A região do Golfo Pérsico prevê um Irão pós-guerra enfraquecido, mas que ainda representará uma ameaça para os seus vizinhos. Nos bastidores, a Arábia Saudita está a explorar a possibilidade de criar um acordo semelhante ao processo de Helsínquia dos anos 70, o que não interessaria aos Emirados Árabes Unidos nem a Israel… e talvez nem mesmo a Teerão
o Golfo Pérsico, a guerra em curso contra o Irão deixou vestígios duradouros e extensivos aos países árabes. Em março, o líder de facto da Arábia Saudita, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, pediu a Donald Trump que não interrompesse o conflito armado, já que a campanha dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel representava uma “oportunidade histórica” para remodelar o Médio Oriente.
Este apelo expunha, então, uma preocupação de Riade (e não só) com a possibilidade de ficar com um regime islâmico fragilizado e mais beligerante nas suas fronteiras, após o fim do conflito, e com redução da grande presença militar dos EUA na região.
Estes países, que assinaram acordos com Washington e com Telavive, continuam a ser apanhados no meio do fogo cruzado. Esta segunda-feira, a Arábia Saudita anunciou ter destruído três drones que entraram no seu espaço aéreo vindos do Iraque. Trata-se de uma ação ofensiva que surgiu depois de a única central nuclear dos Emirados Árabes Unidos (Barakah)ter sido atingida por um drone, na manhã de domingo. Embora as hostilidades tenham diminuído desde o cessar-fogo de abril, têm sido lançados drones do Iraque em direção aos países do Golfo, incluindo a Arábia Saudita e o Kuwait.
Um modelo de há meio século
Riade está a avaliar como gerir as tensões regionais após o fim da guerra entre os EUA e Israel com a república islâmica, tendo como potencial modelo o Processo de Helsínquia da década de 1970, que aliviou as tensões na Europa durante a Guerra Fria. A ideia seria celebrar um pacto de não agressão entre os Estados do Médio Oriente e o Irão.
“Os sauditas estavam ansiosos por tomar uma iniciativa regional após a saída dos Emirados Árabes Unidos [EAU] da Organização dos Países Exportadores de Petróleo [OPEP], que configurou o mais recente episódio da rivalidade entre os dois países”, refere, em declarações ao Expresso, John Strawson, perito em Estudos do Médio Oriente na University of East London.
Para Strawson, esta iniciativa fará parte de “uma tentativa da Arábia Saudita de proteger o seu poder com uma visão para uma nova arquitetura de segurança para a região”. No entanto, “está numa fase muito inicial e pode ser prematuro comparar isto com o Acordo de Helsínquia”, assinado em 1975 pelos EUA, países europeus e a União Soviética e seus aliados, para abordar questões de segurança e fomentar uma maior cooperação económica entre potências rivais.
Os analistas acreditam que a guerra contra o Irão expôs uma vulnerabilidade e um sentido de urgência entre os Estados árabes, no sentido de repensarem as suas alianças e a arquitetura de segurança dependente dos Estados Unidos e de Israel. A analista Alia Brahimi, do Atlantic Council, considera que “a Arábia Saudita procura, fundamentalmente, uma forma de aliviar as tensões com o Irão que contorne outros atores mais beligerantes, como os EUA, Israel e os Emirados Árabes Unidos”.
Trata-se da iniciativa diplomática de “um Estado que, no início, se opôs manifestamente à campanha de bombardeamentos dos EUA e de Israel, que tem procurado consistentemente reduzir as tensões, que foi excluído de todas as negociações de paz e que, implicitamente, compreende o poder latente da versão mais raivosa, mais isolada, mais radical e mais militarizada do regime deixado por Trump no Irão”, salienta Brahimi ao Expresso.
Guerra expôs a vulnerabilidade dos aliados dos EUA
Segundo o jornal “Financial Times”, vários países europeus têm mostrado apoio ao plano saudita, apelando até a outras nações do Golfo para a ela se juntarem, no sentido de evitar futuros conflitos e de fornecer a Teerão garantias de que também não será atacada. As versões das propostas para um cessar-fogo tornadas públicas revelam que as negociações entre os EUA e o Irão se têm concentrado no programa nuclear.
Não têm sido discutidos o arsenal de mísseis e drones iranianos nem o apoio de Teerão a grupos armados regionais. Isso deixa os Estados árabes do Golfo ainda mais preocupados, porque veem nessas capacidades um grande potencial de ameaça à sua segurança.
“O pacto de não agressão proposto entre a Arábia Saudita e o Irão deve ser visto como genuína abertura diplomática e como tentativa saudita de gerir o risco após a guerra”, aponta o analista geopolítico Umud Shokri, consultor de política externa radicado em Washington, especializado em segurança energética global. Este investigador da Universidade George Mason defende que Riade não está apenas a ganhar tempo, antes a tentar reduzir a possibilidade de um Irão enfraquecido, mas ainda perigoso, utilizar mísseis, drones, pressão marítima ou grupos aliados para ameaçar a segurança do Golfo.
Para a Arábia Saudita, os principais objetivos seriam “a protecção das infraestruturas de energia, a redução dos riscos para a navegação e os investimentos, e uma estrutura de segurança regional mais ampla que apoie a Visão 2030 [plano de transformação económica saudita]”.
Distanciar-se de Israel “pode ser um benefício político secundário, sobretudo tendo em conta a opinião pública árabe”, mas o cálculo central saudita será a estabilidade, e não o realinhamento, expõe Shokri, que não acredita num modelo semelhante ao de Helsínquia. “Tem um apelo conceptual, mas seria muito difícil de reproduzir no Médio Oriente.”
Os princípios da integridade territorial, da não intervenção, das medidas de fomento da confiança e do diálogo gradual são relevantes para as tensões entre o Golfo e o Irão. Contudo, ao contrário da Europa da Guerra Fria, argumenta Shokri, “o Médio Oriente carece de uma estrutura bipolar estável, e apresenta conflitos não resolvidos envolvendo grupos aliados, mísseis, a questão nuclear, segurança marítima e rivalidades ideológicas”.
Entre o medo de Teerão e a desconfiança de Washington
Um processo nos moldes de Helsínquia poderia ainda ser útil se começasse de forma modesta. Na perspetiva de Shokri, isso passaria por linhas diretas de comunicação, alívio das tensões marítimas, compromissos de não agressão contra infraestruturas energéticas e medidas de fomento da confiança, em detrimento de uma apresentação imediata de um grande acordo regional.
Ao Irão poderá interessar um pacto que contorne a influência regional adquirida pelos EUA e, sobretudo, por Israel. Os Emirados têm sido o Estado mais assertivo na resposta à agressão iraniana, tendo transmitido que pretendem fortalecer as suas relações com Israel após a guerra. A Arábia Saudita e outros aliados mostram maior apoio aos esforços de mediação liderados pelo Paquistão para permitir um acordo entre os EUA e o Irão. Riade está a desenvolver uma aliança crescente com Islamabade — com quem assinou um pacto de defesa mútua em setembro —, a Turquia e o Egito, com o objetivo de minimizar a dependência de fora da região.
O Paquistão enviou 8000 soldados, um esquadrão de caças e um sistema de defesa aérea para a Arábia Saudita, ao abrigo do pacto de defesa mútua, e apesar do papel de Islamabade como mediador no conflito com o Irão. Esta força é destinada a apoiar as Forças Armadas sauditas caso o país sofra novos ataques.
Sauditas querem estabilidade, não reconciliação
Os sauditas procuram um “modelo recíproco e legalista, assente no princípio do reconhecimento mútuo da soberania, para o qual elementos do processo de Helsínquia serviriam de guia”, analisa Alia Brahimi. “A Arábia Saudita tem uma minoria xiita inquieta, que o Irão vê como torneira que pode abrir e fechar para pressionar o Governo saudita internamente, criando uma dupla vulnerabilidade.” Além disso, a solução encontrada pela Arábia Saudita para contornar o encerramento do Estreito de Ormuz foi desviar dois terços das suas exportações de petróleo pré-guerra para um oleoduto no Mar Vermelho.
Por este motivo, Riade não quer que o Irão represente uma ameaça a esta proposta, “o que seria possível se o país ativasse os seus aliados hutis no Iémen”, afirma Brahimi, vendo a Arábia Saudita “a ser duramente atingida por uma guerra que não desejava, contra um país vizinho que nunca poderia confrontar militarmente, e iniciada por um Presidente dos EUA que pode abandonar o conflito a qualquer momento”.
Brahimi garante que o Kuwait está “profundamente traumatizado pelo conflito com o Irão”. O país não exporta petróleo desde o início da guerra, algo inédito desde a Guerra do Golfo de 1991, frustrou os planos de infiltração iraniana no seu território e “teme genuinamente uma invasão terrestre por milícias pró-Irão vindas do Iraque”, destaca a politóloga. No entanto, sublinha, o Kuwait “poderá muito bem seguir Omã, a Arábia Saudita e o Catar na procura de um acordo com o Irão, enquanto os Emirados já mostraram o seu jogo, abandonando a OPEP, reforçando a relação com Israel e favorecendo o uso de ferramentas militares na questão iraniana”.
Pacto para proteger petróleo, rotas e Visão 2030?
Umud Shokri acredita que os Emirados não serão necessariamente o principal obstáculo à solução encontrada entre o Golfo e o Irão, mas “são provavelmente um dos intervenientes mais céticos na região”. A estreita relação de segurança entre Abu Dhabi e Israel, a sua exposição a ameaças de mísseis e drones e o recente incidente perto da central nuclear de Barakah tornam o país mais cauteloso quanto a uma rápida abertura diplomática com Teerão.
“Os Emirados têm fortes razões económicas para evitar uma escalada com o Irão, mas os seus cálculos de segurança são mais complexos do que os da Arábia Saudita”, diz Shokri. “Isto poderá fazer de Abu Dhabi um travão interno a qualquer aproximação rápida entre o Golfo e o Irão.”
Esta posição de Abu Dhabi pode ainda mudar, sobretudo porque haverá pontos de vista divergentes dentro da própria liderança dos Emirados. Para já, a postura mais antagónica do país fragmentou os países do Golfo e privou-os da poderosa opção de dialogar com o Irão a uma só voz.
Se é verdade que Teerão retaliou contra os ataques dos EUA e de Israel lançando mísseis e drones contra os Estados do Golfo, nomeadamente atingindo instalações de energia e outras infraestruturas civis, e fechando o Estreito de Ormuz, também se confirma uma preocupação crescente com a conduta militar de Israel após o ataque do Hamas, a 7 de outubro de 2023.
A iniciativa liderada pela Arábia Saudita reflete, acima de tudo, o cansaço do Golfo com a escalada permanente. “A Arábia Saudita quer uma rivalidade controlada, mas não quer uma reconciliação a qualquer preço”, alerta Shokri. Todavia, um pacto de não agressão poderia reduzir os riscos imediatos, em particular para a energia e as infraestruturas críticas, apesar da volatilidade da situação no Golfo.
Pacto de não agressão ou apenas gestão de risco?
Washington ainda não respondeu à tentativa saudita. Umud Shokri acredita que a posição dos EUA seria “provavelmente cautelosa”, uma vez que “a administração Trump pode tolerar um pacto entre o Golfo e o Irão se este reduzir os riscos para os mercados petrolíferos, as bases militares americanas e os parceiros do Golfo”. No entanto, seria pouco provável que apoiasse qualquer acordo que restringisse a liberdade de ação militar dos EUA ou de Israel contra o Irão.
“O interesse da Arábia Saudita num pacto deste tipo deve, por isso, ser interpretado também como estratégia de proteção. Riade ainda valoriza a sua relação de segurança com os EUA, mas deseja mecanismos regionais que reduzam a sua exposição caso Washington ou Israel voltem a intensificar o conflito”, sintetiza Shokri.
“O principal ponto cínico por trás da proposta é a perceção no Médio Oriente de que os EUA são parceiros difíceis”, admite Strawson. Há uma dependência do armamento americano e do seu sistema de bases, mas, segundo Strawson, “à medida que a guerra entre os EUA e o Irão foi avançando, o aparente efeito dissuasor da aliança dissipou-se”. Ou seja, “a suposição de que tais relações poderiam impedir ataques aos Estados do Golfo revelou-se errada, e Washington demonstrou ser politicamente instável”.
Os Emirados, porém, chegaram a conclusões diferentes e intensificaram a cooperação com os EUA e Israel. Isto significa que “os dois Estados mais poderosos do Golfo veem os seus futuros de formas muito distintas, e qualquer pacto regional sem ambos pareceria frágil”, destaca o perito em Estudos do Médio Oriente da University of East London.
Já começou o pós-guerra no Golfo?
Além disso, mesmo sendo possível que o Irão assine um pacto de não agressão, “a sua credibilidade dependeria de abranger ou não os grupos armados aliados no Iraque, no Líbano e no Iémen”, avalia o investigador da Universidade George Mason. Teerão poderia comprometer-se formalmente com a não agressão entre os dois países, argumentando que estes grupos agem de forma independente ou semi-independente, mas essa seria, na opinião de Shokri, “a principal fragilidade de qualquer pacto”.
Por outro lado, para os Estados do Golfo, um acordo significativo teria de abranger não só os ataques diretos do Irão como atividades com mísseis, drones, marítimas e por procuração. Sem isso, o pacto pode reduzir a tensão diplomática, mas não eliminaria a principal ameaça à segurança.
Os analistas julgam improvável que o Irão se comprometa com o pacto de não agressão. “O astuto regime iraniano não hesitaria em procurar um pacto de não agressão com certos Estados, ao mesmo tempo que continua a utilizar os seus aliados para projetar poder e influência noutros”, enfatiza Brahimi. Assim, apesar de a ideia da Arábia Saudita e dos restantes ser incentivar o Irão a limitar estas atividades e a conter os seus representantes na região, “a Guarda Revolucionária Islâmica é mestre em dissonância cognitiva, para não dizer em descarada hipocrisia”, avisa a analista do Atlantic Council.
Na opinião de Ali Alfoneh, perito do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, “um pacto de não agressão seria um erro desastroso para o Irão”. Prossegue o académico: “Uma vez que os EUA possam contar com a não retaliação do Irão contra o maior produtor de petróleo do mundo, pouco dissuadirá o Presidente Trump de voltar a atacar o Irão no futuro”.
Alfoneh lembra que o Irão “já cometeu este erro uma vez”. Refere-se à normalização das relações diplomáticas com a Arábia Saudita e os Emirados em abril de 2023, para depois ver Israel e os EUA atacarem o Irão em junho de 2025. “Se o Irão não tivesse normalizado relações, Washington estaria muito mais preocupada com o risco de retaliação iraniana contra os principais produtores de petróleo, e esta preocupação poderia muito bem ter alterado os cálculos americanos”, prossegue Alfoneh, que não acredita que surja tão cedo, no Médio Oriente, qualquer estrutura de segurança nos moldes de Helsínquia.
“A liderança iraniana fez reféns tanto os seus vizinhos árabes como a economia global, para garantir a sua própria sobrevivência. Mas o Irão não pode assinar pactos de não agressão com os seus vizinhos de forma credível enquanto os governos de Israel e dos EUA estiverem a planear ativamente novas ações militares contra o Irão, com o objetivo de derrubar o regime e dividir o Irão através de uma guerra civil”, acrescenta o especialista.