Era tão bom governar sem povo | por Francisco Louçã in Jornal Expresso, 20-01-2023

Dois do poemas mais conhecidos de Bertolt Brecht, que de algum modo resumem as agruras da sua vida, foram dedicados a governantes em momentos cruciais da história. Um deles, da década de 1930, parodia os discursos do governo nazi, abrindo com os seguintes versos: “Todos os dias os ministros dizem ao povo/ Como é difícil governar. Sem os ministros/ O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima”, e sabem como continua. O outro foi escrito duas décadas depois, a propósito da repressão do governo estalinista contra a revolta popular que começou em Berlim-Leste, concluindo que “O povo perdeu a confiança do governo/ E só à custa de esforços redobrados/ Poderá recuperá-la. Mas não seria/ Mais simples para o governo/ Dissolver o povo/ E eleger outro?”. Nos dois casos e em circunstâncias diferentes, os poemas respondem a tiranias. No entanto, há nesta poesia um outro traço comum, para além da sátira do discurso justificativo da prepotência, que é a desconstrução da distância. Em política, e muito atento, Brecht obrava de modo contrário ao que propunha em teatro: no primeiro caso queria denunciar e destruir a opressão baseada na distância do poder, no outro queria criar distância para evitar a identificação alienada dos espetadores com quem representava uma peça que não constituía a realidade. A realidade é suja, o teatro queria ser épico; uma engana, o outro mostra.

O processo de ocultação e de justificação narcísica pelos governantes, em todo o caso, não é uma particularidade da tirania que Brecht combatia nos dois casos. Sob formas variadas, é a própria essência da ocupação do espaço público pelo discurso do poder, ou do seu investimento na criação de um senso comum conformista. A política económica portuguesa e europeia é um exemplo transparente desse modo de dominar.

Masoquismo

Diz Philip Lane, do BCE, que “pensamos que (subir as taxas) vai reduzir a procura, não vamos fingir que isto se faz sem dor”, nisso repetindo Lagarde – ou todos os governantes europeus. Há nisto uma entoação daquele “todos os dias os ministros dizem ao povo/ Como é difícil governar”. Sabem que nos fazem mal, é a dor, mas é o melhor para nós. A dor é curativa. De facto, trata-se, não de uma consequência indesejada, mas da essência da política: a receita é o ajustamento pela recessão, de modo a alterar a distribuição dos rendimentos, segundo a tese – desmentida pelos factos – de que a concentração de riqueza impulsiona o investimento e que, portanto, a plutocracia arrasta o crescimento económico.

A versão portuguesa desta fantasia expressa-se na convicção com que o governador do Banco de Portugal e o Governo avisam que seria fatal subir os salários. Isso dispararia a inflação, segundo nos dizem. A tremenda espiral inflaccionista, isto garantido por quem há um par de meses sabia que a inflação era só um fenómeno transitório, galgaria o país se os salários reais se mantivessem. Ou seja, não há inflação permanente e não é preciso ajustar salários, ou há inflação permanente e não se podem ajustar os salários, ou “já passamos o pico” e não se podem ajustar os salários. Perdidos por oito e por oitenta, os salários baixam em termos reais.

Favor

A comparação entre Portugal e a Bélgica é reveladora do absurdo deste masoquismo social. Com população comparável, a diferença económica é acentuada: por exemplo, a Bélgica ainda tem indústria forte. Outra diferença importante, contudo, é que a Bélgica adapta os salários à medida da inflação, pelo que parte dos trabalhadores recebe aumentos sucessivos quando a inflação sobe mais 2% (aumento que em 2022 andou pelos 12%) ou, no fim do ano, uma correção total (que é neste janeiro de 12,1%). E, espanto, a manutenção dos salários reais, como se vê no gráfico (dados da inflação anualizada em novembro e da média salarial para o ano), não fez disparar nenhuma espiral inflacionista, lá como cá é a mesma inflação. A diferença é que na Bélgica não houve repressão do salário real e em Portugal sim.

Se perguntar a razão para esta política masoquista, a resposta está na doutrina da “dor”. Ela não procura domar a inflação que, provocada por efeitos exógenos e ampliada pelo abuso de poder em cadeias de comercialização, não varia tanto com a procura como com o poder. Nos Estados Unidos, por exemplo, os preços da energia e dos bens já estão a descer, os dos serviços e da alimentação continuam a subir. Não é preciso ser adivinho para descortinar o efeito social desta tesoura, chama-se desigualdade. Os governos que promovem ou aceitam esta política não estão a querer mudar as condições da inflação, estão a empobrecer os pobres e a desvalorizar o trabalho.

“Como é difícil governar”, queixou-se, nos seus termos, o chefe do Banco de Portugal, quando pediu “alguma paciência” para o truque dos bancos que nem chegam a pagar 1% por depósitos. Estamos portanto cercados, nos rendimentos e nos juros. Agora, se o povo quer o absurdo de manter os salários reais, ou as pensões, que disparate, o melhor mesmo “é dissolver o povo e eleger outro”. Sigam Brecht.

(no Expresso)|

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

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