Engenharia Civil | António Silva Cardoso, Rui Faria, Abel Henriques e Bárbara Rangel | Professores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto | In “Público”

mestrado-engenharia-civilA renovação geracional dos Engenheiros Civis tem que ser garantida, pelo que pode ser preocupante a quebra a que se assistiu no número de candidatos a cursar Engenharia Civil.

O campo de atuação da Engenharia Civil é muito amplo e diversificado. Quando, caminhando pela rua de uma qualquer cidade, olhamos à nossa volta muito do que observamos tem a ver diretamente com a Engenharia Civil (os edifícios, os arruamentos, as infraestruturas de abastecimento de água e de recolha das águas residuais e pluviais, etc.) ou facilmente intuímos que tem a ver (o planeamento das cidades, a organização da circulação de veículos e o seu controlo, etc.). São também resultado da atividade dos engenheiros civis as redes de transportes terrestres (estradas e vias férreas, onde se inclui uma parte importante das pontes e dos túneis), os portos e aeroportos, as obras hidráulicas (barragens, obras de irrigação, navegabilidade de rios, regularização de cursos fluviais, proteção costeira), etc. Por outro lado, a atividade da Engenharia Civil está intimamente ligada ao ambiente e à sustentabilidade (eficiência energética, novos materiais mais duráveis e com menor pegada de carbono, gestão e valorização de resíduos, economia circular, etc.). Enfim, a complexidade dos processos de conceção e de concretização de estruturas físicas em regra exige uma visão tendencialmente global e integrada, que os engenheiros civis vão desenvolvendo no desempenho das suas atividades, o que os torna, muitas vezes, capazes de assumir cargos de gestão e de direção de elevada responsabilidade.

As atividades de Engenharia Civil podem ser agrupadas em dois grandes setores: o dos Edifícios e o das Obras Públicas. O setor dos Edifícios inclui a área da Habitação. A habitação assume uma grande importância na vida dos portugueses: com efeito, segundo o Inquérito às Despesas das Famílias 2010/2011 (Instituto Nacional de Estatística), 1/3 das despesas das famílias é com a habitação. Porque é essencial para a qualidade de vida das pessoas, o setor da Habitação vai continuar a necessitar de grandes recursos. Em Portugal, a utilização desses recursos será principalmente na área da reabilitação do património edificado e dos centros urbanos e da manutenção do parque construído, com uma forte componente na área da eficiência energética dos edifícios e da qualidade e durabilidade dos materiais. (Tal como qualquer outro equipamento, automóveis, por exemplo, os edifícios precisam de ser regularmente mantidos, o que muito frequentemente não é tido em atenção pelos proprietários, ao contrário do que acontece com os automóveis.)

Numa intervenção pública recente, o Eng. Manuel Reis Campos, Presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário, confirmava que, em Portugal, o setor do Imobiliário está a recuperar e que as expetativas são positivas. Em contrapartida, o setor das Obras Públicas continua com dificuldades em arrancar e a internacionalização passa por um período de redireccionamento para novos mercados, face à grave crise dos países (Brasil, Angola, Moçambique, Venezuela, etc.) onde a maioria das empresas apostou na fase anterior.

Não obstante, a nível mundial os estudos de diversas agências internacionais apontam para uma grande carência de infraestruturas, em países em vias de desenvolvimento, e para a necessidade de grandes investimentos na renovação de infraestruturas, em países desenvolvidos.

As infraestruturas são fundamentais para o funcionamento das sociedades modernas evoluídas. São um meio para assegurar, por um lado, a distribuição de bens e serviços, a qual é essencial para a promoção da prosperidade e do crescimento e, consequentemente, da qualidade de vida, da saúde e da segurança dos cidadãos, e, por outro lado, a qualidade dos ambientes. As infraestruturas desempenham também um papel vital no desenvolvimento económico e social, papel cada vez mais relevante à medida que a globalização da economia se vai acentuando e as sociedades humanas se vão tornando mais dependentes do funcionamento adequado de um espectro crescente de serviços infraestruturais.

De acordo com estudos realizados pela OCDE (em 2011) e pelo McKinsey Global Institute (em 2013), as necessidades globais de investimento em infraestruturas atinge valores superiores a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Tal significa que os investimentos em infraestruturas podem corresponder a percentagens elevadas dos respetivos PIB em países com economias em forte crescimento, que carecem de infraestruturas como fator fundamental para que esse desenvolvimento se processe consistentemente. Nos países desenvolvidos a tónica passa mais pela necessidade de renovação das infraestruturas. Também, em Portugal, passada a fase do forte investimento em novas infraestruturas, as questões da manutenção e reabilitação vão ganhar preponderância; é exemplo desta evolução o programa de manutenção e reabilitação das pontes.

Ganham igualmente cada vez maior relevo as intervenções que se relacionam com a mitigação de riscos, designadamente dos que são consequência das alterações climáticas, de que o controlo de cheias e a proteção costeira são exemplos de que a opinião pública vai tendo cada vez maior perceção.

Em suma, os atos de Engenharia Civil são muito diversificados, abrindo perspetivas de atuação muito diferentes e, portanto, adaptáveis aos anseios e aspirações dos profissionais. Por outro lado, o campo de atuação também é muito alargado e, regra geral, tem muito a ver com a procura de respostas para as necessidades dos cidadãos. Acresce que se é um facto que, em Portugal, se instalou uma crise que está a ser difícil de ultrapassar em certos setores da Engenharia Civil, noutros as perspetivas são já positivas. Em contraponto, a nível mundial existe uma acentuada necessidade de infraestruturas, em países em vias de desenvolvimento, e são necessários grandes investimentos na renovação de infraestruturas, nos países desenvolvidos.

Fruto da sua evolução ao longo de anos e dos desafios a que teve que dar resposta, a Engenharia Civil portuguesa atingiu, em certos domínios, uma posição de vanguarda a nível internacional, em todos as áreas de atuação: estudos, conceção e projetos; execução de empreendimentos; fiscalização, gestão e manutenção; produção de materiais; planeamento e ordenamento do território.

Dada a importância das infraestruturas e da sua gestão para a vida dos cidadãos, é essencial a existência permanente de um corpo técnico competente e motivado. Ou seja, a renovação geracional dos Engenheiros Civis tem que ser garantida, pelo que pode ser preocupante a quebra a que se assistiu, nos últimos anos, no número de candidatos a cursar Engenharia Civil.

Em Portugal, há um conjunto de escolas do ensino superior com qualidade reconhecida internacionalmente — como foi noticiado recentemente, em abril de 2016, nomeadamente no Público — e, portanto, capazes de oferecer uma sólida preparação de nível internacional aos estudantes que, seguindo a sua vocação e a sua avaliação do futuro, aspirem e optem por vir a ser Engenheiros Civis.

António Silva Cardoso, Rui Faria, Abel Henriques e Bárbara Rangel

Professores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

IN público: https://www.publico.pt/portugal/noticia/engenharia-civil-1741673?page=-1

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