(…) não estive à altura da Revolução | Ana Cristina Pereira Leonardo

anacristinaleonardo-cvEu estou aqui a compor umas coisas para a B Hierro Lopes e dei comigo a rir de mim própria pela segunda vez…

De como fui confundida com uma puta no 28 de Setembro.

Como toda a gente sabe, houve o 5 de Outubro, o 28 de Maio, o 25 de Abril, o 28 de Setembro, o 11 de Março e o 25 de Novembro. Nas duas primeiras datas ainda não era nascida e tudo o que sei foi de ouvir dizer. O 25 de Abril já está ultra-batido… quanto às duas últimas, despindo a coisa de atavios, foi mais ou menos assim: no 11 de Março, os cabrões do PCP não tomaram o poder por pouco; no 25 de Novembro, os cabrões dos reaças tomaram o poder e pronto. As eventuais divergências quanto a este apanhado histórico agora não interessam nada porque vou contar uma história. A história passa-se a 28 de Setembro (dia em que a maioria silenciosa perdeu o pio..) e é uma história verídica
O nosso quartel-general, que o tínhamos, ficava nas instalações da Faculdade de Ciências de Lisboa, ali à rua da Escola Politécnica, onde muitos anos depois se vieram a expor restos de dinossauros e cadáveres chineses completos. Era um bom quartel-general. Tinha música (na «sonora»), uma cantina – que apesar das baratas e dos ratos podia ser tardiamente assaltada –, e era muito central. A mim dava-me bastante jeito porque vinha de Cascais e saía no Cais-do-Sodré.


Na noite dos acontecimentos em causa, andava por Ciências um formigueiro de gente. Camaradas mais experientes mantinham-se em permanente contacto com camaradas ainda mais experientes (que estariam noutro quartel-general um pouco mais fora de mão) e a soldadesca aguardava ruidosamente instruções. A dada altura, constituíram-se piquetes que deveriam deslocar-se a pontos estratégicos da cidade para dar conta de quaisquer movimentos suspeitos. Havia uma lista dos movimentos a considerar suspeitos mas eu já não me recordo quais. A ideia, em traços largos, era dar cabo dos fascistas.
Fosse quem fosse o sacana responsável pela distribuição dos lugares, a mim saiu-me a 4ª Esquadra. A 4ª Esquadra, para quem não sabe, ficava (fica?) na Praça da Alegria, um ponto da capital dado a engates, comércio de sexo e outros ilícitos. Sem avaliar bem o destino que me calhava em sorte (trocara há anos as artérias lisboetas pelo litoral cascalense…), lá fui, intrépida militante, vigiar a sede da PSP que ficava ao lado de uma pensão com águas correntes quentes e frias.
Chegada ao local (e ainda hoje não me consigo lembrar porque raio o meu piquete era só eu…), sentei-me num banco do jardim em frente, de olho no inimigo. Alheio ao momento histórico, andava também por ali um formigueiro de gente. Nos afazeres do costume. Quanto aos polícias, pareciam calmos, nada havendo a assinalar. Foi então que, ocupando o meu posto de vigia há pouco mais de uma meia hora, comecei a ser abordada pelos regular fellows do sítio, apesar da total falta de glam com que nos vestíamos na época: «Oh filha, és nova aqui?», «Tens um cigarro?», «Quanto levas?», «Fazes descontos?» e outros vitupérios bastante mais desbragados. Sem saber o que responder aos passantes – e alguns sentavam-se –, acabaria por abandonar o meu posto e trair a confiança que em mim haviam depositado os camaradas mais experientes e os mais experientes ainda. Naquela noite, confesso, não estive à altura da Revolução.

 

Retirado do Facebook | Mural de Ana Cristina Pereira Leonardo

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