Whisner Fraga: contos perpassados por sentimento de revolta | por Adelto Gonçalves

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Depois de lançar, em 2020, O que devíamos ter feito, contos (Editora Patuá), o romancista, contista, poeta e crítico literário Whisner Fraga (1971) chega ao seu décimo-segundo livro com Usufruto de demônios (Ofícios Terrestres Edições, 2022), em que se mantém fiel ao gênero, depois de experiências bem-sucedidas em outras modalidades textuais.
A obra, composta por 64 narrativas curtas, a maioria com menos de uma página, todas escritas em letra minúscula, mas com uma linguagem sensível e poética, é uma das primeiras a ter como pano de fundo o trágico período da pandemia de coronavírus (covid-19) em que estão presentes “o horror, o negacionismo, o isolamento social e a perplexidade ante o cinismo fascista”, como observa o poeta, professor e crítico literário Gabriel Morais Medeiros, mestre em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no posfácio que escreveu para este livro.
Como já ressaltou o jornalista e escritor Hugo Almeida, nesta coletânea, “atravessa os contos um sopro de revolta, por vezes recheada de candura”, mas sem deixar de manifestar o inconformismo diante da indiferença e do deboche dirigido aos mortos pelas autoridades da época, especialmente o principal mandatário, que sempre ficou indiferente ao genocídio que ocorria com a proliferação da peste e a falta de vacinas e pronto-atendimento às vítimas, como se lê na narrativa que leva por título “ele acompanha aviões”:
“(…) é como se setecentas mil pessoas tivessem sido apagadas – e se fossem vinte boeing deletados de suas rotas, em um único dia?, cadentes, se tornassem quebra-cabeças em pastos?, será que assim eles se comoveriam?”

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Luzes da Cidade | Charlie Chaplin | in Pensamientos De cine

Charlie Chaplin dirigiu esta terna história de amor, não isenta de uma certa amargura e tristeza. Esse filme é imperdível… Sua inocência, seu senso de humor, sua ternura, sua expressão corporal, irrepetível… Este é um dos seus filmes mais celebrados e também um dos mais adoráveis.

Luzes da cidade é um filme de 1931 escrito e dirigido por Charles Chaplin. Uma obra-prima hoje em dia, mas que na sua época veio em um momento muito inoportuno. O cinema sonoro começava a ganhar a batalha do cinema mudo. Os atores de repente podiam ser ouvidos, as atrizes cantavam e os diálogos enchiam a tela.

A beleza do cinema mudo começava a languidecer perante uma revolução imparável. Mas Chaplin soube resolver o problema adicionando à sua história muda, música ao vivo para tornar a sua maior realismo. Música composta por: Charles Chaplin, José Padilla Sánchez, Alfred Newman, Arthur Johnston. Chaplin fazia magia.

Vivemos tempos convulsos, mas isso não é novidade. No filme o protagonista mostra que os pobres sempre o foram, sempre estiveram lá, no meio de uma sociedade alheia à sua existência. O ator interpreta um vagabundo que, uma noite qualquer, se encontra no lugar certo e hora e coincide com um bilionário que influenciará o futuro do seu destino. Mas não é ele que vai mudar sua vida… uma existência na qual não há apenas motivações é interrompida pelo aparecimento de uma bela florista. O pobre vagabundo fica apaixonado por ela e mal repara num detalhe importante: ela é cega.

O resto é história, uma história que se espera, claro que sim. Agora sabemos tudo. Mas nessa época todas as histórias de amor estavam por inventar, restavam ilusões, propósitos de ser melhores e ainda se podia encontrar o amor ao virar qualquer esquina. E quando você a vê, todo esse tempo, esses valores e sonhos renascem por algumas horas.

A coisa mais fascinante das Luzes da cidade é a força nos olhos de Virgínia Cherill, essa florista cega que é capaz de trancar tantas emoções num olhar fixo, no vazio, no infinito.

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