu, cada vez mais, a filha tua,
à altura da pessoa do teu nome
e no amor lavado com que me vestias
no dia a dia, que por o ser,
era sempre Ano Novo.
não deixes esmorecer a tua Bela
para ti, sempre vela natural,
e incendeia de chama, brasa,
luz de ti,
a braseira da minha alma de natal.

Carta escrita à minha mãe, depois da sua travessia, em noite de consoada…
maria isabel fidalgo

DiEM25 | Enfrentar o status quo em 2019, em todo o lado.

À medida que 2018 chega ao fim, nós no DiEM25 continuamos a preparar-nos para as eleições do próximo ano para o Parlamento Europeu. Temos trabalhado muito para assegurar-nos que a nossa Agenda Progressista é uma alternativa credível para as pessoas da Europa que vão votar.

Estamos agora a pedir ajuda aos homens e mulheres que nos que nos vão representar nesta eleição. Tal como na Alemanha, pedimos que consideres quem devem ser os nossos candidatos europeus na Bélgica, e quem deve constituir o nosso Colectivo Nacional da República Checa e o nosso Colectivo Nacional da Holanda, e pedir a estas pessoas que se candidatem (ou tu próprio, se estiveres qualificado para tal) . Como de costume estas posições não necessitam que sejas da nacionalidade do país mas é necessário que estejas a residir no país em questão.

Consulta a Zona dos Membros para ler mais sobre estas posições e ter acesso às candidaturas.

Carpe DiEM e um excelente 2019, onde, com a tua ajuda, iremos tomar as instituições europeus com o poder dos cidadãos.

Luis Martín

>>Coordenador de Comunicações do DiEM25

Zoubida Belkacem

Dis moi si c’est toi
Qui brille là-haut, de mille éclats
Qui éclaire cette obscurité qui m’entoure
Depuis ce jour fatidique, où tu m’as quitté sans retour.

Dis moi si c’est toi
Qui hante mes nuits, bercées du son de ta voix
Remplie de ton visage qui se rappelle à moi.
Te souviens-tu de ces nombreuses fois ?
Guidés par nos espérances de foi

Dis moi si c’est toi
Qui m’inssuffle la vie
Qui me fais battre ce cœur qui ne bat plus.
Tu ne franchira plus le seuil de la porte
Depuis ce jour tragique où tu es morte

Dis moi si c’est toi
Qui me fais pousser des ailes
Pour défier cette vie éternelle
Je te retrouve partout où je suis
Même si j’ai l’impression que tu me fuis

Dis moi si c’est toi
Qui chante encore des berceuses pour nos enfants
D’une voix céleste, même si maintenant, ils sont grands.
Tu remplies encore de ta chaleur, notre maison
Depuis ton départ, depuis notre séparation.

Je continu à croire que tu es toujours là
Que tu demeure encore à cet endroit
Ta présence illumine les lieux
Les jours s’égrènent comme les feuilles mortes.
Même si je me surprends à t’attendre encore au pas de la porte.

Zoubida Belkacem
Droits protégés
Constantine 19/12/2018

Journées Internationales du Marketing Touristique | Alger, Hôtel El Aurassi les 16-17 janvier 2019

Nous vous informons que les neuvièmes Journées Internationales du Marketing Touristique se tiendront a Alger, Hôtel El Aurassi les 16-17 janvier 2019 prochains, sous le patronage de Monsieur le Ministère du Tourisme et de l’Artisanat.
Pour ces 9é Journées, RH International Communication entend animer la réflexion et les débats autour d’un thème primordial qui brasse dans les enjeux nationaux de l’heure, à savoir Le tourisme, un secteur essentiel de l’économie.
Des experts nationaux et internationaux, des universitaires et des acteurs institutionnels viendront animer les conférences autour de questions et enjeux qui ne manqueront pas, nous le croyons, de susciter un grand intérêt tout particulièrement dans le contexte économique actuel.

SOCIAL EUROPE

https://www.socialeurope.eu/

Mission Statement

Social Europe (SE) is an award-winning digital media publisher that combines thematic and technical expertise to produce and disseminate high value content. We use the values of ‘Social Europe’ as a viewpoint to examine issues in politics, economy and employment & labour and are committed to publishing cutting-edge thinking and new ideas from the most thought-provoking people.

Our in-depth analyses and constructive proposals seek to link policy-making to wider social and economic concerns. It is our goal to help the process of promoting and strengthening progressive and inclusive societies, sustainable economies and responsible businesses as well as dynamic civil societies.

Since its founding, SE has published thinkers and decision-makers of the highest calibre including Nobel laureates, global leaders and internationally acclaimed academics as well as some of the best young talent.

SE is published from Berlin by Social Europe Publishing & Consulting GmbH

Are We Still Good Europeans? | by Jürgen Habermas on 13/07/2018 in “Social Europe”

When I graduated from high school, my career aspiration was listed on my diploma: Habermas wants to become a journalist, it said. Yet once I began working for the Gummersbach section of the Cologne daily Kölner Stadtanzeiger, and then again when I wrote under Adolf Frisé for the culture pages of the Handelsblatt, it was repeatedly made clear to me that my writing style was far too complex. Even the extremely charitable Karl Korn, who fervently urged me to practice during my time as a university student in Bonn, later declared that I should perhaps stick to my academic proclivities. It is a critique that continues to be reflected in reader mail, and at my age, improvement isn’t likely. All of which makes me even more delighted about the invitation, extended to me by the director general of Saarland Broadcasting in conjunction with the German-French Journalism Prize, to follow in the footsteps of such distinguished predecessors as Tomi Ungerer, Simone Veil and Jean Asselborn. My connection to Asselborn is that he too prefers blunt honesty when speaking of Europe. With the prize presenter and laudator having found such complimentary words for my efforts – endeavours which are otherwise simply derogated as euro-romanticism – you will certainly not view it as a transgression of good taste if I, against the backdrop of our disintegrating continent, merely repeat that which I have often stated before on this subject.

I will refrain from addressing the symptomatic clamouring coming out of Bavaria, a ruckus that triggered a government crisis while shoving the more pressing issue – the lack of cooperation in the EU – into the background. The culpability lies with that sort of pro-European who shies away from admitting to the real reservations they in fact hold against a Europe of practiced solidarity. Jean-Paul Sartre explained the term mauvaise foias an elegant contradistinction to bonne foi. Who among us is not familiar with this quietly murmuring uneasiness? We act bona fide, in good faith, but in moments of reflection, we sense a gnawing doubt about the consistency of the assertively argued convictions we hold – as if there was a weak spot in the river bank over which the waters of our argument are flowing unnoticed. My impression is that Emmanuel Macron’s appearance on the European stage has exposed just such a weak spot in the self-image of those Germans who patted themselves on the back during the euro crisis, convinced as they were that they remained the best Europeans and were pulling everyone else out of the quagmire.

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Social Democrats Must Say Another Globalisation Is Possible | by Eunice Goes on 19/12/2018 in “Social Europe”

Social democratic parties across Europe are now paying the electoral price for their uncritical embrace of globalisation in the 1990s. Then, responsible politics was equated with adaptation to the demands of global markets. As Tony Blair and Gerhard Schröder put it in their much-quoted The Third Way/Die Neue Mitte pamphlet: ‘Social Democrats must accommodate the growing demands for flexibility’.

This refrain was accepted as ‘pragmatic realism’ and was quickly adopted by most social democratic parties that governed Europe in the late 1990s. Thus, as Dani Rodrik recalled here, the centre-left was complicit in pointing globalisation in a neoliberal direction. Crucially, social democratic parties in government were happy to support the launch of the euro without ever questioning its ordoliberal governance rules and to sign up to further depoliticization of public policy whereby technocratic institutions gained control over areas of policy that thus far had been subject to democratic scrutiny.

But by treating globalisation as a force of nature that could not be controlled, social democratic parties contributed to the rise of inequality, to the erosion of the welfare state and social protection that had characterised the European social model, to the creation of a new social class, the working poor. Both New Labour’s tax credits programme and the SPD’s Agenda 2010 were predicated on the idea that greater economic competition implied lower wages and weaker social protection. Ultimately, they contributed to the 2008 global financial crisis and subsequent Eurozone crisis, from which most European economies have not yet fully recovered.

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